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Guilherme Werneck

Como o Romulo Fróes fez uma introdução e acho que parte da resposta à pergunta já está aqui. Coloco como uma espécie de prefácio a seu texto:

Guilherme meu caro, perguntinha difícil essa feita por você. Mesmo porque, se tivesse a resposta já a estaria pondo em prática, na tentativa de realizar meu desejo de hoje, que é viver tão somente da minha música. Nunca fui de antecipar o futuro, de perceber as coisas antes do seu acontecimento, me vejo mais como alguém que organiza o presente e procura traduzí-lo para o maior número de pessoas que conseguir. Papel que me pus a desempenhar por achar extremamente necessário comunicar ao mundo a existência de uma das mais brilhantes gerações da música popular brasileira. E que por muitos motivos permanece ainda, a meu ver mais do que devia, uma geração anônima. Motivos estes que tento decifrar nesse artigo abaixo, escrito há algum tempo atrás. O que posso dizer, é que, desde que o escrevi, muito mais gente passou a conhecer estes novos artistas e seu público cresce cada vez mais. Não sei quanto ao futuro do negócio da música, mas quanto ao futuro da nossa música, já está acontecendo e é animador! O resto é o resto. Lá vai o texto:

romulo_froes_liliane_callegari.jpg

Foto: Liliane Callegari

Caminhando para o fim da primeira década do século XXI, já é possível identificar um traço comum entre os artistas surgidos na música brasileira a partir dos anos 2000? Será esta uma geração de artistas à altura de nossa tradição?  Perguntas como estas já circulam por aí e demonstram que ainda figura um desejo de organização de um tempo, em que se consiga reunir argumentos para qualificar para o bem e para o mal, determinada época. Neste caso, além de compreender a unidade década, há ainda o agravante de ser esta a primeira de um século que se inicia, o que a faria ser comparada também ao conjunto de todas as outras do século anterior, numa espécie de partida injusta de dez contra um.

A geração atual de artistas da música brasileira surgiu ainda no século passado, em meio a uma profunda transformação, atrelada a uma iminente falência da indústria musical. Mais do que por novos modelos de difusão ou comercialização, ela foi moldada por um novo modo de produção musical. Até o começo dos anos 1990, o caminho para um artista chegar ao disco era muito difícil, pra não dizer quase impossível, se pensarmos que o filtro criado pelas grandes gravadoras para a produção de um disco era, antes de tudo, econômico. Com raríssimas excessões, eram elas que detinham os meios de gravação. Uma vez que esses meios se democratizaram, passou a ser possível a qualquer artista gravar seu próprio trabalho, elevando a produção de discos, ao menos no que se refere ao seu registro fonográfico, a patamares nunca antes imaginados. Todo artista agora podia ter seu disco e surgiu uma nova figura, a do artista-produtor. É claro que existiam anteriormente artistas-produtores, mas a noção de produção passava muito mais pelo âmbito estético do que técnico, pertencia mais ao campo abstrato das idéias do que na matéria real da obtenção da melhor captação, ou na escolha certa dos microfones e amplificadores. Isso era para os técnicos, que afinal estavam a serviço do artista.

O artista de hoje produz seu disco, porque afinal conquistou essa liberdade e também porque, em última instância, é a única maneira de fazê-lo. Por isso seu conhecimento de todas as etapas de uma gravação, da captação à edição, e chegando mesmo até à fabricação do disco. Verdade que, à príncipio, tal processo se deu de forma muito precária, uma vez que ainda não se dispunha de grandes recursos técnicos, na época pouco acessíveis, e tampouco se havia adquirido a experiência do novo ofício.

Com o avanço da tecnologia, a experiência e o acesso a novos recursos de gravação, abriu-se aos artistas um novo vocabulário de produção artística, a meu ver inédito na música brasileira. É muito comum hoje um jovem artista falar de seu trabalho mais do ponto de vista técnico do que das questões artísticas de sua obra, isso se encararmos como coisas desligadas uma da outra. Não raro, um leigo se depara no depoimento de um novo artista, com termos que parecem pertencer a uma nomenclatura de ficcão científica. E isto não é pouca coisa, se pensarmos que grandes artistas de nossa música nunca pensaram no som que teriam seus discos, acreditando única e exclusivamente no poder de sua música. Ou ainda, se pensarmos em artistas como Tim Maia e Caetano Veloso, que no início de suas carreiras, mesmo sabendo exatamente o “som” que queriam em seus discos, sempre se disseram frustrados por não consegui-lo, simplesmente por não saberem até então se comunicar com os técnicos. É um fato relevante, pra não dizer histórico, que aconteça de novos artistas se envolverem profundamente com o processo de gravação, tendo mesmo um interesse verdadeiro por seus aspectos técnicos, ainda que ironicamente, muitas vezes se valham de experiências acontecidas no passado, em discos gravados, por exemplo, nas décadas de 1960 e 1970. Vintage é uma palavra adorada por estes jovens artistas. Seus instrumentos, microfones, captadores, pré-amplificadores, pedais e tudo o mais têm de ser vintage, porém seu comportamento, suas cabeças, suas crenças, estas, estão no presente.

