
Fotos Tasso Marcelo/AE
A imagem que me ocorreu ao sentir o clima na saída da mesa de Crumb e Shelton na Flip, na noite de ontem, foi a de torcedores deixando do estádio após o time perder de virada. Quando a mesa começou, às 19h, todo mundo ali vibrava de antemão pela dupla, rindo de qualquer tirada, uma claque atenciosa. Na saída, no entanto, todos se olhavam sem acreditar naquele final tão anunciado. A mesa mais esperada desta festa literária, com dois dos maiores nomes dos quadrinhos mundiais, simplesmente não funcionou.
Acho importante aqui abrir um parêntese. É notório que Crumb não gosta de dar entrevistas; já falei isso tantas vezes desde que este blog começou que daqui a pouco me acusarão de plagiar meus posts. Mas vi comentários sobre o que seria descaso dele com a plateia. Discordo. Apesar de toda a “fama de mau” e de abrir a noite descrevendo o desconforto em falar de si próprio, Crumb lançou mão de várias frases de efeito ao longo da interminável uma hora de duração da conversa.
O fato é que ninguém esperava fofuras no discurso dele, mas as falas e o gestual, quase pastelões, foram todos medidos para agradar aqueles que o conhecem de verdade. Descaso? Os comentários cáusticos fazem parte do show que o cartunista sabe oferecer dentro e fora das HQs. Então, até aí, nenhuma surpresa.
O que houve, então? Não acho que seja o caso de escolher um único culpado. Não fluiu, e esse é o ponto, e era meio esperado. Shelton, é fato, estava viajandão, distraidíssimo, mas mandou algumas das melhores perguntas da noite. Após alguns minutos observando atentamente uma imagem do Gênesis do Crumb, por exemplo, estranhou: ”Por que seu Adão não tem barba?”. O colega parou e pensou antes de responder: “Acho que ele deveria ter barba só quando fosse mais velho. Ele era novinho em folha nessa época, foi criado já adulto.”

Aline, que entrou no terço final da mesa, chamada pelo mediador, Sérgio Dávila, foi acusada por espectadores de falar demais. Na média, todo mundo com quem conversei odiou a entrada dela. Eu, particularmente, acho que deu um fôlego para a conversa seguir até o final. Aliás, acho que ela deveria estar no palco desde o começo, porque tem esse senso de humor afiadíssimo e ajuda a evitar aqueles silêncios constrangedores causados pelo desconforto de Crumb (como dá para ver neste vídeo de um festival literário em Praga).
A mediação também não era trabalho dos mais fáceis – quando o convidado não se estende nas respostas, não dá para fazer milagre. Mas sou da opinião de que o debate teria a ganhar se se falasse menos da vida pessoal, essas coisas que todo mundo sabe e/ou pergunta a eles, e mais das obras deles e dos quadrinhos em geral, do atual boom no mercado de HQs na comparação com o cenário incipiente no qual se destacaram e de como isso afetou as antigas editoras independentes, do peso do roteiro e da imagem numa história.
Dito tudo isso, seguem algumas frases da noite, pra quem não viu e não aguenta mais blablablá. Pularei aquelas que já tinham sido ditas, com outras palavras, na entrevista coletiva de sexta-feira.

