
Eu, como imagino que grande parte das pessoas que gostam de música, fico muito feliz com o Brasil ter finalmente se consolidado como um ponto relevante na rota dos shows internacionais. E também como boa parte das pessoas que vão a show e gostam de música, sempre tive aquela sensação de que antes era bem mais barato assistir a um grande show. Mas nunca pensei muito sobre o assunto e muito menos fui atrás de processar essa informação. Durante uma reunião hoje, conheci um trabalho fantástico que o Edmundo Leite fez no blog vizinho Memória, gente, lugares. Ed teve uma sacadabrilhante: usar o preço do jornal como unidade de medida para transportar o preço dos shows passados para valores corrente. Fez isso com vários shows antológicos. O resultado me deixou sem fôlego e agora com a certeza de que, sim, o mercado de shows cresceu muito, mas muito mesmo, acima da inflação. Clique neste link para ver a série histórica montada pelo Edmundo Leite.
Ok, este blog é primordialmente sobre cultura. Mas como a exceção é também um ato de resistência cultural, começo fugindo da pauta para falar de crianças, cadeirinhas e poder público.
A implementação da resolução do Conselho Nacional de Trânsito que obriga o uso de cadeirinhas para carros por crianças de até sete anos e meio suscita muitas dúvidas sobre a inteligência de quem a está aplicando. Sou absolutamente favorável ao uso de cadeirinha por crianças, mas absolutamente contrário a essa resolução. E sobretudo à maneira que o jeitinho brasileiro se aplica a sua implantação e fiscalização. Dou cinco motivos para defender minha posição.
1) Essa é uma resolução que passa ao largo de uma questão econômica. A cadeirinha é um item muito caro para exigir da população sem nenhuma contrapartida do Estado ou exigência para as montadoras.
Não fiz uma pesquisa profunda, mas usando três sites diferentes de compras online e comparação de preços (Buscapé, Bond Faro e Mercado Livre) constatei que a cadeirinha mais barata saia por R$ 89,00. E não serve para bebês. Das para bebês, a mais barata custa R$ 140. Cadeirinhas de marcas realmente boas não são vendidas por menos de R$ 500 em São Paulo, algumas batem a barreira dos R$ 1.000. E aqui não vale o fetiche pela marca. Marca boa quer dizer segurança e conforto melhores, o que você procura na hora de comprar um equipamento que é, no fim das contas, de segurança. Mesmo considerando o valor de R$ 90 como o mais baixo, é bastante caro para o grosso da população brasileira, ainda que se considere só a parcela formada pelas pessoas que têm carro.
Se a cadeirinha passa a ser um item que têm de ser usado, é justo que o Estado subsidie para as pessoas com menor renda. Ou, se esse raciocínio parece esquerdista demais, tire o Estado da jogada e empurre a conta para as montadoras. Carros têm de vir de fábrica com regulagens de cinto diferenciadas para atender crianças maiores e acentos assentos para crianças pequenas. Dessa forma contorna-se um problema da resolução que é ser, ao fim e ao cabo, elitista. Ou é coincidência o fato de as blitze se concentrarem em bairros pobres?
2) A permissão para colocar a cadeirinha no banco da frente.
Quem já comprou uma boa cadeirinha sabe. Todo fabricante sério coloca uma advertência para não instalar as cadeirinhas no banco da frente, por conta dos riscos de acidente. O Contran, tão preocupado com a segurança das crianças, propõe essa barbaridade para quem tem três filhos ou mais. É quase uma norma malthusiana.
3) Táxis estão livres da obrigação do uso da cadeirinha.
Nas blitze do feriado, os policiais apreendiam os carros de quem não estava com cadeirinha e orientavam os passageiros irregulares a pegarem um táxi. Ah, entendi a diferença. Táxi não é carro. Ou será que o lobby dos taxistas é mais forte do que o da cadeirinha?
4) Idade versus altura
Quando falamos de cadeirinha e segurança, está implícito que se trata de um problema de física. A cadeirinha protege aqueles que não têm tamanho para usar cinto de segurança. Não seria o caso de fazer um corte por altura e não por idade? Ia achar divertido ver policiais trocando os cacetetes pela fita métrica.
5) Mais um espacinho para a cervejinha do guarda
Sete pontos na carteira e multa de R$ 191,74 reais (mais cara do que o preço da cadeirinha furreca) são um prato cheio para estimular a corrupção policial. Ops, esqueci da presunção de inocência da polícia. Estamos na Suíça, e a polícia tem um longo histórico de idoneidade.
