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Erros de arbitragem comprometem a credibilidade do futebol

Geraldo Nunes

quinta-feira 26/06/14

Dando continuidade ao capitulo que aborda a arbitragem envolvendo o Brasil nas copas, vamos apresentar fatos curiosos que em determinados momentos ajudaram a nossa seleção mas também a prejudicaram ao longo da história.

Como há muita picaretagem no esporte, o pessoal que ouve rádio de madrugada entra pelas redes sociais e nos pergunta se tal acontecimento se deu de fato ou tem manipulação por trás para beneficiar o Brasil. Até a mordedura do atacante uruguaio Suárez, no adversário italiano foi questionada.  Uma punição a ele seria para ajudar nosso time? Por que não puniram Neymar pela cotovelada no jogo com a Croácia? Acreditem, brasileiros pediam a punição do Neymar. A situação foi melhorar depois que o Brasil só empatou com o Chile, sendo salvo da derrota pelo arqueiro Julio César e pela trave.  A instabilidade emocional de nossos jogadores complicou um jogo que poderia ter sido mais fácil, graças também ao árbitro inglês que anulou um gol de Hulk, a meu ver legítimo, somente depois que o time chileno reclamou ter havido uso do braço. Os nossos atletas já comemoravam e isso sem dúvida foi uma bacia de água fria. Essa porém é só mais uma história a ser lembrada nessa sequência de fatos curiosos ligados ao futebol. Conheça mais:

 Após encerrar a carreira de jogador, o falecido craque Hideraldo Luiz Belline, capitão da seleção brasileira em nossa primeira conquista mundial, contava que a arrogância dos dirigentes contribuiu para o insucesso da equipe que disputou a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra.  Esses dirigentes achavam que o Brasil se tornara imbatível e não haveria dificuldades para se conquistar o tri. Dizia ele também que após 1962, o presidente da então Confederação Brasileira de Desportos – CBD, João Havelange, começou a cogitar sua candidatura à presidência da Federação Internacional de Futebol Association – Fifa e  talvez até por isso não foram tão veementes quanto deveriam, as reclamações contra o árbitro da partida entre Brasil x Portugal, o inglês George Mc Cabe, que permitiu uma verdadeira carnificina sobre o rei Pelé sem ter expulso de campo nenhum dos algozes daquele time lusitano.

As duas seleções fizeram seu terceiro jogo no grupo três, que era composto também por Bulgária e Hungria. Nos primeiros jogos Portugal vencera a Hungria por 3×1 e Bulgária por 3×0. Por sua vez o Brasil saíra em vantagem sobre a Bulgária por 2×0, mas perdera para a Hungria por 1×3. Logo Portugal, sob o comando do técnico brasileiro Otto Glória,  jogava por um simples empate para continuar na competição enquanto o Brasil tinha que vencer a peleja por um placar favorável, pois mesmo vencendo poderia ficar fora do certame.  Na época a vitória valia dois pontos e neste cenário Brasil e Portugal se enfrentaram no dia 19 de julho de 1966 no Goodison Park Stadium, em  Liverpool. Fãs do futebol brasileiro, os Beatles enviaram ofício à CBD na chegada do Brasil, oferecendo um show exclusivo aos jogadores na concentração da equipe. Apesar da intenção dos quatro rapazes em conhecer pessoalmente os jogadores, sem prejudicar a equipe, tiveram o pedido negado de maneira veemente e até com um comentário maldoso, “esses cabeludos aqui não entram”, contaria Pelé anos mais tarde. Percebe-se que além de desorganizados e arrogantes, os dirigentes também não entendiam nada de marketing esportivo. A vitória sobre os búlgaros por 2 x 0 juntou pela última vez Pelé e Garrincha e foram deles os gols da partida. Após a derrota para a Hungria, o Brasil foi a campo encarar Portugal com sete alterações na equipe e a seguinte escalação: Manga, Fidélis, Brito, Orlando e Rildo. Denílson e Lima, Jairzinho, Silva, Pelé e Paraná. Técnico: Vicente Feola.  Portugal jogou com: José Pereira; Morais, Batista, Vicente, Hilário; Jaime Graça, Coluna; José Augusto, Eusébio, Torres, Simões .  Técnico: Oto Glória. Os lusitanos dominaram desde o início e abriram 2×0 com gols de Simões e Eusébio. Rildo diminuiu aos 18 da etapa final e Eusébio sacramentou a vitória aos 40 minutos do segundo tempo. Vale ressaltar que Pelé foi caçado em campo, com violência fora do comum, não havia cartões amarelos e nem vermelhos e a substituição proibida durante os 90 minutos, com isso, mesmo contundido pelos inúmeros pontapés que levou, Pelé teve que ficar em campo apenas para fazer número. Da equipe que perdeu em Liverpool para os portugueses, Brito e Jairzinho brilhariam em 1970, sagrando-se tricampeões em um grupo de jogadores onde também estavam Gérson, Edu e Tostão.

