
Muito se escreveu sobre o brilhante Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, sem dúvida um dos melhores documentários do ano, sucesso de público e crítica. Antes de mais nada, sou sim amigo do Ricardo, adoro o filme, mas asseguro que esse não é mais um dos famosos casos de “ação entre amigos” da imprensa.
Fã de MPB, nasci depois da era dos festivais, mas o assunto sempre foi vivo em família. Os musicais da Record, entres os eles o festival, sempre rondaram os papos daqueles encontros de domingo, um pouco baseado naquele discurso levemente reacionário de “bom mesmo era aquele tempo da Record…”. Se não vivi esse tempo ao vivo, em P/B, nunca perdia os reprises dos clássicos da Record e, já adulto, sempre mantive uma proximidade com o tema, principalmente atarvés da leitura. E, de tudo que li, recomendo A Era dos Festivais (Editora 34), do Zuza Homem de Mello.
Foi essa bagagem de curioso de segunda mão que levei para a estreia do filme, com um medo danado de não gostar ou de achar tudo meio déjà vu. Medo absolutamente infundado. Não só as imagens originais da Record foram hiper bem tratadas e causam um impacto tremendo na tela de cinema, como o coração do filme, as entrevistas com aqueles que tomaram parte no festival, foram conduzidas de forma a surpreender não só quem assistiu aos festivais na época, como quem acompanha de perto os movimentos dessa elite da MPB que desfila na tela. Não achava possível ouvir nada de muito novo de Caetano, Gil, Chico, até mesmo de Sérgio Ricardo. Quebrei a cara. Terra e Calil conseguiram arrancar “causos” deliciosos de seus entrevistados, e montá-los no filme com maestria. E é o equilíbrio entre as imagens originais e essas “causos” rememorados mais de quarenta anos depois é o que dá força ao filme.
Para chegar a esse equilíbrio. os diretores tiveram de tomar uma decisão dura no meio do caminho: não mostrar todas as músicas que chegaram à final do festival. Escolheram as primeiras colocadas e, claro, a desclassificada. Seria impossível fazer um filme sobre a final de 67 e deixar de fora o violão quebrado por Sérgio Ricardo.
Para quem sentiu falta das apresentações de Elis Regina (“O Cantador”), Nana Caymmi (“Bom Dias”), MPB4 (“Gabriela”), Nara Leão e Sidney Miller (“A Estrada e o Violeiro”) e Jair Rodrigues (“Samba de Maria”), o DVD de Uma Noite em 67 traz todas essas as apresentações nos extras.
Claro, a edição dos extras é menos elaborada, mas os depoimentos deliciosos sobre as músicas aparecem lá de novo. E oO melhor vem em outra parte dos extras, nos “causos” recolhidos pela dupla de diretores durante as entrevistas. Não vou estragar a graça de quem não viu, mas há ao menos três histórias impagáveis: Chico Anysio destruindo “Ponteio”, Arnaldo Baptista com sua empolgação quase infantil contando como Rogério Duprat transformava suas imagens de desenho animado do Mutante em música no arranjo de “Domingo no Parque” e Paulo Machado de Carvalho explicando como nasceram os musicais da Record.
Nem tudo é perfeito. Por mais que a ideia seja boa, o reencontro dos torcedores no teatro hoje fica muito aquém da qualidade do resto dos extras. Na verdade, é o único momento em que os extras parecem sobras. Em todos os outros casos, a impressão é de mergulhar em um delicioso lado B.
Se o filme sozinho já era bom de ter em casa, com os extras se torna essencial.
Mais aqui no Estadão sobre Uma Noite em 67:
Era um, era dois, era cem e muitos mais na roda viva
Hoje fiz um texto no Link falando da minha relação com o iPad e por que razão o considero o gadget do ano.
Para essa matéria, tinha preparado um guia de 30 apps legais. Como no papel só couberam as cinco melhores, aproveito para republicar aqui a matéria, com as outras 25 recomendações de apps, que não estão em ordem de importância. São todas legais.
Bom, começo pela capa do Link:
Presente aberto
O iPad é o presente do ano. Até os detratores do tablet da Apple têm de se conformar com o fato de que nenhum outro aparelho chamou tanta atenção em 2010.
O iPad é perfeito? Está longe de ser. Por outro lado, não existe hoje no mercado nada comparável a ele. Nem as cópias chinesas, tampouco os primeiros modelos de tablet com o sistema operacional Android, do Google.