Pois depois de aprendidas “as manhas” da produção, ainda era preciso aplicar esse aprendizado à criação. Sim, porque antes uma grande canção mal gravada do que uma bobagem de altíssima qualidade sonora. E seguindo a máxima de que a quantidade gera qualidade, acho que a contribuição destes novos artistas para a música brasileira começa a ganhar forma. Há muito tempo não se via tantos artistas com trabalhos tão diversos e com tamanha qualidade quanto agora. Talvez a palavra novo, tão desgastada por seu uso, não seja aplicável ao que vêm fazendo, mas sim ao modo “como” vêm fazendo. Já não é mais possível abarcar o Brasil, como fizeram por exemplo os Tropicalistas. Não só todo o vocabulário incluído por estes em sua música como a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a sexualidade, a tecnologia e tudo o mais, ainda está em voga, como ainda outros tantos verbetes surgiram e continuam a surgir todos os dias. Daí o conceito de novidade já nascer datado. É com a Internet, esta ferramenta que mudou nossa percepção de mundo, onde se deparam a toda hora com tudo, quero dizer “tudo” que já foi dito, pensado e vivido por todos, no passado, no presente e às vezes parece que até no futuro, que os artistas de hoje produzem. E se eles se fartam dessa nova ordem, a carga de influência que sofrem é tamanha e tão diversa, que talvez seja impossível a formação de um “novo” pensamento sobre música popular brasileira hoje e talvez não seja mesmo mais tão necessário. O que é necessário ainda e sempre, é que se produza arte boa, mesmo que esta tão somente revele as influências de quem a criou.

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Se existe uma única verdade que salta aos olhos, é a que não existe mais uma única verdade. Parece óbvio que qualquer um que já gastou mais do que cinco minutos pensando nesse assunto tenha chegado a essa conclusão.

amoeba02.jpgA morte do CD é um assunto tão antigo quanto a ressurreição do vinil. Nada acaba, tudo é cíclico. Até o cassete voltou, mesmo com a Sony encerrando oficialmente a produção de walkmans. Enquanto a Amoeba, a maior loja de discos independente dos EUA, comemora que as vendas de vinil estejam compensando as perdas do CD, a Panasonic vai botar um ponto final na conceituada linha de toca-discos Technics. Nem parece que estamos falando de mídia física, de tecnologia.

Há alguns dias, o maior tracker privado de música que já existiu completou três anos. Enquanto escrevo, contabil izam quase 1 milhão de arquivos de torrent, com mais de 400 mil lançamentos de 350 mil artistas. Estamos falando de pouco mais de 130 mil usuários que já fizeram aproximadamente 45 milhões de downloads. Para efeitos de comparação, digamos que cada lançamento tenha 10 faixas, somando 4 milhões de faixas. Nada comparável aos mais de 13 milhões de faixas e 10 bilhões de downloads do iTunes Store em sete anos. Um nicho,portanto. Na indústria, isso é chamado de pirataria.

Vale dizer que o site não hospeda nenhum arquivo. É sustentado por doações dos usuários e todo o conteúdo é fornecido e administrado pelos mesmos. Agora, por que eles pagam por isso e não por um download legal? Simples: é um serviço infinitamente mais inovador e de qualidade impecável. Você baixa o que quiser, quando quiser, na qualidade que quiser. Recentemente, estrearam uma seção de destaque para artistas “da casa”, ou seja, artistas que dividem seus próprios discos no site. Em aproximadamente um mês, o artista destacado conseguiu mais de 12 mil downloads. Havia a opção de download em sete formatos diferentes.

Quando um disco é lançado oficialmente, os usuários já o conhecem há meses. Álbuns fora de catálogo, raridades e relíquias inatingíveis? Tudo à mão, disponibilizado por uma legião de engenheiros de som amadores que fazem os discos soarem melhor que muita remasterização de grande gravadora. Aliás, em discos clássicos é comum encontrar arquivos de diferentes edições e masterizações de diferentes países. Você escolhe. Se você gosta mais do som do vinil, pra que se contentar com um arquivo digital extraído de um CD? Melhor: você pode ouvir os dois, comparar e decidir se quer ouvir um vinil ou um CD no seu iPod.

Ainda falta muito para que os grandes negócios da música de hoje olhem para ideias simples como essas e aprendam alguma coisa.

Afinal, qual é o futuro do negócio da música? Pessoalmente, enxergo dois pontos principais agora, no presente: publishing e shows. Qualquer coisa entre eles parece promissora e potencialmente duradoura. Porém, para que isso chegue ao futuro, precisamos rever as leis de direito autoral e os  é todos de arrecadação. Pode parecer um assunto chato, mas é a chave de tudo. E digo mais, pra dar certo mesmo, o mundo inteiro tem que estar na mesma sintonia. Ou seja, quando você for sonhar com um futuro melhor pra você nesse negócio, aproveite e sonhe tudo isso numa escala universal.

