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Guilherme Werneck

Depois de ter sido lançado no Japão, no ano passado, agora os brasileiros podem desfrutar de Futurismo, terceiro álbum do projeto +2, com o devido desconto àquele disco de remixes de faixas de Máquina de Escrever Música.

A bola começou nos pés de Moreno justamente com Máquina de Escrever Música (2000), foi lançada para Domenico e seu Sincerely Hot (2003) e agora cai nos pés de Kassin, com este Futurismo.

O disco de Kassin é, num certo sentido e até surpreendentemente, menos experimental que o de Domenico. Claro, ainda está lá o uso de barulhinhos diferentes, de bateria eletrônica, de instrumentos como guiro, mas tudo entra de uma maneira pouco espalhafatosa, quase sem alarde, a serviço de cada canção.

Logo na primeira faixa o nexo entre o disco de 2003 e Futurismo é estabelecido naturalmente pelas mãos de João Donato. Isso porque, aparte as experimentações, Sincerely Hot é um disco que bebe diretamente no som brasileiro do começo dos anos 70 de Donato e Marcos Valle. E Futurismo abre justamente com “O Seu Lugar”, parceria de Donato com Kassin, com aquele piano rhodes inconfundível e suíngue quase caribenho. Só que vai muito além.

A chave para entender esse disco vêm nas letras miúdas. Todas as composições foram registradas pela Esponja Edições. E Kassin é inegavelmente uma esponja. Responsável por produzir alguns dos melhores discos de música brasileira dos últimos anos, Kassin agora mostra o que absorveu de cada um dos artistas com quem trabalhou e apresenta uma série de canções compostas em parceira com alguns de seus “produzidos”, como Adriana Calcanhoto, Jorge Mautner, Los Hermanos e Arto Lindsay.

A própria noção futurista de Futurismo é um quê enganosa. Há no disco um mergulho na música brasileira tradicional, da bossa ao bolerão, do rock pátrio ao samba, mas sempre com uma visão original, particular.

Assim, Futurismo não fica com aquela cara incômoda de colcha de retalhos. Pelo contrário, se a base ou o ritmo são conhecidos, Kassin os consegue subverter com a sua própria visão de modernidade. E isso aparece tanto na cama furiosa de baixo e bateria em “Esquecido” e “Ponto Final”, no uso do guiro na linda “Quando Nara Ri” – que quem tem filhos já conhece na voz de Adriana Partimpim – nas programações do eletrosamba “Samba Machine”, na apropriação da guitarrada e do tecnobrega paraense em “Água”, nos samples de respiração de Berna Ceppas em “Namorados” ou nos barulhinhos de “Homem ao Mar”, até agora a minha preferida deste disco. Mas, isso muda com o tempo.

Duas coisas impressionam bastante quem segue a carreira de Kassin e do projeto +2. Primeiro é o fato de ele não tocar no baixo, instrumento que estamos acostumados a vê-lo empunhar tanto no +2 quanto na Orquestra Imperial. O “quinto beatle” Pedro Sá se encarregou – brilhantemente – do baixo neste disco e deixou Kassin com guitarras, teclados, programações e voz.

A outra coisa é o grau de romantismo do disco, escancarado em faixas como “Namorados” (“Sejamos sempre namorados/ Deixemos isso combinado, amor/ Se der certo ou errado/ Por mais que o tempo passe/ Que seja como na primeira vez”) e “Esquecido” (Eu queria ser quem eu não sou/ Ser quem você sempre sonhou/Só pra te satisfazer/ …/Eu te amo/ Eu te adoro/ Eu só penso em você).

Pela qualidade, pelas surpresas e pela ausência de preconceitos, Futurismo aponta para e desponta entre o que de melhor se produz na música brasileira hoje.

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Desde que o Z’África Brasil lançou Antigamente Quilombos, Hoje Periferia, em 2002, eu espero por uma seqüência tão boa quanto esse disco fundamental para o hip hop underground brasileiro. Isso porque Antigamente Quilombos, Hoje Periferia é, ao seu modo, um divisor de águas no hip hop nacional.

