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Geraldo Nunes

Até 1947, cerca de cinqüenta ruas da Casa Verde tinham nome de mulher. Eram as ruas Adelaide, Amélia, Célia, Elza, Gilda, Helena. Dessas, apenas sete mantém a denominação original, ou seja, Antonieta, Dulcelina, Lucila, Olímpia Rudge, Paulina Rudge, Orminda e Zilda. Não se sabe direito porque os loteadores escolheram esses nomes, mas pode ser por causa das sete meninas que moravam numa Casa Verde no centro e passavam suas férias no bairro, isso há muito tempo.

Na passagem do século XVIII para o XIX, sete meninas costumavam passar os finais de semana em uma chácara, de propriedade do Tenente General José Arouche de Toledo Rendon, de quem eram irmãs. O referido militar foi pessoa importantíssima em São Paulo. Além de ter inúmeras propriedades foi o primeiro diretor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e hoje dá nome ao Largo do Arouche.

Da casa sede desta chácara, localizada às margens do Rio Tietê, onde hoje está o bairro da Casa Verde, nada ficou, a não ser a lenda de que a casa teria a cor que hoje dá nome ao bairro, o que não é correto, pois a verdadeira casa verde ficava no centro da cidade, onde moravam essas sete meninas, mais propriamente na travessa do Colégio, hoje Rua Anchieta.

Paulo Cursino Moura, em seu livro São Paulo de Outrora, aponta que as sete irmãs chamavam a atenção porque eram graciosas e atraentes: “Eram pudicas, recatadas, olhos baixos de soslaio rapidíssimos, inquietos aos primos sedutores, de anquinhas gorduchas em adoráveis saias balão”.

Cursino Moura conta, ainda, que “as meninas partiam em revoada aos finais de semana ou feriados”.

Quem sabe o que faziam  naquelas bandas?  Com certeza, banhavam-se nas águas do Tietê, ainda livre, limpo e curvilíneo; desfrutavam da equitação e de tudo aquilo que a natureza quase intocada pode oferecer. Oficialmente, no entanto,  ninguém jamais poderá responder. Sabe-se que as meninas eram vítimas dos boquejadores, aquelas pessoas cuja maior diversão, é falar da vida alheia. É que os passeios das meninas despertavam a curiosidade na pacata São Paulo.

No burgo paulistano, do Pátio do Colégio e do Triângulo,  comentava-se que as meninas faziam muita algazarra quando saíam e quando voltavam. Viviam felizes,  rindo. Essa alegria despertava a inveja dos alcoviteiros, que faziam comentários maldosos nas boticas e nos armazéns: “Lá vem as meninas da casa verde”, diziam com ironia.

Como as noticias correm, o povo da roça, onde as meninas passavam os finais de semana também ficava de olho nelas para depois poder falar das “meninas da casa verde”.

A verdade é que nenhuma casou. Isso mesmo, todas elas morreram solteironas, talvez porque falassem demais delas, diga-se de passagem sem o menor fundamento. Ernani da Silva Bruno explica em seu clássico da literatura paulista, História de Tradições da Cidade de São Paulo – Volume I, que por serem solteiras, “as irmãs viviam do dinheiro de aluguéis e da lavoura da chácara… na casa onde moravam, no centro,  as sete irmãs fiscalizavam o trabalho de 39 escravos, entre homens e mulheres.”

Quem eram elas: Caitana, Ana, Pulquéria, Maria Rosa, Gertrudes, Joaquina e Rudesinda.

Todas,  irmãs do tenente – general José Arouche Toledo Rendon, um dos mais notáveis cidadãos de sua época. Em São Paulo foi tudo de importante que alguém poderia ser. Entre alguns cargos destaca-se o de primeiro diretor da Academia de Direito do Largo São Francisco, cargo que ocupou entre 1828 e 1833, e o de constituinte da Carta Magna redigida no Primeiro Império. Em outras palavras; o tenente – general Arouche era muito influente,  e de algum modo, não se sabe porque, institucionalizou o celibato na família, pois nenhuma das sete meninas se casou.

O sítio para onde se refugiavam as mocinhas pertencia ao irmão delas, o “todo poderoso” Arouche Rendon,  que no entanto,  não foi o primeiro possuídor de terras no além Tietê. Um levantamento de Eduardo Britto no livro São Paulo tem a Casa Verde, dá conta que “Amador Bueno da Ribeira, o Aclamado, juntamente com o pai Bartolomeu Bueno, receberam três concessões de sesmarias, que iam de Guarulhos até o Limão.”   A sede da fazenda dos primeiros proprietários se localizava onde é hoje o cruzamento das ruas Zanzibar e Kiel, na Casa Verde Baixa, ponto aliás por onde passava o Tietê, três séculos antes de sua retificação. Com a morte de Amador Bueno, toda a região foi sendo passada a sucessores.

Em 1750 Maria Tereza Araújo Lara, tetraneta de Amador Bueno, casa-se com Agostinho Delgado e Arouche. São eles os pais das sete meninas da Casa Verde e de mais quatro varões entre eles o tenente general José Arouche de Toledo Rendon, de saudosa memória.

Caitana, (assim mesmo com “i”) a mais velha entre as sete, nasceu em 1752. Ela é uma das irmãs remanescentes quando da assinatura de documentos relativos à transferência das terras, em 1830. Tinha ela 78 anos. Outra informação,  é que das sete irmãs, duas morreram bem novas.  “Entre 1830 e 1857 há um hiato de escrituras”, conforme  Aureliano Leite em Pequena História da Casa Verde,  também apontando que, em 1857,  as terras do sítio das sete meninas já aparecem no nome de Francisco Antonio Baruel, que, em seguida as vende para o tenente coronel Fidélis Nepomuceno Prates. De lá até 1882, passam por mais quatro proprietários até serem adquiridas por João Maxwell Rudge, que morre em 1897. Seus filhos, do primeiro casamento, Horácio, Olímpia, Ana, Luíza e Paulina Vergueiro Rudge, decidem lotear o sítio com o nome de Vila Tietê. O nome não vingou e a região que já estava conhecida pelo nome Casa Verde, em razão das sete meninas, ficou definitivamente com esse nome.

Em São Paulo tem a Casa Verde, o autor Eduardo Britto dá conta que “algumas informações equivocadas de antigos moradores,  apontam que o nome do bairro deriva de uma antiga casa que serviu de sede a um sítio pertencente a João Maxwell Rudge,  demolida por volta de 1963”.  No lugar hoje está um supermercado, mas a casa, é bom ressaltar, não pertenceu à família das sete meninas, que viveram em um período bem anterior.

O falecido  jornalista Ary Silva, proprietário do jornal Gazeta da Zona Norte, garantia que a Casa Verde era mais importante politicamente que Santana até a inauguração do Metrô. “Todos os políticos preferiam fazer comícios na Casa Verde porque em Santana havia menos gente”.