Por algum tempo, segui à risca a política pessimista do suspensório e cinto. Mantinha cá este blog como um espelho do Discofonia na Trip. A partir de agora, decidi abandoná-lo. Tava ficando meio maluco de manter ativo este WordPress, o podcast no Libsyn (www.discofonia.com) e o Discofonia na Trip, mesmo sendo igualzinho a este. Por isso, se você vê o Discofonia por aqui, troque nos favoritos por: http://www.trip.com.br/blogs/discofonia
[]s
Este trabalho de Mike Maxwell é um dos que estão à venda no site da nova galeria de arte Friends & Co, em Bristol. Neste ponto você pode perguntar sem pudor: e eu com isso? Bom, o que essa galeria tem de diferente não é nem tanto a arte – a despeito de ela colocar à venda vários trabalhos bacanas em seu site. O que faz ela ocupar este espaço é o fato de seu dono ser Geoff Barrow, do Portishead. Depois de anos de silêncio, parece que 2008 foi um ano agitado para ele.

…Em todos os sentidos, é John Lennon, The Life, escrita por Philip Norman, o mesmo autor de Shout. Depois de muito levantamento de peso, terminei de ler neste fim de semana esse pequeno tijolo. O livro é mais saboroso ao narrar o começo da vida do Beatle, até porque é aí que as outras biografias dispononíveis tanto sobre John quanto sobre os Beatles mais pecam. A sensação é que, depois de Shout, o melhor livro sobre os fab four, Norman conseguiu credenciais para acessar todas as pessoas importante que conviveram com John Lennon.
O ponto mais polêmico, por incríveal que pareça, não tem nada a ver com Paul McCartney, com Yoko Ono ou com os Beatles. Norman afirma que John tinha tesão pela mãe, Julia, e queria transar com ela quando tinha 14 anos. Mais do que isso, essa seria uma obsessão que o acompanharia por toda a vida.
Ao longo do livro, conforme John vai fazendo sucesso, a biografia deixa uma sensação um pouco incômoda de ter sido escrita não por um jornalista, mas por um fã. Embora Norman não deixe de retratar toda a insegurança de John e boa parte de sua escrotidão e egocentrismo. Apesar dos momentos tiete, John Lennon, The Life é um trabalho minucioso e fala da música de Lennon com propriedade. Confesso que tive preguiça de ler sobre Lennon no começo – não sou um beatlemaníaco – mas nas últimas semanas não consegui largar o livro.

Antes de mais nada, quero dizer que gosto bastante do repórter da Folha Thiago Ney, mas de vez em quando ele escreve umas coisas na coluna Conexão Pop da Ilustrada que me deixam perplexo. Acredito que eu e alguns fãs do Bob Dylan tenhamos o mesmo problema. Então, de antemão, peço desculpas para discordar hoje do amigo e trazer a público algumas diferenças de ouvido. O caso é o uso de um expediente, ou melhor, um de um ardil crítico que me incomoda bastante.
Para falar das carreiras solo dos dois principais hermanos, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, ele precisa opor os dois trabalhos de forma um tanto apressada e descer a lenha no disco “Sou”, de Camelo. Para os assinates da Folha e do Uol, é possível ler a coluna do Thiago clicando aqui. Para o resto do mundo, resumo. Diz ele: “‘Nós’, disco de Camelo, beira o insuportável. O que o Los Hermanos tinha de pior – a inútil idealização de uma época que não volta mais; a melancolia auto-indulgente, letras tão idílicas que fariam João Gilberto passar por contestador; arranjos que vão na direção do samba-canção e da tradição MPBística, que tateiam sem chegar a lugar nenhum”. Esse horror todo, enquanto Amarante traz um “clima de total descontração, com músicas que caminham com naturalidade pelo reggae, pelo pop californiano dos anos 60, com algumas paradas para retoques psicodélicos.”
