
Acho que a primeira vez em que o debate do “futuro da música” me chamou a atenção foi na época do Napster: o Metallica e seu escândalo de ódio contra os próprios fãs. Esse caso já tem 10 anos, mas o debate evoluiu pouco. Veio a loja do iTunes, artistas e gravadoras descobriram formas novas de ganhar dinheiro; estrelas como Madonna e Paul McCartney viram que era melhor, no caso deles, trabalhar para outros tipos de empresas (de eventos, no caso da cantora, de café, no do Beatle); o Radiohead passou a bola da decisão do lucro para os fãs. Ou seja, o que era uma via única acabou se transformando em um grande emaranhado de possibilidades.
O grande problema é que tem sempre alguém querendo apontar uma verdade absoluta – do tipo “os games estão salvando a música” ou “o futuro da música está nos celulares” –, em uma época que, ainda bem!, não suporta mais verdades absolutas. Não estão entre nós o Calypso e os padres cantores para provar que a mídia física ainda funciona? E, em paralelo, não há centenas de bandas lucrando com shows e ignorando cada vez mais o CD? Talvez a resolução do debate esteja em simplesmente aceitarmos que o futuro é assim, variado e indefinível.
Paulo Terron é editor da revista Rolling Stone, apresenta o programa Qualquer Coisa com Max de Castro e Zé Flávio na Oi FM e mantém o ótimo blog With Lasers!.
O futuro da música como negócio, perdoe o clichê, a Deus pertence. Nem que esse Deus seja o Steve Jobs ou o próximo moleque que inventar um novo sistema de rede sociais que facilite o intercâmbio musical e, quem sabe, o comércio dela.
O futuro sonoro, assim como o futuro da internet em si, do jornalismo, do cinema, da TV, do planeta, é incerto, mas beleza. It’s the end of the world as we know it, and I feel fine, já bem diria Michael Stipe.
O CD morreu, as gravadoras morreram, o Arctic Monkeys novo é o mais vazado gratuitamente antes do lançamento mas depois é o mais vendido depois do lançamento, o Radiohead ganhou fortuna dando disco de graça e o pior Kings of Leon bateu o recorde de disco novo oficial mais baixado? A gente já viu tudo e ainda não viu nada. O negócio (da música) é esperar e observar, mas sempre com uma boa conexão e um computador com memória suficiente para armanezar esse futuro.
Tendo a acreditar que o futuro da música como negócio ou como qualquer coisa está sendo escrito agora, no presente. E passe obrigatoriamente pelos fãs. Fãs que se juntem para comprar para sua cidade shows de sua banda preferida.
Fã que não gosta do novo disco do Kings of Leon (de novo, sorry), acha a banda devagar para tocar nas FMs e atingir um público maior, acelera por conta própria uma das músicas e posta na internet dizendo que agora sim parece a banda do começo. Eu compraria um disco novo do Kings of Leon das mãos desse cara. Não compraria o disco do Kings of Leon das mãos do Kings of Leon.
Isso seria o futuro?
Lúcio Ribeiro é meio multi-homem, organiza festivais, discoteca, faz há não sei quantos anos a excelente coluna Popload e, desde o começo do ano, escreve uma coluna também no C2+Música aqui no Estadão.

Ondas revivalistas acometem de tempos em tempos tanto a música popular quanto a erudita*. É um movimento natural. Querer agradar é da essência humana, e o caminho mais fácil para dar prazer ao maior número de pessoas ao mesmo tempo é evitar o risco. Daí o yin-yang entre conservadorismo e radicalismo em todo e qualquer campo das artes.
Porém, desde que comecei a gostar de música, a ouvir com atenção e estudar, nunca senti uma sensação tão grande de estagnação, de estar preso ao passado. Mesmo quando o artista tira a rede de segurança e se arrisca, o fio sobre o qual ele anda já foi pisado pelo menos um bom par de vezes por outros intrépidos equilibristas.
Essas pessoas são as que tratam o passado com respeito e criatividade. Pior é ter de conviver a todo minuto com a sobreposição mais comercial dos diferentes revivals dos mais diversos estilos. Todos ocorrendo simultaneamente em cenas underground e mainstream. Enfim, são as cópias das cópias que pululam nesta nossa redoma de naftalina.
A impressão é de que vivemos hoje no futuro imaginado por gerações anteriores e perdemos a perspectiva de nossas próprias utopias. Isso tem me intrigado mais do que qualquer outra coisa. Estamos revolvendo o passado, reciclando, copiando e recombinando por que? O que fez com que abandonássemos a vontade de olhar para a frente? Em que medida viver num presente perpétuo ancorado no passado gera uma espécie de disfunção narcotizante?
*odeio esse termo, acho pernóstico, mas é mais correto do que a inexatidão de “música clássica” e mais comunicativo do que composição moderna, meu preferido. Embora, no fundo, não haja mais razão suficiente para essa separação, a não ser mercadológica, mas isso é tema para outro post.
O Guardian pediu a 5 vanguardistas do jazz para recriar a faixa ‘Nude’ do Radiohead. Vale a pena ouvir o resultado aqui.
O nome é Super Collider, e o filme foi feito por um fã. Pelo menos o áudio é bom
Ok, o vídeo é de doer de ruim, parece até os feitos por mim, mas vale a pena ver o Prince tocando Creep, do Radiohead. No mínimo, é creepy. Aliás, alguém entendeu por que colocaram o Prince de headliner na indielândia? O NY Times arrisca um palpite hoje. Nesse artigo, o jornal diz que é porque os indies cultuam os anos 80 e começo dos 90. Ah, tá…

Uma das coisas mais legais de a música eletrônica ter virado bastante mainstream na última década é o tipo de intersecção com outros estilos que ela permite. Para quem gosta del ver como o mundo pop se relaciona com a vanguarda, o Nonclassical, pequeno selo de música clássica moderna, por mais esdrúxulo que esse termo possa parecer, lança no fim do mês um disco que tenta justamente fazer essa ponte entre a música de concerto e a eletrônica. Cortical Songs, de John Mathias e Nick Ryans. A música dos dois é baseada na transmissão neuronal, e os músicos usam essa conexão cerebral para formatar suas canções. Leia aqui um texto dos dois sobre o processo. O disco terá remixes de um monte de gente bacana, como Thom Yorke (Radiohead, foto), Simon Tong (Gorillaz), John Maclean (Beta Band) e Nck MacCabe (Verve), entre outros. Mathias já tinha tocado viola e violino no The Bends, do Radiohead. Agora é hora do troco.
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