Primeiro com uma poesia dura, obviamente calcada na realidade da periferia brasileira, mas sem o caráter “gangsta”, da glorificação da violência. E, em termos sonoros, o álbum de 2002 é um dos primeiros a abrir mão de transpor uma estética totalmente chupinhada do hip hop americano e tentar introduzir sons brasileiros, africanos e jamaicanos para cantar em cima.

Esse abrasileiramento do rap acabou se tornando corriqueiro no hip hop nacional, principalmente quando Sabotage e D2 sedimentaram a ponte entre a linhagem malandra que começa no samba de morro e avança sobre esse mundo sonoro que borbulha pelas bordas das grandes cidades. No caso de D2, até cansar, é verdade.

Agora Gaspar, Funk Buia, Fernandinho Beatbox e Pitchô voltam com a pedrada Tem Cor Age, lançado pela YB. De novo, é um disco ultra-instigante e inquieto do ponto de vista sonoro, já que o Z’África leva ao pé da letra a conexão explicitada no nome da banda. Batuques infernais afro convivem com batidas mais retas do hip hop e há lugar até para um samba bacana, em homenagem ao rapper Sabotage, assassinado em 2003, e para ritmos nordestinos, como em “Rei do Cangaço”, fantasia sobre Lampião.

As programações eletrônicas do disco -muitas delas a cargo de Érico Theobaldo (ou DJ Perifério, ou metade do Autoload ou, para os mais velhos, do Fábrica Fagus)– conseguem dar a dinâmica necessária para a música evoluir em volta, ora com scratches, ora com instrumentos como cavaquinho, guitarra, baixo, piano, gaita, sanfona, violão de aço, percussão, dependendo da faixa. E, para tocar esses instrumentos, o Z’África recebe um monte de gente bacana que têm gravado aqui em São Paulo. De Fernando Catatau, guitarrista do Cidadão Instigado, a Céu, Toca-Ogan, Simone Soul , Zeca Baleiro e Théo Werneck.

Essa experimentação sonora serve para dar um colorido ao disco que poucos lançamentos de hip hop brasileiro têm. E o crédito tem de ser dado ao trabalho do grupo com membros do Coletivo Instituto, principalmente Rica Amabis e Tejo Damasceno. Com essa produção, é possível se perder pelas viagens sonoras propostas para cada música. Tanto naquelas faixas mais sérias, que falam da realidade da periferia, de exclusão, da utopia do possível para melhorar a desigualdade neste país (“Mantenha a Guarda”, “Tá na Responsa”) e outras deliciosamente dançantes (“Falei”, “Tô no Rolê”).

E, claro, o Z’África comparece com a rima forte, o vocal quase ragga de Funk Buia, os sons bacanas de Pitchô e a contundência dos vocais arranhados de Gaspar. Senti falta, porém, de aproveitar mais o beatbox sencaional de Fernandinho BeatBox. Mas ele aparece perfeito em “Tem Cor Age” e em “Tô de Rolê”. Coragem e ação são mesmo os temas do disco, sempre da perspectiva periférica, ou, como o Z’África coloca, da perspectiva quilombola, miscigenada da periferia: “Falo da quebrada porque nela é o meu lugar”.

E fala com propriedade, como a letra da faixa-título: “O que importa é a cor/E quem tem cor age/ Tem coragem de mudar o rumo da história/Coragem para transformar cada dia em vitória/ É o canto da sabedoria/ É o ataque/ Reage agora, reage/ Tem cor age, capoeira de maloca/ Do fundo do coração proliferam idéias/ Centuplicando o pão a cada passo de uma centopéia”.

Que o Z’África continue proliferando idéias como essas, conjurando as almas loucas de todas as periferias do mundo, da Zona Sul de São Paulo às tribos de Judah.

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Um artista mostra personalidade quando assume riscos. Quando não se deixa domar pelo hábito, pela morosidade intelectual. Max de Castro, sem dúvida, joga nesse time. Daquele núcleo de artistas identificados com o começo da gravadora Trama, ele é o mais inquieto e também o mais talentoso.

E isso não é nenhuma novidade. Pelo menos desde Orchestra Klaxon (2002), um disco repleto de artistas de peso convidados, Max já se mostra um dos arranjadores mais inventivos da nova música brasileira. Max de Castro (2005) era uma continuação melhorada das idéias musicais de Orchestra Klaxon. Mas, agora, com Balanço das Horas vem a ruptura.

