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Guilherme Werneck

Como o Romulo Fróes fez uma introdução e acho que parte da resposta à pergunta já está aqui. Coloco como uma espécie de prefácio a seu texto:

Guilherme meu caro, perguntinha difícil essa feita por você. Mesmo porque, se tivesse a resposta já a estaria pondo em prática, na tentativa de realizar meu desejo de hoje, que é viver tão somente da minha música. Nunca fui de antecipar o futuro, de perceber as coisas antes do seu acontecimento, me vejo mais como alguém que organiza o presente e procura traduzí-lo para o maior número de pessoas que conseguir. Papel que me pus a desempenhar por achar extremamente necessário comunicar ao mundo a existência de uma das mais brilhantes gerações da música popular brasileira. E que por muitos motivos permanece ainda, a meu ver mais do que devia, uma geração anônima. Motivos estes que tento decifrar nesse artigo abaixo, escrito há algum tempo atrás. O que posso dizer, é que, desde que o escrevi, muito mais gente passou a conhecer estes novos artistas e seu público cresce cada vez mais. Não sei quanto ao futuro do negócio da música, mas quanto ao futuro da nossa música, já está acontecendo e é animador! O resto é o resto. Lá vai o texto:

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Foto: Liliane Callegari

Caminhando para o fim da primeira década do século XXI, já é possível identificar um traço comum entre os artistas surgidos na música brasileira a partir dos anos 2000? Será esta uma geração de artistas à altura de nossa tradição?  Perguntas como estas já circulam por aí e demonstram que ainda figura um desejo de organização de um tempo, em que se consiga reunir argumentos para qualificar para o bem e para o mal, determinada época. Neste caso, além de compreender a unidade década, há ainda o agravante de ser esta a primeira de um século que se inicia, o que a faria ser comparada também ao conjunto de todas as outras do século anterior, numa espécie de partida injusta de dez contra um.

A geração atual de artistas da música brasileira surgiu ainda no século passado, em meio a uma profunda transformação, atrelada a uma iminente falência da indústria musical. Mais do que por novos modelos de difusão ou comercialização, ela foi moldada por um novo modo de produção musical. Até o começo dos anos 1990, o caminho para um artista chegar ao disco era muito difícil, pra não dizer quase impossível, se pensarmos que o filtro criado pelas grandes gravadoras para a produção de um disco era, antes de tudo, econômico. Com raríssimas excessões, eram elas que detinham os meios de gravação. Uma vez que esses meios se democratizaram, passou a ser possível a qualquer artista gravar seu próprio trabalho, elevando a produção de discos, ao menos no que se refere ao seu registro fonográfico, a patamares nunca antes imaginados. Todo artista agora podia ter seu disco e surgiu uma nova figura, a do artista-produtor. É claro que existiam anteriormente artistas-produtores, mas a noção de produção passava muito mais pelo âmbito estético do que técnico, pertencia mais ao campo abstrato das idéias do que na matéria real da obtenção da melhor captação, ou na escolha certa dos microfones e amplificadores. Isso era para os técnicos, que afinal estavam a serviço do artista.

O artista de hoje produz seu disco, porque afinal conquistou essa liberdade e também porque, em última instância, é a única maneira de fazê-lo. Por isso seu conhecimento de todas as etapas de uma gravação, da captação à edição, e chegando mesmo até à fabricação do disco. Verdade que, à príncipio, tal processo se deu de forma muito precária, uma vez que ainda não se dispunha de grandes recursos técnicos, na época pouco acessíveis, e tampouco se havia adquirido a experiência do novo ofício.

Com o avanço da tecnologia, a experiência e o acesso a novos recursos de gravação, abriu-se aos artistas um novo vocabulário de produção artística, a meu ver inédito na música brasileira. É muito comum hoje um jovem artista falar de seu trabalho mais do ponto de vista técnico do que das questões artísticas de sua obra, isso se encararmos como coisas desligadas uma da outra. Não raro, um leigo se depara no depoimento de um novo artista, com termos que parecem pertencer a uma nomenclatura de ficcão científica. E isto não é pouca coisa, se pensarmos que grandes artistas de nossa música nunca pensaram no som que teriam seus discos, acreditando única e exclusivamente no poder de sua música. Ou ainda, se pensarmos em artistas como Tim Maia e Caetano Veloso, que no início de suas carreiras, mesmo sabendo exatamente o “som” que queriam em seus discos, sempre se disseram frustrados por não consegui-lo, simplesmente por não saberem até então se comunicar com os técnicos. É um fato relevante, pra não dizer histórico, que aconteça de novos artistas se envolverem profundamente com o processo de gravação, tendo mesmo um interesse verdadeiro por seus aspectos técnicos, ainda que ironicamente, muitas vezes se valham de experiências acontecidas no passado, em discos gravados, por exemplo, nas décadas de 1960 e 1970. Vintage é uma palavra adorada por estes jovens artistas. Seus instrumentos, microfones, captadores, pré-amplificadores, pedais e tudo o mais têm de ser vintage, porém seu comportamento, suas cabeças, suas crenças, estas, estão no presente.