A Casa Verde  começa com a Ponte da Casa Verde, na Marginal do Tietê, fazendo divisa com Santana, pela Avenida Brás Leme e pelo Campo de Marte. Segue pela Avenida Engenheiro Caetano Álvares., onde faz divisa com o Limão.  Por ruas pequenas limita – se também  com a Vila Nova Cachoeirinha, com o  Mandaqui e o Imirim. No cruzamento da Avenida Imirim com a Engenheiro Caetano Álvares, a Casa Verde volta a fazer divisa com Santana. O Parque Peruche está dentro da Casa Verde e sem nenhum demérito, é um sub – distrito do bairro. O boxeador Éder Jofre morou no Peruche e outros esportistas residem na região, como o campeão olímpico Ademar Ferreira da Silva e os corintianos Solito e Basílio, porque o bairro teve muitos times de várzea. Vale citar: Corinthians da Casa Verde, Paulista, Universal, União Casa Verde,  Democrático, São Paulinho, 21 de Abril,  Benfica, o Az de Ouro, Vasco da Gama da Casa Verde e a Ponte Preta.

Com o crescimento do bairro, os campos de várzea foram se extinguindo, mas a bola nem por isso parou de rolar.  Uma das poucas áreas que permanecem para o futebol amador é a que fica ao lado do Campo de Marte. Ali existem cinco campos de futebol, em um terreno de propriedade do Ministério da Aeronáutica. Os clubes que ali jogam são os seguintes: Cruz da Esperança,  Baruel Futebol Clube, Pitangueira e Empresa Saade. Feliz do bairro que ainda mantém campinhos e seus clubes.

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O padre José de Anchieta que ajudou a fundar a cidade de São Paulo é santo no entender da Igreja Católica desde 3 de abril de 2014,  por decisão do papa Francisco, que dispensou a comprovação de um milagre recente, dispositivo normalmente exigido.  Nascido em Tenerife, nas Canárias e, portanto espanhol, Anchieta passou a ser o terceira santo a ter laços estreitos com o Brasil, seguindo o caminho de Madre Paulina, natural da Itália e santificada em 2002 e pelo Frei Galvão – este genuinamente brasileiro de Guaratinguetá (SP) – proclamado santo Antônio de Sant’Anna Galvão, por Bento XVI, que visitou seu santuário pessoalmente em 2007.  Esses predecessores tiveram milagres recentes reconhecidos pelo Vaticano.  Do padre Anchieta, foram colocados no processo de canonização relatos deixados há mais de 400 anos apontando esses feitos e Francisco decidiu canonizá-lo por seu trabalho missionário feito no Brasil, principalmente de catequização dos índios no período de colonização, além da organização de missões jesuíticas em diversas partes do país.

Nascido em 1534, era filho de pai basco e mãe natural daquelas ilhas. Com 14 anos seguiu a Portugal para estudar em Coimbra e lá conheceu a Companhia de Jesus, da qual passou a fazer parte em 1551, dois anos antes de embarcar para o Brasil numa expedição de missionários portugueses. Eram tempos em que o fundador dessa entidade evangelizadora, o militar convertido ao cristianismo Inácio de Loyola, ainda vivia. Sob comando do padre Manuel da Nóbrega, o então noviço José de Anchieta, partiu de Portugal em missão de catequese para as novas terras lusitanas. Logo demonstrou facilidade em entender e se comunicar com os índios a ponto deles ensinarem somente ao padre a maneira mais fácil para se subir a Serra do Mar. Naqueles tempos em que não havia estradas, subia-se a serra de cócoras, agarrando-se nas pedras. O traçado ensinado aos demais jesuítas passou a ser chamado de “Caminho do Padre José” passando em locais onde hoje estão parte da Calçada do Lorena e da Estrada Velha São Paulo – Santos (SP- 148).  Em Piratininga ajudou a fundar o primeiro colégio de jesuítas no Brasil, no ano de 1554, data da conversão de São Paulo, 25 de janeiro. Ele ensinava a língua portuguesa aos indígenas e aprendia com eles a falar o tupi – guarani. Chegou a escrever um dicionário desse dialeto para a compreensão dos demais padres. Ouvia os pajés e aprendeu com eles a lidar com as ervas medicinais que ajudavam amenizar dores causadas pelas feridas provocadas pela varíola, doença que assolava fortemente o Brasil colonial.

Foi assim ganhando fama de milagreiro. “Até morto ele ressuscitou, mas na verdade reanimou um menino que os nativos consideravam já morto”, escreveu José Maria Mayrink, em um artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, acrescentando que “de todo modo, foi o ‘milagre’ mais estupendo do missionário que também dominava as ondas do mar, desviava tempestades, amansava animais ferozes, previa acontecimentos futuros e curava qualquer tipo de doença”. Foram tantos os testemunhos e tão grande a lista de fatos extraordinários atribuídos ao jesuíta que a Igreja dispensou a comprovação de um milagre mais recente, quando a Congregação para a Causa dos Santos deu o sinal verde à beatificação. Mas só depois de João Paulo II ter dado a Anchieta o título de beato, em 1980, que uma família relatou uma graça alcançada 20 anos antes, a recuperação de uma menina, hoje médica, que nasceu sem um osso no calcanhar. Houve também o testemunho de uma mulher que atribuía ao beato o desaparecimento quase instantâneo de um câncer no rosto, após ter pedido a cura em oração. Porém outros três casos semelhantes foram resolvidos pela medicina, sem nenhuma mediação do santo e isso impediu a comprovação de um “novo milagre”.

 Há relíquias de São José de Anchieta disponíveis no acervo dos jesuítas, como fragmentos da cabeça do fêmur esquerdo, que está guardado na capela do beato, na cidade de Anchieta (ES), onde ele morreu. O fêmur direito se encontra na Igreja do Pátio do Colégio. Outros ossos supostamente autênticos foram levados para Portugal e lá se perderam antes que pudessem ser repatriados.  Anchieta morreu em 1597, aos 63 anos, depois de passar boa parte da vida evangelizando, batizando índios, falando e escrevendo na língua deles e até servindo como refém dos Tamoios para que os demais jesuítas provassem não terem interesse nas terras. Os padres tinham o propósito apenas de evangelizar, algo difícil já naqueles tempos e talvez dispensável nos dias de hoje por uma nova visão surgida, a de respeito à cultura nativa. Enfim, mas foi em poder dos índios que ele escreveu o Poema à Virgem, fugindo das tentações, pois as mulheres indígenas não compreendiam essas coisas de celibato. Anchieta superou essas dificuldades pelo propósito de divulgar a fé dos Cristãos, buscando de maneira diferente dos demais, entender as tradições daquele povo que habitava o Brasil colonial.

