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Guilherme Werneck

17.agosto.2006 20:13:38

O doidão de Bangalore

Tinha prometido esse vídeo, que eu fiz no Tuscan Lounge, em Bangalore, mas não tinha conseguido subir por causa de uma série de problemas de conexão na Índia. Agora o cardiologista de Mumbai, que pirou no lounge, pode ser apreciado com a atenção que ele pedia.

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Estou indo para o aeroporto de Délhi agora. Hoje, 15/8, é o dia da independência da Índia. A cidade está em alerta máximo, com segurança redobrada, porque o governo divulgou na semana passada que havia indícios de que seriam cometidos atentados suicidas durante a comemoração da data nacional.

Depois da descoberta do plano terrorista de Londres e de paquistaneses e um funcionário da principal companhia aérea da Índia estarem entre os presos, a paranóia aumentou bastante por aqui. No meu andar do hotel, há sempre dois guardas armados com fuzis. Em todos os hotéis em que estive é feita uma revista minuciosa nos carros. No aeroporto, que já tem uma segurança bem dura, estão abrindo todas as malas, uma por uma. Como eu faço escala em Londres para chegar em São Paulo, o pacote do terror está perfeito.

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Antes de deixar a Índia, resolvi fazer um podcast com sabor local, tocando o pop que faze sucesso por aqui e que eu fui obrigado a ouvir em todo lugar. É uma música bem misturada, com elementos de R&B, hip hop, synthpop e Bollywood. A maior parte dos artistas são locais, mas tem também gente de fora que bomba por aqui.

Aí vai a lista:

1. TopKnot – Cornershop featuring Bubley Kaur
2. Trip to Anjar – The REG Project
3. Dude (Punjab Hit Squad Mix) – Beene Man featuring Ms Thing
4. Beat Bazaar – Aluminium Headz
5. Blackstabbers – Mark Morrison featuring Daz Dillinger/Tray Dee
6. Sexy Boy (Hum Hum) – Hardkaur (foto)
7. Tere Toor – Apache Indian featuring Binder Bajwa
8. Gonna Make It – Shamur
9. Boro Boro – Arash
10. Challa 2 – Swami
11. Keep it Undercover – Sunit and Rakstar
12. Blood Brothers – Karmacy
13. Kitni Akeli – Bobby B
14. Al-Urdun – Guy Manoukian
15. Tauba Tauba – Kailash Kher
16. Bol Breaker – Janaka Selekta

Para ouvir ou baixar, basta ir até o podcast Discofonia. Também dá para ouvir em streaming por aqui, mas, como o arquivo é grande, o melhor é ir no site, baixar por lá e depois ouvir.

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Ontem à noite eu finalmente consegui me descolar e ir a um lugar alternativo aqui em Délhi. O que acontece por aqui é o seguinte: a noite é concentrada nos grandes hotéis São neles que estão os clubs, os bares, e o indiano com grana acaba indo parar num desses lugares, numa noite bem mauricinha.

Ontem eu descobri um lugar chamado The Turquoise Cottage, afastado do centro de Nova Delhi, e me mandei para lá para ver o show da Pink Noise, uma banda de rock de Mumbai que tocaria na cidade pela primeira vez. O lugar é tipo um Milo Garage, cheio de molecada roqueira. Só gente daqui, quase nenhum estrangeiro. Quando cheguei, o show já tinha começado. Vi uma música, que me parecebu bem legal, e, na segunda, a luz acabou. Depois de uns minutos, voltou a energia e a banda tentou tocar de novo. Mas não rolou. Os caras tocaram dois acordes e a luz caiu de novo. As únicas luzes que ficaram acesas eram dos celulares das pessoas. Foi a melhor balada que não houve.

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12.agosto.2006 13:12:40

A felicidade

Coisas prosaicas são as maiores fontes de felicidade. Sei que na Índia o desapego é uma virtude. Não sou tão virtuoso.

Quando cheguei a Agra, depois de horas e horas de aviões, aeroportos, ônibus, a primeira coisa que fiz foi tomar um banho. A segunda foi perceber que havia esquecido o meu desodorante no Brasil (sempre esqueço alguma coisa antes de viajar). Recorri à loja do hotel. O indiano que me atendeu nem sabia o que era desodorante. Depois de explicar como esse elemento fundamental para a minha higiene pessoal funcionava, fui encaminhado à cidade.