Já comprei muitos discos bons por culpa do Guilherme Barrella, desde quando ele escrevia o newslwtter da Bizarre, lá no começo dos anos 2000. Mas comprei bastante mesmo pela Peligro, loja virtual que ele abriu no meio da década e segue firme até hoje. Mas o Gui não é só um vendedor tem um lado de dono de selo (toca o ótimo Open Field) e baladeiro (é sócio da Neu)

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O Guilherme Werneck pediu para eu escrever um texto sobre o futuro da indústria da música. Como não tenho muito a dizer, a não ser que acho que o mercado sempre encontrará uma solução para levar (e faturar) a criação daqueles que sabem fazer música para aqueles que só podem ouvir,   me  resta o charlatanismo e a gaiatice em meio a exercícios de imaginação e alguma pitada de sonho.

lady_gaga.jpg2011
Tablets se consolidam como a nova plataforma para divulgação de música.  Lady Gaga faz a premiére do novo clipe num novo aplicativo do Ipad

2012
Google anuncia a compra de uma das antigas gravadoras majors e começa a investir na produção musical

2013
Pelanza deixa o Restart e surpreende com um disco solo elogiado pela crítica e sucesso de público, dando inicio a uma trilogia de lançamentos bienais que vai até 2017. Antigos fãs pedem músicas da fase Restart, que aparecerão em novas versões em raríssimas apresentações.

Explodem as vendas de caixas temáticas – a preço acessíveis -  com fotos em papel especial, reprodução de ingressos de shows históricos, pôsters e memorabilia de artistas. A música dessas caixas especiais virá em pendrives e minicards multiplataformas compatíveis com tablets, aparelhos de som antigos e senhas de acesso para baixar a música.

olodum.gif2014
Em meio às festas da Copa do Mundo no Brasil, o mundo descobre um músico egresso e  dissidente do Olodum que dá os primeiros passos rumo ao tecnotropicalismo.  Google o contrata no seu primeiro acordo milionário com um novo artista.

2015
A ilusão de que o disco de vinil seria a salvação da indústria da música estará definitivamente perdida. Matérias nos sites e jornais anunciam mais uma vez, anos depois da primeira morte,  a última fábrica de vinil a fechar as portas. Um grupo de saudosistas unirá forças para manter a produção artesanal, que durará até 2017

2016
Maria Rita vende 300 mil cópias, ainda no antigo formato CD,  de  “Maria Rita canta Raul”, com reinterpretações de lados B do roqueiro baiano.  Executivos dizem que o CD é o futuro da indústria da música no Brasil.

paul_is_dead.jpg2017
Apple anuncia que fará a apresentação de um novo produto, desenvolvido secretamente nos últimos anos.  No dia do anúncio,  cinqüentenário exato do lançamento do Sgt Peppers, a empresa de Steve Jobs choca o mundo ao mostrar uma apresentação real  dos quatro Beatles de 1967 tocando todas as faixas do álbum ao vivo, na íntegra, num palco virtual criado a partir de projeções holográficas dos integrantes emitidas do novo minitablet da companhia.  Uma fã sofre um ataque cardíaco no Brasil quando vê pelo velotube Paul McCartney real e seu avatar de 1967 fazerem um dueto no final do show.

2018
Google já controla mais duas antigas majors, uma delas adquirindo o espólio da falência e outra numa oferta hostil anunciada ao mercado. Empresa começa a ação de aquisição de editoras musicais pelo mundo.

2019
O artista brasileiro descoberto na Copa de 2014 anuncia o rompimento com parceiros de composição e decreta o fim do tecnotropicalismo.

A tecnologia de projeção holográficas de shows lançada pela Apple estará popularizada, com todos podendo assistir a um  show do ídolo na sala de casa ou num salão de bar. O projetor calcula as dimensões do ambiente para o artista se movimentar pelo espaço e interagir com o local. Microsoft lança a sua versão com o karaokê-mode, com a qual o usuário pode fazer duetos, participar do coro e tocar instrumentos, como no atual guitar-hero.

As duas empresas partem para cima de hackers que projetam as apresentações sem autorização e pagamento no código aberto do Google Street View.  Para achar as apresentações, basta cruzar o endereço certo com o nome do artista, tornando quase impossível o rastreamento prévio dos shows, que mesmo sem a qualidade do projetor doméstico fazem sucesso no site de mapas.

2020
O ano em que faremos contato. A nave do consórcio russo-americano que partiu um ano antes da Terra chega a Marte com cinco meses de atraso. Cientistas da Nasa mostram um vídeo do momento em que o jipe-robô  teleguiado com o logo do Google Music na carcaça  encontra um pequeno monolito, do tamanho de um iPad, que emite sons numa freqüência inaudível  aos ouvidos humanos.

keith_richards_barechest_at_60.jpg2021
Quase octagenários, Paul McCartney e Keith Richards lançam disco de blues  com faixas compostas em conjunto durante uma visita do guitarrista do Stone a sua mansão. O sucesso da parceria dos velhinhos faz crescerem as especulações de que uma jam session  com músicas obscuras do primórdio do rock’n’ roll  reunindo Mick Jagger e Ringo Starr estaria em produção. Após meses de desmentidos, surge o álbum “Mick & Ringo”. O New York Times, revela na sua versão web mezzo paga mezzo free  – a versão impressa continua – que o projeto foi arquitetado pelos Beatles e Stones em troca de mensagens públicas  pelo newtwitter onde se identificavam com os nomes reais, à vista de milhões de fãs que não perceberam as conversas.

2022
OMC subscreve, após anos de negociação com Google, Microsoft, Apple e uma nova empresa surgida na web em 2017, um novo marco do direito autoral.

2023
Nascido em 2000, o artista X lança seu primeiro single e domina as paradas mundiais, aferidas e debitadas por controle remoto a partir dos tocadores múltiplos.