Pois depois de aprendidas “as manhas” da produção, ainda era preciso aplicar esse aprendizado à criação. Sim, porque antes uma grande canção mal gravada do que uma bobagem de altíssima qualidade sonora. E seguindo a máxima de que a quantidade gera qualidade, acho que a contribuição destes novos artistas para a música brasileira começa a ganhar forma. Há muito tempo não se via tantos artistas com trabalhos tão diversos e com tamanha qualidade quanto agora. Talvez a palavra novo, tão desgastada por seu uso, não seja aplicável ao que vêm fazendo, mas sim ao modo “como” vêm fazendo. Já não é mais possível abarcar o Brasil, como fizeram por exemplo os Tropicalistas. Não só todo o vocabulário incluído por estes em sua música como a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a sexualidade, a tecnologia e tudo o mais, ainda está em voga, como ainda outros tantos verbetes surgiram e continuam a surgir todos os dias. Daí o conceito de novidade já nascer datado. É com a Internet, esta ferramenta que mudou nossa percepção de mundo, onde se deparam a toda hora com tudo, quero dizer “tudo” que já foi dito, pensado e vivido por todos, no passado, no presente e às vezes parece que até no futuro, que os artistas de hoje produzem. E se eles se fartam dessa nova ordem, a carga de influência que sofrem é tamanha e tão diversa, que talvez seja impossível a formação de um “novo” pensamento sobre música popular brasileira hoje e talvez não seja mesmo mais tão necessário. O que é necessário ainda e sempre, é que se produza arte boa, mesmo que esta tão somente revele as influências de quem a criou.

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Se existe uma única verdade que salta aos olhos, é a que não existe mais uma única verdade. Parece óbvio que qualquer um que já gastou mais do que cinco minutos pensando nesse assunto tenha chegado a essa conclusão.

amoeba02.jpgA morte do CD é um assunto tão antigo quanto a ressurreição do vinil. Nada acaba, tudo é cíclico. Até o cassete voltou, mesmo com a Sony encerrando oficialmente a produção de walkmans. Enquanto a Amoeba, a maior loja de discos independente dos EUA, comemora que as vendas de vinil estejam compensando as perdas do CD, a Panasonic vai botar um ponto final na conceituada linha de toca-discos Technics. Nem parece que estamos falando de mídia física, de tecnologia.

Há alguns dias, o maior tracker privado de música que já existiu completou três anos. Enquanto escrevo, contabil izam quase 1 milhão de arquivos de torrent, com mais de 400 mil lançamentos de 350 mil artistas. Estamos falando de pouco mais de 130 mil usuários que já fizeram aproximadamente 45 milhões de downloads. Para efeitos de comparação, digamos que cada lançamento tenha 10 faixas, somando 4 milhões de faixas. Nada comparável aos mais de 13 milhões de faixas e 10 bilhões de downloads do iTunes Store em sete anos. Um nicho,portanto. Na indústria, isso é chamado de pirataria.

Vale dizer que o site não hospeda nenhum arquivo. É sustentado por doações dos usuários e todo o conteúdo é fornecido e administrado pelos mesmos. Agora, por que eles pagam por isso e não por um download legal? Simples: é um serviço infinitamente mais inovador e de qualidade impecável. Você baixa o que quiser, quando quiser, na qualidade que quiser. Recentemente, estrearam uma seção de destaque para artistas “da casa”, ou seja, artistas que dividem seus próprios discos no site. Em aproximadamente um mês, o artista destacado conseguiu mais de 12 mil downloads. Havia a opção de download em sete formatos diferentes.