Não acredito que isso ocorra só porque o disco todo é feito com os mesmo time de músicos, numa formação mais enxuta. Nem por ser um álbum que avança mais sobre os territórios do rock. Penso que essa ruptura vem mesmo da maturidade, de ter letras mais bem escritas, de ter um entendimento mais completo da canção, da necessidade de encontrar um equilíbrio entre o que é tocado e o que é dito. Obviamente, há grandes arranjos em Balanço das Horas, mas agora a música não tenta eclipsar a letra, o sentido da canção.

Para mim pelo menos, Balanço das Horas foi crescendo com o tempo. E os discos de que eu mais gosto são esses que causam um estranhamento num primeiro momento, mas vão se mostrando cada vez melhores quando vão decantando no ouvido.

Claro que a guitarra suingada , reverente ao som brasileiro negro do fim dos anos 70 e que se tornou a marca de Max de Castro, aparece. Os melhores exemplos são “Doce Deleite (Possivelmente Amor)” e as duas músicas que a complementam numa tripla homenagem: “I Remember Fela”, referência ao pai do afrobeat Felá Kuti, e “Sly Stone Is Playng in My House, dupla homenagem, primeiro ao precursor do funk, principalmente pelos teclados, e, pelo título, ao rock dançante do LCD Sound System .

Mas é bom vê-lo tocando de forma mais direta – sem ser simplista -, como no primeiro hit do disco “Balanço das Horas”, ou em “Rindo se Diz Coisas Sérias”. E gosto também de pequenas sutilezas desse Balanço das Horas, como a guitarra da introdução de “Candura”, que imediatamente remete às músicas mais melódicas de Jimi Hendrix.

Nota: 9

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Bonnie “Prince” Billy, o alter ego mais produtivo de Will Oldham, vinha lançando uma série de trabalhos colaborativos, como o excelente álbum SuperWolf, com o guitarrista Matt Sweeney, e o disco de covers The Brave and the Bold, com o Tortoise, ambos lançados em 2005. Mas, sem contar o disco ao vivo do ano passado, Bonnie “Prince” Billy não soltava nada de novo só seu desde Master and Everyone, de 2003.

Agora ele volta solo com The Letting Go e avança bastate em relação a Master and Everyone, principalmente na sonoridade. A base do disco continua o blues e o folk, mas é bom lembrar que Will Oldham dificilmente se encaixa nessa nova onda de freak folk. Suas músicas não são nada psicodélicas e pastorais. São antes retratos sombrios dos norte-americanos fora do mapa, sempre de uma perspectiva claustrofóbica, intimista, cortante.

The Letting Go foi gravado na Islândia com Valgeir Sigurosson, que, além de fazer aqueles discos absurdamente lindos do Múm, ainda tem colaborado muito com a Björk em seus últimos trabalhos. Sigurosson consegue deixar o som do disco cristalino, realçando tanto o violão de Oldham quanto a sua voz ensopada em whisky. E acerta nos arranjos de corda, principalmente em “Cursed Sleep”, e em criar atmosferas etéreas usando a voz de Dawn McCarthy, do Faun Fables. Mesmo nos momentos mais simples do álbum, como a linda balada “I Call You Back”, dá para ver a mão de Sigursson nos arranjos espaços, com as intervenções reconfortantes dos de metais.

É um disco para ouvir muitas vezes por dia.

Nota: 9

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Os mais de 10 minutos de “Pass the Hatchet, I Think I’m Goodkind”, a faixa que abre o disco I Am Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass não deixa dúvidas: o Yo La Tengo ainda ama guitarras e Ira Kaplan sabe muito bem como tocar de um jeito selvagem. Mas isso não quere dizer que o trio de Nova Jersey tenha voltado ao passado com o novo álbum.

Ou quase. I Am Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass é tão variado em sua proposta de explorar todos os territórios já percorridos pela banda que soa quase como uma coletânea, mas feita só de músicas novas. E não é um disco essencialmente roqueiro. Músicas como “Mr Tough”, “Beanbag Chair”, “The Race is Won Again” têm um componente de pop sonhador, bem feito, gostoso de ouvir, mas são canções em que as melodias fáceis falam bem mais alto que as guitarras.