Usando a nova freqüência descoberta em Marte, X revoluciona o modo de produzir e ouvir música, com pequenos sensores que convertem o sinal emitido em som como conhecemos hoje, mesclado com a projeção de imagens. As primeiras imagens lembram o visual lisérgico dos anos 60, mas em meses a tecnologia terá evoluído para projeções realísticas de imagens de sons.

2025
Com a música da nova freqüência descoberta em Marte, uma nova escala de notas musicais é decifrada. A descoberta permite  tirar novos sons de antigos instrumentos. O resultado provoca o surgimento de novas escalas melódicas de antigas músicas e torna impossível aferir a autenticidade de uma criação musical feita a partir de uma antiga canção.

Simultaneamente, é criado o novo sistema de cobrança automática, pois só é possível escutar a música, pagando, nos novos aparelhos que entendem a freqüência extraterrestre. Piratas trabalham uma maneira de tentar burlar a restrição freqüencial e converter a música ao som normal.

X lança aquele que será  considerado o seu mais emblemático trabalho e influenciará uma geração de novos músicos. Sites tentam fabricar clones biológicos de X e de suas músicas usando freqüências distorcidas do som criado por ele. A nova tecnologia permite que surdos escutem músicas através de pequenos implantes que estimulam neurônios no cérebro.

2030
Surge o zajjfusion.

2042
Aos 100 anos, morre no Brasil o último tropicalista.

2055
Numa cidade do interior em algum lugar do mundo, um moleque de 14 anos descobre os primeiros acordes num violão e dá os primeiros passos na música. Com um amigo de 15 que toca um moderno instrumento eletrônico de sopro cria uma nova batida que em alguns anos explodirá nos ouvidos de uma nova geração através dos sinais que ele emitira de seu transmissor portátil de música.  Seus seguidores num serviço de tiks espalham cada lançamento, remunerando o próprio autor em sua conta corrente individual a cada reprodução. Faixas “ao vivo real”, capatadas no momento em que o artista se apresenta, serão mais caras.  Faixas já escutadas, gravadas antes ou compartilhadas serão gratuitas ou vendidas em baciões virtuais a US$ 0.0001.

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Edmundo Leite é o coordenador do Arquivo do Estadão, faz o blog Memória, gente, lugares, aqui no Estadão. Dono de um arquivo dos sonhos de publicações musicais brasileiras, ele está nos finalmentes da primeira biografia pra valer de Raul Seixas – que torço para sair a despeito do embaço da ex do maluco beleza

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nirvana.jpg

Pense em como mudou o mundo, em 2000 quem mandava era o Eminem, ainda não tínhamos emos e nem me lembro o que sucedia no Brasil. Já em 1990 não existia o mp3, o CD tinha acabado de enterrar o LP, Nirvana nascia e a Tinitus era um desejo apenas. Faz sentido? Nenhum. Porem as décadas anteriores, 80, 70, 60, 50, essas sim, tinham um roteiro, como era previsível a evolução do mundo, da juventude, da música popular depois do pós-guerra e durante a Guerra Fria.

Por isso, perguntar hoje qual será o futuro da música é perguntar se há ordem no caos. Nada sério, vejam bem.

Qualquer hipótese de revolução tecnológica me apavora. Mais miniaturização, engoliremos nossos tocadores de música? Mais banda e mais memória, mais fidelidade, música em 3D? Todas as músicas tocando ao mesmo tempo? Música tocando dentro de minha cabeça? Mal consigo olhar para a lista de músicas acumuladas em meu HD, quanto mais separar mil canções para carregar no celular. Isso o vinil definitivamente tem de bom, é como o tamanho das garrafas de vinho, nem de mais nem de menos. Portanto, o vinil permanecerá e com ele as coleções com figurinhas carimbadas, os impossíveis de achar. O futuro pertence a quem colecionou os vinis, tipo estes: http://www.birkajazz.com/archive/england.htm.

Aos músicos, desejo aplausos genuínos, diretos, prolongados, emocionados, de fãs que irão segui-los e sustentá-los. Quem conseguir isto terá uma carreira, poderá criar e construir uma obra, casar e ter filhos, e não necessariamente precisará ser aborrecido na rua. Cada um terá seu próprio público e tocará em seus lugares especiais. Apenas uns poucos viverão da fama, da celebridade, da glória de serem universais, talvez por aparecerem em algum momento mágico da Coroação de nosso Imperador da Terra, isto é outra previsão sobre o mesmo futuro.

Um verdadeiro exército auxiliar da música continuará a existir, os balconistas das lojas de instrumentos, os professores de saxofone, os técnicos de autotune, os produtores de sucessos falsos e verdadeiros, os blogueiros  historiadores do rock, do pop, do funk e da música popular brasileira e outros gêneros extintos ou ameaçados. O interesse pela novidade persiste sempre, as micro canções de menos de 3 segundos, evoluções do tuiter a texto irão disputar espaço com o dub de seis anos tecido a milhões de preferencias mixadas.  Na USP, modelos de interação rítmica entre o axé e a cumbia farão furor nos fins de semana.

Confesso que me sinto um pouco zonzo com as possibilidades infinitas de comercialização da música, de monetização, os modelos de negócios serão tantos que o lema “cada cabeça uma sentença” poderá descrever a economia criativa com propriedade no futuro. Espero que as outras previsões que estão sendo feitas neste momento pelo menos comprovem esta parte.