Os números dão conta de explicar a parte mais superficial do fenômeno do iPad. A Apple registrou 3,7 milhões de iPads vendidos nos primeiros três meses de mercado. Diferentes analistas especulam que as vendas em 2010 devem ficar numa larga margem que vai de 5 milhões a 8 milhões de unidades.
Contudo, para entender mais a fundo o por quê de tanto sucesso, é preciso levar em conta outros dois fatores. As virtudes do produto em si e a questão cultural que envolve ter um iPad.
No meu primeiro mês com o iPad, escrevi aqui para o Link (na edição de 10 de maio) que o considerava altamente viciante. Vício, por definição, é algo que se pode largar com certa força de vontade. Não cogito a possibilidade de não ter um iPad comigo, ele tornou-se peça indispensável em meu cotidiano.
Quem saiu de cena foi o notebook. É uma mudança de hábitos enorme, feita sem traumas.
Se antes eu assistia a um programa na TV com o notebook na mão, hoje faço o mesmo com o iPad, com a vantagem de ele não esquentar e de ser muito mais leve. Isso quando o próprio iPad não substitui a televisão.
Raramente assistia a filmes e séries e lia livros ou revistas diretamente no notebook. Todo dia, gasto algumas boas horas lendo e assistindo a vídeos no iPad. E a bateria aguenta bem, quase sempre acaba no segundo dia de uso.
No fim de semana, o notebook sempre ficou meio de canto, principalmente em viagens. O iPad, mesmo quando estou em lugares ermos e sem conexão à internet, está sempre à mão.
Pesquisa pessoal: desde que comprei o iPad, levei o notebook a apenas uma reunião (faço muitas durante a semana). Comprei somente um livro em papel (mais de 20 no iPad) e não pisei mais em uma banca para comprar revistas importadas – fora que, com o preço de uma Wired vendida no Brasil, compro a revista e mais outras três no iPad.
Pontos fracos
O iPad é ruim para escrever textos longos, mas isso é facilmente resolvido com um teclado Bluetooth.
O que não quer dizer que não haja muito para ser aprimorado. O ponto crítico é o backup, que demora horas quando há muitos apps baixados. Fora que não custava ter uma câmera – não para tirar fotos, mas para usar o Skype – e uma entrada USB.
O Bluetooth poderia ser menos policiado. Aliás, a polícia do software da Apple poderia largar de ser rígida e liberar conteúdo adulto.
Mas sou otimista em relação ao futuro. Pelo menos na parte técnica, a Apple deve ouvir os consumidores. E arrisco dizer que, depois do iPad, o seu próximo notebook será um tablet.
Truque permite comprar no iTunes
Como não dá para esperar que o nó górdio dos diretos autorais que emperra a entrada mais pesada da loja do iTunes no Brasil seja resolvido tão cedo, é preciso ter uma conta americana para aproveitar ao máximo o iPad.
Só assim dá para alugar filmes, comprar séries e longa metragens, músicas, livros, revistas e alguns aplicativos. Como o iPad é uma central de entretenimento pessoal, sem acesso ao que a Apple oferece de produtos culturais o uso do tablet fica sem graça.
Para criar uma conta americana sem um cartão de crédito emitido nos EUA, é preciso usar gift cards (cartões de presente) da Apple. Esses cartões são vendidos nas lojas da Apple, mas alguns sites disponibilizam o número do cartão por e-mail, cobrando um certo ágio pelo serviço. É o caso do BraziliaPilot.com, que, inclusive, aceita pagamento via Pay Pal, mais seguro do que dar diretamente o número do seu cartão de crédito.
Para usar o gift card é preciso ter uma conta americana. Você pode criá-la de maneira simples. Fazendo uma nova conta na Apple, sem informar o número do cartão de crédito e preenchendo o campo de endereço com um local que exista nos EUA.
Não deixe de fazer esse truque antes de sincronizar o iPad com o seu iTunes, pois se resolver trocar a sincronização do iPad com uma determinada conta, vai perder todos os aplicativos já baixados até então.
TOP 5 APPS
1. Flipboard
Transforma seus feeds de Twitter e Facebook em uma “revista social”. Grátis.
2. Wired
A revista entendeu bem rápido a graça de fazer uma revista multimídia no iPad. US$ 3,99 por edição.