Quando um disco é lançado oficialmente, os usuários já o conhecem há meses. Álbuns fora de catálogo, raridades e relíquias inatingíveis? Tudo à mão, disponibilizado por uma legião de engenheiros de som amadores que fazem os discos soarem melhor que muita remasterização de grande gravadora. Aliás, em discos clássicos é comum encontrar arquivos de diferentes edições e masterizações de diferentes países. Você escolhe. Se você gosta mais do som do vinil, pra que se contentar com um arquivo digital extraído de um CD? Melhor: você pode ouvir os dois, comparar e decidir se quer ouvir um vinil ou um CD no seu iPod.

Ainda falta muito para que os grandes negócios da música de hoje olhem para ideias simples como essas e aprendam alguma coisa.

Afinal, qual é o futuro do negócio da música? Pessoalmente, enxergo dois pontos principais agora, no presente: publishing e shows. Qualquer coisa entre eles parece promissora e potencialmente duradoura. Porém, para que isso chegue ao futuro, precisamos rever as leis de direito autoral e os  é todos de arrecadação. Pode parecer um assunto chato, mas é a chave de tudo. E digo mais, pra dar certo mesmo, o mundo inteiro tem que estar na mesma sintonia. Ou seja, quando você for sonhar com um futuro melhor pra você nesse negócio, aproveite e sonhe tudo isso numa escala universal.

Já comprei muitos discos bons por culpa do Guilherme Barrella, desde quando ele escrevia o newslwtter da Bizarre, lá no começo dos anos 2000. Mas comprei bastante mesmo pela Peligro, loja virtual que ele abriu no meio da década e segue firme até hoje. Mas o Gui não é só um vendedor tem um lado de dono de selo (toca o ótimo Open Field) e baladeiro (é sócio da Neu)

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Oi Guilherme!

Escrevo de longe do Brasil, do hábito de escrever e do prazo que você me pediu pra te mandar alguma opinião sobre o futuro do negócio de música.

Pelo menos tenho uma boa desculpa…

Estava trabalhando justamente com esse negócio de música, na Womex (World Music Expo) que é uma feira internacional muito importante pra música chamada independente e/ou catalogada como World Music e neste ano aconteceu em Copenhague, Dinamarca.  Não vou nem entrar no questionamento de independência e world ou não world music, pra não prolixar demais…

Acho que posso contribuir um pouco com essas conversas, falando um tiquinho sobre isso. Fui uma das 3 selecionadas do Brasil pra participar esse ano. A feira abre possibilidades concretas de começo de conversas e caminhos internacionais  a trilhar. Estão rolando conversas legais agora com Portugal, UK e mais otras cositas.

Como a feira não conta com patrocinadores que banquem as passagens, hospedagens e cachês dos selecionados,  ela envia uma carta convite, pra que todos busquem patrocínios e apoios em seus países.

Vou procurar saber se eles têm dados sobre isso. Quero muito saber quem consegue e quem não consegue apoio de seus países.

Eu, com as secretarias e fundações de cultura do Recife (minha cidade) e de Pernambuco (meu estado) não consegui. Talvez eu tenha errado feio no que tenho como ideia e sensação de  nacionalidade, de cidadania, sei lá…

Talvez eu tivesse me saído melhor se tivesse ido atrás do meu estado de nascimento, a Bahia, que patrocinou a ida dos seus pra Womex e ainda me citou no texto de divulgação dessa ação, como “a cantora baiana”….rs!

E eu aqui, romântica, desejando que Pernambuco Imortal ficasse com ciúme!

Ai, ai, ai…eu deixando a roupa suja de molho on line. Mas é uma lavagem que diz respeito ao mercado brasileiro de música independente, logo, roupa coletiva.

Ah! Com o Ministério da Cultura também não aconteceu.

Não estou chorando, nem caindo na lamentação, afinal de contas consegui ir mesmo assim, com um trabalho muito intenso e dedicado, meu e de Duda Vieira, o cara massa que é meu produtor. Outra coisa importante é que, como mandamos projetos pra editais específicos e aguardamos resultados pra logo mais, pode ser que consigamos repor todo ou uma parte importante do investimento na ida pra Womex.

Cito isso por que acho importante como um dado a mais pra nossas conversas aqui neste teu precioso espaço.

Porque quando falamos em futuro do mercado da musica sempre falamos também de música independente, já que cai sempre em pauta a internet, o barateamentos dos custos de gravação e as ações individuais que dão certo com as mudanças de formato de fabricação e venda de produtos, de pessoas, de estilos, de ídolos.

