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Guilherme Werneck

08.janeiro.2007 16:42:08

Bicicletas brancas

Na Holanda nos anos 60, os Provos começaram a pintar bicicletas de branco. Essas bicicletas ficavam nas ruas e podiam ser usadas por quem precisasse e tivesse vontade. No começo, era uma idéia genial, libertária e anarquista. No final, as bicicletas eram roubadas e repintadas. Essa trajetória do sonho ao pesadelo diz muito sobre os anos 60, e não é à toa que Joe Boyd usou a figura das bicicletas brancas holandesas para dar título ao seu livro de memórias do período.

White Bicycles – Making Music in the 60s foi o livro de música mais interessante que eu li durante as férias. É uma autobiografia, mas, mais do que isso, é um livro que interpreta de forma brilhante as reviravoltas pelas quais a música pop passou na década.

E Joe Boyd, que queria ser uma eminência parda nesse circo, conseguiu. Era amigo de Bob Dylan, levou alguns dos principais artistas negros de jazz, blues e R&B para a Europa, e, radicado em Londres, era sócio da meca da psicodelia, o clube UFO, onde uma certa banda chamada Pink Floyd ganhou fama (e Boyd produziu o primeiro compacto deles).

Como produtor, foi o responsável por dar vazão ao melhor do folk-rock inglês e produziu bandas e cantores reverenciados até hoje como Nick Drake, Incredible String Band, Vashti Bunyan e Fairport Convention.

Só isso bastaria para dar um ótimo livro, mas a prosa solta de Boyd e as histórias impagáveis dos bastidores do mundo da música primeiro nos Estados Unidos e, depois, na Swinging London são imperdíveis.

É um daqueles livros que dão vontade de sair traduzindo…

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10.outubro.2006 16:51:04

Memórias de um gigolô

Terminei de ler há alguns dias a autobiografia do Charles Mingus, Saindo da Sarjeta, que saiu no Brasil pela editora Jorge Zahar, com boa tradução do Roberto Muggiati.
Mingus foi uns do modernizadores do jazz, um baixista incrível e um compositor melhor ainda. Tocou com todo mundo que importava na sua época, mas não é disso que se trata a sua autobiografia. Saindo da Sarjeta é quase um livro erótico, tão minuciosamente Mingus comenta a sua vida sexual, das descobertas do amor à tentativa de virar um cafetão. A música fica em terceiro ou quarto plano.
Um problema do livro a opção de narra sua vida na terceira pessoa, desde o nescimento, esbarrando em momentos de pieguice profunda. Mesmo assim, as aventuras desse Mingus-Casanova são deliciosas e proporcionam uma leitura ligeira e divertida. E também uma prova de que autobiografias é mesmo uma das formas mais férteis de ficção.

Saindo da Sarjeta, de Clarles Mingus. Jorge Zahar Editora, 272 páginas, R$ 39,50.

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Bom, já que eu falei do Alberto Marsicano músico aí em baixo, vale também dizer que hoje é o lançamento do livro Música Clássica da Índia, escrito por ele. Marsicano foi discípulo de Ravi Shankar e conhece como ninguém os segredos dessa música que é transmitida oralmente do mestre para o discípulo. O livro, que vem com um CD, sai pela editora Perspectiva e custa R$ 36.

O lançamento acontece hoje, a partir das 18h, na livraria Cultura do Conjunto Nacional (esquina da av. Paulista com a rua Augusta).

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“Fomos capazes de dizer através da música o que teríamos dito no noticiário se nos fosse permitido, sem que os policiais sentados no estúdio vissem qualquer coisa de errado. Provavelmente os policiais não falavam inglês e o regime não entendia de música – mas os ouvintes compreendiam o código. Nosso departamento musical sempre argumentou que o que tocávamos era o contraponto, no sentido subversivo, do que fazíamos no jornalismo. Isso foi a prova.”

Assim Veran Matic, diretor da rádio de Belgrado B92 explica a reação da emissora independente à primeira grande intervenção da polícia de Slobodan Milosevic, que proibiu a rádio de noticiar os conflitos nas ruas de Belgrado em 9 de março de 1991. No som, hinos de agitação punk como “White Riot”, do Clash, tentavam mimetizar a batalha entre manifestantes em favor da liberdade de imprensa e a polícia.

A história está no excelente Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado, livro lançado agora pela editora Barracuda. Escrito por Matthew Collin, o mesmo autor do clássico da geração “E” Altered State: The Story of Ecstasy Culture and Acid House, o livro parte da história da rádio B92, que misturava um jornalismo independente com uma programação musical arrojada, para narrar o esfacelamento da Iugoslávia durante o regime de Milosevic.

Embora o pano de fundo cultural seja extremamente interessante, o livro de Collin é basicamente político. Mostra como se organizou (e, na maior parte do tempo, sobreviveu) a resistência ao nacionalismo genocida do regime que manteve Milosevic no poder entre 1991 e 2000. Usando depoimentos de quem ficou em Belgrado durante esse período, Collin consegue revelar um olhar bem diferente do solidificado pela mídia ocidental sobre as guerras da Bósnia e de Kosovo e sobre intervenção da Otan no país. É leitura obrigatória para quem gosta da combinação de rock e política.