“Eu não entendo porque as pessoas me colocam nessa situação. Sou uma pessoa entendiante na vida real. Meu trabalho é interessante, mas minha personalidade não é nada demais, vou entendiar todos eles. E todos esses fotógrafos, é muito desconfortável. É extremamente incômodo.” (Crumb)
“Eu gostei da ideia de viajar de graça para um lugar bonito como Paraty.” (Shelton, justificando sua vinda ao Brasil)
“Eu acordei um dia e estava vivendo na França.” (Crumb, sobre a decisão de sair dos EUA, tomada por Aline)
“Não lembro de muita coisa daquele período, estava fumando muito, usando muito LSD, tudo se confunde na minha cabeça.” (Crumb, desconversando sobre a época em que conheceu Shelton)
“Competitivo? Competitivo? Está brincando? Havia tão poucos de nós, uns quatro, talvez, não havia nada por que competir.” (Crumb, sobre se era competitivo o cenário em que começou a fazer HQs)
“Eu fazia uma página semanal dos Freak Brothers, e todos que faziam parte do editorial viviam chapados, enquanto eu dizia, não, não, preciso terminar minha história. Quando saía a publicação, todas as histórias eram completamente ilegíveis, exceto a minha página.” (Shelton)
“Ela (Janis Joplin, que era amiga de Shelton e rejeitava a ideia de passar do folk para o rock) devia ter continuado no folk, eu acho. Estaria viva hoje…” (Crumb)
“Não sou mais tão obcecado por sexo quanto era. Vejo esse trabalho agora e não me identifico com a pessoa que fez isso. Penso: Jesus, que lunático. Ah, me assentei com a idade. Sou um velho acadêmico agora.” (Crumb)
“Acho que as mulheres brasileiras são… tall and tan and young and lovely, the girl from Ipanema goes walking, and when passes each one she passes goes a-a-ah” (Shelton)
“Eles estão publicando meu Gênesis em Israel, vai sair em hebraico. E como é escrito da direita para a esquerda, eles estando colocando na posição inversa todas as ilustrações, para colocar o texto. É louco. E foram os editores que me deram o menor adiantamento entre todos os que me publicaram.” (Crumb)
“Quem você gostaria que interpretasse você num filme?” (Shelton)
“Brad Pitt? Não sei.” (Crumb)
“Eu queria ser interpretado por Clint Eastwood” (Shelton)
“Mel Gibson para mim, então” (Crumb)
“Os Três Patetas são populares aqui? Isso me faz respeitar muito mais o Brasil. Na França, eles são completamente desconhecidos. Eu os mostrei a um amigo lá, e ele me disse: ‘Isso é completamente estúpido’. E eu lá rolando no chão de rir.” (Crumb)
“Estou feliz em estar aqui porque venho sendo ignorada há 40 anos” (Aline)
“As pessoas mandavam cartas cheias de ofensas quando começamos a desenhar juntos. Diziam: ‘Ela pode ser boa na cozinha, mas deixe-a longe do papel’. As pessoas estavam furiosas.” (Aline)
“Não é do seu interesse.” (Aline, sobre se a dinâmica do casal também funciona bem no sexo)
“Meu desenho é tão primitivo que se eu desenhar com o pé ninguém vai perceber.” (Aline)
Ontem joguei aqui algumas frases ditas por Crumb durante a entrevista, e o post foi linkado num blog que chamava para o que seria um ”show de grosserias e mau humor” do cartunista. Daí reli e pensei que talvez, fora de contexto, pudesse sim ter essa leitura. Mas não é assim. Crumb é muito menos ranzinza do que parece. Ou melhor, ele reclama mesmo de tudo, mas está longe de ser grosseiro. Ele se sente sufocado com o assédio, é fato, detesta ser fotografado como se fosse galã e reage quase como criança. Ele é, como definiu Aline, “um cara doce”. O que não significa que não seja também um bocado debochado.
Daí resolvi colocar aqui o texto que saiu no Sabático de hoje sobre a entrevista coletiva e os dias dele em Paraty. Acho que ao menos contextualiza um pouco as frases que ele disse na coletiva.
***
Humor autêntico e pelo avesso
RAQUEL COZER

Foto: Tasso Marcelo/AE
“Parem, por favor”, disse Robert Crumb, na manhã de ontem, ao se aproximar da sala na qual enfim falaria aos jornalistas em Paraty – algo que até dois dias antes a organização da Flip temia que ele nunca chegasse a fazer. Tentar caretas ou levantar o dedo do meio para os fotógrafos que o cercavam na entrada, na tentativa de evitar registros, havia surtido o efeito inverso (foram as fotos preferidas por todos ali), então o cartunista precisou reclamar. A questão é que Crumb sorri quando está desconfortável, numa espécie de reação reflexa, de modo que os outros demoram a entender quando é hora de deixá-lo em paz.
Hoje, às 19h30, ele participará de uma das mesas mais concorridas desta edição, com o pai dos Freak Brothers, seu amigo Gilbert Shelton – que, como ele, é um dos nomes centrais das HQs underground dos anos 60. Os dois chegaram da França com suas respectivas mulheres, a cartunista Aline e a agente literária Lora Fountain, na terça pela manhã, mas quase não se viu Crumb. Shelton circulou à vontade, sempre de calça jeans com suspensórios, mas o criador do Mr. Natural deu parcos sinais de vida. Anteontem, foi passear de barco e almoçar na ilha do Catimbau com seu mesmo figurino básico de personagem de quadrinhos: calça e camisa social, chapeuzinho à moda antiga e casaco preto. E passou longas horas “meditando” na pousada, nas palavras de Aline.
