
Ondas revivalistas acometem de tempos em tempos tanto a música popular quanto a erudita*. É um movimento natural. Querer agradar é da essência humana, e o caminho mais fácil para dar prazer ao maior número de pessoas ao mesmo tempo é evitar o risco. Daí o yin-yang entre conservadorismo e radicalismo em todo e qualquer campo das artes.
Porém, desde que comecei a gostar de música, a ouvir com atenção e estudar, nunca senti uma sensação tão grande de estagnação, de estar preso ao passado. Mesmo quando o artista tira a rede de segurança e se arrisca, o fio sobre o qual ele anda já foi pisado pelo menos um bom par de vezes por outros intrépidos equilibristas.
Essas pessoas são as que tratam o passado com respeito e criatividade. Pior é ter de conviver a todo minuto com a sobreposição mais comercial dos diferentes revivals dos mais diversos estilos. Todos ocorrendo simultaneamente em cenas underground e mainstream. Enfim, são as cópias das cópias que pululam nesta nossa redoma de naftalina.
A impressão é de que vivemos hoje no futuro imaginado por gerações anteriores e perdemos a perspectiva de nossas próprias utopias. Isso tem me intrigado mais do que qualquer outra coisa. Estamos revolvendo o passado, reciclando, copiando e recombinando por que? O que fez com que abandonássemos a vontade de olhar para a frente? Em que medida viver num presente perpétuo ancorado no passado gera uma espécie de disfunção narcotizante?
*odeio esse termo, acho pernóstico, mas é mais correto do que a inexatidão de “música clássica” e mais comunicativo do que composição moderna, meu preferido. Embora, no fundo, não haja mais razão suficiente para essa separação, a não ser mercadológica, mas isso é tema para outro post.
Tricky
Um amigo me pediu músicas legais e algumas coisas mais esquisitas para o seu iPod Shuffle. Atendi o pedido talvez com um pouco de coisa estranha a mais. Aqui, um shuffle do Shuffle:
1. Coalition – Tricky
2. Sal e Cinzas – 1-Uik Project
3. Can’t Roll Back – Strategy
4. Poem For Tables, Chairs, Etc. Part 2 – La Monte Young
5. All Beauty Is Our Enemy – Merzbow & Genesis P-Orridge
Bom, para me redimir desses últimos dias sem posts (minha vida está meio louca), volto com mais um podcast. Desta vez, só com gravações pouco comerciais e projetos paralelos de uma das minhas bandas preferidas. No fim do mês passado, o Sonic Youth lançou pelo seu selo SYR o disco Andre Sider af Sonic Youth, gravação de um show de 2005 da banda com o mago do noise japonês Merzbow, o saxofonista sueco Mats Gustafsson e o guitarrista Jim O’Rourke. é o oitavo disco lançado pelo selo próprio do Sonic Yoth e a inspiração para este podcast só com sons lançados pelo SYR, de Sonic Youth Recordings, ora pois. A própria história do selo é interessante. Com a grana que o Sonic Youth ganhou com o Lolapalloza de 95, eles montaram um estúdio em Nova York, o que permitiu começar a gravar as viagens pouco comerciais da banda, quase sempre com participações de músicos de vanguarda. Então, este podcast traz uma pequena amostra dessa loucura toda, e traz sons dos quais participam, além dos citados antes, William Winant, Ikue Mori e DJ Olive, só para citar os que tocam neste Discofonia. A jóia é um bom trecho de cerca de 15 minutos da apresentação com Mats Gustafsson e Merzbow, mas há também o disco mais eletrônico de Kim Gordon com Mori e Olive e uma faixa do Goodbye 20th Century, álbum em que o Sonic Youth reviu a música de vanguarda feita no século passado. Aperte os cintos, porque a viagem vai longe…
Download Ouça o Discofonia 76 – The Sonic
O lado mais experimental do nada conservador Sonic Youth é sempre lançado pelo selo da banda, o SYR. Até agora já são sete lançamentos imperdíveis e, segundo a revista eletrônica Pitchfork, o próximo disco, o SYR 8 será lançado no dia 28 deste mês. O álbum registra um show da banda no festival Roskiled de 2005, acompanhada de nada menos do que o genial guitarrista japonês Masami Akita, ou Merzbow como é mais conhecido, lenda absoluta do noise e santo de altar-mór do Discofonia. Além de Merzbow, o show tem a participação de Jim O’Rourke, que ainda fazia parte da banda nesta época, e do saxofoniasta sueco Mats Gustafsson. Nesses vídeos que eu selecionei no YouTube dá para sentir a força da porrada.

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