Pena Schmidt hoje faz um trabalho brilhante superintendente do Auditório Ibirapuera, antes disso deixou sua marca de produtor em centenas de sucessos brasileiros desde os anos 70, presidiu o selo independente Tinitus e foi presidente da ABMI – Associação Brasileira da Música Independente.Ufa. Quer saber mais? Achei um perfil bem bacana dele feito aqui pelo Estadão: “O advinhador de sucessos”

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Qual é o futuro do negócio de música?

Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa. A indústria da música – talvez junto com as empresas de conteúdo jornalístico – foi uma das mais prejudicadas comercialmente com a disseminação da internet, justamente porque um de seus componentes mais, digamos, ‘lucrativo’, é a distribuição de conteúdo musical.

Acho difícil falar sobre o futuro da música de maneira categórica, como se houvesse apenas uma verdade absoluta. Não há. Hoje em dia é tudo muito complexo, inclusive as respostas.

Muita gente aposta no fim das gravadoras como se isso representasse a salvação da indústria musical. Na minha opinião, esse é apenas um efeito colateral – e, acredite se quiser, negativo. As gravadoras sempre foram criticadas por todos os lados: por músicos independentes, que não conseguiam contratos porque não eram comerciais o suficiente (até hoje ninguém sabe o que é ser ‘comercial’, mas tudo bem); por músicos consagrados, que reclamavam que ganhavam pouco; pelos consumidores, que reclamavam dos altos preços no ponto de venda.

led_zep2.jpgOs músicos independentes viram na internet uma possibilidade de fazer seu trabalho ser conhecido, e isso é uma grande vantagem do mundo digital. A desvantagem, no entanto, é exatamente a mesma coisa: como todo mundo tem esse acesso, fica muito mais difícil para uma banda boa se diferenciar de uma banda horrível. Por mais que tenhamos críticas ao modelo das gravadoras, foi esse formato de negócios que nos deu Elvis Presley, The Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones,U2. Também nos deu Britney Spears, Backstreet Boys e outros lixos, diriam os críticos. A diferença é que ninguém é obrigado a consumir nenhum desses artistas. A gravadora faz uma ‘curadoria artística’ e apresenta seus produtos, compra quem quer, não compra quem não quer. O que é inegável é que o formato funcionou até hoje: alguém acha que existiram bandas melhores que Beatles e Led Zeppelin? Havia alguém muito injustiçado recusado por todas as gravadoras? Difícil dizer, mas é bastante improvável.

A internet permitiu que tivéssemos à disposição milhares e milhares de bandas ao clique do mouse. Mas quem disse que eu quero milhares e milhares de bandas? Quem disse que alguém tem tempo de escolher entre milhares de bandas, a não ser 0, 001% da população que tem entre seus hobbies “descobrir artistas novos”?

cansei.jpgO modelo anterior nos deu todos os grandes artistas da história, de Beatles a Marvin Gaye, de Ramones a Metallica. O que a internet nos deu até hoje? O Cansei de Ser Sexy? Qual é o grande artista que saiu do novo modelo? A Lilly Allen? O Chris Anderson que me desculpe, mas o conceito de ‘Long Tail’ não se aplica à arte.

Quero escolher entre 30 bandas, não entre 30 mil bandas. E aí começa um outro jogo bastante irônico: você vai até o site Pitchfork.tv e vê as bandas que eles escolheram. Não é a mesma coisa? Praticamente. A diferença é que na Pitchfork.tv você vê os vídeos de graça, provavelmente vai encontrar essas bandas no MySpace, etc. Mas o Pitchfork.tv está fazendo, no fundo, a mesma coisa que uma gravadora: dizendo o que vale a pena ouvir.

A diferença é que o modelo da internet, até pouco tempo, era baseado na troca gratuita de conteúdo. O que, a meu ver, nos leva a uma segunda discussão: música tem valor?

Se algo tem valor, tem que custar alguma coisa. Se música vale alguma coisa, ela tem que ser paga.

Entre as críticas às gravadoras, está o alto preço dos discos. Não quero defender o modelo antigo, mas posso falar com isenção porque já fui um músico contratado de gravadoras de vários tamanhos e perfis. E posso garantir quem é o culpado pelo alto preço dos discos. O governo, claro, por meio de impostos criminosos e tributos inexplicáveis. Fora outros órgãos governamentais/controladores de direitos autorais, como o ECAD.

Um erro, na minha opinião, cometido por bandas novas é colocar sua música de graça na internet. Ninguém valoriza o que é de graça. Se você colocar uma música promocional por um certo tempo, ou um certo número de músicas, tudo bem. Mas já conversei com bandas que se orgulham de jogar todo seu material online, dizendo que os fãs merecem, etc.

Sim, os fãs que merecem são aqueles que pagariam para ter uma música sua. Bandas que encaram música como hobby podem se dar ao luxo de disponibilizar tudo gratuitamente na internet. Músicos que passaram anos estudando, ensaiando e compondo merecem um pouco de respeito.

Ninguém entra numa loja de roupas e sai com uma calça jeans gratuitamente “porque o preço é alto”.