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“As razões para a abertura da mente à música são diversas. Em primeiro lugar: as atividades, as batalhas vencidas por muitos compositores. (…) Uma segunda razão para essa abertura: mudanças na tecnologia associada à música. Considerando os gravadores, sintetizadores, aparelhos de som e computadores que temos, não poderia ser razoável esperar que mantivéssemos as nossas mentes fixas na música dos séculos anteriores, apesar de muitas escolas, conservatórios e críticos musicais ainda fazerem isso. Uma terceira razão para a abertura: a interpenetração de culturas antes separadas.”

Esse é um texto de John Cage. Na realidade, é a transcrição de uma conferência proferida pelo compositor na YMHA, em Nova York, em 1974. E integra o livro Escrito de Artistas, uma compilação de textos dos anos 60 e 70, escritos por artistas nacionais e estrangeiros, na sua grande maioria ligados às artes plásticas. Organizado por Glória Ferreira e Cecilia Cotrim, o livro sai no fim do mês pela editora Jorge Zahar.

Voltando à visão de Cage, é interessante notar como a abertura da mente ainda é uma batalha ainda por vencer em pleno século XXI. Se, nos meios universitários e da dita música erudita, esse embate que vem desde o começo do século XX já podia ser dado como ganho os anos 70, ainda hoje é difícil encontrar, entre o ouvinte médio, aquele que tenha disposição para romper com preconceitos do que é musical e do que não está na esfera da música. Pitágoras, mais do que nos assombrar, ainda rege nossos ouvidos no dia-a-dia.

Se, por um lado, toda a experimentação que vem com as vanguardas desde a década de 30 (do dodecafonismo ao minimalismo, da eletroacústica ao drone e ao minimalismo)foi amplamente assimilada pela cultura pop, de Velvet Underground a Merzbow, de John Coltrane a William Parker, de Faust a Nurse With Wound – só para traçar algumas pontes entre às décadas de 60/70 e hoje -, ainda é muito difícil apresentar uma música mais desafiadora a pessoas normais, que estão fora dos milhares de microguetos musicais que se formam nesse começo de século XXI.

Cage tinha uma visão otimista do futuro da música (aberta). Ele acreditava que, pelo caráter gregário e social que a música possui, seria inevitável a sua assimilição ao longo do tempo.

Ocorre que essa assimilação existe, mas não ainda de uma maneira profunda. Ela é real principalmente dentro das pequenas comuinidades de curiosos, de especialistas. E o caráter gregário da música tem uma mão dupla nesses tempos de internet. Se é possível encontrar uma pessoa no outro canto do planeta que goste do mesmo que você, é praticamente impossível convidá-lo para ir a um concerto ou a um show e ter aquela discussão saudável depois.

O problema é o que acontece com a maioria das pessoas, que em teoria também convive no cotidiano com uma música liberada pela tecnologia, pela história e pelo intercâmbio cultural.

Uma boa analogia para entender como esse processo de abertura da mente ainda é necessário em relação à música pode ser traçada com as artes visuais. A mesma pessoa que vai ao museu e consegue apreciar sem problemas e até com uma certa empáfia um quadro de um Picasso, de um Pollock ou consegue se emocionar com o Urinol de Duchamps, estanca diante de um Berio, de um Fennesz, de um Wolf Eyes. Por outro lado, essa mesma pessoa vai ao cinema e consegue ouvir e gostar de sons ainda mais desafiadores, se eles estiverem mediados pelo celulóide.

Perdi a conta das vezes que ouvi: “Isso não é música, é barulho. Onde está a melodia…” Queria ver se alguém, em sã consciência, diria coisa semelhante sobre um Miró sem ficar vermelho de vergonha.

Para quem ainda não conseguiu ver que há muita música além das escalas e das convenções consolidadas nos séculos passados, eu recomendo uma visita demorada a esse texto de Cage.

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gore

A música do Black Dice, eletrônica abstrata, construída sobre ruídos e colagens, é altamente imagética. Eu, pelo menos, sempre fico criando imagens para os sons desse caras. Agora, a mesma esquizofrenia sonora é transposta para o livro de imagens Gore, feito por Bjorn Copeland e Aaron Werren em parceria com o fotógrafo Jason Frank Rothemberg,autor da capa do disco Broken Year Record, de 2005.

Em entrevista à revista XLR8R deste bimestre, Rothemberg
das relações entre música e imagem.

“Às vezes os sons encontram uma linguagem visual que é freqüentemente pessoal e bem-humorada. Às vezes, nós temos de desenhar como uma música será ou de encontrar nosso lugar usando uma linguagem visual em vez de terminologias musicais. E eu acho que nossas próprias idéias sobre as canções são visuais também”

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