Não ficaria tão incomodado se não visse qualidade no que o Thiagão critica, embora discorde também do conteúdo formal da crítica. O que o disco de Camelo tem de mais interessante é justamente a atualização da tradição, é o poder de beber da boa música brasileira sem deixar de inovar, principalmente nos arranjos, fazendo com que ela soe revigorada e faça sentido nos nossos tempos. Ao usar as tecituras de guitarra do Hurtmold, com suas texturas delicadas, obviamente calcadas nas dissolução do power chord do pós-rock, dialoga com uma outra visão de música, que considero bastante desafiadora e ainda atual e válida. E não é só isso que “Sou/Nós” traz. A beleza do piano de Clara Sverner, por exemplo, que toca territórios brasileiros com uma sutileza de um Eric Satie também são pontos altos. Até quando Camelo usa a forma extremamente carioca da marchinha, com seus metais ensolarados, mostra como é bom não esquecer do passado para olhar o mundo de hoje.
Um fã de reggae e de música pop sessentista pergunta: por que o pop californiano dos anos 60, a psicodelia e o reggae de Amarante são necessariamente melhores? Não seriam também outras leituras de outras tradições, igualmente antiquadas? Por que a melancolia não pode ser equiparada à descontração?
Sempre achei que o que fazia do Los Hermanos a banda pop brasileira mais importante depois da Nação Zumbi era justamente o encontro do pop mundial com a tradição brasileira, além das ótimas letras tanto de Camelo quanto de Amarante. Era um privilégio, numa geração tão carente de bons letristas, ter essas duas figuras juntas escrevendo música.
Agora, separados, os dois lançam trabalhos excelentes, cada um a seu modo. Quando li a crítica do Thiagão nesta manhã, lembrei-me de uma declaração que me foi dada há muitos anos pelo violonista André Geraissati. Falando de suas influências, ele citava os violonistas da bossa Paulinho Nogueira e Baden Powell, e dizia que a diferença era que Paulinho era a lua e Baden o sol. Nunca mais consegui ouvir um afro-samba sem tomar um banho de sol. Acho que a comparação de Geraissati serve bem aos dois hermanos. Camelo é lua, Amarante, sol. E, pensando em termos astrofísicos, é mais comum eles conviverem bem em lindos fins de tarde do que serem eclipsados um pelo outro.
Outra comparação que me deixou bastate perplexo foi a com João Gilberto. Goste ou não do violonista mais inovador deste país, é de uma injustiça terrível usá-lo como exemplo em termos de letras. A temática do “Amor, o sorriso e a flor” da bossa-nova não é obra de João Gilberto, que pouco se arriscou a escrever letra de música. Seu talento de letrista está em coisas como as ultra-contidas “Bim Bom” e “Undiú”. João era um modernizador do samba, da batida no violão. Culpe pelas letras, se for o caso, Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Newton Mendonça… De qualquer forma, as letras de Camelo, não menos auto-indulgentes que as do Morrissey, para entrar no terreno do pop, e têm uma qualidade indiscutível. E o cantar “desafinadamente” tradicional de Camelo as deixam ainda mais emocionates, em nenhum momentos enjoativas, ou insuportáveis.
Só dou um desconto porque certamente eu e meu amigo Thiago andamos por desertos bem diferentes. Ele está à espera do Oasis para ouvir o melhor disco do ano. E gosto de areia movediça. Mas, pera aí, Oasis não era aquela banda dos anos 90 que desenterrou o barbeiro do John Lennon?
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Desta vez, ela não bateu em nenhum fotógrafo, mas alguma coisa no sol que mal se põe na Islândia no momento fez a Björk sair do sério com a imprensa de música. Até o site Pitchfork, citado por ela mesma como sério, não se livrou da paulada. Basicamente, ela reclama em seu site oficial de gente que leva os créditos por seu trabalho. Depois que um jornal islandês creditou Valgeir Sigursson como produtor de Vespertine, a apimentada islandesa resolveu descascar a imprensa de música. Quem sabe como são feitas as salsichas vê logo que ela tem certa razão. Mas elevar esse fato a uma conspiração contra as mulheres que produzem música eletrônica é um pouco demais. Entre as quatro hipóteses que ela levanta sobre o erro de crédito, vem essa pérola:
“Pode ser que seja um certo grau de sexismo. M.I.A. teve de lidar com o respeitável site pitchfork.com quando eles assumiram que Diplo tinha produzido todo o seu disco Kala sem ler nenhum crédito, deveria ser, não podia ter sido a M.I.A ela mesma. Parece que ainda hoje, depois de todos esses anos, as pessoas não imaginam que uma mulher possa escrever, arranjar e produzir música eletrônica. Tive essa experiência muitas e muitas vezes, quando o que eu faço no computador é creditado a qualquer homem que esteja a 10 metros de raio durante o trabalho. As pessoas parecem aceitar que as mulheres conseguem cantar e tocar quaisquer instrumentos que elas sejam vistas tocando, mas elas não podem programar, arranjar, produzir, editar ou escrever música eletrônica.”