DavidBryan2.jpgConversando com David Bryan, tecladista do Bon Jovi, dei essa minha opinião sobre o assunto e ouvi uma resposta curiosa. Ele não só concordou comigo, como foi além. Disse que a culpa pela disseminação da música gratuita online era das gravadoras. Faz sentido. Se você faz um depósito em um banco porque acha que ele vai guardar bem o seu dinheiro, você devia cobrar uma gravadora se a sua música é roubada por alguém. Não é questão de mandar prender o dono do Napster; nem censurar algum site de copyleft na Suécia. A questão é que a música online deveria ter um formato que permitisse algum tipo de controle. A tecnologia foi mais rápida que as gravadoras. E, por isso, para o bem ou para o mal, esse modelo chegou ao fim.

O que vai substituí-lo? Acho que não teremos um único modelo, mas vários. O iTunes é um deles. Steve Jobs e sua turma conseguiram entrar de gaiatos na indústria musical e abocanhar uma bela fatia. A ideia é simples, não? Eles vendem músicas online legalmente, por um preço honesto.

Lembrando que as gravadoras pagam pela gravação do disco no estúdio, pela divulgação do artista, gravação de videoclipes, pagamento de jabá em rádio, marketing, assessoria de imprensa, distribuição do produto fisicamente pelo mundo. Uma música online também precisa ser gravada, mas hoje qualquer um grava com superqualidade em casa, basta um software Pro-Tools e meia-dúzia de plug ins; videoclipes caseiros podem ter altíssima qualidade, basta uma boa ideia –  e ainda podem estar de graça no YouTube; jabá em rádio ainda é importante, ainda mais no Brasil; marketing e assessoria de imprensa podem ser feitos online e em redes sociais, mas ainda não substituem os caminhos tradicionais; quanto à distribuição física do produto… bem, isso a internet tornou irrelevante.

Como sobreviver, então, se sua banda não ganha mais dinheiro com a venda de discos? Caia na estrada. O problema é que bandas novas também não ganham nada na estrada, o que acaba gerando um paradoxo: você dá a música de graça na internet; você não consegue cobrar altos cachês porque é uma banda nova; você não tem dinheiro para gastar em divulgação forte porque sua banda não ganha grana com discos nem com shows; você continua no underground para sempre, a não ser que aconteça algo extraordinário e você seja citado pelo Dave Grohl como a melhor banda do mundo.

madonna1.jpgBandas grandes, no entanto, não ganham mais tanto dinheiro com discos, mas continuam ganhando dinheiro com shows. Por isso, apostam cada vez mais nas turnês. Por isso acho que o novo modelo de negócios na música envolve empresas híbridas, com empresários de shows e gravadoras virando uma coisa só. Os artistas também passarão a ter mais controle sobre seu próprio material, já que essas empresas híbridas (um exemplo é o LiveNation, que empresaria a Madonna) poderão vender músicas online ou se associar ao iTunes e tornar o CD físico algo desnecessário – o que, aliás, já acontece nos Estados Unidos (muito) e na Europa (pouco).

Outra vertente que deve ser explorada pelos grandes artistas é a popularização dos videogames. Por que lançar discos, se você pode lançar games e ganhar muito mais dinheiro? Acho provável que muitas crianças que hoje jogam o game Rock Band acreditem que os Beatles são uma banda de mentira, concebida apenas para criar a trilha sonora do tal game.

Duvida? Tenho uma filha de quatro anos que só sabe o que é CD porque eu ainda mantenho um CD player no carro. Em casa, ela vai direto no computador ou no meu iPhone. E sabe exatamente onde achar as coisas que quer ouvir. Como ela vai ouvir música daqui a alguns anos? Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa.

Felipe Machado é editor da TV Estadão, autor do blog vizinho Palavra de Homem e, quando a banda sai de seu estado ectoplasmático atual, é guitarrista do Viper.

Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa. A indústria da música – talvez junto com as empresas de conteúdo jornalístico – foi uma das mais prejudicadas comercialmente com a disseminação da internet, justamente porque um de seus componentes mais, digamos, ‘lucrativo’, é a distribuição de conteúdo musical.

Acho difícil falar sobre o futuro da música de maneira categórica, como se houvesse apenas uma verdade absoluta. Não há. Hoje em dia é tudo muito complexo, inclusive as respostas.

Muita gente aposta no fim das gravadoras como se isso representasse a salvação da indústria musical. Na minha opinião, esse é apenas um efeito colateral – e, acredite se quiser, negativo. As gravadoras sempre foram criticadas por todos os lados: por músicos independentes, que não conseguiam contratos porque não eram comerciais o suficiente (até hoje ninguém sabe o que é ser ‘comercial’, mas tudo bem); por músicos consagrados, que reclamavam que ganhavam pouco; pelos consumidores, que reclamavam dos altos preços no ponto de venda.

