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Guilherme Werneck

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Fotos: Carl Lindstrom/Divulgação

A cantora e compositora californiana Mia Doi Todd acaba de lançar seu nono álbum, Cosmic Ocean Ship, pela City Zen Records. Produzido por Jonathan Wilson e gravado em fita analógica, esse é o disco mais quente e para cima da carreira de Mia, que vinha do lindo e introspectivo Morning Music (2009), um disco instrumental feito em parceria com seu percussionista de longa data Andres Renteria.  Baseada em Los Angeles, filha de um escultor americano com uma juíza nipo-americana, Mia Doi Todd sempre teve um ouvido aberto para a música do mundo. Tomando por base a canção americana, desde os primeiros discos Mia incorpora elementos de outras culturas em seus discos. A influência latina, sobretudo mexicana e cubana, aparece jea em seus primeiros discos, mas ela vai além. Em GEA (2008), por exemplo, se aproximou da música indiana, e, agora, em Cosmic Ocean Ship, flerta com o Brasil. Ela esteve em 2009 por aqui para tocar e acabou viajando bastante e fazendo amigos, como o baterista do Hurtmold, Maurício Takara e a cantora Thalma de Freitas.

Desde que ouvi “Paraty”, a música que abre o novo disco, e a bela interpretacão de “Canto de Iemanjá”, cantada em português, tive vontade de conversar com ela. Esta entrevista foi feita por telefone, durante uma viagem de Mia a Nova York. Antes que eu pudesse perguntar alguma coisa ela quis saber como tinha ouvido falar do disco e se ele estava disponível no Brasil. Contei que tinha comprado via eMusic, um site hoje fechado para brasileiros e que havia ficado surpreso com o flerte brasileiro. Começamos então o papo que segue, terminado com uma boa dica. “Já que não é fácil achar meus discos no Brasil, as pessoas podem comprar CD, LP ou download direto no meu site: miadoitodd.com.”  Abaixo, o melhor da nossa conversa.

GW: Fiquei surpreso de ver um cover do Vinícius de Moraes e Paraty, em ouvir música brasileira no Cosmic Ocean Ship

Mia Doi Todd: Passei seis semanas no Brasil em 2009.

GW: Onde você foi?

MDT: Toquei em São Paulo e no Rio. Queria viajar pelo País, mas acabei conhecendo muitos músicos e ficando mais entre Rio e São Paulo e no litoral entre as duas cidades. E fiz amigos em Paraty.

GW: Gostou de lá?

MDT: É tão lindo, acabei voltando várias vezes.

GW: E como você conheceu a música brasileira?

MDT: Eu já amava música brasileira. Foi o que me fez querer tanto ir ao Brasil. Acho que a primeira vez que eu ouvi música brasileira foi numa compilação do David Byrne, Beleza Tropical, que saiu nos anos 80 ou 90. Adorei o disco e acabei indo atrás dos artistas que me interessavam mais. Entre meus amigos de Los Angeles, há vários colecionadores de discos, que garimparam muita música brasileira. Eles dividiram esse conhecimento comigo. Não sou  uma rata de sebo, uma colecionadora, mas vivo cercada de discos. E acabei ouvindo muita música brasileira, que amo muito, muito mesmo.

MDT_Photo_by_Carl_Lindstrom_2.jpgGW: Como foi estar no Brasil?

MDT: Quando eu cheguei no Brasil, me senti tão em casa. Por causa da minha aparências, as pessoas sempre acham que sou brasileira, nunca que sou americana. Quando me tomavam por  brasileira no Brasil, eu me sentia muito bem-vinda. Em casa com esse mix de culturas.

GW: E por que você escolheu “Canto de Iemanjá”?