O oposto acontece com a dupla “I Should Have Known Better” e “Watch out for me Ronnie”, picos bem rock’n'roll entre as 15 músicas do álbum. Não é à toa que I Am Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass termina com os mais de 11 minutos de “The Story of Yo La Tengo”. Na verdade, se não fosse tão ridículo, esse bem que poderia ser o título do disco.

Nota: 8

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É difícil falar de amor num tom sóbrio e mesmo assim arrepiar até a medula. É isso que os americanos do Grizzly Bear alcançam em seu segundo disco, Yellow House. São dez canções melancólicas, que retratam, no todo, um ciclo pelo qual todos nós passamos: o fim de um relacionamento e o começo do novo amor. O interessante é que a banda faz isso sem alarde, sem descambar para o piegas.

Lançado pelo selo Warp, Yellow House é o primeiro disco da banda com uma produção cuidada. O álbum de estréia, Horn of Plenty, era o resultado de gravações caseiras mais experimentais feitas por Edward Droste e depois elaboradas pelo multiinstrumentista Christopher Bear. Tinha algo de urgente, amalucado, com suas canções diretas chocando-se com improvisações inspiradas pelo free jazz.


Yellow House
é mais sutil. A base são boas canções com influência do folk, mas atualizadas pelo rock de vanguarda, com dinâmicas diferentes, belos arranjos que opõem violão e guitarra, pontuados por crescendos de tirar o fôlego – muito como fazem Danielson Family e Sulfjan Stevens. A diferença é que o Grizzle Bear tem também uma sensibilidade para incluir a eletrônica nessa mistura. Mas, de novo, com muita naturalidade. Nesse sentido, é uma banda irmã do Animal Collective, o grupo que transita com mais fluência entre sons acústicos e eletrônicos. O que muda é a densidade lírica, o Grizzly Bear é triste, triste…

Nota: 9

PS: Obrigado ao Claudio Szynkier pela bela dica.

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Transfiguração é uma palavra que significa tanto uma mudança radical na forma – uma metamorfose – quanto uma transformação espiritual que exalta ou glorifica. Cristo apareceu aos apóstolos sobre o monte Tabor em estado de transfiguração.

Transfiguração é também o título perfeito do terceiro disco do Cordel do Fogo Encantado, pois o novo trabalho dos pernambucanos engloba tanto a transformação na forma como a espiritual.

É mais fácil falar de forma antes de tocar nas questões do espírito. O Cordel nunca foi uma banda pura e simplesmente. Suas apresentações ao vivo mesclam teatro, literatura e música. Sendo que as questões da teatralidade, que implicam dar vida ao texto e trabalhar o aspecto corporal e cenográfico que a música inspira, são tão importantes quanto a própria composição. Nos dois primeiros discos do Cordel, a música nascia do espetáculo, agora é o contrário.

As 14 músicas que compõem o álbum são pensadas como canções e, se nos outros trabalhos havia um encadeamento mais coeso entre todas as músicas, com suas tramas cheias de aventuras sonoras, pontuadas pela percussão trovejante do Cordel, neste Transfiguração cada canção é trabalhada como uma unidade autônoma, embora sirva ao todo.

Há mais nuanças, um trabalho de produção mais esmerado, mais detalhista na tarefa de buscar a sonoridade perfeita para cada uma das canções. E aí não estamos no reino do acaso: Transfiguração conta com o trabalho de três grandes nomes da produção: Miranda produz com a ajuda de Gustavo Lenza e a mixagem fica a cargo de Scotty Hard.

Transfiguração
é também uma exaltação da palavra, uma glorificação do santo ofício da escrita. Essa é sua força espiritual, um jogo entre o mundano, o prosaico, o espírito e a cultura. Além de trazer dois poemas musicados: “Tlank!”, de Manuel Filó, e “Canto dos Emigrantes”, de Alberto da Cunha Melo, ecos da literatura brasileira aparecem de todos os lados, mas não de forma literal. As canções funcionam tanto como duplos quanto como comentários sobre obras seminais da prosa e da poesia, explicitadas já no subtítulo das músicas. Alguns exemplos são “Aqui”, que reflete Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, “Pedra e Bala”, que parte de Os Sertões, de Euclídes da Cunha e “Ela Disse Adeus”, uma fantasia sobre A Teus Pés, em que pesa mais a tragédia pessoal da poeta suicida carioca Ana Cristina Cesar.