Os músicos independentes viram na internet uma possibilidade de fazer seu trabalho ser conhecido, e isso é uma grande vantagem do mundo digital. A desvantagem, no entanto, é exatamente a mesma coisa: como todo mundo tem esse acesso, fica muito mais difícil para uma banda boa se diferenciar de uma banda horrível. Por mais que tenhamos críticas ao modelo das gravadoras, foi esse formato de negócios que nos deu Elvis Presley, The Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, U2. Também nos deu Britney Spears, Backstreet Boys e outros lixos, diriam os críticos. A diferença é que ninguém é obrigado a consumir nenhum desses artistas. A gravadora faz uma ‘curadoria artística’ e apresenta seus produtos, compra quem quer, não compra quem não quer. O que é inegável é que o formato funcionou até hoje: alguém acha que existiu bandas melhores que Beatles e Led Zeppelin? Havia alguém muito injustiçado recusado por todas as gravadoras? Difícil dizer, mas é bastante improvável.

A internet permitiu que tivéssemos à disposição milhares e milhares de bandas ao clique do mouse. Mas quem disse que eu quero milhares e milhares de bandas? Quem disse que alguém tem tempo de escolher entre milhares de bandas, a não ser 0, 001% da população que tem entre seus hobbies ‘descobrir artistas novos’?

O modelo anterior nos deu todos os grandes artistas da história, de Beatles a Marvin Gaye, de Ramones a Metallica. O que a internet nos deu até hoje? O Cansei de Ser Sexy? Qual é o grande artista que saiu do novo modelo? A Lilly Allen? O Chris Anderson que me desculpe, mas o conceito de ‘Long Tail’ não se aplica à arte.

Quero escolher entre 30 bandas, não entre 30 mil bandas. E aí começa um outro jogo bastante irônico: você vai até o site Pitchfork.tv e vê as bandas que eles escolheram. Não é a mesma coisa? Praticamente. A diferença é que na Pitchfork.tv você vê os vídeos de graça, provavelmente vai encontrar essas bandas no MySpace, etc. Mas o Pitchfork.tv está fazendo, no fundo, a mesma coisa que uma gravadora: dizendo o que vale a pena ouvir.

A diferença é que o modelo da internet, até pouco tempo, era baseado na troca gratuita de conteúdo. O que, a meu ver, nos leva a uma segunda discussão: música tem valor?

Se algo tem valor, tem que custar alguma coisa. Se música vale alguma coisa, ela tem que ser paga.

Entre as críticas às gravadoras, está o alto preço dos discos. Não quero defender o modelo antigo, mas posso falar com isenção porque já fui um músico contratado de gravadoras de vários tamanhos e perfis. E posso garantir quem é o culpado pelo alto preço dos discos. O governo, claro, por meio de impostos criminosos e tributos inexplicáveis. Fora outros órgãos governamentais/controladores de direitos autorais, como o ECAD.

Um erro, na minha opinião, cometido por bandas novas é colocar sua música de graça na internet. Ninguém valoriza o que é de graça. Se você colocar uma música promocional por um certo tempo, ou um certo número de músicas, tudo bem. Mas já conversei com bandas que se orgulham de jogar todo seu material online, dizendo que os fãs merecem, etc.

Sim, os fãs que merecem são aqueles que pagariam para ter uma música sua. Bandas que encaram música como hobby podem se dar ao luxo de disponibilizar tudo gratuitamente na internet. Músicos que passaram anos estudando, ensaiando e compondo merecem um pouco de respeito.

Ninguém entra numa loja de roupas e sai com uma calça jeans gratuitamente “porque o preço é caro”.

Conversando com David Ryan, tecladista do Bon Jovi, dei essa minha opinião sobre o assunto e ouvi uma resposta curiosa. Ele não só concordou comigo, como foi além. Disse que a culpa pela disseminação da música gratuita online era das gravadoras. Faz sentido. Se você faz um depósito em um banco porque acha que ele vai guardar bem o seu dinheiro, você devia cobrar uma gravadora se a sua música é roubada por alguém. Não é questão de mandar prender o dono do Napster; nem censurar algum site de copyleft na Suécia. A questão é que a música online deveria ter um formato que permitisse algum tipo de controle. A tecnologia foi mais rápida que as gravadoras. E, por isso, para o bem ou para o mal, esse modelo chegou ao fim.

O que vai substituí-lo? Acho que não teremos um único modelo, mas vários. O iTunes é um deles. Steve Jobs e sua turma conseguiram entrar de gaiatos na indústria musical e abocanhar uma bela fatia. A ideia é simples, não? Eles vendem músicas online legalmente, por um preço honesto.

Lembrando que as gravadoras pagam pela gravação do disco no estúdio, pela divulgação do artista, gravação de videoclipes, pagamento de jabá em rádio, marketing, assessoria de imprensa, distribuição do produto fisicamente pelo mundo. Uma música online também precisa ser gravada, mas hoje qualquer um grava com superqualidade em casa, basta um software Pro-Tools e meia-dúzia de plug ins; videoclipes caseiros podem ter altíssima qualidade, basta uma boa ideia – e ainda podem estar de graça no YouTube; jabá em rádio ainda é importante, ainda mais no Brasil; marketing e assessoria de imprensa podem ser feitos online e em redes sociais, mas ainda não substituem os caminhos tradicionais; quanto à distribuição física do produto… bem, isso a internet tornou irrelevante.

Como sobreviver, então, se sua banda não ganha mais dinheiro com a venda de discos? Caia na estrada. O problema é que bandas novas também não ganham nada na estrada, o que acaba gerando um paradoxo: você dá a música de graça na internet; você não consegue cobrar altos cachês porque é uma banda nova; você não tem dinheiro para gastar em divulgação forte porque sua banda não ganha grana com discos nem com shows; você continua no underground para sempre, a não ser que aconteça algo extraordinário e você seja citado pelo Dave Grohl como a melhor banda do mundo.