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O sol é o mesmo que brilha em Salvador, forte e quente o ano todo, mas no agreste ele chega a ser dilacerante, sem o frescor das praias e as belezas naturais bem distantes. No sertão a realidade é outra, embora o povo seja atencioso e hospitaleiro como na capital, porém mais acanhado. O trabalho é intenso seja no comércio da cidade ou no roçado da zona rural, e lá, de fato, se luta pelo pão de cada dia todos os dias. “O nordestino é antes de tudo um forte”, escreveu Euclydes da Cunha em “Os Sertões” e a frase continua atual.

Caetité é um município localizado no sudoeste da Bahia, distante quase 500 quilômetros de Salvador, que vive a expectativa do desenvolvimento, mas encontra as dificuldades impostas pela lentidão da máquina pública e a falta de planejamento por parte de determinados órgãos do governo federal. A seca é um problema antigo na região e há três quase não chove. O município dotado de rede de água retirada de poços artesianos, esgoto e coleta de lixo, estabeleceu um racionamento no fornecimento d’água encanada na região urbana. Um dia as torneiras funcionam e no outro não. Na zona rural a população está na esperança de resultados do programa “Água Para Todos”, do governo federal cuja finalidade é implementar tecnologias para captação e armazenamento de água da chuva para a produção agropecuária, com a instalação de cisternas. Cheguei a ver essas cisternas que obviamente estavam desprovidas do bem natural que a natureza oferece porque quando cheguei já não chovia há três meses.

Durante minha estada fui acordado às seis horas da manhã do dia 19 de março, dia de São José, pela cantoria de uma procissão. Diz a tradição nordestina que quando chove no dia de São José o restante do ano será de grande fartura. A procissão pedia chuva e apesar das orações, infelizmente não choveu naquele dia, mas veio uma chuva forte, dois dias depois, ainda assim pouca para resolver tudo. De todo modo houve louvores e missas em ação de graças ao pai adotivo de Jesus Cristo.

Na cidade de Caetité o que se diz é que a população rural tem recorrido ao dinheiro do bolsa família para comprar água potável. São 48 mil moradores entre zona urbana e rural. A prefeitura depois de pressionada passou a buscar água por vias indiretas e obteve junto com a empresa Bahia Mineradora, uma licença ambiental para a extração de ferro em mais uma mina localizada dentro do município. Serão 20 milhões de toneladas de minério de ferro retirados por ano e a previsão é que o projeto de extração denominado Pedra de Ferro se inicie ainda em 2014, o que transformará o Estado da Bahia no terceiro maior produtor de minério de ferro do Brasil. O acordo prevê a construção pela mineradora de um sistema para o suprimento de água através de uma adutora que partirá da cidade de Malhada, nas margens do São Francisco, atravessando outros municípios baianos como Iuiú, Palmas de Monte Alto e Guanambi, numa distância de 150 quilômetros e a decisão se estabeleceu por motivos políticos.

Caetité possui a única mina de urânio em produção no Brasil, uma unidade de mineração e beneficiamento que é explorada por uma estatal, Indústrias Nucleares do Brasil S.A. – INB, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Acredita-se existir cem mil toneladas do minério e a produção anual é de 400 toneladas do concentrado de urânio que depois passa por diversos processos industriais, gerando energia nas usinas nucleares brasileiras. No primeiro semestre de 2011, a energia nuclear foi a segunda fonte de geração de eletricidade no país. Implantada em 1997, essa unidade de mineração de urânio funciona com autorização permanente de operação concedida pela Comissão Nacional de Energia Nuclear e com licença de operação emitida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. As duas entidades fiscalizam as atividades de todo o setor nuclear.

A estatal foi acusada de contaminar a água da cidade. Em 2009, o Greenpeace levou o assunto ao então ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc e no ano seguinte foi estabelecida pela justiça uma multa diária cinco mil reais à INB, prefeitura caetiteense e governo da Bahia, caso não fornecessem água potável na área do entorno da mineração. A construção da adutora foi, portanto, negociada com a mineradora para se resolver o problema com o abastecimento de água. A nova mina de ferro terá área de aproximadamente quatro mil hectares e fica em Brejinho das Ametistas, na zona rural, cujo início das extrações depende ainda de um último estágio de liberações ambientais no plano estadual e federal.

A cidade também já recebeu aproximadamente 200 aerogeradores eólicos de energia elétrica, divididos em 14 parques, faltando ainda a instalação das últimas unidades, mas falta a conexão com as torres transmissoras e cerca de 300 megawatts que já poderiam estar sendo produzidos em quantidade suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Brasília, se perdem por falta de planejamento porque está tudo parado. Construído pela Renova Energia, empresa com participação da Light e da Cemig, o complexo Alto Sertão 1 já custou R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos. Embora a Renova tenha cumprido o prazo para entrega do complexo eólico, a estatal Centrais Energéticas do São Francisco – Chesf, do Grupo Eletrobrás, não honrou o compromisso para a construção do sistema de transmissão e agora culpa o governo federal que ainda não realizou o leilão de transmissão. A Chesf também reclama do licenciamento ambiental, apesar de ter entrado com o pedido poucos meses antes dos parques serem entregues.

Sem a obra é triste ver as hélices dos geradores paradas no alto dos morros no meio do sertão. Cada aerogerador pesa 243,7 toneladas. A torre que suporta o gerador e as três pás mede 80 metros de altura e é sustentada por uma base de concreto de quase três metros de profundidade. Carretas que partem do interior do Estado de São Paulo viajam milhares de quilômetros transportando as pás e os geradores – deparei com algumas no caminho – até chegar à região. O local para instalação de cada torre foi milimetricamente calculado no topo dos morros, a 860 metros acima do nível do mar. Para chegar até lá, tiveram de abrir estradas e ao mesmo tempo o peso das carretas deteriorou a ligação viária entre Caetité e a cidade vizinha de Igaporã num total de 40 quilômetros de sucessivos buracos.

A Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel considera que a Chesf deve de ser responsabilizada pelo atraso na entrega dos sistemas de transmissão de energia e encaminhou à Procuradoria Geral da República pedido de ação judicial contra a Chesf.  Na cidade de Caetité a expectativa é que as obras, tanto da Bahia Mineradora para a jazida de ferro e a adutora, quanto à da Chesf, gerem empregos diretos e indiretos no sertão baiano. Pela estrada se percebe a vegetação, misto entre cerrado e caatinga, totalmente seca e a expectativa do prefeito de Caetité, José Barreira Alencar Filho, é que a abertura de um processo de contratação de mão de obra reverta em parte o drama da seca, por garantir maior bem estar à população empregada, porém a burocracia ou sabe-se lá mais o que dificultam o processo de desenvolvimento para uma região tão carente.