Mesmo com toda a complexidade, sonoramente esse é o disco mais fácil de ouvir do Cordel do Fogo Encantado, um passo adiante para uma das bandas mais interessantes do cenário nacional.

Nota: 9

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Nas diferentes encarnações do projeto Chicago Underground (orquestra, duo, trio, quarteto) dois elementos chamam a atenção. O primeiro é a conexão quase telepática do cornetista e manipulador eletrônico Rob Mazurek com o baterista Chad Taylor, que participa de todas as formações. O segundo é a clareza com a qual os elementos acústicos e eletrônicos são combinados.

Morando no Brasil, Rob Mazurek montou uma “versão brasileira” do Chicago Underground. Com Maurício Takara (Hurtmold), nasceu o São Paulo Underground. Sauna: Um, Dois, Três é o primeiro disco da dupla, lançado por aqui pela Submarine Records. Nele, Rob Mazurek toca corneta, computador, eletrônica e piano e Maurício Takara fica com bateria, percussão,computador e sampler.

Diferentemente dos projetos do Chicago Underground, o disco é repleto de convidados. Desde os companheiros de Takara no Hurtmold, Fernando e Mario Cappi, Marcos Gerez, Rogério Martins e Guilherme Granado, até Marcos Axé, Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Tiago Mesquita, que lê/interpreta dois textos seus. Do lado gringo, Chad Taylor participa de forma oblíqua com um sample de bateria e o baixista de jazz de Chicago Josh Abrams.

Ouvindo o disco – e talvez por influência da arte da capa -, não consigo tirar da cabeça um paralelo com a arquitetura e o urbanismo caótico de São Paulo, com seus prédios feios, pichados, com suas ruas que não fluem. Comparado à clareza de outros discos do Chigago Underground, Sauna: Um, Dois, Três tem um som mais sujo, mais caótico e, de certo modo, mais visceral.

Já na primeira faixa, a cacofonia de vozes soterrada no mix sob efeitos eletrônicos pesados, que persiste até entrarem a bateria e a corneta mais livres, transmite uma sensação claustrofóbica só encontrada nas pinturas de Anselm Kiefer sobre a cidade de São Paulo.

Como o disco é todo construído sobre uma tensão espacial, a conjunção de efeitos eletrônicos atordoantes, a sobreposição de samples e texturas, a intercalação de ritmos mais jazzísticos com marcações do tempo quase mântricas formam um duplo com a cidade e seus contrastes.

Numa determinda hora se está imerso na beleza leve de “Olhossss…”, uma beleza que vai se deteriorando lentamente. Noutra se está ensimesmado, andando em círculos dentro de “The Realm of the Ripper”. Mais tarde, é sacudido por uma percussão afro em “Afrihouse”, como que tropeçando numa macumba na esquina. Tudo termina nos escos de vozes de “Numa Grana”.

Percorrer esses caminhos e descobrir os cantos mais obscuros dos subterrâneos da cidade, contrapondo sua sujeira à sua beleza, é o desafio de Sauna: Um, Dois, Três. Um desafio que quem gosta de improvisação, de ouvir um jazz e de eletrônica que expande suas fronteiras até as mais inimagináveis periferias precisa encarar de frente.

Nota: 9

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O samba de São Paulo nunca teve a exuberância baiana ou a manemolência da malandragem carioca. Em 2004, Rômulo Fróes iniciou escavações em sua arqueologia pessoal e emergiu do túmulo do samba com Calado, um disco conciso em sua pesquisa da canção. Rômulo, como seus parceiros Nuno Ramos e Clima, elevava à enésima potência o fio de tristeza que conduz o samba, tramando canções que abriam novos caminhos para o nosso gênero fundamental, calcadas principalmente em sua voz grave e violões chorados.

Agora, Rômulo acaba de lançar Cão, um álbum que começa onde a pesquisa de Calado termina e surpreende com sua riqueza de possibilidades poéticas e instrumentais.

