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Guilherme Werneck

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Muito se escreveu sobre o brilhante Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil,  sem dúvida um dos melhores documentários do ano, sucesso de público e crítica.  Antes de mais nada, sou sim amigo do Ricardo, adoro o filme, mas asseguro que esse não é mais um dos famosos casos de  “ação entre amigos” da imprensa.

uma_noite_em_67.jpgFã de MPB, nasci depois da era dos festivais, mas o assunto sempre foi vivo em família. Os musicais da Record, entres os eles o festival, sempre rondaram os papos daqueles encontros de domingo, um pouco baseado naquele discurso levemente reacionário de “bom mesmo era aquele tempo da Record…”. Se não vivi esse tempo ao vivo, em P/B, nunca perdia os reprises dos clássicos da Record e, já adulto, sempre mantive uma proximidade com o tema, principalmente atarvés da leitura. E, de tudo que li, recomendo A Era dos Festivais (Editora 34), do Zuza Homem de Mello.

Foi essa bagagem de curioso de segunda mão que levei para a estreia do filme, com um medo danado de não gostar ou de achar tudo meio déjà vu. Medo absolutamente infundado. Não só as imagens originais da Record foram hiper bem tratadas e causam um impacto tremendo na tela de cinema, como o coração do filme, as entrevistas com aqueles que tomaram parte no festival, foram conduzidas de forma a surpreender não só quem assistiu aos festivais na época, como quem acompanha de perto os movimentos dessa elite da MPB que desfila na tela. Não achava possível ouvir nada de muito novo de Caetano, Gil, Chico, até mesmo de Sérgio Ricardo. Quebrei a cara. Terra e Calil conseguiram arrancar “causos” deliciosos de seus entrevistados, e montá-los no filme com maestria. E é o equilíbrio entre as imagens originais e essas “causos” rememorados mais de quarenta anos depois é o que dá força ao filme.

Para chegar a esse equilíbrio. os diretores tiveram de tomar uma decisão dura no meio do caminho: não mostrar todas as músicas que chegaram à final do festival. Escolheram as primeiras colocadas e, claro, a desclassificada. Seria impossível fazer um filme sobre a final de 67 e deixar de fora o violão quebrado por Sérgio Ricardo.

Para quem sentiu falta das apresentações de Elis Regina (“O Cantador”), Nana Caymmi (“Bom Dias”),  MPB4 (“Gabriela”), Nara Leão e Sidney Miller  (“A Estrada e o Violeiro”) e Jair Rodrigues (“Samba de Maria”), o DVD de Uma Noite em 67 traz todas essas as apresentações nos extras.

Claro, a edição dos extras é menos elaborada, mas os depoimentos deliciosos sobre as músicas aparecem lá de novo. E oO melhor vem em outra parte dos extras, nos “causos” recolhidos pela dupla de diretores durante as entrevistas. Não vou estragar a graça de quem não viu, mas há ao menos três histórias impagáveis: Chico Anysio destruindo “Ponteio”, Arnaldo Baptista com sua empolgação quase infantil contando como Rogério Duprat transformava suas imagens de desenho animado do Mutante em música no arranjo de “Domingo no Parque” e Paulo Machado de Carvalho explicando como nasceram os musicais da Record.

Nem tudo é perfeito. Por mais que a ideia seja boa,  o reencontro dos torcedores no teatro hoje fica muito aquém da qualidade do resto dos extras.  Na verdade, é o único momento em que os extras parecem sobras. Em todos os outros casos, a impressão é de mergulhar em um delicioso lado B.

Se o filme sozinho já era bom de ter em casa, com os extras se torna essencial.

Mais aqui no Estadão sobre Uma Noite em 67:

Era um, era dois, era cem e muitos mais na roda viva

“Pra não dizer que não falei da noite de 67″

De conteúdos e performances

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Não é só a presença de Norah Jones no papel principal nem o toque sempre certeiro de Ry Cooder na trilha sonora. Assistindo ontem no cinema a Um beijo roubado (My blueberry nights), de Wong Kar Wai, não conseguia tirar o blues da cabeça. A relação não é a mais óbvia com a trilha sonora, mas é a própria construção cinematográfica e de roteiro d0 filme que me lembraram o blues. E são muitos os pontos de conexão. Em primeiro lugar, há uma sobreposição de culturas. A despeito de sua origem, o olhar do diretor para os Estados Unidos é tudo menos estrangeiro. E o blues não poderia ser mais americano apesar de suas origens africanas. Kar Wai é um mestre ao contar histórias e pintar com a câmera, e faz isso sempre de um ponto de vista íntimo. O blues também sempre parte da intimidade, da experiência pessoal, para pintar um retrato aberto, onde podemos inferir nossos sentimentos. O filme é uma fábula enganadora sobre o amor. No fundo, seus temas são o a confiança, a morte, o vício, o abandono, a estrada, a dificuldade de cruzar os limites pessoais, de inventar uma nova persona a partir do autoconhecimento. E esses são temas clássicos do blues. Poderia enumerar uma série de músicas, mas por serem tantas, tornam-se desnecessárias. Por fim, há uma magia no fazer cinema de Kar Wai. Aí a comparação é com a escala pentatônica. A sequência das notas não é nenhuma novidade, sabemos o que esperar, mas há sempre uma nota dobrada, um acento especial, algo que transmite a alma do bluesman quando ele escolhe que notas usar da escala. Kar Wai também não sai muito da pauta. Apesar de manejar sua câmera às vezes de forma surpreendente, sabemos onde ele vai chegar desde o início, mas é como ele escolhe chegar lá, como ele enquadra a cena, o tratamento que dá para luz e grão que o tornam tão diferenciado. E isso é o blues. Em tempo: adorei a pequena e matadora participação da Cat Power no filme.

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filme3

Estive em Portland, nos EUA, nesta semana e acabei sem tempo de blogar, mas, para o fim de semana eu deixo um podcast com a trilha sonora do filme Fim da Linha, dirigido pelo Gustavo Steinberg e escrito por nós dois. A trilha do filme foi feita por mim, pelo Gustavo e pela mulher dele, Maria Brant. Tinha gravado com os dois, mas, na edição, destruí o áudio. Fui limpar os ruídos e acabei com as falas que pareciam daquelas reportagens que disfarçam a voz do criminoso. Acabei jogando tudo fora e gravei de novo, sozinho, só o essencial. Não pudemos gravar outro take porque, nesse meio tempo, nasceu a Isadora, filha do Gustavo e da Maria, e este podcast, claro, é dedicado a ela.

Mas, para não perder tudo o que foi gravado na nossa primeira conversa, reproduzo abaixo alguns trechos, que contextualizam as músicas do podcast:

Guilherme Werneck – Foi um barato fazer a trilha a três…
Gustavo Steinberg- Foi divertido, cada um foi jogando suas idéias e acabou saindo uma trilha variada, tão variada quanto o filme.
GW – Por que você escolheu Gogol Bordelllo para abrir o filme?
GS - Não sei, boa pergunta. É uma música que eu escutei bastante quando estava em Londres, aliás, tem algumas músicas do filme são herança do ano que eu e a Maria passamos em Londres. Sei lá, combina muito com os créditos de abertura. Quando eu decidi colocar a chuva de dinheiro com a apresentação de cada um dos membros da equipe, vi que Nomadic Chronicle era uma música muito marcada e, pela marcação do comecinho, ela casa bem com as cenas documentais do início do filme, que mostram o Carlo Ponzi, o inventor do esquema de pirâmide.

GW - A gente toca muito PexbaA, que é uma banda de Minas que eu adoro e tem uma história boa: quando o Gustavo veio em casa para olhar os meus discos ele disse: “Qual é a coisa mais esquisita que você tem?” Eu disse: “Você quer estranho mesmo?”"Quero estranho.” Aí eu peguei o PexBaA.
GS – Foi engraçado que o Gui não veio com um monte de opções, porque geralmente sempre que eu pedia uma música assim, assado, ele trazia uma série de opções. Quando eu pedi uma coisa esquisita mesmo, ele só me deu uma opção e é lógico que ela está no filme abundantemente.

GW - E como apareceu o La Rue Kétanou, que eu não conhecia?
Maria Brant – Como o Gustavo disse, parte da músicas que estão no filme surgiram no tempo que a gente passou em Londres, e La Rue Kétanou é um grupo francês e nos foi apresentado por um amigo inglês, o Mike, que morou na nossa casa. A gente ouvia quase todo dia enquanto a gente cozinhava, porque o som ficava do lado da cozinha. Então é uma música que para a gente diz muita coisa e a letra é superengraçada.
GS – Principalmente porque a gente coloca a música inteira numa cena que tem a surda-muda, personagem do filme, brigando com um catador de papel. A letra da música diz “você fala demais” e colocar isso em cima da surda-muda é uma brincadeira a mais.