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Dia desses um ouvinte da madrugada na Rádio Estadão me perguntava o porquê da não utilização do Aquifero Guarani pelo governo do Estado de São Paulo como solução definitiva para o problema de abastecimento de água na capital e outras regiões. “Tal solução resolveria nosso problema sem ter que incomodar os governantes do Rio de Janeiro, preocupados com uma eventual transposição das águas do rio Paraíba do Sul para uma das represas do Sistema Cantareira”, sugeriu. Para respondê-lo sai um busca de informações. Eis o resultado.

Aquifero Guarani foi o nome que, em 1996, o geólogo uruguaio Danilo Anton propôs para denominar um imenso lençol subterrâneo de água que abrange partes dos territórios do Uruguai, Argentina, Paraguai e principalmente Brasil, ocupando cerca de 1.200.000 km² na América do Sul.

Na ocasião chegou a ser considerado o maior do mundo, capaz de abastecer a população brasileira durante 2.500 anos, mas novos estudos revelaram não ser bem assim. Um estudo desenvolvido pelo geólogo José Luiz Flores Machado, do Serviço Geológico do Brasil, concluiu que 70%  de fato, o aquifero existe no subsolo do centro-sudoeste do Brasil alcançando oito Estados. Em território paulista Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Presidente Prudente, se abastecem por água subterrânea extraída dele. Já em Santa Catarina e Paraná, o aquífero não é potável, por excesso de sais. Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais são estados que requerem mais estudos, embora neles as águas tendam a ter boa qualidade, estando a melhor parte mesmo em São Paulo.

O governo paulista parece desconhecer o assunto. Em recente reunião do Conselho Estadual do Meio Ambiente – Consema foi aprovado um plano dentro da Área de Proteção Ambiental – APA Botucatu, na região central do Estado de São Paulo, que mantém a permissão do uso de agrotóxicos numa das principais zonas de abrangência potável do Aquifero Guarani. Entidades ambientalistas propunham a restrição ao emprego de pesticidas e defensivos agrícolas nessas áreas visto que o Estado enfrenta sua maior crise hídrica, mas pressões de prefeitos e grupos empresariais fizeram aprovar justamente o contrário em reunião realizada em 25 de março último. A própria Secretaria Estadual do Meio Ambiente reconhece que a área da APA é uma zona de recarga dessa reserva estratégica de água doce, o que a coloca em situação de grande vulnerabilidade.

O Instituto Giramundo Mutuando, uma das entidades ambientais que integram o conselho gestor da APA Botucatu promete uma mobilização para os dias 9 e 10 de maio, em defesa do Aquifero Guarani. Conforme a entidade, as rochas de arenito que armazenam a água para a recarga do aquifero atingem a superfície do solo e ficam expostas à contaminação. A APA Botucatu abrange 218 mil hectares em nove municípios da região. O problema não está apenas neste ponto do Estado, em Ribeirão Preto, o lixo é que vem sendo depositado nas áreas de recarga, ou seja, nas áreas onde a água da chuva é absorvida e segue na direção do lençol freático que ajudam a manter o aquifero inesgotável. A preservação desses pontos é necessária e um exemplo está em São José do Rio Preto, onde o reservatório natural está a mil metros de profundidade. A cidade possui oito poços, em diversos bairros. A cada ano, porém, é necessário descer a bomba de captação, em média, em cada um deles, 4,02 metros devido ao rebaixamento do nível da água.

No poço mais antigo de captação de água do Guarani, que entrou em operação em 1978, ou seja, há 36 anos, a bomba já precisou descer 179 metros desde a primeira captação tornando mais caro o serviço à população.

O aquifero se recupera com o tempo, mas com o consumo em Rio Preto cada vez maior, não se consegue deixar os poços parados. Disso se conclui a necessidade de se manter as atuais formas de captação na Grande São Paulo, não se descartando a utilização dos mananciais existentes, mas provendo aquilo que faltar com o  Guarani.

O Sistema Cantareira desceu a 13,8% de sua capacidade, se renovado com as águas do aquifero a situação seria diferente.

O Brasil e o Estado de São Paulo estão vivendo um momento decisivo com relação à água. Não chove há três anos em diversas áreas do Nordeste e no Sudeste as chuvas rarearam, o país cresceu e as ações de infraestrutura não estão acompanhando todo esse desenvolvimento. Chegou a hora de se tomar decisões corretas baseadas em princípios que atendam as necessidades da população e não apenas aos interesses políticos.

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O caso da Malaysa Airlines não é o único na história da aviação, em 30 de janeiro de 1979 um avião da Varig também sumiu misteriosamente e até hoje não foi localizado. O Estadão acompanhou tudo na época.

http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19790131-31866-nac-0020-999-20-not

Era um Boeing 707 – 323 C, comercial de carga, número 967 que levantou voo do Aeroporto Internacional de Narita, em Tókio, às 20h23  com destino final no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro – Galeão, com uma escala nos Estados Unidos. Vinte e dois minutos depois de decolar, o comandante Gilberto Araújo da Silva fez o primeiro contato com a torre de controle. Não havia qualquer problema a bordo. O segundo contato, previsto para as 21h23min, não chegou a ser feito.

O avião desapareceu sobre o Oceano Pacífico cerca de trinta minutos após sua decolagem. Nenhum sinal da queda, como destroços ou corpos, jamais foi encontrado. O voo trazia de volta, entre outros itens, 153 quadros do pintor Manabu Mabe, de uma exposição no Japão. As pinturas foram avaliadas na época em mais de US$ 1,24 milhão. Foi o único jato civil comercial que desapareceu sem deixar vestígios até os dias de hoje se tratando de um dos maiores mistérios da história da aviação.

A tripulação do Boeing 707 Cargo era formada por seis homens: o comandante Gilberto Araújo da Silva – mesmo comandante sobrevivente do voo Varig RG-820, acidentado nas proximidades do Aeroporto de Orly, na França, em 1973, por um incêndio a bordo que matou 123 pessoas, entre elas o cantor Agostinho dos Santos. O comandante Erni Peixoto Mylius, atuava como 1º oficial, 2º oficial Antonio Brasileiro da Silva Neto, 2º oficial Evan Braga Saunders, (atuando como co-pilotos) José Severino Gusmão de Araújo e Nícola Exposito (mecânicos de voo).

Este foi um dos raríssimos casos da aviação comercial mundial em que um piloto (comandante Gilberto) se envolve em dois desastres aéreos com vítimas fatais. O desaparecimento foi notado pelos controladores após a falta de comunicação na passagem do Varig 967 sobre um dos pontos imaginários fixos sobre o oceano, usados na navegação e monitoramento de progresso de voo.

