
Muito se escreveu sobre o brilhante Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, sem dúvida um dos melhores documentários do ano, sucesso de público e crítica. Antes de mais nada, sou sim amigo do Ricardo, adoro o filme, mas asseguro que esse não é mais um dos famosos casos de “ação entre amigos” da imprensa.
Fã de MPB, nasci depois da era dos festivais, mas o assunto sempre foi vivo em família. Os musicais da Record, entres os eles o festival, sempre rondaram os papos daqueles encontros de domingo, um pouco baseado naquele discurso levemente reacionário de “bom mesmo era aquele tempo da Record…”. Se não vivi esse tempo ao vivo, em P/B, nunca perdia os reprises dos clássicos da Record e, já adulto, sempre mantive uma proximidade com o tema, principalmente atarvés da leitura. E, de tudo que li, recomendo A Era dos Festivais (Editora 34), do Zuza Homem de Mello.
Foi essa bagagem de curioso de segunda mão que levei para a estreia do filme, com um medo danado de não gostar ou de achar tudo meio déjà vu. Medo absolutamente infundado. Não só as imagens originais da Record foram hiper bem tratadas e causam um impacto tremendo na tela de cinema, como o coração do filme, as entrevistas com aqueles que tomaram parte no festival, foram conduzidas de forma a surpreender não só quem assistiu aos festivais na época, como quem acompanha de perto os movimentos dessa elite da MPB que desfila na tela. Não achava possível ouvir nada de muito novo de Caetano, Gil, Chico, até mesmo de Sérgio Ricardo. Quebrei a cara. Terra e Calil conseguiram arrancar “causos” deliciosos de seus entrevistados, e montá-los no filme com maestria. E é o equilíbrio entre as imagens originais e essas “causos” rememorados mais de quarenta anos depois é o que dá força ao filme.
Para chegar a esse equilíbrio. os diretores tiveram de tomar uma decisão dura no meio do caminho: não mostrar todas as músicas que chegaram à final do festival. Escolheram as primeiras colocadas e, claro, a desclassificada. Seria impossível fazer um filme sobre a final de 67 e deixar de fora o violão quebrado por Sérgio Ricardo.
Para quem sentiu falta das apresentações de Elis Regina (“O Cantador”), Nana Caymmi (“Bom Dias”), MPB4 (“Gabriela”), Nara Leão e Sidney Miller (“A Estrada e o Violeiro”) e Jair Rodrigues (“Samba de Maria”), o DVD de Uma Noite em 67 traz todas essas as apresentações nos extras.
Claro, a edição dos extras é menos elaborada, mas os depoimentos deliciosos sobre as músicas aparecem lá de novo. E oO melhor vem em outra parte dos extras, nos “causos” recolhidos pela dupla de diretores durante as entrevistas. Não vou estragar a graça de quem não viu, mas há ao menos três histórias impagáveis: Chico Anysio destruindo “Ponteio”, Arnaldo Baptista com sua empolgação quase infantil contando como Rogério Duprat transformava suas imagens de desenho animado do Mutante em música no arranjo de “Domingo no Parque” e Paulo Machado de Carvalho explicando como nasceram os musicais da Record.
Nem tudo é perfeito. Por mais que a ideia seja boa, o reencontro dos torcedores no teatro hoje fica muito aquém da qualidade do resto dos extras. Na verdade, é o único momento em que os extras parecem sobras. Em todos os outros casos, a impressão é de mergulhar em um delicioso lado B.
Se o filme sozinho já era bom de ter em casa, com os extras se torna essencial.
Mais aqui no Estadão sobre Uma Noite em 67:
Era um, era dois, era cem e muitos mais na roda viva
Sexta assisti à estreia do show Zii e Zie, do Caetano Veloso aqui em São Paulo. Foi absolutamente maravilhoso, divino maravilhoso. A banda está estupenda e acho fenomenal que Caetano consiga ser mais roqueiro do que moleques com três vezes menos a idade dele. Digo isso porque foi um show de rock, isso pra quem entende que rock não é essa coisa estática, reacionária que os cultores do passado tentam preservar inventando todo tipo de cinto de castidade para os ouvidos. Bom, ainda com o show na cabeça, juntei as músicas que ele tocou numa lista e dei shuffle. Saiu assim:
1. A Voz do Morto – Os Mutantes
2. Irene – Caetano Veloso
3. Lobão Tem Razão – Caetano Veloso
4. Incompatibilidade de Gênios – Caetano Veloso
5. Volver – Carlos Gardel
Bom, também escrevi pra Folha sobre o show, quem tiver curiosidade de ler, está aqui o texto:
Pode até ter sido coincidência, mas fez todo o sentido estrear o show ‘Zii e Zie’ no Credicard Hall em São Paulo numa noite gelada de namorados, no meio de um feriado em que a cidade fervia com o fim da gestação da Parada do Orgulho GLBT.