Acho que a narração disso que aconteceu comigo nesse final de semana vale mais do que a minha opinião sobre o futuro do tal mercado, que pra mim são o streaming, o vinil, o pagode e a serenata.

Na verdade nunca me preocupei muito com o mercado.

Não sou um bom exemplo.

Já Duda Vieira se preocupa inteligentemente com isso e sem perder la ternura.

A feira tinha todas essas tags pairando no ar. Conversas instigantes, shows interessantes, agentes, produtores e músicos vendendo seus peixes, embora música não seja peixe, como o lado maravilhoso disso e também às vezes estranho, já que muitas vezes os olhos se dirigiam antes pra um crachá do que pra outro par de olhos.

Tinham dois alemães lá que divulgavam sua máquina de gravar vinil um a um, de forma caseira e atraiam uma fila imensa em frente ao stand, oferecendo a gravação de uma música de cada pessoa da fila, como amostra grátis.

O slogan deles é “Leve sua música de volta para o futuro”. Identifiquei-me…

Bruno Buarque e Daniel Gralha (meus baterista e trompetista) fizeram, cada um, uma faixa do “Eu Menti pra Você”.

Quando fui fazer uma  terceira, pra mim, tinha um monte de brasileiro na fila e o cara dando escândalo, porque assim cada banda ia ter todas as músicas gravadas e não uma, como era o plano de negócio deles, afinal a maioria não compraria a machine mesmo.

Ele gritava “O Brasil não é o mundo!”…rs! Acabei não conseguindo fazer e ganhando de presente o que Gralha fez.

“O Brasil não é o mundo” me fez lembrar a mulher do check in de alguma companhia aérea gringa desse unterwegs, que olhou pros nossos passaportes e disse “vocês são brasileiros? Vão ficar ricos! Acabaram de descobrir muito petróleo lá e vocês vão ser a décima economia do mundo!”. Tive a sensação de a notícia da vitória de Dilma ter ecoado por essas bandas com um tipo de glamour superficial. Mas isso é quase outro assunto. Voltemos ao eixo.

Faço parte da ala autista do mercado fonográfico, que é a que  sabe que faz parte de um movimento de compras e vendas, que sabe dos artifícios que pode lançar mão pra ser mais fácil um sucesso nesse sentido, embora não exista a fórmula (grazie!), mas não abre mão de fazer apenas  o que gosta e acredita. A ala que torce pra que um número grande de pessoas goste de sua música, mas não muda em nada sua música por causa disso.

É um contrasenso, diria até uma contravenção, pro mundo dos negócios, no caso você ter o tal “produto”, ter um público consumidor mas se preocupar apenas com os ouvidos seus e desse possível público. Aliás, não chamaria nem de preocupação.

A verdade verdadeira mesmo é que prefiro o mundo da música, que não tem nada a ver com o do dinheiro, embora possam andar juntos e serem felizes para sempre e isso, ainda bem, acontece também!

Sigo então fazendo a música que gosto, trabalhando com pessoas que gosto e que admiro, pensando em ideias malucas e torcendo pra que dê tudo certo.

Dar certo, no caso, tem menos a ver com sucesso e mais com diversão, mas tem muitas maneiras de quase tudo ser divertido, inclusive o sucesso.

Pra terminar, queria linkar uma ouvida da música “Ciranda do Incentivo

Beijos,

Buhr

Karina Buhr é atriz (já fez parte da trupe do Oficina), apareceu como música com o genial Comadre Fulozinha e, neste ano, lançou o delicioso álbum “Eu Menti pra Você”, um dos meus preferidos de 2010. Renascentista que só, ela pinta (ilustra) e borda (no seu site karinabuhr.com.br e no blog na revista TPM)

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O Guilherme Werneck pediu para eu escrever um texto sobre o futuro da indústria da música. Como não tenho muito a dizer, a não ser que acho que o mercado sempre encontrará uma solução para levar (e faturar) a criação daqueles que sabem fazer música para aqueles que só podem ouvir,   me  resta o charlatanismo e a gaiatice em meio a exercícios de imaginação e alguma pitada de sonho.

lady_gaga.jpg2011
Tablets se consolidam como a nova plataforma para divulgação de música.  Lady Gaga faz a premiére do novo clipe num novo aplicativo do Ipad

2012
Google anuncia a compra de uma das antigas gravadoras majors e começa a investir na produção musical

2013
Pelanza deixa o Restart e surpreende com um disco solo elogiado pela crítica e sucesso de público, dando inicio a uma trilogia de lançamentos bienais que vai até 2017. Antigos fãs pedem músicas da fase Restart, que aparecerão em novas versões em raríssimas apresentações.