Após uma hora de tentativas frustradas de se estabelecer alguma comunicação, o alarme foi dado e as equipes de busca e salvamento foram acionadas. Com a escuridão reinante, as buscas foram suspensas e só foram retornadas mais de doze horas depois da decolagem, na manhã do dia seguinte. Apesar de mais de oito dias de busca intensa no mar, nenhum sinal de destroços, manchas de óleo ou dos corpos dos tripulantes jamais foi encontrado.

A investigação interna da Varig não conseguiu resolver o enigma. No relatório final sobre o acidente, constou o seguinte: “Não foi possível encontrar nenhum indício que lançasse qualquer luz sobre as causas do desaparecimento da aeronave”. Muitas hipóteses e teorias foram formadas a partir de então para tentar entender o que ocorreu com o Boeing 707 da Varig. As teorias da conspiração lançaram no ar algumas delas:

Teria ocorrido um sequestro promovido por colecionadores de arte, já que no porão estavam as obras do pintor Manabu Mabe. No entanto, essas pinturas jamais foram achadas em lugar nenhum.

O Boeing teria sido abatido por soviéticos, interessados em esconder segredos de um caça Mikoyan-Gurevich MiG-25 que supostamente estaria desmontado e sendo levado aos Estados Unidos.

O rádio-operador e ex-co-piloto da Força Aérea Brasileira (FAB) Oswaldo Profeta chegou a escrever um romance chamado “O Mistério do 707” para dizer que o que houve não foi um acidente. Ele acredita que o Boeing pode ter, por algum motivo, penetrado no espaço aéreo soviético, uma área supervigiada. Segundo Profeta, é possível que o avião tenha sido abatido. Uma teoria conta que o Boeing 707 teria sido forçado a um pouso na costa da Rússia, onde os tripulantes teriam sido mortos, mas nada disso foi confirmado.

A hipótese mais plausível, no entanto, considera que, logo após a decolagem, com a aeronave já tendo atingido um nível de cruzeiro elevado, sofreu uma despressurização lenta na cabine, o que não causou a explosão da aeronave – ou seja, não foi uma descompressão explosiva, mas lentamente sufocou os pilotos. O avião, então, segundo a linha de raciocínio, voou com ajuda do piloto automático por muitos quilômetros mais, até que, findo o combustível, caiu sobre o mar em algum ponto extremamente distante dos locais por onde passaram as buscas. Portanto, nenhum destroço foi encontrado, sendo provável – como largamente aceito – que estejam ou no fundo do vasto Oceano Pacífico, ou sobre alguma área inabitada do estado americano do Alasca. O mistério permanece agora com novo caso quase semelhante.

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Houve tempo em que algumas feministas faziam um discurso na contramão dos homens e combatiam o machismo com atitudes do tipo “olho por olho – dente por dente” numa espécie de machismo às avessas. Este modo de ser feminino remota à década de 1960, época da “queima de sutiãs” e o desprezo ao batom, ao salto alto e à maquiagem. O tempo passou e as mulheres refletiram: feministas sim, mas sem deixar de ser feminina.

Aqui na Rádio Estadão a produtora Valéria Rambaldi promoveu uma pesquisa sobre acontecimentos relacionados ao Dia Internacional da Mulher, tendo como ponto inicial aquele 8 de março 1857 conhecido por quase todos, sobre as operárias de uma tecelagem, em Nova York, que fizeram uma greve sendo reprimidas com violência. Naquele dia todas as funcionárias foram trancadas dentro da fábrica que foi incendiada e  aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Passados mais de 150 anos a mulher ainda enfrenta uma situação de desigualdade como salários mais baixos que os homens no exercício da mesma função, o exercício obrigatório de uma dupla jornada para ganhar o sustento e depois cuidar da casa, etc.  

No acervo digital de O Estado de S. Paulo, nossa produtora encontrou reportagens sobre manifestações alusivas ao dia da mulher de 1982, onde na edição do dia 9 de março, um sábado, o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria informando sobre as manifestações ocorridas no mundo em prol da mulher. No Brasil multidões saíram em passeatas exigindo rapidez do governo na realização de estudos visando a implantação de programas de planejamento familiar e o fim da discriminação no trabalho, da opressão sexual, da violência física e pedindo a construção de mais creches, temais ainda recorrentes.

A cantora Elis Regina havia morrido em janeiro daquele ano e durante as manifestações homenagens foram feitas a ela. Em São Paulo cerca de 800 mulheres saíram da Sé em passeata e seguiram pela Rua Direita passando pelo Viaduto do Chá até a Praça Ramos cantando Maria, Maria, um sucesso de Elis.  Deve ter sido lindo ouvir uma multidão de vozes femininas cantando, “…uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta…”  Perguntada na reportagem sobre os motivos da homenagem à cantora, a então presidente da Federação das Mulheres Paulistas explicou que Elis comparecia e dava apoio aos movimentos feministas.

Pesquisando outros acontecimentos para ilustrar com informações o nosso programa de rádio, Estadão Acervo, a produtora levantou informações da publicação de 1963 da norte-americana Betty Friedan, autora do best-seller, “A Mística Feminina”, onde sugere a igualdade de direitos entre mulheres e homens de forma contudente. Na obra, Friedan critica a aceitação oprimida de certas mulheres ao assédio dos homens nos ambientes sociais e faz eclodir o movimento feminista causador do “Bras-Burning”.

A 7 de setembro de 1968 ocorre um protesto com cerca de 400 ativistas do Movimento de Liberação da Mulher em Atlantic City, contra o concurso de escolha da Miss América. Para chamar a atenção da sociedade que a escolha de uma americana bonitinha para representar o país em concurso de beleza internacional era uma forma de opressão à mulher, as ativistas colocam no chão da calçada em frente ao teatro onde se realizava o concurso, vários sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, sprays de laquê, maquiagens, revistas de moda, espartilhos, cintas e outros itens femininos.  Aí alguém sugeriu que tocassem fogo, mas isso não aconteceu naquele dia, porém criou-se o mito da “queima de sutiãs”.  É verdade que depois sutiãs foram queimados em vários cantos do mundo, mas o novimento que gerou o conhecido por “Bras – Burning” foi esse de 1968.  A Organização das Nações Unidas – ONU, reconhece em 8 de março de 1975, o Dia Internacional da Mulher, dando projeção à data e o assunto mulher passando a ser mais discutido, especialmente no Brasil.

Problemas ainda existem embora muito tenha sido conquistado graças às campanhas do dia da mulher, entre elas o fato de ter despertado nos homens o sentimento de respeito não só à mãe ou à musa, mas a toda mulher que poderia ser a sua irmã, a sua esposa e companheira dos bons e maus momentos.