Mais até do que no disco ‘tios e tias’, Caetano Veloso brinca o tempo todo com signos do masculino e do feminino durante o espetáculo. Em um jogo que funciona como um discurso político efetivo justamente porque se desprende de qualquer tentativa discursiva, de fazer uma política outra que não a do prazer. Esse embaralhamento de gêneros cresce no show em músicas do ‘Zii e Zie’, como ‘Tarado ni Você’ e ‘Menina da Ria’, só para citar duas com pólos trocados, até chegar ao ápice numa versão rascante de ‘Eu Sou Neguinha’, a última antes do bis, que teve ‘Três Travestis’, desta vez sem citar o Fenômeno do Corinthians.
Essa política privada do prazer passa também por tocar rock com a BandaCê e revisitar o projeto de modernidade do fim dos anos 60. A conexão é estabelecida já na primeira música do show, ‘A Voz do Morto’, e segue por ‘Não Identificado’, ‘Irene’ e ‘Maria Bethânia’, esta última dedicada ao dramaturgo Augusto Boal, que morreu no último mês de maio: ‘Foi em São Paulo que ele [Boal] fez o melhor de seu trabalho e Bethânia e eu aprendemos com ele’.
Dinâmica nervosa
Nessas músicas, a banda formada por Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo e Rhodes) e Marcelo Callado (bateria) se solta. É um contraste bem interessante com as composições de agora, bem mais cubistas, fraturadas, com uma dinâmica mais nervosa.
No show fica claro o quanto há de textura e uso inteligente do espaço nas composições do disco, quase todas no set list da estreia. É notável como elas alternam momentos de extrema contenção, em que há uma precisão milimétrica na distribuição dos acordes -similar a de um Battles, por exemplo-, com momentos de pura anarquia sonora: solos, feedback e Caetano deixando a frente para sumir no meio da banda.
Há uma evolução grande em termos de composição e sonoridade em relação ao ‘Cê’. Embora ‘Odeio’ esteja no repertório, o show mostra um Caetano que está acima do ódio virulento, muitas vezes rancoroso do disco anterior. Em ‘Zii e Zie’, o clima é de uma leve indecência, transgressora em sua aparente ingenuidade. No lugar da crise, está a liberdade e um bocado de solidão.
Para quem acha que a nova fase é roqueira demais, houve um tempero sábio na sexta: ‘Trem das Cores’, ‘Aquele Frevo Axé’, ‘Incompatibilidade de Gênios’, as lindas versões para o tango ‘Volver’, de Carlos Gardel, e para a guitarrada quase tecnobrega ‘Água’, de Kassin. Sem falar no final emocionante com ‘Força Estranha’, em homenagem a Roberto
Carlos.
Caetano
Dois sambas genuínos e uma discussão sobre o templo do samba carioca dão o tom dos lançamentos da semana. Do lado sambista, Max Sette e Moyseis Marques aparecem com seus segundos dicos, O que Passou e Fases do Coração, respectivamente. Do outro, Caetano Veloso canta Lapa, de seu novo álbum Zii e Zie. Uma coisa legal: no link do Max estão disponíveis seus dois discos pra download gratuito. Tudo certo, como dois e um são samba:
1. Ido Embora – Max Sette
2. Entre Os Girassóis – Moyseis Marques
3. Lapa – Caetano Veloso

O candidato republicano à Casa Branca John McCain tem usado como hino de campanha nada menos do que ‘Johnny B Goode’, de Chuck Berry. A idéia é surfar no ‘Go, Johnny, go, go’ do refrão. Bom, é bem difícil pensar no senador como um Johnny. Quando li isso fiquei imaginando o McCain no seu prom ouvindo a novíssima do Chu B pela primeira vez e torcendo o nariz para o som de preto. Afinal, republicano que é republicano não é lá muito chegado nessas coisas. Mas o mais divertido, segundo uma nota maldosa do Guardian de hoje, é que McCain justificou o uso da música com a seguinte pérola: ‘Deve ser porque ele foi o único que não reclamou de nós usármos’. Berry, claro, mais velho do que McCain e arrisco que bem mais lúcido, vota em Barak Obama. Nessas horas eu fico com o Caetano: ‘Política é o fim’.
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