A Copa de 66 ficou marcada na história por um erro de arbitragem na partida final, entre Inglaterra e Alemanha Ocidental. A partida empatada no tempo normal em 2 a 2 foi para a prorrogação e definida quando o camisa 10 britânico Hurst, recebeu uma bola no campo de ataque, avançou e virou chutando quase na entrada da pequena área. O arremate estourou no travessão e se chocou com o chão da meta defendida por Hans Tilkowski, próximo à linha do gol. Os ingleses comemoraram e os alemães protestaram dizendo que a bola não havia entrado. A jogada foi validada em favor da Inglaterra pelo árbitro suíço Gottfried Vienst e pelo bandeirinha azerbaijano Tofiq Bahramov.

Sentindo-se injustiçados, os alemães desanimaram e, diante de um Estádio Wembley com 96.924 ingleses ensandecidos, não conseguiram reverter o resultado negativo e ainda sofreram mais um gol no final. Resultado: Inglaterra 4 x 2 Alemanha. Lance polêmico semelhante aconteceria em 1986, na segunda copa promovida pelo México,  onde no jogo Brasil e Espanha, a bola chutada pelo espanhol Michel ricocheteou na trave defendida por Carlos, ultrapassou a linha do gol e voltou ao campo. O juiz australiano, Christopher Brambridge não validou o lance e o Brasil ganhou por 1 a 0. Outro episódio do tipo se deu novamente em 2010, na África do Sul, numa partida que juntou por coincidência alemães e ingleses. Só que agora o árbitro anularia um gol legítimo da Inglaterra embora um telão existente no estádio mostrasse claramente que a bola havia entrado. Naquela oportunidade o presidente da Fifa, Joseph Blatter, prometeu resolver o problema e nessa Copa do Mundo de 2014 um ship instalado dentro da bola brazuca ajudou a resolver essa polêmica, validando inclusive nas mesmas condições um gol da Costa Rica sobre a Itália.

Mas a história seguia e depois da suada e brilhante conquista do tri pelo Brasil, no México em 1970, João Havelange se elegeu presidente da Fifa, pouco antes da Copa de 1974 e ao contrário do que se imaginava, dali para a frente, nosso país entrou em um jejum de mundiais. A Copa do Mundo de 1978 aconteceu na Argentina e o orgulho portenho não permitia que o país deixasse o título escapar em sua casa.   Logo na partida de estreia do Brasil contra a Suécia, em Mar Del Plata, o árbitro galês John Thomas apitou o fim do jogo, após uma cobrança de escanteio ainda com a bola no ar. A partida estava empatada em 1 a 1 e já nos acréscimos Zico subiu de cabeça, após cobrança de escanteio e tocou para o fundo das redes, mas o juiz que havia permitido o corner, apitou fim do jogo, mesmo com a bola em movimento.  O empate prejudicava o Brasil e a Confederação Brasileira de Futebol – CBF, entrou com duas representações contra o juiz, na Comissão de Arbitragem e no Comitê Disciplinar da Fifa e John Thomas nunca mais apitou em copas do mundo. Recentemente fato parecido aconteceu na partida entre Suíça e França pelo mundial de 2014.  O jogo estava nos acréscimos e partindo para o ataque o jogador francês Benzema fez o gol, quase no instante em que o insensível árbitro holandês Bjorn Kuipers apitava o fim da partida cujo resultado ficou em Suíça 2 x 5 França. O atacante que marcara o sexto gol da França, se tornaria naquele momento o artilheiro do mundial com quatro gols, um golaço, aliás.  Benzema deu azar também pelo fato de ter perdido um pênalti naquela partida e no jogo anterior, diante de Honduras, um gol seu poderia ter entrado na súmula mas, após lambança do goleiro o apitador considerou gol contra.