A maioria das mulheres ainda sonha com a maternidade, boa parte  consciente da necessidade do planejamento familiar, valorizando deste modo o sentido feminista e feminino. Daí a importância do Dia Internacional da Mulher também para elas porque veio para não abolir o batom, nem o salto alto e nem a maquiagem garantindo à mulher aquilo que ela tem de melhor que é o fato de ser encantadora.

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 Ao receber a notícia do falecimento de Ernesto Paulelli na semana que antecedeu o carnaval busquei no arquivo a entrevista que fiz com ele para a Rádio Eldorado e transcrevi no formato de reportagem aquilo que me foi contado em março de 2005. Ele confirma que morou no Brás, mas o restante do enredo foi inventado pelo compositor Adoniran Barbosa. Ele não deixou os amigos esperando na porta de sua casa. Penso inclusive que ele preferia não ter morrido tão perto do carnaval. Por ele, aguardaria pelos mais uns dias até a festa passar. Mas como diria Adoniran: “Pacência”. Segue a transcrição.

O Samba do Arnesto conta a história de um anfitrião que convida os amigos para ir à sua casa, mas quando chegam dão com a cara na porta e nem há um bilhete dando recado se voltaria logo, ou não. Pura falta de educação em um tempo onde quase ninguém tinha telefone em casa.   Entretanto, Ernesto Paulelli dizia que nunca deu cano em ninguém e que tudo não passou de uma ficção imaginada pelo amigo dele, Adoniran Barbosa, que um dia prometeu fazer uma música em sua homenagem. Essa canção foi o “Samba do Arnesto”  que fez de Paulelli um personagem real do samba paulista e da cidade. Semana passada Ernesto Paulelli se foi, aos 99 anos.  “O Adoniran me chamava de Arnesto porque dizia que ficava mais sonoro e engraçado, ele me rebatizou sabia? Hoje quase todos me chamam assim, de Arnesto e nem ligo mais, agora me sinto orgulhoso porque ele fez uma música para mim”. Logo em seguida ele reclama dizendo que o compositor arrumou uma “treta” para ele, “porque acham que eu fui mesmo um ‘tratante’, um ‘furão’ e não recebi os amigos em casa, mas eu garanto isso nunca aconteceu”, explicou Arnesto, digo, Ernesto Paulelli na entrevista à Rádio Eldorado.

 Seu nascimento se deu no Brás, em 1914 e morou bairro por muitos anos, depois ja adulto se mudou para a vizinha Mooca. Foi engraxate na infância e depois na adolescência aprendeu tocar violão com os boêmios que circulavam por lá. Passou a acompanhar artistas no rádio entre os quais uma cantora conhecida por Nhá Zéfa que se apresentava aos domingos à tarde em uma emissora concorrente da Record, então a mais ouvida da cidade. Um dia Nhá Zéfa foi convidada para se apresentar na Record e pediu para Ernesto acompanhá-la. Foi então que ele e Adoniran se conheceram e ficaram amigos. Um dia Adoniran lhe pede um cartão de visitas e ao receber pronuncia, “Arnesto” sendo corrigido pelo companheiro. “Meu nome correto é Ernesto”, explicou, mas o artista insistiu em pronunciar errado. Indagado por que fazia aquilo, Adoniran disse que pronunciar Arnesto, era mais fácil e que ficasse tranquilo, porque não sairia por aí falando o nome dele errado, mas que ainda faria um samba para com este nome.

 Depois dessa conversa quinze anos se passam. Paulelli torna-se advogado pelas Faculdades Integradas de Guarulhos, obtendo registro na OAB sob no. 40532. Certo dia, com o rádio ligado em casa, ouve pela primeira vez o Samba do Arnesto, cantado pelos Demônios da Garoa e se emociona. “Eu me lembrei da promessa que ele fez”, da música que faria para mim. Naquele dia resolve nem ir trabalhar e se dirige à Rádio Record para encontrar o amigo Adoniran e cumprimentá-lo.  Logo que chega o encontra e se abraçam e o compositor se referindo ao samba, o chama de compadre e diz: “Você batizou uma de minhas filhas”, porque Adoniran considerava que suas músicas eram como se fossem verdadeiras filhas dele.  Quanto ao parceiro na composição, Alocin, Ernesto conta que também o conheceu. “O nome dele é Nicola, mas escrito de maneira invertida, porque o Adoniran tinha esse costume de modificar as nomenclaturas, fez até com ele mesmo, seu nome verdadeiro era João Rubinato”.

 Ao longo da vida, Ernesto e Adoniran continuaram amigos, mas nunca foram próximos. Voltaram a se rever em 1979 na extinta TV Tupi em um programa que se chamava “Almoço com as Estrelas”, onde os dois foram entrevistados pelos apresentadores Ayrton e Lolita Rodrigues. “Naquela oportunidade a história do ‘Samba do Arnesto’, foi contada pela primeira vez em público e depois daquele dia, só fui ver o Adoniran no velório dele”, contou para arrematar que aquele dia também foi inusitado: “as pessoas ficavam lembrando as piadas que ele contava e riam quase na frente do defunto enquanto a Matilde, esposa dele chorava”, explicou afirmando que até ele ficou constrangido quando foram lhe pedir autógrafos.  

 Quem comunicou o falecimento de Ernesto Paulelli, foi sua filha Valéria, de 67 anos, que sonhava em ver o pai chegar ao centenário. Faltou pouco, ele faria aniversário em dezembro.

 Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa e Alocin)

 https://www.youtube.com/watch?v=iOoiYItKZEc

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás

Nós fumos não encontremos ninguém

Nós “vortemos” com uma baita de uma “réiva”

Da outra vez nós “num” vai mais

Nós não “semos” tatu!

(Bis)

No outro dia “encontremo” com o Arnesto

Que pediu desculpas mais nós não “aceitemos”

Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa

Mas bem que você devia ter “ponhado” um recado na porta…

Um recado assim ói: “Ói, turma, num deu pra esperá

Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,

Assinado em cruz porque não sei escrever”.

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Que o carnaval já foi muito mais animado, isso não se discute, mas até o que restava de interessante nos dias do reinado de Momo, os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo, vem se mostrando há algum tempo repetitivos e cansativos.  Não se canta mais no carnaval, apesar dos sambas de enredo mudarem a cada ano. Mas não há um que fique na lembrança, após a quarta-feira de cinzas. No passado foram feitos sambas-enredo que entraram para a história, é o caso de “Aquarela Brasileira”, composição de Silas de Oliveira, para a Império Serrano no carnaval de 1964. De tão belo continuou sendo cantado levando Martinho da Vila a gravá-lo em 1974, eternizando essa verdadeira página do carnaval brasileiro. A própria Império Serrano decidiu de novo apresentá-lo na Marquês de Sapucaí em 2004, tamanha a tradição. Sua letra diz: “Vejam esta maravilha de cenário, é um episódio relicário que o artista num sonho genial, escolheu pra este carnaval”… Este é só um exemplo de sambas-enredo até hoje cantados e lembrados, existem outros tanto no Rio como em São Paulo, o problema é que de uns tempos para cá, não temais surgido um samba marcante.