As farmácias só vendiam medicamentos, segui então a um bazar. Lá encontrei alguns desodorantes femininos, com perfumes adocicados, impossíveis de usar. Pedi ao atendente uma alternativa e acabei levando um óleo de flores que, segundo o balconista me explicou, era o que usavam as pessoas por lá para disfarçar os odores indesejáveis, fruto do inevitável suor provocado pela constante exposição a um sol de trinta e tantos graus.

Segui viagem contente por estar em sintonia com o local, pelo menos debaixo dos braços. Mas sempre que podia dava uma escapadinha para ver se encontrava um desodorante, um Avanço local que fosse… Nada, só tubinhos de aerosol contendo perfumes delicados, doces, florais. Perfumes bons até, mas que não venciam o tal oleozinho indiano. Que não era prático, diga-se – toda vez eu tinha de colocar três gotinhas dele numa vasilha com água para depois aplicar a mistura – mas ainda assim ele levava vantagem sobre os perfumes industrializados porque tinha lá sua cor local.

Passei rapidamente por Délhi, depois por Bangalore e voltei a Délhi sempre de olho numa alternativa. E nada aparecia. Nesse meio tempo, meu oleozinho ia ficando cada vez mais insuportável. Não agüentava mais conviver com ele tão intimamente. Só olhar o frasco me causava uma repulsa profunda. Tentei ir na raça. Mas a Índia é muito quente e eu não tinha tempo de tomar cinco banhos por dia…

Cedi ao meu óleo até que ontem, no fim do dia, decidi ir a Connaught Place – uma grande praça rodeada por prédios neo-clássicos que ocupam quarteirões inteiros com lojas de marca internacionais, restaurantes e pequenos comércios locais. Assim que cheguei eu vi, sem ter ainda descido do táxi, uma miragem. Uma loja de perfumes com produtos do mundo todo. Ela tinha todos aqueles perfumes de grife que inebriam os sentidos, mas eu não estava nem aí para eles. Uma pequena prateleira, colocada na entrada da loja pequenina, estava repleta de desodorantes de todas as cores, formatos, marcas e perfumes. Há muito tempo eu não era tomado por uma felicidade tão completa.

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Estou em Délhi desde quinta-feira, mas só a partir de ontem à noite, depois do fim da Imagine Cup, eu consegui andar pela cidade de fato. E o que me impressiona muito por aqui é o grau de informalidade da economia. Saindo do Brasil eu já sabia que a economia era informal na Índia, todo mundo sabe. Mas só ao andar pela capital é que eu tive noção da extensão dessa informalidade.

Salvo raras lojas e serviços, tudo é negociável. E uma pessoa como eu, com pouco poder de barganha, tem de se adaptar rapidamente para não ser ludibriada. De São Paulo, eu achava que isso só se aplicava a mercados e pequenas cidades. Não. Até os táxis mais “chiques” que você pega nos melhores hotéis não têm taxímetro. E é preciso estipular o preço antes de sair e dizer que você quer ir a tal lugar sem parar. Uma boa dica é, inclusive, não dizer o que você quer fazer. Pois se disser que quer ver um mercado ou comer alguma coisa, os motoristas malandramente desviam de rota para levar à loja ou ao restaurante de um amigo, que, com certeza, paga uma comissão. Fora isso, recibo nem pensar.

A Índia está crescendo visivelmente. Mas tem 800 milhões de habitantes e pouquíssimos se beneficiam desse crescimento. Até por sua dimensão, a desigualdade social e a má distribuição de renda consegue ser chocante até para um brasileiro. Hoje, a elite e os políticos indianos se orgulham de estar finalmente vendo o surgimento de uma classe média. Mas num país em que a esmagadora maioria vive com muito pouco (200 milhões têm renda de US$ 2 por dia, segundo o ministro da Ciência e Tecnologia), essa classe média não se compara nem ao seu equivalente na América Latina. Hoje, por aqui, operadores de telemarketing e programadores vendem sua força de trabalho baratinho aos EUA. Até médicos que fazem leituras de diagnósticos para clínicas norte-americanas a preço de banana. Essas pessoas, que cursaram a universidade, ganham muito pouco: algo entre US$ 200 e US$ 500 por mês.