3. Marvel Comics
O iPad parece ter sido criado para ler gibis, e os da Marvel são indispensáveis. O app é grátis, as revistas saem por US$ 1,99.
4. Kindle
O app do e-reader da Amazon é correto para ler, mas o que faz a diferença é o acervo da loja. Grátis.
5. Air Video
Faz streaming pela sua rede interna ou pela web dos vídeos que estão no seu computador para o iPad. US$ 2,99.
GAMES
É o jogo de corridas multiplayer mais realista pro iPad. Dá para jogar junto com o iPhone. US$ 9,99
Hockey de mesa, daqueles de área de brinquedos de shopping, para jogar sozinho ou com um amigo. Grátis.
Joginho viciante, primo do FarmVille para iPad, em que você maneja o dedo de Deus para popular e fazer mundos crescerem. Grátis.
O jogo é manjado: você tem de colocar a bolinha no buraco, evitando obstáculos. Mas é viciante no iPad. US$ 7,99
Outro jogo de iPhone que melhora no iPad, onde você ganha espaço para se defender do exército inimigo. US$ 2,99
Ok, esse jogo de aventura é um clone de Diablo, mas a diversão compensa a falta de imaginação. US$ 6,99
O passarinho voador que já é um clássico do iPhone fica mais legal numa tela grande. US$ 4,99
Jogo de estratégia que existia para iPhone melhora muito com o espaço de tela do iPad. US$ 12,99
Para quem sabe bem inglês, esse jogo clássico de palavras cruzadas no tabuleiro fica perfeito no tablet. US$4,99
Faça todos os aviões pousarem em segurança, se for capaz. Agora com modo multiplayer online. US$ 4.99
MÍDIA
A revista usa a mesma plataforma da Wired, mas entrega textos longos e brilhantes semanalmente. Grátis para baixar, 4,99 a edição.
Recém chegada ao iPad, a melhor revista semanal de economia não é inovadora, mas o conteúdo a faz essencial. App grátis, US$ 5,99 por edição.
Uma das primeiras revistas a chegar ao iPad, é uma das que melhor explora o visual. US$ 4,99 por edição
A tradicional revista feminina americana tem uma edição digital simpática, boa para as matérias de moda, sempre com complementos legais em vídeo. US$ 3,99 por edição
O jornal desenvolveu um aplicativo próprio, que mescla tempo real e material multimídia com uma edição das melhores histórias do dia. Trial grátis, em fevereiro ficará só para assinantes.
O jornal economic britânico tem um desenho inovador e traz o melhor equilíbrio entre web, papel e multimídia entre os jornais. Assinatura a partir de US$ 21,98 por mês
A app para iPhone que grava páginas da web para ler depois está mais bem acabada no iPad. US$ 4,99
Para quem gosta de fotos, essa app traz a imagem do dia do jornal britânico The Guardian, com dicas dos fotógrafos do jornal. Grátis.
A Wikipedia funciona bem no Safari, mas esse app deixa o acesso à enciclopédia mais organizado. A versão gratuita é suficiente.
Outro app matador para quem gosta de imagem. Explore pelo site de fotos Flickr, aproveitando ao máximo a tela do iPad. Grátis.
ÚTEIS E CURIOSAS
Uma ferramenta bacana de interação entre estudantes e professores, onde podem ser trocadas ideias, criados blogs e passadas notas. Grátis.
Para quem curte astronomia, mas não é fera no assunto, essa app cria seu planetário particular. Ganhou prêmio no Design Awards da Apple. US$ 4,99
Para perder horas a fio criando quadradinhos que disparam diferentes sons de acordo com a dispersão e interação das ondas sonoras. Grátis.
Para quem quer usar o iPad para escrever, Pages é a melhor solução de editor de texto. Se quiser escrever textos longos, compre também um teclado. US$ 9,99
App perfeita para ara desenhar, coletar imagens e, se você curtir design, organizar sua vida visual. A versão gratuita é bacana, mas a paga, de US$ 4,99, é mais legal.
Quer saber mais? Leia meu primeiro texto sobre o iPad.