Como o trabalho mais recente do artista, a versão ilustrada do Gênesis, saiu no Brasil no ano passado, duas editoras trataram de arrumar material para sua passagem pela Flip. A Conrad, que tem quase toda a obra dele por aqui, preparou uma edição de capa dura de Meus Problemas com as Mulheres, que reúne cartuns do título homônimo em inglês e outros feitos de 1964 a 1991. A Desiderata fez nova edição do Kafka de Crumb, biografia com texto de David Zane Mairowitz, publicada em 2006 pela Relume-Dumará. O próximo trabalho inédito está previsto para 2011. A princípio, se chamará Drawn Together, e reunirá histórias feitas em parceria com Aline Crumb – inclusive aquelas que, feitas para a New Yorker, foram publicadas em português pela revista piauí.
Crumb não gosta de dar entrevistas porque jornalistas perguntam sempre as mesmas coisas, é o que ele diz. Não teria nem vindo ao Brasil não fosse uma forcinha “das sras. Shelton e Crumb”, que, dispostas a sair da rotina, o convenceram a pegar o avião. “Vim de classe executiva, foi legal. Estou me divertindo à beça”, disse, irônico, aos repórteres interessados em detalhes. “Se pudesse escolher, iria para um lugar onde fosse anônimo. Sou melhor em observar que em ser observado.” É verdade que Crumb é bom em reparar em pessoas e situações para depois ilustrá-las, mas também é curioso observá-lo. O quadrinista é o ranheta menos ranzinza de que se tem notícia. Reclama de tudo, do governo, da música dos dias de hoje, do assédio do púplico, do barulho (Aline e ele acharam o povo brasileiro, até onde foram dados a conhecê-lo, em Paraty, um tanto “inquieto”), só que cada uma de suas frases de efeito vem acompanhada por uma sacudida de ombros, aquele sorriso por ato reflexo e a famosa franzida na testa para evitar que os óculos lhe escorreguem pelo nariz. Um ator não faria melhor, mas ninguém duvida de que seja autêntico.
Não é sempre que Aline consegue arrastá-lo para fora da vila onde os dois vivem desde os anos 80, no sul da França. No ano passado, por exemplo, ao viajar para a Índia, achou melhor deixar o marido em casa. “Adorei tudo por ali, mas ele teria morrido”, disse ela ao Sabático, na quarta-feira. Ele até sabe se virar sozinho, conta a mulher – depois de 25 anos entre franceses, sabe da língua o suficiente para conseguir comida e sobreviver, “E agora ele está com uma secretária, uma amiga minha, americana. Além do mais, todo mundo na cidade o conhece e o protege.”
Crumb diz ainda não ter se acostumado com a ideia de que quadrinhos hoje são vistos como arte ou literatura. Acha “bizarro” participar de um evento como a Flip e estranha o boom nas vendas de HQs. “Quadrinhos não foram feitos para se levar a sério, me assusta ver isso acontecer”, diz. Mas não reclama, e por isso aceita fazer tudo isso que detesta – viajar, dar entrevista, dar autógrafo vez por outra, quando alguém o pega de surpresa. “É algo economicamente muito viável, e é também por isso que estamos aqui.”
O autor de Gênesis se escondeu o quanto pôde em Paraty, mas, hoje pela manhã, foi obrigado a jogar-se aos leões. Seguem algumas frases da entrevista coletiva da ele qual participou com Gilbert Shelton, acompanhados por suas respectivas mulheres, Aline e Lora. As fotos mais bacanas ainda não entraram aqui no sistema, então vai uma comportadinha do casal.

Tasso Marcelo/AE
“As piadas dos quadrinhos de hoje já não são tão engraçadas” (Crumb)
“É bom, a gente faz muito dinheiro com isso” (Aline, sobre a supervalorização dos quadrinhos de Crumb)
“Não conheço nenhum jovem” (Shelton, sobre as novas gerações de quadrinistas)
“Quadrinhos não foram feitos para se levar a sério, me assusta ver que isso acontece” (Crumb)
“Como eu criei Kafka? Kafka já existia” (Crumb, sobre a biografia do escritor, ilustrada por ele e lançada pela Desiderata)
“Estavam escondidas, mas já não estão, contei tudo” (Crumb, sobre o fato de ser gentil e “esconder” fantasias sexuais relatadas nas histórias)
“Tenho um pouco de vergonha de viver no planeta Terra” (Crumb, sobre se teria vergonha de voltar a viver nos EUA)
“Sou um artista do século 19″ (Crumb, sobre tecnologia)
“Sim, amor, estou me divertindo à beça” (Crumb, sobre Aline tê-lo obrigado a vir ao Brasil)
Tive uma longa conversa com Aline Kominsky-Crumb ontem pela manhã, na pousada da Marquesa, onde os Crumb estão hospedados. Acompanhada por Lora Fountain, agente literária do casal e mulher de Gilbert Shelton, Aline falou do livro dela que sairá por aqui em breve pela Conrad, do pouco conhecido papel das mulheres nas HQs underground dos anos 60, dos trabalhos em parceria com Crumb, do livro que ambos lançarão juntos, no ano que vem.