MDT: Dos orixás, Iemanjá foi a que me atraiu. Sou de Câncer, signo de água, e ela é a rainha do mar. Eu morei na praia… E eu tinha uma versão linda dessa música cantada pela Virgínia Rodrigues, apaixonei-me por ela.  Há alguns anos, montei uma banda cover com o percussionista que toca comigo há seis anos, Andres Renteria, chamada Los Esotericos.  Começamos a tirar músicas brasileiras que amávamos. Não era só música brasileira, tinha músicas de outros países e algumas americanas. Aprendi a tocar “Canto de Iemanjá” com Los Esotericos.  Comecei tocando tambura e cantando, o que trouxe um elemento novo para a canção, fiz com que ela se tornasse minha. Uma amiga, Gaby Hernandez, também do Los Esotericos, cantava a harmonia. Ela é ligada à Santeria, embora Iemanjá não seja sua santa padroeira. Nós gravamos essa música para o álbum, mas ela também  estará na nova compilação Red Hot + Rio. Você sabia que ia sair?

GW: Não sabia…

MDT: Sai um junho, eu toco duas músicas nela.

GW: E você toca com músicos brasileiros nessas músicas?

Não, foi tudo feito em L.A., com americanos. Tem alguns brasileiros na compilação, Marisa Monte, Caetano Veloso, acho que o Tom Zé, Joyce. Toco “Canto de Iemanjá” e “Um Girassol da Cor dos Seu Cabelo”. Fizemos uma versão muito diferente do original. Om’Mas Keith [do Sa-Ra Creative Partners], um dos meus produtores favoritos de hip hop, produziu, com Thundercat, um baixista novo fantástico, que toca com Erikah Badu. Eles  não conheciam bem a música e a tiraram do contexto, o que é fantástico. Fizeram algo muito diferente do original, Eu canto a melodia e toco os acordes, basicamente, mas é muito diferente, mais rápido, quase disco. Não é disco, mas é bem upbeat.

MIA DOI TODD + JOSÉ GONZÁLEZ: UM GIRASSOL DA CÔR DO SEU CABELO by Artspromo Viral Marketing

GW: Você toca com Andres Renteria há seis anos, eu adoro Morning Music, o disco que você fez só com ele. Como é a relação musical de vocês?

MDT: Tocamos há tantos anos juntos como um duo, sem um baixista ou outro guitarrista, e  viajamos juntos para fazer shows, sempre usando uma instrumentação incomum. Uma vez eu toquei abrindo para José Gonzáles, o Andres tocava congas, cajón, shakers, percussão, pandeiro, enquanto eu tocava no harmonium, violão de corda de nylon e cantava. Tocava o harmonium com o pé, enquanto tocava violão e cantava. Um tipo de instrumentação que desenvolvemos sozinhos. Ficamos superconectados musicalmente, é uma só mente pensando. Ele conhece minhas canções, meu fraseado, meu jeito de cantar e tocar. É um dos meus melhores amigos.

GW: Em Cosmic Ocean Ship você toca cavaquinho. Você gosta de experimentar novos instrumentos? É uma dessas pessoas que passam horas treinando ou tem uma relação mais intuitiva, curiosa com a música?

MDT: Eu sou mais curiosa, não domino totalmente nenhum instrumento. O cavaquinho, por exemplo, nem de longe eu toco como se deve tocar, com a palhetada rápida. Tentei tocar desse jeito, mas está além do meu alcance. Comprei meu cavaquinho quando estava no Brasil, trouxe para casa, tentei tocar do jeito correto, não consegui. Mesmo assim eu compus uma canção com ele, tocando do jeito que eu conseguia. E tudo bem. Ele tem um timbre próprio, bem diferente de um violão ou de um ukelele, e por si só ele traz a sua “cavaquinhesa”. E eu estava mais interessada no timbre.

GW: Ouvindo seus discos eu reparei que você usa afinações diferentes. Você se inspirou nas afinações do blues e do folk ou é uma afinação mais pessoal?