Peter “Sleaze” Christofersson morreu no último dia 24, na Tailândia, onde morava nos últimos anos. Membro original do Throbbing Gristle, Sleaze foi fundador também do Coil e do Psychic TV. Seu projeto mais recente era The Threshold HouseBoys Coir, um coral gerado por computador. Além de músico e agitador e ativista gay, Sleazy era um excelente videomaker. Por isso, minha homenagem a esse brilhante criador vai na forma de uma seleção de 5 vídeos:
A colaboração entre o ex-baterista do Soft Machine Robert Wyatt, o saxofonista Gilad Atzmon e o violinista Ros Stephen vai bem além do usual. For the Ghosts Within não foi gravado de uma vez, com os músicos discutindo ao vivo os arranjos. O processo para registrar os sete standards e as quatro composições originais do disco foi bem peculiar. Só, Stephen gravou as cordas, o baixo e o vocal guia. A bola foi passada para Wyatt, que adicionou percussão, trompete e a voz principal. Atzmon terminou o serviço: gravou os instrumentos de sopro, as madeiras, acordeon e adicionou texturas eletrônicas. Essa não é uma prática nova. Filesharing, disco colaborativo pela web do Laub, inaugura esse modelo em 2002. O que espanta é o refinamento alcançado pelo trio. Nas composições próprias, há uma mistura de jazz, folk, música do Oriente Médio e até um cheiro de hip-hop. Mas o ouro está nos clássicos. As versões de “Laura”, “Lush Life”, “Round Midnight” e “What”s New” valem o álbum.
JAZZ
WYATT, ATZMON, STEPHEN
FOR THE GHOSTS WITHIN
Domino
Preço: US$ 12 (Amazon)
Para ouvir:
A Domino disponibiliza “Laura” para download.
Em 2008, fiz um podcast sobre o Robert Wyatt, ouça em streaming aqui embaixo ou baixe no www.discofonia.com.br.
Download Discofonia 74 – Robert Wyatt
Extrato para simples conferência: capturado toscamente no iPhone, o fim da papresentação do Metal Machine Trio (Lou Reed, Ulrich Kireger e Sarth Calhoun), no sábado, no Sesc Pinheiros. Para os iniciados em noise e improv, foi sensacional. Em alguns momentos, chegou até a ser delicado, mas com aquele peso iconoclasta quase adolescente que me fez gostar ainda mais do Lou Reed por reler o passado em vez de apenas reproduzi-lo. Let it be…
Para não chover no molhado, aqui está a matéria publicada hoje no Caderno 2, escrita pelo Jotabê Medeiros:
Depois de 16 anos sem gravar, a seminal banda do pós-punk Gang of Four acaba de lançar um EP de três músicas. As novas canções farão parte do álbum Content, previsto para o ano que vem. O EP vem com uma nova versão para “Glass”, lançada originalmente no disco de estreia da banda, Entertainment, uma fresquinnha (“Sleeper”) e um remix de “I Party All the Time”, do Content.
A banda colocou um link para download do EP no Guardian. Para baixar, basta deixar o endereço de email. Não dói.

Nesta semana fiz uma participação no podcast do Wagner Brito, o Radiobla, e montei um playlist com algumas das músicas mais legais que ouvi no ano. Ficou gigante, uma hora e meia de música e conversa, mas é bem divertido. Valeu pelo convite, Wagner.
Vamos às músicas:
1. “Menopause Man” – Ariel Pink’s Haunted Graffiti
2. “Odessa” – Caribou
3. “Fountain Stairs” – Deerhunter
4. “New York Is Killing Me” – Gil Scott-Heron
5. “Read the Books” – Jahcoozi
6. “Younger US” – Japandroids
7. “The Apart Meant” – Josiah Wolf
8. “Drunk Girls” – LCD Soundsystem
9. “Hospice Gates” – Lower Dens
10. “I’m Gonna Make It Better” – She & Him
11. “I Want to Be Well” – Sufjan Stevens
12. “Solitude Is Bliss” – Tame Impala
13. “Beautiful People” – The Books
14. “Sorrow” – The National
15. “VCR (Four Tet Remix)” – The XX
16. “Falling Down a Mountain” – Tindersticks
Download Ouça o Radiobla #64 com o Discofonia
PS: a foto que o Wagner usou pra ilustrar o podcast – e que mostra o quanto sou bagunceiro - é de uma matéria da Trip de 2008, em que toda a redação da revista trabalhou em casa para fazer uma edição. Ela foi tirada pela Renata Mein.