As arbitragens pecam em cima de todas as seleções quase que indiscriminadamente mas há um outro incidente envolvendo a França bem interessante que ocorreu  na Copa de 1982 e não pode deixar de ser citado.  No dia 21 de junho daquele ano, a França vencia confortavelmente o jogo por 3x1diante da fraca seleção do Kwait. O jogador francês Giresse, invadiu a área e fuzilou sem piedade marcando aquele que seria o quarto gol.  Os franceses se abraçavam comemorando e os adversários foram para cima da arbitragem, alegando que o atacante estava impedido  e que a posição irregular havia sido identificada pelo próprio juiz, que chegara a apitar o lance. Os kuwaitianos brigavam com a arbitragem e apontavam para as tribunas onde estava o príncipe Al-Sababe.  Os jogadores esperavam alguma ação de seu líder político e futebolístico que acabou acontecendo. Al-Sababe desceu ao gramado e discutiu com veemência com o árbitro soviético Miroslav Stupar que voltou atrás e anulou o tento. O técnico da seleção do Kwait era o brasileiro Carlos Alberto Parreira. A Fifa  sancionou posteriormente Al-Sababe e Stupar pelo episódio e o Kuwait nunca mais conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo desde aquela ocasião.  Nessa mesma Copa de 1982, no jogo Itália 3×2 Brasil, eu ficou conhecido como o “A Tragédia do Sarriá”,  o árbitro nascido em Israel, Abraham Klein, não viu o puxão do zagueiro italiano Gentile em Zico, dentro da grande área,  que teve sua camisa rasgada e a mostrou para o juiz que não tomou nenhuma providência. O jogo acabou 3 a 2 para os italianos e se fosse marcado o pênalti quem sabe o resultado fosse favorável ao Brasil?

As últimas polêmicas desse capítulo envolvendo o Brasil com as arbitragens nas copas aconteceram em 2002 com três episódios.   No jogo da fase de grupos entre Brasil e Turquia, o juiz coreano Kim Young Joo,  marcou um pênalti após arrancada do atacante Luizão. Ocorre que a falta se deu fora da área e Luizão caiu dentro dela, enganando o árbitro e possibilitando a vitória do Brasil por 2 x 1. Nas quartas de final diante da Bélgica, o jogador adversário Wilmuts  marcou, mas o juiz jamaicano Peter Prendergast não validou o gol. Depois de cruzamento na área, o atacante subiu atrás do zagueiro brasileiro. O árbitro marcou falta do mesmo Wilmuts e o Brasil ganhou o jogo por 2 x 0 chegando ao título naquele mundial em vitória merecida sobre a Alemanha também por 2 x 0.

Acontecimentos recentes da vida brasileira levaram muitas pessoas a desacreditar na honestidade e achando que mesmo as conquistas esportivas só se tornam possíveis no país por meios ilícitos. O Brasil sempre foi admirado no mundo todo pela qualidade de seu futebol e por seus jogadores e os erros de arbitragem fazem parte desse esporte que já beneficiou e prejudicou por inúmeras vezes várias seleções. Pergunte, entretanto, a um argentino se ele acha que seu país não vale nada só porque em uma oportunidade que teve o jogador Diego Maradona usou a mão para fazer um “gol de cabeça”.

Seu país fora derrotado na Guerra das Malvinas quatro anos antes e numa partida contra os ingleses na Copa de 1986 o craque arrancou do meio do campo ao ataque e numa disputa com o goleiro, apelou à malandragem que também caracteriza os craques, dando um leve toque com uma das mãos na bola e conseguindo a vitória por 2 x 1. Questionado a respeito disse “Foi a mão de Deus” e sua equipe sagrou-se campeã do mundo pela segunda vez.

Outro “exemplo” das arbitragens prejudicou a Espanha em 2002, que teve um gol legítimo anulado no tempo normal,  beneficiando a Coréia do Sul que nos pênaltis ganharia a disputa por 5 a 3. Nem por isso a Espanha deixou de ser campeã em 2010. Enfim, erros de arbitragem, infelizmente ainda ocorrem,  mas sempre haverá a oportunidade de se dar a volta por cima. O importante é não misturar a vida cotidiana com o esporte.