MDT: É mais uma afinacão pessoal. Normalmente  uso a corda mi de baixo e afinada em ré. Isso não é tão incomum. Quando você faz essa afinação de baixar para o ré, acaba tirando as outras cordas da afinação tradicional, para transformar em um acorde aberto em ré. Eu quase nunca faço isso. Eu gosto muito de tons quentes, e eesa afinação faz o violão soar de uma maneira que faz mais sentido para mim. Às vezes eu uso o sistema tradicional nas minhas canções. Na verdade, ter estado no Brasil e visto tudo que as pessoas conseguem fazer com a afinação tradicional, me deixou pirada. Me fez ter vontade de voltar para a afinação tradicional. Minhas mãos são muito pequenas e eu não tenho tanta destreza. Não fico perorrendo todo o braço, tocando acordes diferentes e criando fraseados difíceis. Eu toco com acordes bem simples, e usar minha própria afinação me ajuda a encontrar acordes adequados o meu jeito de tocar. Joni Mitchell também encontrava a sua própria afinação. Ela tinha muitas afinações diferentes que a ajudavam a dar forma à sua música. Para mim, as afinações ajudam a encontrar o meu som. Para mim é um mistério ver uma pessoa pegar um violão com afinação normal e tocar todo tipo de coisa. Sou autoditata, nunca tive aula de violão. Meu forte é encontrar o meu jeito de tocar.

MDT_Photo_by_Carl_Lindstrom_4.jpgGW: Você não estudou música na universidade?

MDT: Não. Olhando para trás, eu gostaria de ter estudado. Teria me ajudadado muito porque nos últimos 15 anos música ocupado um lugar muito central na minha vida. Estudei canto lírico quando era adolescente. Meu vizinho de porta era cantor de ópera e durante muitos anos ele me dava aula particular na sala da casa dele, uma vez por semana. Isso ajudou a formar minha voz. Tenho um tom puro, redondo, o que não é muito comum comum na música pop. Minha voz foi formada nessa época e é algo difícil de mudar. Desenvolvi uma técnica muito particular. E, claro, isso também acabou dando forma à minha música.

GW: Mas você nunca soa como uma cantora de ópera nos seus discos…

MDT: [risos] Não, não, não, não. De jeito nenhum.

GW: Você tem um jeito de cantar que é muito mais sossegado, sem drama.

MDT: Percebi rapidamente que ópera não era meu forte. Não sou grande, não tenho uma voz enorme. Usei essas aulas para encontrar a minha própria voz. Sempre quis que o meu cantar fosse quase falado, que as melodias soassem como se eu estivesse dizendo algo.

GW: As suas canções, especialmente em Cosmic Ocean Ship, são muito bem construídas, e gosto muito de fato de que as melodias são muito lindas e fortes, mas meio sem gordura, sem excessos. Você pode me contar como foi o processo criativo desse disco?

MDT: No passado, escrevi muitas músicas melancólicas. Nem sei muito o porquê, era um pouco o meu temperamento e também porque é mais fácil compor música mais triste. Mas quando você tem que cantar essas músicas a toda hora, isso acaba fazendo você voltar a essas experiências negativas. Escrever essas músicas me fizeram superar essas experiências, mas voltar a elas repetidas vezes não estava mais me ajudando. Quando eu estava trabalhando em Morning Music, já não tinha mais nada a dizer e decidi que não iria escrever mais nenhuma música que não fosse para cima, que não fosse positiva para mim. Se eu vou cantar essas músicas, quero que elas me deixem para cima. Quando comecei a compor Cosmic Ocean Ship, estava nesse estado de espírito, buscando músicas positivas, que, em um certo sentido, tivessem uma função de cura para mim, e, com sorte, para quem ouve também. Todas as minhas canções partem de experiências pessoais, muitas delas sobre relacionamentos. E viajei bastante nos últimos anos, não só para tocar, mas para absorver música. Fui para o Brasil, para o México, Índia, Cuba, lugares  que me inspiram musical e culturalmente. Muito disso acabou entrando na composicão das canções.

GW: Seus discos são muito diferentes entre si. Há uma preocupação em não se repetir?