Preciso confessar. No mais íntimo, ainda sou um deadhead, embora ouça pouco Grateful Dead no dia a dia. De vez em quando eu tenho de parar tudo e ouvir o American Beauty, mas essa é outra história. A de hoje é que o show antológico do Grateful Dead no Fillmore West em agosto de 1968 está disponível para ouvir (e até para comprar) no Wolfgang’s Vault, site que tem a coleção de gravações dos dois Fillmore direto da mesa de mixagem. Deixo abaixo uma versão de “Dark Star”, para ouvir em streaming. Nesse show, a formação da banda é a seguinte:
Ron “Pigpen” McKernan – vocais, gaita, percussão
Jerry Garcia – guitarra, vocais
Bob Weir – guitarra, vocais
Phil Lesh – baixo, vocais
Tom Constanten – orgão
Bill Kruetzman – bateria
Mickey Hart – bateria, percussão
Listen to more Grateful Dead at Wolfgang’s Vault.
O Klingt.org, site austríaco mantido pelo turntabalist vienense Dieter Kovacic (foto), mais conhecido como Dieb13, é um site bastante simples, de visual retrô, um site para passar batido não fossem os tesouros que ele guarda. São dez anos de improvisação à disposição dos internautas mais intrépidos, de graça. Para quem gosta de música improvisada (do jazz adiante), o Klingt (sons, na tradução do alemão) traz uma seleção fantástica de gravações de mais de 80 improvisadores austríacos e alemães como Los Glissandinos, Burkhard Stangl, Martin Siewert, Radu Malfatti e Christian Fennesz, entre outros.
Além de disponibilizar mais de 500 gravações, o Klingt ainda serve como uma espécie de hub para páginas mantidas por artistas independentes. Eu me perdi por lá desde que li uma notinha na revista The Wire deste mês. No meio dessa discussão sobre futuro da música, é legal ver que práticas como essa mantêm vivo o espírito comunitária que esse tipo de música mais esotérica precisa para sobreviver com criatividade.
Como o Romulo Fróes fez uma introdução e acho que parte da resposta à pergunta já está aqui. Coloco como uma espécie de prefácio a seu texto:
Guilherme meu caro, perguntinha difícil essa feita por você. Mesmo porque, se tivesse a resposta já a estaria pondo em prática, na tentativa de realizar meu desejo de hoje, que é viver tão somente da minha música. Nunca fui de antecipar o futuro, de perceber as coisas antes do seu acontecimento, me vejo mais como alguém que organiza o presente e procura traduzí-lo para o maior número de pessoas que conseguir. Papel que me pus a desempenhar por achar extremamente necessário comunicar ao mundo a existência de uma das mais brilhantes gerações da música popular brasileira. E que por muitos motivos permanece ainda, a meu ver mais do que devia, uma geração anônima. Motivos estes que tento decifrar nesse artigo abaixo, escrito há algum tempo atrás. O que posso dizer, é que, desde que o escrevi, muito mais gente passou a conhecer estes novos artistas e seu público cresce cada vez mais. Não sei quanto ao futuro do negócio da música, mas quanto ao futuro da nossa música, já está acontecendo e é animador! O resto é o resto. Lá vai o texto:

Foto: Liliane Callegari
Caminhando para o fim da primeira década do século XXI, já é possível identificar um traço comum entre os artistas surgidos na música brasileira a partir dos anos 2000? Será esta uma geração de artistas à altura de nossa tradição? Perguntas como estas já circulam por aí e demonstram que ainda figura um desejo de organização de um tempo, em que se consiga reunir argumentos para qualificar para o bem e para o mal, determinada época. Neste caso, além de compreender a unidade década, há ainda o agravante de ser esta a primeira de um século que se inicia, o que a faria ser comparada também ao conjunto de todas as outras do século anterior, numa espécie de partida injusta de dez contra um.