Explodem as vendas de caixas temáticas – a preço acessíveis -  com fotos em papel especial, reprodução de ingressos de shows históricos, pôsters e memorabilia de artistas. A música dessas caixas especiais virá em pendrives e minicards multiplataformas compatíveis com tablets, aparelhos de som antigos e senhas de acesso para baixar a música.

olodum.gif2014
Em meio às festas da Copa do Mundo no Brasil, o mundo descobre um músico egresso e  dissidente do Olodum que dá os primeiros passos rumo ao tecnotropicalismo.  Google o contrata no seu primeiro acordo milionário com um novo artista.

2015
A ilusão de que o disco de vinil seria a salvação da indústria da música estará definitivamente perdida. Matérias nos sites e jornais anunciam mais uma vez, anos depois da primeira morte,  a última fábrica de vinil a fechar as portas. Um grupo de saudosistas unirá forças para manter a produção artesanal, que durará até 2017

2016
Maria Rita vende 300 mil cópias, ainda no antigo formato CD,  de  “Maria Rita canta Raul”, com reinterpretações de lados B do roqueiro baiano.  Executivos dizem que o CD é o futuro da indústria da música no Brasil.

paul_is_dead.jpg2017
Apple anuncia que fará a apresentação de um novo produto, desenvolvido secretamente nos últimos anos.  No dia do anúncio,  cinqüentenário exato do lançamento do Sgt Peppers, a empresa de Steve Jobs choca o mundo ao mostrar uma apresentação real  dos quatro Beatles de 1967 tocando todas as faixas do álbum ao vivo, na íntegra, num palco virtual criado a partir de projeções holográficas dos integrantes emitidas do novo minitablet da companhia.  Uma fã sofre um ataque cardíaco no Brasil quando vê pelo velotube Paul McCartney real e seu avatar de 1967 fazerem um dueto no final do show.

2018
Google já controla mais duas antigas majors, uma delas adquirindo o espólio da falência e outra numa oferta hostil anunciada ao mercado. Empresa começa a ação de aquisição de editoras musicais pelo mundo.

2019
O artista brasileiro descoberto na Copa de 2014 anuncia o rompimento com parceiros de composição e decreta o fim do tecnotropicalismo.

A tecnologia de projeção holográficas de shows lançada pela Apple estará popularizada, com todos podendo assistir a um  show do ídolo na sala de casa ou num salão de bar. O projetor calcula as dimensões do ambiente para o artista se movimentar pelo espaço e interagir com o local. Microsoft lança a sua versão com o karaokê-mode, com a qual o usuário pode fazer duetos, participar do coro e tocar instrumentos, como no atual guitar-hero.

As duas empresas partem para cima de hackers que projetam as apresentações sem autorização e pagamento no código aberto do Google Street View.  Para achar as apresentações, basta cruzar o endereço certo com o nome do artista, tornando quase impossível o rastreamento prévio dos shows, que mesmo sem a qualidade do projetor doméstico fazem sucesso no site de mapas.

2020
O ano em que faremos contato. A nave do consórcio russo-americano que partiu um ano antes da Terra chega a Marte com cinco meses de atraso. Cientistas da Nasa mostram um vídeo do momento em que o jipe-robô  teleguiado com o logo do Google Music na carcaça  encontra um pequeno monolito, do tamanho de um iPad, que emite sons numa freqüência inaudível  aos ouvidos humanos.

keith_richards_barechest_at_60.jpg2021
Quase octagenários, Paul McCartney e Keith Richards lançam disco de blues  com faixas compostas em conjunto durante uma visita do guitarrista do Stone a sua mansão. O sucesso da parceria dos velhinhos faz crescerem as especulações de que uma jam session  com músicas obscuras do primórdio do rock’n’ roll  reunindo Mick Jagger e Ringo Starr estaria em produção. Após meses de desmentidos, surge o álbum “Mick & Ringo”. O New York Times, revela na sua versão web mezzo paga mezzo free  – a versão impressa continua – que o projeto foi arquitetado pelos Beatles e Stones em troca de mensagens públicas  pelo newtwitter onde se identificavam com os nomes reais, à vista de milhões de fãs que não perceberam as conversas.