MDT: Não foi tanto um esforço consciente, mas uma evolução natural. Tem muito a ver com quem eu colaborei em determinado período de gravação dos discos. Ao compor, meu processo tem sido similar ao longo do tempo. Eu junto observações em um diário, encontro tempo para buscar novos acordes no violão, melodias que pareçam naturais. Tem uma hora em que vem essa fagulha criativa, em que acontece o encontro da letra com a melodia, como se tivesse sido escrito nas estrelas. Não sou eu escrevendo. Sou um veículo para ler essas coisas que já existiam antes. Isso tem sido constante, mas pessoalmente eu evoluí com o tempo e tive interesses diferentes em épocas distintas. Nesse último álbum, o que me inspirou mais foi a música latino-americana, os ritmos acabaram entrando nas canções. Em GEA, a ispiracão foi mais a música indiana, eu queria colocar o harmonium em tudo, estava curtindo drone e música ritualística esotérica. Tendo passado um tempo na América Latina, eu estava gostando de dançar, da agitação. Antes eu achava que essas coisas eram muito distantes da minha música e que eu nunca conseguiria incorporá-las. Com o tempo, o desafio de Cosmic Ocean Ship foi sintetizar algumas das minhas influências e interesses musicalmente e incorporá-los à minha música.

GW: Você estudou butô com Kazuo Ono no Japão. Como foi essa experiência?

MDT: Ela influenciou minha vida toda. Passei um ano no Japão, em 1998, estudando com Kazuo Ono e Min Tanaka. Min foi meu professor de dança, que mudou minha percepção do meu corpo, da arte e meu estilo de vida. Morei na fazenda dele no verão. Ele tem uma fazenda desde 1986, acho, para onde todos os bailarinos de Tóquio se mudam no verão para aprender as técnicas tradicionais de agricultura japonesa. É uma espécie de comuna artística no interiror. Não sei se ele ainda faz isso, mas ele costumava convidar estudantes do mundo inteiro para estudar dança e trabalhar duro. Você dorme tão bem, e trabalha, e a comida é deliciosa. Você acorda com o sol raiando, trabalha na fazenda, come com todas as pessoas e dança 4 ou 5 horas. Depois, volta a trabalhar no campo. Foi há mais de 10 anos, mas esse estilo de vida afetou todo o meu trabalho. Vem daí minha relação de amor e ódio com a cidade, e isso está em Cosmic Ocean Ship com certeza. Sempre tentei manter a minha vida no butô separada da minha música, sempre tentei escrever música pop, embora eu tenha dito que GEA é mais esotérico [risos]. Mas eu tento fazer música mais acessível. Não é a mais pop das músicas, mas não é música que você escolheria para uma performance de butô.

GW: Me conta um pouco da sua família. Seu pai era um escultor, sua mãe, uma juíza. Como foi o ambiente em que você cresceu. Tinha muita música na sua casa?

MDT: Música não era uma coisa muita presente em casa. Meus pais não ouviam muita música. Meu pai era um grande fã de jazz. Seu músico preferido era o Miles Davis, e eu amo Miles Davis. Mas ele só ouvia música em seu estúdio. Quando eu era criança, passei alguns verões no estúdio dele. Em vez de ir para um acampamento ou ficar com uma babá, eu passava os dias no estúdio. Então eu ouvia um jazz mais maluco. Minha mãe trabalhava muito e não ouvia música em casa. Ela começou a trabalhar cedo. Ela é de origem japonesa, esteve nos campos de concentração americanos, teve uma juventude bem dura. Ela foi para a universidade de Stanford e era a única asiática da classe. Estudou Direito e foi a primeira mulher asiática a se tornar juíza nos Estados Unidos. Ela é de uma geração de mulheres que tinha de fazer tudo. Tinha de ter uma carreira, e trabalhar duas vezes mais do que os homens para ser reconhecida no  trabalho. E ainda tinha de ser mãe [risos].

GW: Você tem irmãos?

MDT: Não, ela não tinha tempo de ter mais de um filho. Ela sempre trabalhou muito e continua trabalhando. Hoje está na corte de apelações. Minha mãe é um modelo para mim, porque é tão forte e determinada, mas acho que eu reagi a isso e sou bem mais tranquila, flexível, tento não julgar muito as pessoas. Mas eu tenho a força dela em mim, com certeza. E meu pai é muito flexível e criativo. Ele foi uma criança da Depressão, e é um milagre que tenha conseguido se tornar um artista. Ele recebeu um bolsa para morar em Paris nos anos 60, para seguir com seus estudos em arte. Ele deu aula na UC San Diego, no Departamento de Arte, quando eu era bebê. Só parou de dar aulas ao 40, quando começou a exibir seu trabalho e viver disso. E eu o admiro muito. Ele também trabalha muito, e continua criativo. Hoje faz mais cerâmicas e pinturas, mas é famoso por suas esculturas metálicas de grande escala. Ele é meio um expressionista abstrato, mas ele está mais velho, vai fazer 76 neste mês, e ele tem trabalhado em coisas menores. Ele foi um modelo sobretudo por não parar de fazer coisas criativas. Ele é uma inspiração para muitos de meus amigos artistas porque ele ainda tem desejo e habilidade. Ele está tão bem fisicamente, aparenta ser bem mais jovem do que é.