A geração atual de artistas da música brasileira surgiu ainda no século passado, em meio a uma profunda transformação, atrelada a uma iminente falência da indústria musical. Mais do que por novos modelos de difusão ou comercialização, ela foi moldada por um novo modo de produção musical. Até o começo dos anos 1990, o caminho para um artista chegar ao disco era muito difícil, pra não dizer quase impossível, se pensarmos que o filtro criado pelas grandes gravadoras para a produção de um disco era, antes de tudo, econômico. Com raríssimas excessões, eram elas que detinham os meios de gravação. Uma vez que esses meios se democratizaram, passou a ser possível a qualquer artista gravar seu próprio trabalho, elevando a produção de discos, ao menos no que se refere ao seu registro fonográfico, a patamares nunca antes imaginados. Todo artista agora podia ter seu disco e surgiu uma nova figura, a do artista-produtor. É claro que existiam anteriormente artistas-produtores, mas a noção de produção passava muito mais pelo âmbito estético do que técnico, pertencia mais ao campo abstrato das idéias do que na matéria real da obtenção da melhor captação, ou na escolha certa dos microfones e amplificadores. Isso era para os técnicos, que afinal estavam a serviço do artista.
O artista de hoje produz seu disco, porque afinal conquistou essa liberdade e também porque, em última instância, é a única maneira de fazê-lo. Por isso seu conhecimento de todas as etapas de uma gravação, da captação à edição, e chegando mesmo até à fabricação do disco. Verdade que, à príncipio, tal processo se deu de forma muito precária, uma vez que ainda não se dispunha de grandes recursos técnicos, na época pouco acessíveis, e tampouco se havia adquirido a experiência do novo ofício.
Com o avanço da tecnologia, a experiência e o acesso a novos recursos de gravação, abriu-se aos artistas um novo vocabulário de produção artística, a meu ver inédito na música brasileira. É muito comum hoje um jovem artista falar de seu trabalho mais do ponto de vista técnico do que das questões artísticas de sua obra, isso se encararmos como coisas desligadas uma da outra. Não raro, um leigo se depara no depoimento de um novo artista, com termos que parecem pertencer a uma nomenclatura de ficcão científica. E isto não é pouca coisa, se pensarmos que grandes artistas de nossa música nunca pensaram no som que teriam seus discos, acreditando única e exclusivamente no poder de sua música. Ou ainda, se pensarmos em artistas como Tim Maia e Caetano Veloso, que no início de suas carreiras, mesmo sabendo exatamente o “som” que queriam em seus discos, sempre se disseram frustrados por não consegui-lo, simplesmente por não saberem até então se comunicar com os técnicos. É um fato relevante, pra não dizer histórico, que aconteça de novos artistas se envolverem profundamente com o processo de gravação, tendo mesmo um interesse verdadeiro por seus aspectos técnicos, ainda que ironicamente, muitas vezes se valham de experiências acontecidas no passado, em discos gravados, por exemplo, nas décadas de 1960 e 1970. Vintage é uma palavra adorada por estes jovens artistas. Seus instrumentos, microfones, captadores, pré-amplificadores, pedais e tudo o mais têm de ser vintage, porém seu comportamento, suas cabeças, suas crenças, estas, estão no presente.
Pois depois de aprendidas “as manhas” da produção, ainda era preciso aplicar esse aprendizado à criação. Sim, porque antes uma grande canção mal gravada do que uma bobagem de altíssima qualidade sonora. E seguindo a máxima de que a quantidade gera qualidade, acho que a contribuição destes novos artistas para a música brasileira começa a ganhar forma. Há muito tempo não se via tantos artistas com trabalhos tão diversos e com tamanha qualidade quanto agora. Talvez a palavra novo, tão desgastada por seu uso, não seja aplicável ao que vêm fazendo, mas sim ao modo “como” vêm fazendo. Já não é mais possível abarcar o Brasil, como fizeram por exemplo os Tropicalistas. Não só todo o vocabulário incluído por estes em sua música como a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a sexualidade, a tecnologia e tudo o mais, ainda está em voga, como ainda outros tantos verbetes surgiram e continuam a surgir todos os dias. Daí o conceito de novidade já nascer datado. É com a Internet, esta ferramenta que mudou nossa percepção de mundo, onde se deparam a toda hora com tudo, quero dizer “tudo” que já foi dito, pensado e vivido por todos, no passado, no presente e às vezes parece que até no futuro, que os artistas de hoje produzem. E se eles se fartam dessa nova ordem, a carga de influência que sofrem é tamanha e tão diversa, que talvez seja impossível a formação de um “novo” pensamento sobre música popular brasileira hoje e talvez não seja mesmo mais tão necessário. O que é necessário ainda e sempre, é que se produza arte boa, mesmo que esta tão somente revele as influências de quem a criou.
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