Levei essa questão aos entendidos em música e carnaval e eles concordaram. Desse jeito, a atual geração de sambistas não deixará um legado para as novas gerações. O jornalista Maurício Coutinho, especialista em carnaval, entende que como a quantidade de exigências para escola fazer um bom desfile aumentou, o carnavalesco acaba interferindo na elaboração da música para o congraçamento do samba com as alegorias. “Isso acaba tirando a inspiração dos compositores”, diz Maurício. Outro entendido, o repórter Gilberto Rodrigues que cobre há mais de dez anos os desfiles em São Paulo, aponta outro motivo. “Como os desfiles estão cada vez mais caros, as escolas correm durante o ano em busca de patrocinadores como organismos internacionais e empresas estrangeiras”, explica citando o exemplo da escola paulistana Unidos de Vila Maria que no ano passado precisou falar da Coreia do Sul. “Os compositores da escola não conseguiram criar uma letra agradável para o tema e o samba ficou cansativo”, lembra o repórter ressaltando que o resultado foi o descenso da escola.

O musicólogo Ricardo Cravo Albin, do Rio Janeiro, é outro que vê com preocupação a situação dos sambas-enredo. “Antes – diz ele – havia um ou dois compositores no máximo em cada samba e hoje há até seis pessoas participando da composição, ou seja, “cada um faz uma parte e isso obviamente não vai resultar em uma boa música”, lamenta o especialista, temendo não a decadência dos desfiles, mas o desinteresse da população pelo que acontece no sambódromo. “No Rio de Janeiro, a procura pelo samba de rua e pelas bandas carnavalescas vem aumentando a cada ano, a ponto da prefeitura ter adotado um esquema de infra-estrutura para manter a cidade limpa após os eventos”, ressalta Cravo Albin, assinalando que o sambódromo e os desfiles da Sapucaí, assim como em São Paulo, já atraem mais turistas que moradores da cidade, além das pessoas ligadas ao samba.

Maurício Coutinho que é paulistano concorda com o musicólogo carioca e acrescenta que só quando começar a diminuir o público nas arquibancadas é que os organizadores do carnaval pensarão em fórmulas para voltar a valorizar o samba-enredo. “Estou tomando por base o resultado positivo das bandas pré – carnavalescas que estão crescendo em interesse do público a cada ano”, ressalta Maurício apontando que no último fim de semana 43 blocos desfilaram na Avenida Sumaré atraindo cerca de 50 mil pessoas da classe média.

Esses foliões certamente deixarão São Paulo durante o carnaval viajando em busca das praias e do lazer, coisa comum por aqui nessa época do ano. Ao mesmo tempo o samba seguirá seu destino confinado a um canto da Marginal do Tietê onde se localiza o sambódromo do Anhembi.

 

 

Lembre a letra do samba Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira.
Vejam esta maravilha de cenário

É um episódio relicário

Que o artista num sonho genial

Escolheu pra este carnaval

E o asfalto como passarela

Será a tela do Brasil em forma de aquarela

Passeando pelas cercanias do Amazonas

Conheci vastos seringais

No Pará a ilha de Marajó

E a velha cabana do Timbó.

Caminhando ainda um pouco mais

Deparei com lindos coqueirais

Estava no Ceará,terra de Irapuã

De Iracema e Tupa.

Fiquei radiante de alegria

Quando cheguei na Bahia

Bahia de Castro Alves,do acarajé

Das noites de magia do cadomblé

Depois de atravessar as matas do Ipu

Assisti em Pernambuco

A festa do frevo e do maracatu.

Brasília tem o seu destaque

Na arte, na Beleza e arquitetura

Feitiço de garoa pela serra

São Paulo engrandece a nossa terra

Do leste por todo centro-oeste

Tudo é belo e tem lindo matiz

O Rio do samba e das batucadas

dos malandros e mulatas

de requebros febris

Brasil,

Essas nossas verdes matas

Cachoeiras e cascatas

De colorido sutil

E este lindo céu azul de anil

Emolduram em aquarela o meu Brasil.

Lá…lá…lá…

Lá…lá…lá…lá…lá…

Para ouvir:   http://www.youtube.com/watch?v=VHN2TVwNhEo

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Em nosso programa pela Rádio Estadão, em FM 92,9 e AM 700 trouxemos de volta uma discussão ainda não esclarecida sobre o real surgimento do frevo que poder ter nascido na África, embora historiadores entendam que o ritmo nasceu mesmo nas ruas de Olinda e Recife pelo final do século XIX graças ao povo.

O carnaval brasileiro é mais longo que o de outros países porque no mundo a data oficial é na terça-feira, 4 de março, mas aqui a festa já começa na sexta, em 28 de fevereiro e só termina depois do meio – dia da quarta – feira de cinzas, dia 5 de março, especialmente em Recife onde o frevo explode para a alegria dos foliões e dos turistas que chegam de todas as partes. Por causa disso desde o início do ano grupos e bandas de frevo já desfilam pelas ruas da capital pernambucana.

Dançar o frevo é uma das coisas mais difíceis porque o ritmo é extremamente rápido e tem aproximadamente 120 passos de dança catalogados. Os passistas pulam se abaixam, levantam e caminham dobrando os joelhos e segurando sombrinhas. Historicamente o frevo é considerado um ritmo genuinamente brasileiro nascido por influência do maxixe e da capoeira.

A folclorista, professora e historiadora da Fundação Joaquim Nabuco, Rita de Cássia Araújo, informa que no final do século XIX já se dançava o frevo nas ruas de Olinda e Recife.  “Foi em um congresso carnavalesco promovido em 1911, que o frevo se tornou reconhecido como dança e música de característica própria”, explica a professora acrescentando que a palavra frevo, vem da pronúncia incorreta da palavra ferver. “O povo dizia, ‘frever’, por causa da fervura e efervescência da dança”. Na imprensa a palavra frevo aparece pela primeira vez no jornal Pequeno de Recife, em 9 de fevereiro de 1907, data utilizada pelo governo brasileiro para criar o Dia Nacional do Frevo, ritmo reconhecido pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

 Há, no entanto, um emaranhado de intermináveis dúvidas sobre o verdadeiro nascimento do frevo que seria na verdade um ritmo africano. O embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras – ABL, escritor Alberto da Costa e Silva esteve em 1972 na Costa do Marfim, onde o então presidente daquele país,  Houphouët-Boigny promoveu uma festa para homenagear a delegação brasileira e um grupo local executou um ritmo daquele país semelhante ao frevo. “Nós brasileiros ficamos entusiasmados com aquela apresentação e começamos dançar”, conta o embaixador que perguntou do que se tratava e lhe disseram que ser uma dança de máscaras cujo nome no país é ‘senufo’. “Lá são acrescidos aos instrumentos taróis, metais e madeiras, mas o presidente marfinense percebendo nosso entusiasmo pediu para a banda militar ali presente executar a mesma música com pistões e trombones e então o ritmo se tornou igualzinho ao frevo”.