2022
OMC subscreve, após anos de negociação com Google, Microsoft, Apple e uma nova empresa surgida na web em 2017, um novo marco do direito autoral.

2023
Nascido em 2000, o artista X lança seu primeiro single e domina as paradas mundiais, aferidas e debitadas por controle remoto a partir dos tocadores múltiplos.

Usando a nova freqüência descoberta em Marte, X revoluciona o modo de produzir e ouvir música, com pequenos sensores que convertem o sinal emitido em som como conhecemos hoje, mesclado com a projeção de imagens. As primeiras imagens lembram o visual lisérgico dos anos 60, mas em meses a tecnologia terá evoluído para projeções realísticas de imagens de sons.

2025
Com a música da nova freqüência descoberta em Marte, uma nova escala de notas musicais é decifrada. A descoberta permite  tirar novos sons de antigos instrumentos. O resultado provoca o surgimento de novas escalas melódicas de antigas músicas e torna impossível aferir a autenticidade de uma criação musical feita a partir de uma antiga canção.

Simultaneamente, é criado o novo sistema de cobrança automática, pois só é possível escutar a música, pagando, nos novos aparelhos que entendem a freqüência extraterrestre. Piratas trabalham uma maneira de tentar burlar a restrição freqüencial e converter a música ao som normal.

X lança aquele que será  considerado o seu mais emblemático trabalho e influenciará uma geração de novos músicos. Sites tentam fabricar clones biológicos de X e de suas músicas usando freqüências distorcidas do som criado por ele. A nova tecnologia permite que surdos escutem músicas através de pequenos implantes que estimulam neurônios no cérebro.

2030
Surge o zajjfusion.

2042
Aos 100 anos, morre no Brasil o último tropicalista.

2055
Numa cidade do interior em algum lugar do mundo, um moleque de 14 anos descobre os primeiros acordes num violão e dá os primeiros passos na música. Com um amigo de 15 que toca um moderno instrumento eletrônico de sopro cria uma nova batida que em alguns anos explodirá nos ouvidos de uma nova geração através dos sinais que ele emitira de seu transmissor portátil de música.  Seus seguidores num serviço de tiks espalham cada lançamento, remunerando o próprio autor em sua conta corrente individual a cada reprodução. Faixas “ao vivo real”, capatadas no momento em que o artista se apresenta, serão mais caras.  Faixas já escutadas, gravadas antes ou compartilhadas serão gratuitas ou vendidas em baciões virtuais a US$ 0.0001.

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Edmundo Leite é o coordenador do Arquivo do Estadão, faz o blog Memória, gente, lugares, aqui no Estadão. Dono de um arquivo dos sonhos de publicações musicais brasileiras, ele está nos finalmentes da primeira biografia pra valer de Raul Seixas – que torço para sair a despeito do embaço da ex do maluco beleza

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Acho que a primeira vez em que o debate do “futuro da música” me chamou a atenção foi na época do Napster: o Metallica e seu escândalo de ódio contra os próprios fãs. Esse caso já tem 10 anos, mas o debate evoluiu pouco. Veio a loja do iTunes, artistas e gravadoras descobriram formas novas de ganhar dinheiro; estrelas como Madonna e Paul McCartney viram que era melhor, no caso deles, trabalhar para outros tipos de empresas (de eventos, no caso da cantora, de café, no do Beatle); o Radiohead passou a bola da decisão do lucro para os fãs. Ou seja, o que era uma via única acabou se transformando em um grande emaranhado de possibilidades.

O grande problema é que tem sempre alguém querendo apontar uma verdade absoluta – do tipo “os games estão salvando a música” ou “o futuro da música está nos celulares” –, em uma época que, ainda bem!, não suporta mais verdades absolutas. Não estão entre nós o Calypso e os padres cantores para provar que a mídia física ainda funciona? E, em paralelo, não há centenas de bandas lucrando com shows e ignorando cada vez mais o CD? Talvez a resolução do debate esteja em simplesmente aceitarmos que o futuro é assim, variado e indefinível.

Paulo Terron é editor da revista Rolling Stone, apresenta o programa Qualquer Coisa com Max de Castro e Zé Flávio na Oi FM e mantém o ótimo blog With Lasers!.