GW -A sorte é um tema central do filme e foi escolhida uma música do Cartola para ilustrar isso que é Que Infeliz Sorte…
GS – Essa música quem deu a palavra final foi o Lessandro, montador do filme. A gente levou algumas opções e ele gamou na música do Cartola, porque aparece numa hora em que nós voltamos ao documentário do Carlo Ponzi, justamente num momento da vida dele que, depois de tudo dar certo, tudo começa a dar errado e não pára mais até o fim da vida dele.
GW - Tem também muito o Cidadão Instigado que, para mim, é das bandas mais bem aproveitadas no filme porque entra tanto com a ironia de Os Urubus Só Pensam em Te Comer, no final, como também com as canções mais românticas, tão boas quanto as do Roberto Carlos.
GSTe Encontra Logo tem o refrão “Acho que estou te esperando…” e a gente fez casar com um momento absurdo do personagem do Leonardo Medeiros, o Artur. Ele aparece correndo com a carroça do catador de papel, com um bebê em cima, entrando num táxi sem que a taxista perceba. Por coincidência, era o mesmo táxi que ele estava antes, e quando a gente vê a taxista toca o refão.

GW - Monserrat, do Bajofondo Tango Club, é uma música que pontua o filme todo, não?
GS – A trilha é muito variada e combina com o filme, que é um painel cheio de personagens com uma trama toda ligada e paralela. Por isso a gente escolheu certas músicas para pontuar certos personagens. Essa do Bajofond sempre toca quando aparecem os velhinhos do asilo que viram motoboys. No filme também tem um grande clipe musical, onde são amarradas várias histórias, e essa música é colocada do começo ao fim. Como o Gui sempre fala, parece que a música foi feita para o Fim da Linha.
GW- Nesse bloco também tem uma música do Andrew Bird, Eugene, que foi uma das últimas escolhidas. E eu fiquei muito feliz de ter entrado. Ela é do meio da carreira dele e casou bem com uma cena bem importante que é uma descida de escada vertiginosa.

GW – Maria, o som do Spoon foi você que escolhe, né?
MB
– Foi, em certo sentido. Porque a música do Spoon é um outra que veio de Londres. Eu ouvi pela primeira vez no rádio, quando eu estava num ônibus, voltando para casa da universidade. E fui atrás da banda. Aqui no Brasil, a gente tinha aqueles CDs de compilações e ouvindo um dia o Gustavo achou que encaixava numa cena. Ficou tão boa que mesmo sendo das músicas mais caras a ser compradas, não dava para abrir mão, porque já estava difícil imaginar a cena sem essa música.
GW – Nesse bloco também tem a Pequeña Orchesta Reincidentes, uma banda que eu descobri na Argentina e que fez, entre outras coisas, a trilha do Whisky, um filme uruguaio muito bacana. E eles foram ótimos na negociação, não é?
GS – Foi engraçada essa negociação porque eles são super gente boa. Como nós eles são totalmente indepentes. O filme fala sobre dinheiro, eles fizeram uma música que fala sobre estar sem dinheiro, e a negocição foi engraçada porque o tempo todo a gente ficou brincando com o título da música. Eles falavam: “Paga um pouco mais porque a gente tá sem dinheiro”. E a gente regateava. Lembro que no último e-mail que a gente trocou, depois de meses, porque demorou para a gente ter o dinheiro para pagar a música, eles mandaram finalmente uma resposta de e-mail assim: “Con dinero!”. E a música obviamente tem tudo a ver com o filme.

Bom, abaixo, a lista dos sons do podcast:

1. Nomadic ChronicleGogol Bordello
2. YabaPexBaA
3. Tu Parles TropLa Rue Kétanou
4. Jazzin Babies BluesTraditional Jazz Band
5. Noginic - PexBaA
6. Te Encongtra LogoCidadão Instigado
7. Que Infeliz SorteCartola
8. MontserratBajofondo Tango Club
9. O Tempo - Cidadão Instigado
10. Vlu - PexBaA
11. EugeneAndrew Bird
12. Aeroporto – PexBaA
13. Ala z – PexBaA
14. Sin dineroPequeña Orchesta Reincidentes
15. The Way we Get bySpoon
16. Chorinho Cabuloso - Jacob do Bandolim
17. Os Urubus Só Pensam em te Comer – Cidadão Instigado

Download Ouça o Discofonia 69 – Fim da Linha

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