GW: Uma última pergunta. Eu amo o vídeo de Open Your Heart, dirigido pelo Michel Gondry, como vocês se conheceram?

MDT: Nós nos conhecemos numa festa, foi uma noite bem importante na verdade. Eu tinha feito um show no estudio de um coletivo de diretores de clipes em L.A. , no escritório deles, onde eles dão festas incríveis. Tinha tocado, tinha sido um show ótimo, divertido. Estava guardando meu equipamento e levando alguma coisa para o quarto dos fundos quando uma garota pegou meu violão, sem pedir, e começou a tocar um pouco. Meu violão é muito precioso, é um Martin de 1969, muito raro. Ela o deixou perto de uma vela e ele pegou fogo. Ela botou no chão, saiu e ele pegou fogo. Eu voltei e meu violão estava em chamas. Fiquei histérica. Apaguei o fogo com o meu corpo e corri para os fundos do escritório e me escondi por várias horas. Estava muito triste, mas não queria criar caso, então eu me escondi com meu violão nos fundos. Até que, bem no fim da festa,  saí do quarto. Era bem tarde, já estava todo mundo meio detonado e eu sentei na bateria e comecei a tocar com essa banda que eu nem conhecia. Adoro tocar bateria, mesmo sem ser uma boa baterista. Eu não sabia que o Michel estava lá. Ele tinha passado toda noite na festa e me disse : “Nossa você é uma ótima baterista” . Eu disse que não, que não era verdade, daí a gente começou a conversar . Depois saímos algumas vezes e ficamos amigos. Ele adora minha música e queria fazer um vídeo. Ele já tinha tido a ideia para o vídeo de Open Your Heart, com uma centena de pessoas vestidas com cores opostas, seguindo o espectro do arco-iris. Eu ajudei a costurar todas as roupas e foi bem divertido.

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Tinha 14 anos quando esse vídeo dos Smiths saiu. Até hoje é um dos clips de que mais gosto. Ontem The Queen Is Dead, meu disco preferido dos Smiths, fez 25 anos de lançamento na Inglaterra. Como o clip, ele envelheceu bem. Smiths está entre as poucas bandas que mudaram a minha vida, não necessariamente para melhor.

Ouvir Smiths, na adolescência, nos anos 80 no Brasil, não deixava de ser uma forma de confronto. Num ambiente dominado pela virilidade do metal, gostar de uma banda, digamos, afetada, era assumir um pouco que aquele mundo de testosterona fervilhante não era meu ambiente ideal. Para mim, antes da música, o que importava eram as letras. Sempre coloquei o Morrissey entre um dos grandes poetas da tradicão inglesa. Ele se via assim, e era uma visão contaminante.

Mas, se os Smiths me ajudaram a entender melhor o lugar da sexualidade, a respeitar diferenças, dar valor para a imaginação e para o mundo interior – nada é mais importante para um adolescente do que entrar em contato com o fantástico do seu mundo interior -, por outro lado, eles me contaminaram de preconceitos.