Falou também da mágoa de Crumb com a New Yorker, revista na qual ele não quer mais ter histórias publicadas (aquelas que costumavam ser reproduzidas por aqui pela piauí)… E muito mais.
Segue aqui só a primeira parte da entrevista
Aqui no Brasil, do seu trabalho, é conhecido só o que faz junto com o Crumb…
Aline: No ano que vem, sairá pela Conrad um livro com todo o meu trabalho. Não sei ainda como chamarão.
Lora: Da última vez que falei com eles, seria algo como Aline: Uma Autobiografia Não-Autorizada
Aline: Por mim, tudo bem, não vejo problema. Mas o título do livro em que se baseou esse da Conrad é Need More Love, que eu acho que é um bom título. E Love That Bunch, um livro mais antigo. Há algumas coisas dos dois livros. Need More Love tem fotos, pinturas e textos, é um livro multifacetado. É um grande livro, uma autobiografia gráfica, com todos os tipos de imagens. Mas Conrad usará apenas histórias desse trabalho.
Você também é pintora, então.
Aline: Comecei meu trabalho como pintura. Fiz meus estudos em aquarela e óleo em tela, me formei e sou professora de arte, mas só dei um ano de aula em toda a minha vida. Quando me formei, nos anos 60, me interessava pelas comics underground, o trabalho do Gilbert, do Crumb, e de um artista chamado Justin Green, que fez um trabalho muito autobiográfico e me inspirou a fazer o mesmo. Comecei a fazer quadrinhos naquela época, embora não tivesse ideia de como publicar, o que fazer. Então me dei conta de que todos os quadrinhos estavam sendo publicados em San Francisco, então fui para lá, em 1971.
Lora: Você foi para lá originalmente para conhecer o Justin.
Aline: Sim, fui conhecer Justin Green, que era o artista que eu admirava de fato. Queria falar com ele e perguntar coisas. Ao mesmo tempo, alguns amigos nossos disseram que eu parecia um personagem de Robert Crumb e me levou para uma festa onde o conheci, e também Lora e Gilbert, ao mesmo tempo.
Lora: O que significa que todos nós nos conhecemos por quase 40 anos…
Você desenhava naquela época, certo, Lora?
Lora: Sim, nós fomos as primeiras cartunistas mulheres naquela época. (Para Aline) Seu timing foi perfeito de chegar a San Francisco naquela época.
Aline: Eles precisavam de mais trabalhos desesperadamente, porque não havia cartunistas mulheres. Se você parar para pensar, não tinha isso. Então eles estavam tentando atrair isso, e para qualquer uma que pudesse minimamente desenhar um quadrinho eles diriam: OK, você pode estar nesse livro. Foi por isso que conseguimos entrar nisso.
Seus cartuns já eram autobiográficos naquela época, Aline?
Aline: Sim, eu não sabia fazer mais nada. Não conheço nenhum outro assunto bem o suficiente para poder desenhar a respeito.
Lora: Você trabalhou naquele livro que fizemos para o (neurologista e escritor) Timothy Leary (El Perfecto)?
Aline: Sim, mas escrevi sobre mim, sobre LSD. Participei, mas escrevi sobre minha própria viagem de LSD.
E por que parou você de desenhar, Lora?
Lora: Eu? Porque… algumas pessoas pessoas podem fazer isso, e outras não. E eu não posso. Não tenho o talento ou a paciência para desenhar boas histórias. Comecei a me interessar mais por vídeo e fotografia.