Veja a íntgra da nota da Björk em inglês:
Não sou muito de prêmios e concursos, e acabei relutando em me inscrever para o Prêmio Podcast 2008. Principalmente porque acho que o Discofonia é um podcast supersegmentado, que diz mais ao meu umbigo que ao mundo. Até por isso, nestes últimos anos tem tido seu público fiel. Só me increevi mesmo porque o prêmio é organizado por uma grande figura, o Eddie Silva, que também está nessa história de podcast desde o começo, quando não éramos mais do que punhado malucos testando uma nova tecnologia. Agora o podcast tá ficando grande. Da lista de inscritos eu não conhecia nem a metade. E olhe que organizei o diretório de podcasts do Link, no Estadão, por quase dois anos. Bom, à vaca fria: quem curte o Discofonia pode votar clicando aí embaixo ou na página do podcast.
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Fiquei meio receoso de cometar a batalha dos iPods entre os candiatos à Presidência dos EUA, proposta pela revista Blender. Mas, hoje, de novo, me deparei com a lista e ela me causou uma certa irritação. Não só com o fato de imaginar John McCain cantando Abba no karaokê da Casa Branca ou com Barak Obama fazendo pose de cool ao indicar Fugees e Kanye West. O que me irrita é esse tipo de matéria, cujas questões são claramente preenchidas pela equipe de imprensa dos candidatos, de olho no eleitor. Por quantos focus groups essas listas não passaram? Reportagem mesmo seria ver, de verdade, os iPods dos dois. Mas, cá entre nós, será que eles tem mesmo um iPod?
De qualquer forma, aí vão as listas, para quem não viu ainda:
BARACK OBAMA
1. Ready or Not Fugees
2. What’s Going On Marvin Gaye
3. I’m On Fire Bruce Spingsteen
4. Gimme Shelter Rolling Stones
5. Sinnerman Nina Simone
6. Touch the Sky Kanye West
7. You’d Be So Easy to Love Frank Sinatra
8. Think Aretha Franklin
9. City of Blinding Lights U2
10. Yes We Can will.i.am
JOHN McCAIN
1. Dancing Queen ABBA
2. Blue Bayou Roy Orbison
3. Take a Chance On Me ABBA
4. If We MakeIt Through December Merle Haggard
5. As Time Goes By Dooley Wilson
6. Good Vibrations The Beach Boys
7. What A Wonderful World Louis Armstrong
8. I’ve Got You Under My Skin Frank Sinatra
9. Sweet Caroline Neil Diamond
10. Smoke Gets In Your Eyes The Platters
Li hoje no G1 uma matéria divertida sobre listas de melhores discos de todos os tempos. Sim, as listas voltam de tempos em tempos. A diferença dessa para tantas outras é a fórmula maluca que o blogueiro Robert, do Y!Radish, encontrou para justificar suas escolhas. Olha só: valor do poder de durabilidade (ou quanto vale no sebo)+ cópias vendidas + sucesso entre a crítica + quantidade de prêmios conquistados no Grammy. Vixe, o monstrinho saiu assim: 20. “Faith”, George Michael 19. “Appetite for destruction”, Guns ‘N Roses 18. “Purple rain”, Prince 17. “Houses of the holy”, Led Zeppelin 16. “Born in the USA”, Bruce Springsteen 15. “Nevermind”, Nirvana 14. “Van Halen”, Van Halen 13. “Rumours”, Fleetwood Mac 12. “The wall”, Pink Floyd 11. “The Joshua tree”, U2 10. “Metallica – The black album”, Metallica 9. “Led Zeppelin”, Led Zeppelin 8. “Hotel California”, Eagles 7. “The Beatles – The white album”, Beatles 6. “Led Zeppelin IV”, Led Zeppelin 5. “Abbey road”, Beatles 4. “Physical graffiti”, Led Zeppelin 3. “Thriller”, Michael Jackson 2. “Dark side of the moon”, Pink Floyd 1. “Songs in the key of life”, Stevie Wonder Claro, gosto de muitos desses discos, mas no meu top 20 pessoal nenhum deles entra…
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