Os Smiths chegaram a flertar o National Front, grupo mais visível do abominável neo-fascimo inglês, e, em termos de música, glorificavam os anos 60 branco, o pop perfeito e levemente açucarado, numa linha que parte dos Beach Boys, do começo dos Beatles. E, com um gênio como Johnny Marr na guitarra, a banda tinha ainda um pouco daquela aura de que uma grande banda é  feita de grandes músicos, de uma criação que combina cérebro, habilidade e emoção – isso mesmo depois de o punk ter posto abaixo o mundo perfeito. Esse apego ao mundo idealizado, povoado de traças e celebridades de celulóide,  não fez mal só a mim. Smiths é a grande referência quando pensamos na fixação com pureza e passado que até hoje predomina entre as bandas indies.

morrissey.jpgIsso eu consigo pensar hoje. Em 1986, os Smiths eram sobretudo uma banda cerebral que desprezava o corpo – “hang the DJ”.  Por influência do Morrissey, durante uns bons anos eu quis também enforcar do DJ. Antes de ouvir Smiths, gostava de Motown, de Stax, do princípio do hip hop. Gostava dos bailinhos, de dançar com as pessoas, tinha até um grupo que fazia uma versão absolutamente vexatória de break dance. Os Smiths me tiraram o amor pela black music, me desconectaram do meu corpo.

Só consegui reatar esses nós anos depois de The Queen Is Dead e “Panic”, com a descoberta da acid house, nas pistas da Nation. Só quando as raves começaram a incendiar São Paulo, em meados dos anos 90, foi que fiz as pazes definitivamente com meu corpo dançante e com uma música que não fosse über-intelectuaizada. Neste intervalo, meu corpo só admitia a dança desconjuntada, mimetizando o Morrissey do clip de “The Boy with the Thorn in his Side”, ou epilética, bem ao estilo Ian Curtis.

Bom, 25 anos depois dá para dizer que isso quase passou. Gosto de dançar, aprendi a não ter preconceitos com estilos musicais e a me relacionar com letras ruins, desde que a música seja boa. Talvez a única coisa que realmente persista, e, de novo, isso não é necessariamente bom, seja a meu jeito meio desconjuntado, epilético de dançar. Não dá para negar seus anos de formação. There is a light that never goes out.

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De vez em quando uma banda bem pop consegue me divertir. A banda da vez é a americana Cults, que acaba de lançar seu primeiro disco, com o título super inspirado de… Cults. Formada por Madelaine Follins nos vocais e Brian Oblivion em todo o resto, a banda tem aquela inocência de algodão doce dos grupos de garotas, mas com um pouquinho mais de perversidade. “Abducted” é o single que virou esse vídeo bem bacana, dirigido pelo David Altobelli.

Para quem lê inglês, o eMusic fez uma entrevista simpática com a dupla: http://www.emusic.com/features/spotlight/2011_201106-wa-cults.html

Para ouvir o álbum: http://cultscultscults.com/premiere/

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09.junho.2011 14:29:27

Última Talco no Cambridge

Talco_48.jpg

Os amigos da Talco Bells, a melhor festa de black music da cidade, fazem a última edição da festa no hotel Cambridge amanhã. O hotel fecha no sábado, uma tristeza para aqueles que, como eu, já se acabaram de dançar na pista apertadinha do Cambridge (RIP)

Para quem se animar:

Data: Sexta, 10/06, a partir das 23:30h.
Onde: Hotel Cambridge, Av. Nove de Julho, 210 / Centro
Entrada: R$ 20,00 (SOMENTE EM DINHEIRO OU CHEQUE — APENAS A CONSUMAÇÃO PODE SER PAGA NO CARTÃO)
Mais informações: www.talcobells.blogspot.com

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Já estava com vergonha de ter parado de escrever no blog. Agora retomo o ritmo, para começar, toda sexta posto um vídeo bacana. Para inaugurar a seção “Um Vídeo às sextas”. escolhi uma sessão da 4AD com a banda de Nova York Gang Gang Dance, que acaba de lançar o álbum “Eye Contact”. O vídeo é uma gravação de “Glass Jar”, música de abertura do disco, super climática, um bom aperitivo para esse que é um dos melhores lançamentos do ano. Enjoy.

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william_parker_01_milano2008.jpg

Amanhã, 12/2, o baixista William Parker integra a banda que vai tocar com o lendário Yousef Lateef no Sesc Pompéia (os ingressos estão esgotados). Hoje, o Roberto Nascimento publicou uma matéria sobre Parker no Caderno 2 e eu fiz um texto sobre a sua importância como baixista. A entrevista ficou muito boa e o Roberto liberou a íntegra desse papo com William Parker aqui para o blog.