Quando conversei com Crumb, no ano passado, ele me disse que você (Aline) tinha mais talento para o roteiro que para o desenho de uma HQ, um humor judeu…
Aline: Sim, é verdade. Quando trabalhamos juntos, eu faço quase todo o roteiro. É como um time de duas pessoas, ele quer dizer uma coisa, e eu vou e quase sempre faço o humor. E, sim, é verdade, sou mais uma roteirista de quadrinhos. Meu desenho é muito primitivo e estranho e idiossincrático. Prefiro pintar, não sou uma cartunista profissional nem estou interessada nisso. Meus quadrinhos não são muito comunicativos no que diz respeito a forma dos quadrinhos, eles são muito pessoais e doidos. Eles são mais apreciados por pessoas que gostam de ver minha arte em galerias. É mais fácil para eles olhar para os meus quadrinhos do que é para as pessoas que gostam de quadrinhos profissionais. Não uso nenhuma das técnicas formais dos quadrinhos.
De que tipo de técnicas você fala?
Aline: Estilização, simplificação, por exemplo, quando você tem um personagem, fazê-lo sempre da mesma maneira o tempo todo. Quando desenho, eu mudo o tempo todo. Se estou de bom humor, eu me desenho melhor, se estou de mal humor, me desenho mais feio. Mudo meu cabelo, meu peso. Cada desenho para mim é um desenho, não penso no sentido de arte sequencial, expressão comercial, de manter um público.
E você é tão magra, mas se desenha tão grande nas HQs em que aparece com o Crumb…
Aline: Eu costumava ser maior. E ainda sou muito, sabe (levanta o braço e mostra os bíceps sob a blusa)… forte. Eu me sinto como uma guerreira. Dou aulas de pilares seis horas por semana. Eu gosto de comer, mas também de me mover muito.
Quando você desenha com Crumb… Ele tem esse respeito pelas técnicas da arte sequencial, e você não tem…
Aline: É insano como isso funciona. Não deveria funcionar, mas, por alguma razão, funciona. Eu aproveito as deixas. Ele coloca a linha lá e eu aproveito as deixas. Mas, em termos de desenho, é totalmente irracional, porque o desenho de Robert é tridimensional, e o meu é chapado. Da primeira vez que fizemos isso, não era para publicar, era só para nos distrair. Foi em 1974, eu acho, e eu tinha caído e quebrado a perna, e estava chovendo, e estávamos no campo, e eu estava muito entediada e o deixando louco. Então, para me deixar ocupada, meu irmão e eu costumávamos fazer quadrinhos juntos, como ele fazia com o irmão dele, Charles, então ele falou, vamos fazer isso.
Lora: Para evitar que você o deixasse louco.
Aline: Sim, para que ele não pirasse. O primeiro que fizemos foi muito louco, a história vai a todo lugar, espaço sideral, criaturas que aterrissam na nossa fazenda,Timothy Leary aparece, é realmente louco. Não tentamos fazer nada coerente porque não pensávamos em publicar, mas daí um editor viu e quis publicar.
Você sabe quantas histórias fizeram desde então?
Aline: Temos esses dois livros chamados Dirty Laundry, dos anos 70, e uma compilação. Fizemos para jornais locais, para a revista Weirdo.
Lora: Quando começaram a fazer para a New Yorker?
Aline: A primeira coisa que fizemos para a New Yorker foi no meio dos anos 90. Fizemos algo, a primeira acho que foi sobre nossa reação ao documentário de Terry Zwigoff, chamado Crumb, que saiu em 1995. A New Yorker pediu para nos escrever sobre nossa reação. Nós queríamos desaparecer depois daquele filme. Robert usava chapéu e não usava barba, mas ele começou a ser reconhecido em todo lugar. Então ele mudou o tipo de chapéu e deixou a barba crescer, mudou o visual.
Lora: Ele ainda usa o mesmo tipo de roupa.
Aline: Não, naquela época ele usava uns casacões de homem velho, agora ele acabou voltando a usá-los, mas durante aquele tempo ele parecia mais um francês, com uma jaqueta. Ele foi ver o filme num cinema central onde estariam todos os seus fãs, com esse visual diferente, barba e tal, e ele estava na tela, e dentro do cinema, e ninguém o reconheceu.
Lora: Teve uma vez que um fã o parou e disse que o viu no filme, mas estava falando sobre Max, e não sobre Crumb. Achou que Crumb era o irmão.
Aline: Sim, sim. Hoje ele ainda é muito reconhecido, mas naquele época foi mais estranho.Em qualquer lugar alguém o reconhecia, era demais.