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kings_of_leon_2010.jpgO futuro da música como negócio, perdoe o clichê, a Deus pertence. Nem que esse Deus seja o Steve Jobs ou o próximo moleque que inventar um novo sistema de rede sociais que facilite o intercâmbio musical e, quem sabe, o comércio dela.

O futuro sonoro, assim como o futuro da internet em si, do jornalismo, do cinema, da TV, do planeta, é incerto, mas beleza. It’s the end of the world as we know it, and I feel fine, já bem diria Michael Stipe.

O CD morreu, as gravadoras morreram, o Arctic Monkeys novo é o mais vazado gratuitamente antes do lançamento mas depois é o mais vendido depois do lançamento, o Radiohead ganhou fortuna dando disco de graça e o pior Kings of Leon bateu o recorde de disco novo oficial mais baixado? A gente já viu tudo e ainda não viu nada. O negócio (da música) é esperar e observar, mas sempre com uma boa conexão e um computador com memória suficiente para armanezar esse futuro.

Tendo a acreditar que o futuro da música como negócio ou como qualquer coisa está sendo escrito agora, no presente. E passe obrigatoriamente pelos fãs. Fãs que se juntem para comprar para sua cidade shows de sua banda preferida.

Fã que não gosta do novo disco do Kings of Leon (de novo, sorry), acha a banda devagar para tocar nas FMs e atingir um público maior, acelera por conta própria uma das músicas e posta na internet dizendo que agora sim parece a banda do começo. Eu compraria um disco novo do Kings of Leon das mãos desse cara. Não compraria o disco do Kings of Leon das mãos do Kings of Leon.
Isso seria o futuro?

Lúcio Ribeiro é meio multi-homem, organiza festivais, discoteca, faz há não sei quantos anos a excelente coluna Popload e, desde o começo do ano, escreve uma coluna também no C2+Música aqui no Estadão.

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Enquanto todos esperam o tal “novo modelo”, pouca gente se deu conta de que já vivemos um novo modelo no mercado de música. Acredito que agora temos um modelo mais justo, com uma grande “classe média” musical no lugar do abismo que tínhamos antes entre o mercado mainstream e o resto. Não sei muito como o mainstream vai sobreviver e nem me interesso por isso. No independente, mais e mais artistas com trabalho relevante, objetivos claros e  alguma noção de gerenciamento de carreira conseguem levar seu trabalho adiante e até viver disso.
Caem os sonhos com os milhões. O novo artista deve buscar uma vida digna como a que ele teria exercendo outra profissão: garçom, gerente de banco, profissional liberal etc, dependendo do sucesso que atingir. Ao redor dessa nova classe surgem os clubes, booking agents, festivais, empresas de rp e management. Vivemos a melhor época da história pra fazer música e viver dela. Só não enxerga quem ainda sonha com iates, mansões, putas caras e cocaína a rodo.

Dago Donato é um daqueles descobridores incansáveis de sons novos, sócio do Neu Club, faz tempo que ele anda devendo posts novos no seu blog Be My Head.

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foto_macaco_bong_3.jpgPara mim o futuro do negócio da música é profissionalizar este movimento de ploliferação e união de novos artistas e produtores culturais independentes Brasil afora.  De alguma forma essa galera ajudou boas bandas novas como Macaco Bong, Nevilton, Black Drawing Chalks tocarem no mesmo palco de Pixies, Queens Of The Stone Age e Green Day.
Sem contar que grande parte dessas bandas e artistas investem em lançar bonitos e luxuosos  CDs e/ou vinis, mesmo disponibilizando todas suas músicas para download gratuito. E a agenda de shows também anda mais cheia de uns tempos pra cá.
O grande desafio agora é deixar um pouco a “brodagem” de lado e pagar de forma justa o tão questionado cachê do artista. Afinal, troca de favores não paga a conta de ninguém.

Putz, esqueci de dizer quem é o grande Cirilo Dias. Enviado especial às trincheiras do marketing de guerrilha, Cirilo é um dos três irmãos que tomaram de assalto o mundo dos independentes com seu site Urbanaque.

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O tripé formado por casas de shows e clubes, artistas criativos e divulgação via internet garante uma cadeia econômica independente que gera empregos e faz o músico viver da sua arte, o que no passado recente era exclusividade dos queridinhos das gravadoras.