Bandas grandes, no entanto, não ganham mais tanto dinheiro com discos, mas continuam ganhando dinheiro com shows. Por isso, apostam cada vez mais nas turnês. Por isso acho que o novo modelo de negócios na música envolve empresas híbridas, com empresários de shows e gravadoras virando uma coisa só. Os artistas também passarão a ter mais controle sobre seu próprio material, já que essas empresas híbridas (um exemplo é o LiveNation, que empresaria a Madonna) poderão vender músicas online ou se associar ao iTunes e tornar o CD físico algo desnecessário – o que, aliás, já acontece nos Estados Unidos (muito) e na Europa (pouco).

Outra vertente que deve ser explorada pelos grandes artistas é a popularização dos videogames. Por que lançar discos, se você pode lançar games e ganhar muito mais dinheiro? Acho provável que muitas crianças que hoje jogam o game ‘Rock Band’ acreditem que os Beatles são uma banda de mentira, concebida apenas para criar a trilha sonora do tal game.

Duvida? Tenho uma filha de quatro anos que só sabe o que é CD porque eu ainda mantenho um CD player no carro. Em casa, ela vai direto no computador ou no meu iPhone. E sabe exatamente onde achar as coisas que quer ouvir. Como ela vai ouvir música daqui a alguns anos? Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa.

comentários (5) | comente

607beatles_lap.jpgDo ponto de vista da produção musical, os preços dos equipamentos e instrumentos continuaram baixando, permitindo o acesso cada vez maior de artistas ao processo de gravação de suas obras. Hoje, já há mais tecnologia disponível em um simples laptop do que os Beatles jamais acessaram. E não era assim. Antes da revolução digital, os preços eram uma barreira difícil de transpor.
Quanto ao negócio de música, creio que a presença das marcas financiando o processo seja uma tendência natural, assim como ocorreu com jornais, revistas, tv e rádio, por exemplo. Música está presente onde nunca esteve (telefones, computadores, games, etc) e continuará sendo uma paixão humana. O modelo econômico surgirá.

João Marcelo Bôscoli é músico, presidente da Trama, e comanda o programa de R&B Música Urbana, na Rádio Eledorado, todas as sextas, às 23h.

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O principal desafio para músicos, cantores, compositores, produtores e demais profissionais que trabalham na área do entretenimento é convencer a sociedade brasileira de que nossa música é uma das principais commodities que temos. Na nova era – que já chegou -, a música brasileira e seu respectivo negócio necessitam de um olhar contemporâneo sob os pontos de vista cultural, econômico e jurídico, se quiser evoluir. É uma discussão complexa, que durará anos, mas o primeiro passo é esse. Nunca me esqueço do que me disse Egberto Gismonti: os músicos têm que aprendera tocar a vida, além do instrumento.  É por aí.

Charles Gavin foi baterista do Ira!, dos Titãs e fez um dos maiores serviços à música brasileira com suas reedições em CD de discos fora de catálogo.

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Muita gente diz que o negócio de música está indo para o buraco, que a internet é ótima para quem gosta de música, mas péssima para o negócio.  Convidei artistas, produtores, gente da indústria e jornalistas para responder à seguinte pergunta: Qual é o futuro do negócio de música. Uma pergunta abrangente e complicada de responder. Nos próximos dias, publico as repostas.

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23.setembro.2010 15:28:44

De volta para o futuro?

russolo.jpg

Ondas revivalistas acometem de tempos em tempos tanto a música popular quanto a erudita*. É um movimento natural. Querer agradar é da essência humana, e o caminho mais fácil para dar prazer ao maior número de pessoas ao mesmo tempo é evitar o risco. Daí o yin-yang entre conservadorismo e radicalismo em todo e qualquer campo das artes.

Porém, desde que comecei a gostar de música, a ouvir com atenção e estudar, nunca senti uma sensação tão grande de estagnação, de estar preso ao passado. Mesmo quando o artista tira a rede de segurança e se arrisca, o fio sobre o qual ele anda já foi pisado pelo menos um bom par de vezes por outros intrépidos equilibristas.

Essas pessoas são as que tratam o passado com respeito e criatividade. Pior é ter de conviver a todo minuto com a sobreposição mais comercial dos diferentes revivals dos mais diversos estilos. Todos ocorrendo simultaneamente em cenas underground e mainstream. Enfim, são as cópias das cópias que pululam nesta nossa redoma de naftalina.

A impressão é de que vivemos hoje no futuro imaginado por gerações anteriores e perdemos a perspectiva de nossas próprias utopias. Isso tem me intrigado mais do que qualquer outra coisa. Estamos revolvendo o passado, reciclando, copiando e recombinando por que? O que fez com que abandonássemos a vontade de olhar para a frente? Em que medida viver num presente perpétuo ancorado no passado gera uma espécie de disfunção narcotizante?

*odeio esse termo, acho pernóstico, mas é mais correto do que a inexatidão de “música clássica” e mais comunicativo do que composição moderna, meu preferido. Embora, no fundo, não haja mais razão suficiente para essa separação, a não ser mercadológica, mas isso é tema para outro post.

(mais…)

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