Além da entrevista, deixo um link para um dos primeiros podcasts Discofonia que fiz, sobre o baixista, em 2005: Discofonia sobre William Parker.

Mas o que vale mesmo é o papo com este gigante do jazz:

Fale um pouco sobre Curtis Mayfield.

Bom, por muitos anos disse na imprensa e em livros que, basicamente, todo mundo têm sua própria música e uma ideia de seu relacionamento com som. E que, para tocar a música do Duke, você precisa do Duke, para tocar Trane, você precisa do Trane. Não é o tipo de coisa que eu faço normalmente, mas decidi que queria fazer a música do Curtis Mayfield. Porque eu gostava da música dele. Não achava necessariamente que era uma música excelente para improvisar em cima, porque eu não sabia o que iria fazer com ela quando comecei o projeto,  exceto que havia um questionamento de como transformar a música do Curtis Mayfield em algo maior. Daí veio a ideia de buscar a canção dentro da canção. Muito da música dele vinha dos anos 60, durante o movimento por direitos civis. Muitas delas eram centradas no orgulho negro e na ideia de liberdade, de se defender por si mesmo, de ter uma voz própria. Era político. Então a chave não era a música em si, porque todas as canções dele são em um tom só, era um fascínio pela pessoa dele cantando essas músicas. O mesmo que James Brown, o ritmo sobre o qual ele apresentava as coisas, o sabor, o colorido… Não era necessariamente desafiador musicalmente. Então o centro catalisador tinha de ser a extensão das canções, ir para dentro das músicas. Foi Amiri Baraka que pegou as pistas das letras do Curtis para ampliar as canções e fazer com que elas se transformassem em outras coisas. Porque obviamente o aspecto da improvisação era muito simples. É o que aprendemos com John Coltrane. Ele podia pegar My Favorite Things ou Chim Chim Cher-ee e basicamente usar como fonte para improvisar por horas. Essa é a parte simples. Podia ser a música de qualquer pessoa, mas escolhemos Curtis Mayfield. A ideia é de que, seja o que for que você tocar, você tem de chegar ao centro da música. Se você estiver fazendo um instrumento de madeira, como um xilofone, você encontra os nós da madeira ou os pontos onde ela vibra mais. Toda música tem um centro ou um lugar onde onde vibra mais. Você tem de conseguir encontrar esse centro.

(mais…)

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21.janeiro.2011 12:26:24

Talco no salão

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Hoje (21/1),  a Talco Bells faz três anos. Uma festa que vi nascer na casa de amigos antes de virar a melhor balada de soul, funk e R&B da cidade. O que começou com uma brincadeira (a vinda do ‘mestre perdido de Memphis’, Horny Baby Jr.), virou uma festa que recebe cerca de mil pessoas. É delicioso perceber a sensibilidade black de Guilherme e Filipe Luna, ouvir a discotecagem com compactos em vinil de Elohim Barros e dançar os hits de Bruno Torturra. O Antídoto para quem não gostou da Amy.

Esse acima foi o texto que saiu hoje no Divirta-se. Mas, além da discotecagem dos quatro DJs oficiais,  o convidado da noite de hoje é ninguém menos que o lendário DJ Tony Hits. Não dá pra perder. Para dançar ajoelahado…

Serviço:

Data: Sexta, 21/01, a partir das 23:30h.
Onde: Estúdio Emme, Av. Pedroso de Moraes, nº 1036 / Pinheiros
Ingressos antecipados: R$ 20,00 em www.compreingressos.com, pelo telefone (11) 2626-5835 (até às 18 hs. no dia da festa) ou ainda na porta (bilheteria Estúdio Emme) até às 21 hs. do dia da festa.

Na porta: R$ 30,00.

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14.janeiro.2011 15:43:10

RIP Trish Keenan

O Broadcast se equilibrava entre o passado e o futuro. Se de um lado tinha os sintetizadores, de outro tinha uma uma sonoridade visceral que remetia ao som do garagem dos anos 60, ao rock que desembocaria tanto na psicodelia quanto no punk. Natural que o último álbum da banda, em parceria com The Focus Group, tivesse exatamente essa aura de mergulho no passado, apropriando-se de pedaços de gravações antigas para criar sonhos meio fantasmagóricos. Era um som inquieto, literalmente assombroso. Foi um dos discos de que mais gostei em 2009.