O fenômeno acontece no mundo todo em cidades cosmopolitas e é reflexo da nova ordem musical, pós falência do mercado fonográfico. Todas as noites novos talentos espontam e forma público pela noite de São Paulo, em clubes de Lower East Side, em Nova York, Shoreditch, em Londres, ou no Mitte, em Berlim.

Diante do atual cenário é comum ouvir queixas de empresários e representantes de gravadoras, insistindo que o mercado musical está parado, sem criatividade, demonstrando desconhecimento e certo pouco caso sobre o que acontece nas noites das grande cidades.

Existem no Brasil diferentes olhares para o processo cultural. O olhar da indústria fonográfica é aquele de cima pra baixo, que se acostumou a fazer grandes números, amparado por uma indústria que monopolizava produção e distribuição de conteúdo, vendia discos, comprava as mídias, fazia o sucesso acontecer.

As bandas que formam seu público e vivem de música, cantando suas próprias composições para o universo de fãs formados pelo MySpace e pelo Facebook, e movimentos musicais de descentralização e ocupação de espaços têm outro olhar sobre o processo cultural: aquele de baixo pra cima, que percebe a vitalidade e a capilaridade de um novo modelo, de uma nova cadeia produtiva.

Por outro lado, o movimento político da música foi revitalizado por novos atores que, entendendo a brecha da fragilidade do mercado, iniciaram a discussão sobre que políticas públicas queremos para a arte mais popular do Brasil. Entre os mais ativos estão o Circuito Fora do Eixo, que estimula o investimento público nas localidades distantes de São Paulo e Rio de Janeiro e a ABRAFIN, entidade que reúne os festivais de música independente do país. Novas inicitivas como as CASAS ASSOCIADAS - reunião de casas de pequeno e médio porte de todo país que pretente criar um circuito nacional de circulação da nova música – prometem agitar ainda mais o poder público, de olho no suporte para todo esse universo.

Hoje em dia, a FUNARTE, o  Ministério da Cultura e empresas como a Petrobrás já estão totalmente inseridos nesse contexto e uma grande movimentação que une entidades e setor público já deu origem a Rede Música Brasil, espécie de fórum permanente para discussão sobre projetos estruturantes para a música.

O futuro da música no Brasil passa pela compreesão desse novo modelo “de baixo para cima e capilar” que cresce a cada dia nos centros urbanos e que cria verdadeiras micro economias capazes de sustentar as cadeias produtivas da música. Passa também pela capacidade de organização do setor para pleitear o investimento público que fomente o setor.

Além disso, o negócio da música também está inserido em uma visão mais abrangente do tipo de desenvolvimento que queremos para o país. Tanto as experiências privadas que ativam o mercado musical como a necessidade de um olhar diferente para as políticas públicas de estímulo ao setor, podem estar inseridos no amplo debate sobre a Economia Criativia:  como a música, como uma das expressões mais claras da criatividade, pode ser um dos eixos de desenvolvimento econômico, transformação urbana e inclusão social. Para tanto, é fundamental que esse negócio da música seja mapeado e calculado, para entendermos o quanto ele poderá se expandir e participar com força da economia do país.

Considerando que o Brasil é talvez o país mais musical do mundo, pode-se imaginar  o futuro  de possibilidades que temos pela frente se tivermos a cabeça aberta para esse tipo de visão de que nossa economia também pode ser baseada na criatividade.

Ale Youssef é sócio do Studio SP e do Comitê, Presidente da Casas Associadas e do Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta e colunista de política da Revista Trip. Foi um dos criadores do site multicultural Overmundo e Coordenador de Juventude da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy)

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lars.jpgAcredito cada vez mais que a criatividade no modo em que os artistas expõem seus trabalhos e os exploram em novos formatos traga mais respostas positivas. Hoje em dia, a relação música x dinheiro é cada vez mais incerta, mas quem foge da mesmice é quem cativa seu público. Seja o Radiohead no melhor esquema “quer pagar quanto?” ou a Läjä Records (http://www.laja.com.br) que lança CDs, mas também DVDs, vinis e livros, e ainda “alimenta” seus seguidores com jogos online gratuitos e fazendo premiações! A internet tá aí para ser usada como ferramenta de auxílio, ouviu Lars Ulrich?!

Ricardo Tibiu é editor do Trama Virtual e toca o impagável blog Chiveta.

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