E aqui em Paraty, como tem sido? Ele quase não saiu da pousada…
Aline: Não, não muito.
Lora: Nós acamos de chegar, também, ontem…
Mas vocês e Shelton foram passear, ele não.
Lora: Ele estava cansado. Não estava com fome, e nós estávamos. Mas nós saímos ontem à noite para jantar com ele.
Aline. Ele não está se escondendo. Ele virá para almoçar agora. Ele é um cara muito doce, muito legal. É tímido. E, depois de certo ponto, ele não pode mais falar. Ele não gosta de falar dele mesmo.
Lora: E ele falou tanto do Gênesis no ano passado. Você falou com ele naquela época, Raquel, logo no começo, mas você foi uma em um milhão…
Aline: Centenas de milhões. Foi muito. Ele divulgou muito, fez uma tour nos EUA, fez uma conferência com cententas de jornalistas.
Ele deve estar cansado de responder sempre as mesmas coisas.
Aline: Sim, as perguntas são sempre as mesmas. É normal, os jornalistas fazem as perguntas que eles têm de fazer, é normal, nada contra o jornalismo. Mas, depois de um tempo… Depois de um tempo ele não aguenta mais falar sobre o assunto.
E como vocês dois sabem quando têm uma história em parceria?
Aline: A gente não tem nenhuma regularidade para isso. A New Yorker sempre nos pede coisas, mas ele não quer mais fazer nada para eles.
Por quê?
Aline: Porque eles pediram a ele uma capa, e ele fez, estava muito boa. Era meio controversa, porque pediram a ele que fizesse uma capa sobre casamento, e ele fez uma sobre casamento gay, e eles não usaram. Até aí tudo bem, ele não se importa, mas eles nunca explicaram a ele por que não usaram a capa. Ele perguntou muitas vezes, e nunca teve resposta. Ele disse: “Se eles me dissessem a razão, estaria tudo bem, eu faço outras coisas para eles. Mas, como eles não tiveram coragem nem respeito o suficiente para me explicar isso…”. Ele está zangado. É compreensível. Durante um ano, eles ficaram dizendo que usariam, que usariam, fizeram isso dez vezes, durante um ano, eles pagaram pela capa… Mas ele ficou realmente frustrado de não saber por quê. Se não gostaram. Ele trabalhou com muito afinco naquilo, e não tiveram coragem de ligar para ele e dizer o que houve. Era só dizer: “Não é seu melhor trabalho”.
Mas vocês ainda fazem histórias juntas?
Aline: Sim, estamos trabalhando num novo livro. O título provisório é Drawn Together, que tem dois significados em inglês, atraídos um pelo outro e desenhando juntos. Incluirá o trabalho New Yorker, o trabalho anterior e algumas outras histórias. Sai no ano que vem.
Será a história de amor de vocês dois?
Aline: Sim… Sim. Como você quiser chamar (risos). Mas haverá trabalhos antigos que provavelmente quase ninguém viu, que foi publicado só em editoras muitas pequenas, e histórias totalmente inéditas.

Em cerca de uma hora começa a abertura da Flip, com FHC em debate com Luiz Felipe de Alencastro, às 19h, seguido de show de Edu Lobo, às 21h.
Mas o sinal de que a Flip já começou é o monte de crianças na praça do centro histórico (foto), ali perto da Flipinha. Paz, agora, só no domingo à noite, já que as músicas ao vivo começam sempre antes que os ouvidos descansem da programação infantil.
Ontem, a barulheira fez Robert Crumb e Aline, mulher dele, pedirem para mudar de quarto. Como a maior parte dos convidados, eles ficam na Pousada da Marquesa, exatamente em frente à praça. Estavam num quarto bem na frente e agora se ajeitaram num mais aos fundos. Conversei com Aline hoje, e ela disse que trocar de quarto por enquanto só serviu para hoje acordar ao som de marteladas, do outro lado da pousada. Mal sabe ela que a tendência é daqui pra frente só piorar…
Aliás, pela manhã, enquanto esperava Aline, esbarrei no Crumb, que parou para falar com Gilbert Shelton, no hall de entrada, e foi só até a portaria da pousada antes de voltar pro quarto. Aline diz que ele não está se escondendo, que é só o jeito dele. E que ele não aguenta mais ouvir falar sobre o Gênesis, tema de sua mesa no sábado. Mas vem novidade por aí, em 2011. Mais tarde posto aqui a entrevista com a Aline, com todos os detalhes.
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