Muito do refinamento da banda e destes pontos de contato com o passado vinham da voz de Trish Keenan.  Era ao mesmo tempo delicada e forte, tinha algo fora de esquadro, fora do mundo e do tempo. Trish morreu de pneumonia depois de lutar contra o vírus H1N1. Uma brutalidade morrer de gripe hoje. Tristeza.

Para lembrá-la, deixo aqui um trecho sem edição de uma matéria de capa da Wire de 2009 com a Trish e alguns vídeos.

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22.dezembro.2010 13:11:55

Os 100 melhores discos de 2010

Poucas pessoas têm a mesma disposição que eu para ouvir de composição moderna ao hypezinho indie do momento. Cantor do lendário 3 Hombres e jornalista cultural, Daniel Benevides (@the_benevides) é uma esponja. Tem uma curiosidade gigantesca, uma disposição para ir atrás de coisas diferentes, mas não é xiita. Como compartilhamos um pouco esse espírito mais aventureiro, Daniel é a dupla ideal para a lista de fim de ano do Discofonia. Quando começamos a conversar sobre os melhores discos do ano, cada um tinha ouvido um monte de coisas bacanas. Juntamos as listas, ouvimos boa parte das indicações do outro e conseguimos chegar a um acordo sobre os 100 discos do ano, num arco que vai de música de coral a noise, de artistas independentes aos de grandes gravadoras, discos para a cabeça, para o pé, ou pra botar o mundo de ponta-cabeça.

Só para não fugir da brincadeira, os melhores 25 discos aparecem organizados como uma lista tradicional: um top 25 clássico. Depois disso, essa matemática começa a ficar fraudulenta demais, então agrupamos alguns artistas em listas menores. Cada lista vai virar um podcast.

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1. Joanna NewsomHave One on Me

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2. Gil Scott-HeronI’m New Here

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3. Wyatt, Atzmon, Stephen…For the Ghosts Within

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4. LCD SoundsystemThis is Happening

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5. M.Takara 3Sobre Todas e Qualquer Coisa

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6. Oneohtrix Point Never Returnal

The_Roots_How_I_Got_Over.jpg

7. The RootsHow I Got Over

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8. The BooksThe Way Out

'

9. AutechreOversteps

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10. Philip JeckAn Ark for the Listener

emeralds_cover.jpg

11. EmeraldsDoes it Look Like I’m Here?

emicidio_.jpg

12. EmicidaEmicídio

Swans_MyFatherWill.jpg

13. SwansMy Father Will Guide Me Up a Rope to the Sky

flying_lotus.jpg

14. Flying LotusCosmograma

brothersblack_keys.jpg

15. Black KeysBrothers

konono_assume_crash.jpg

16. Konono no 1Assume Crash Position

antony.jpg

17. Antony and the Johnsons - Swanlights

victoire_cathedral.jpg

18.  VictoireCathedral City

Caribou_Swim.jpg

19. CaribouSwim

formanek.jpg

20. Michael Formanek QuartetThe Rub and Spare Change

buhr.jpg

21. Karina BuhrEu Menti pra Você

TheNational_HighViolet.jpg

22. The National High Violet

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23. Satanique Samba TrioBad Trip Simulator #2

big_boi.jpg

24. Big BoiSir Lucious Left Foot

omar.jpg

25.Omaar SouleymanJazeera Nights

Acústicos e transtornados

(mais…)

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07.dezembro.2010 16:09:32

Chat com Garotas Suecas

suecas.jpg

Para conferir: comandei um bate-papo com uma das bandas paulistanas mais bacanas de agora, o Garotas Suecas, que acaba de lançar o disco Escaldante Banda.

O chat rolou aqui no estúdio do Estadão há algumas semanas  e, depois de muito tentar subir o vídeo, desisti e deixo o link para ele:

http://tv.limao.com.br/videos,BATE-PAPO-DO-LIMAO-GAROTAS-SUECAS-1,125168,0.htm

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