De volta ao Brasil, o embaixador Costa e Silva publicou um artigo contando o que viu e recebeu de volta uma carta do maior africanólogo brasileiro que é Paulo Fernando de Moraes Faria, professor de história da África, na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, contando que em 1966, em uma festa de casamento, dançou o frevo no Mali, outro país africano da mesma região cultural.

Ocorre que a origem do frevo já tinha a sua história muito bem contada e estabelecida. Para o historiador Valdemar de Oliveira, no livro ‘Frevo, capoeira e passo’, o ritmo surgiu das seguidas composições de música ligeira para o Carnaval, enquanto que o passo brotou mesmo do povo, sem regra, nem mestre, como por geração espontânea. Para Oliveira, o pernambucano tem orgulho de possuir uma dança e uma música características. Deste modo, a hipótese do frevo não ter surgido lá, pode ser visto por alguns, como um acinte ao povo de Olinda e Recife.

Apesar disso, a historiadora Rita de Cássia Araújo, da Fundação Joaquim Nabuco nos disse que não tinha conhecimento dessas informações do embaixador e escritor, Carlos Alberto Costa e  Silva, obtidas há mais de quatro décadas e se disse tentada em pesquisar mais sobre a origem do frevo, se possível viajando até os lugares onde ele esteve. Já o musicólogo Ricardo Cravo Albin, que reside no Rio de Janeiro entende que o frevo, apesar de sua possível origem africana não deixaria de ser brasileiro. “O samba também é um ritmo derivado do lundu, trazido da África pelos escravos e tem suas características próprias, assim também é frevo”, conclui o musicólogo lembrando que esses ritmos variam no formado de um lugar para outro e só no Brasil se dança o frevo da forma como fazemos.

Ouça a íntegra do programa: http://radio.estadao.com.br/audios/audio.php?idGuidSelect=7F3E34F3DD294EEF989EC8C0B7D126EC

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Em plena festa de aniversário, paulistanos mostraram o que esperam e pensam da cidade onde vivem e trabalham através de uma pesquisa promovida pela Hibou, uma empresa de monitoramento de mercado que entrevistou 510 paulistanos durante as comemorações dos 460 anos da cidade, entre 24 e 25 de janeiro.

O levantamento revelou expectativas e impressões do paulistano em relação à cidade. Entre os passaram suas impressões, 71% pertencem a uma nova geração que já nasceu na capital paulista e revelou gostar daqui. Desses, 53% disseram se sentir bem em São Paulo mesmo enfrentando todos os problemas que envolvem o trânsito e a segurança. Uma parcela de 35% disse gostar muito da cidade e apenas 1% afirmam não gostar nem um pouco.“Notamos que o paulistano se confunde ao ser questionado sobre algum lugar ou alguma coisa que identifique São Paulo e alguns acabam misturando ícones da cidade com sensações sobre o modo de ser do paulistano”, revelou Lígia Mello coordenadora da pesquisa.

A quantidade de moradores que disseram ser a Avenida Paulista o lugar que mais gostam chegou a 16%, enquanto outros 15% consideram que o mais interessante de São Paulo diz respeito mesmo às pessoas que aqui vivem e a presença delas no convívio social garante a preferência em aqui permanecer. 11% curtem na metrópole sua agitação constante e 8% o caos;  7% a noite com muitas opções de lazer e cultura; 7% o trânsito, 6% o Parque Ibirapuera, 5% o centro da cidade, 4% a diversidade e 2% o abandono.

Paulistanos Conscientes

Questionados sobre a limpeza e manutenção dos monumentos públicos, 73% dos paulistanos entrevistados afirmaram que percebem a falta de higiene e d manutenção na maioria deles. “O morador daqui se mostra preocupado com a preservação da cidade”, diz Lígia Mello, salientando, no entanto, que somente 13% responderam que nunca repararam na má conservação enquanto outros 14% acreditam que nossos monumentos são bem conservados sim.

O Melhor e o Pior de SP

Foi pedido aos entrevistados na pesquisa da Hibou que citassem  até três coisas que consideram o melhor e o pior da cidade de São Paulo. Observou-se que as oportunidades profissionais e o acesso variado à cultura são as grandes forças que a cidade apresenta junto aos paulistanos. Já a violência e o trânsito são os maiores problemas citados, consolidando a posição de uma metrópole com dificuldades para solucionar questões urbanas. A corrupção foi citada apenas por três dos 510 entrevistados.

 São Paulo em 2024

Para finalizar a pesquisa os entrevistados foram questionados sobre como eles acreditam que a cidade estará em 10 anos. A grande maioria, com 71%, acha que o trânsito vai causar um colapso na questão da mobilidade. 45% estão preocupados com os preços que estarão ainda mais altos. 41% acreditam que daqui a uma década muitas pessoas terão deixado São Paulo buscando lugares mais tranquilos. Apenas uma minoria acredita que as pessoas serão mais solidárias e que a cidade será mais sustentável com melhor qualidade de vida. “Os dados nos mostraram que os paulistanos andam descrentes de uma melhoria na cidade, a tendência é de uma São Paulo mais difícil de morar” finaliza Lígia Mello, coordenadora da pesquisa promovida pela Hibou, empresa que estudou a vida e o futuro de São Paulo, no dia em que a cidade completou os seus 460 anos.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Geraldo Nunes

    Geraldo Nunes acompanha a metrópole e as madrugadas há décadas, como jornalista e apresenta na Rádio Estadão os programas Estadão Notícias e Estadão Acervo.
    Repórter aéreo sobrevoou São Paulo durante 20 anos e para acompanhar o intenso processo de mudança pelo qual a cidade vive, passou a pesquisar a memória paulistana. Na Rádio Eldorado criou um programa premiado, São Paulo de Todos os Tempos, onde ouvia personagens representativos da cidade e das histórias trazidas pelos entrevistados escreveu dois livros, um deles agraciado com o prêmio Clio - 2001.
    Recebeu da Câmara Municipal a medalha Anchieta e o diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, além do prêmio APCA – 2004 da Associação Paulista dos Críticos de Arte e menção honrosa do prêmio Vladimir Herzog – 2006. É membro honorário da Força Aérea Brasileira e da Academia de Ciências e Letras da Associação dos Delegados de Polícia.
    Ocupa a cadeira 26 da Academia Paulista de História - APH.

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