Não são dados de estatísticas de governo, mas recolhidos em conversas sobre a realidade daqui. A Índia é hoje uma das economias que mais crescem no mundo e pode muito bem continuar exportando mão de obra barata para os países desenvolvidos. Só que, para ter um crescimento sustentável e com distribuição de riquezas, acredito que tenha de enfrentar ainda mais obstáculos que o Brasil. Isso sem falar no que será necessário investir em infra-estrutura se essa classe média começar a consumir como seus pares em outras partes do mundo.

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Os dois times brasileiros foram muito bem na Imagine Cup. Os irmãos Roberto e Eduardo Sonnino venceram a categoria de Interface Design e o Team Brazil ficou em segundo lugar na categoria mais importante do evento, Software Design.

Eu errei feio nas previsões, e o time que levou a Imagine Cup nessa categoria foi o italiano. Porca miseria. O projeto da Noruega ficou em terceiro. Eu continuo achando que os brasileiros fizerem um projeto mais interessante.

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Mais à noite foi a vez da apresentação dos projetos de design de interfaces. Essa competição é interessante porque os garotos recebem um tema e têm 24 horas para desenvolver uma interface. O tema desse ano era “salvar vidas”. O resultado é impressionante para quem tem só um dia de trabalho.

Os irmãos Roberto e Eduardo Sonnino, de São Paulo, mostraram o projeto TransplantAction, uma interface para ajudar em transplantes de órgãos e, embora em termos de desenho e apresentação gráfica outros projetos fossem mais espetaculosos, o deles tinha um sistema de reconhecimento de voz que permitia ao médico usar a interface sem ter de digitar ou usar o mouse. Fazer um sistema desses em 24 horas é insano.

Sexta saem os vencedores. Todos os brasileiros por aqui estão na torcida. Eu também.

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Depois de rodar a Ínida para cima e para baixo (literalmente), finalmente eu cheguei em Délhi para a final da Imagine Cup. A organização do primeiro dia das finais foi tão confusa e caótica quanto o trânsito indiano. Internet que não funciona direito, gente espalhada por hotéis diferentes, atrasos enormes, fome e cansaço (no meu caso particular). Acontece. O fato é que, mesmo com todos os problemas, ver a apresentação final dos seis finalistas de software design foi uma experiência e tanto. É difícil imaginar que são projetos feitos por estudantes.

A apresentação do Brasil estava perfeita, a melhor das três que eu tinha visto até que uma falha no Wi-Fi fez com que o time não conseguisse mostrar como funcionaria o sistema em que um cego dá um comando de voz para um Pocket PC. Depois do comando, o computador traça uma rota na cidade e começa a guiar a pessoa usando as pulseiras vibratórias. Cinco minutos antes de subir ao palco, tudo funcionava. Os brasileiros se desconcentraram, Ivan, que é o que mais fala no palco, perdeu o rebolado. Mas os brasileiros se recuperaram e, quando demonstraram como o sistemas funciona em ambientes internos, com Carlos guiando Madson pelo palco e o fazendo até descer escadas para parar em frente aos juízes, todo mundo aplaudiu.

Mesmo com os problemas, continuo achando que o projeto brasileiro é o mais legal. Lida de um forma extremamente inovadora e pé-no-chão com um problema real. Mesmo que eles não ganhem a Imagie Cup, tenho certeza de que vamos ver suas pulseiras sendo usadas nas ruas daqui a alguns anos.

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1) Brasil
Com o projeto vEye (Virtual Eye)

2) China
Com o projeto Helen, um portal para tornar exercícios físicos mais divertidos, com game que é movido a movimentos do corpo, transmitidos por pulseiras bluetooth, e podem ser jogados por até 4 participantes diferentes ao vivo ou pela internet

3) Japão
Com o projeto Docterra, criado para prevenir erro médico, em que os médicos usam uns óculos com webcam e para ler num smart card a ficha do paciente, ver se medicamentos são contra-indicados à pessoa etc. O sistema até sugere procedimentos corretos

4) Dinamarca
Com o Interactive Hospital, um projeto para reorganizar a dinâmica do hospital e monitorar atividades de médicos e funcionários

5) Itália
Com o Hello World!, um projeto de monitoramento constante de dados biométricos do paciente integrado a um portal onde se pode fazer upload de fotos e vídeos, para visualizar e tentar interpretar como e por que um ataque de pânico funciona

6)Noruega
Com o projeto Med Watch, que monta uma rede de comunicação com aparelhos que medem dados biométricos de pacientes com diabetes ou doenças do coração e os envia para familiares e médicos por navegadores da web, SMS, Messenger etc.

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