Cão começa com “Amor Doente”, uma canção artesanalmente construída sobre um belo violão de sete cordas, com toques de clarone e clarinete e versos que remetem de cara ao universo em desencanto de Rômulo: “Já fui teu cão/ vigia de uma luz sombria/ O mais fiel/ o sol que no teu céu cabia/ mas não entendes/ o meu delírio/ amor doente/ a carne que não sinto/ entre os dentes”. É uma canção que poderia estar em Calado, mas o violão do veterano Zé Barbeiro, um dos mestres do instrumento, já anuncia a mudança que virá nas próximas músicas.

Rômulo parte dos anos 70, das colagens de Caetano Veloso da época de Transa, das inovações de Jards Macalé, da precisão de um Paulinho da Viola para buscar o arranjo correto para cada canção. E conta com um time de músicos perfeito para dar o contorno exato a cada canção.

Se as composições continuam vindo da mesma trindade Rômulo-Nuno-Clima, os músicos que participam das diferentes faixas vão imprimindo suas vozes e transformando cada canção. Às vezes, o violão de sete cordas de Zé Barbeiro vem límpido, como em “Eu Canto Só”, “Marcha”, “Mulher Sem Alma”, “Máscara e “” Feito um Estranho”.Noutras, ele tem de confrontar a guitarra rascante de Lanny Gordin (o mítico guitarrista dos melhores discos da Gal do fim dos anos 60 e começo dos 70). Esse encontro é maravilhoso em “Sol Sem Calor”, que conta também com o baixista Fábio Sá, que, junto com o baterista Curumim, forma a “ala jovem”do disco.

Mesmo com essa mistura toda, as experimentações e o choque de gerações de Cão não são espalhafatosos. O idioma é o samba, um samba modernizado, plural, é verdade, mas ainda assim completamente inserido na tradição do gênero. E participações como as de Dona Inah do Prato em “Quem” e da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde só reforçam esse laço.

Se o projeto sonoro do disco é ambicioso e se realiza à perfeição, ele fica ainda mais forte com as letras, que partem de certa forma do ideário do samba romântico, mas trocam o caráter quase “naïf” da canções de raiz por uma poética urbana, urgente, mas não menos sentimental. Um exemplo dessa dupla chama é a música “Fala”, de Nuno Ramos, inspirada num poema de Paul Celan: “Fala/ Mas não Separa o não do sim/ Dá-lhe sombra/ Tanta quanto exista à tua volta/ Olha ao Redor/ Como tudo revive à tua volta/ Pela morte/ Diz a verdade quem diz sombra”.

Até agora, é o melhor disco de música brasileira que eu ouvi no ano.

Nota: 10

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O segundo disco é sempre uma prova de fogo. Return to Cookie Mountain mostra que o TV on the Radio soube passar com facilidade no teste. Em Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, de 2004, a banda já provava que conseguia ir bem além da mistura de dance music e rock que tem chacoalhado Nova York nos últimos anos.

No novo álbum, ela edita melhor suas idéias e explora diferentes sonoridades, sem se perder ou ficar prolixa demais. Guitarras mântricas e poderosas, backing vocals em falsete à la Motown, glitch, cítara viajante, um quê de improvisação aqui e ali, como o sax tocado com respiração circular, e baterias que ora seguem um 4/4 típico do rock e ora parecem ter sido gravadas por um jazzista do naipe de um Elvin Jones no auge da forma são alguns desses elementos que tornam o álbum tão bom de ouvir.

Há sempre o que descobrir nas músicas do TV on the Radio, e isso é possível por causa da dinâmica das canções, da intercalação de momentos mais diretos e fortes com outros mais leves e melódicos. Essas características ficam bem evidente nos arranjos vocais, quase uma atualização do doo wop. O melhor exemplo é a falsa balada “Province”, que tem participação de David Bowie na voz – um complemento interessante aos vocais de Tunde Adebimpe – uma atualização de Peter Gabriel em sua melhor fase.

As principais forças criativas da banda na composição continuam sendo Adebimpe e o produtor David Andrew Sitek. Da densidade de “The Method” à simplicidade de “Wolf Like Me”, Return to Cookie Mountain mostra que é possível fazer uma música pop inteligente, dançante e energética sem ter de se render ao óbvio e à mesmice.

Nota: 9,5

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