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Flip

Ontem à noite, quando cheguei à tenda pricipal para a abertura da festa literária, me disse um colega que havia manifestante com plaquinha “Fora Política na Flip”. Ou seja, um “Fora FHC” revisitado. Suspirei. Como o Brasil tem andado chato, meu Deus. E como fica mais chato ainda com essa disputa PTxPSDB. É picuinha monotemática, estreita, caricata. Felizmente a plaquinha não pintou. E FHC, também felizmente, não leu o calhamaço que escrevera sobre Gilberto Freyre, umas 30 e tantas páginas (que nós demos na íntegra no estadao.com). Fizeram bem: o sujeito da plaquinha moitou, FHC, vestido de sociólogo, não de político, deu o recado e garantiu uma bela abertura falando de improviso.

Mas, claro, fica a dúvida se a Flip deve homenagear vultos oriundos da academia, já que tem o DNA de festa literária. Fiquei pensando sobre isso com os meus botões, aliás inclinados a me dizer que sim, que tem gente muito boa na academia, cujas obras tornaram-se clássicos, embora desconhecidos do grande público. O próprio FHC sugeriu ontem que a Flip homenageie Sérgio Buarque de Holanda.

Pois a conferência e a primeira mesa sobre Gilberto Freyre apontam um caminho legal, a meu ver. Porque o autor em foco pode ser examinado sob vários aspectos, o público vai experimentando uma certa familiaridade com ele e ao fim dos debates é impossível que não se ganhe conhecimento e interesse pela obra.

Mas Freyre, como se tem ressaltado, é um caso à parte: escrevia de forma fácil, informal, cativante. Eu, por exemplo, me amarro nos plurais dele: cotidianos, transbordamentos…palavras que a gente usa no singular, normalmente. Ele, não. Pluraliza tudo, como se as imagens ganhassem eco. Já Sérgio Buarque de Holanda, bem sabemos, tem uma linguagem completamente diversa. É denso, preciso, lapidar. Se a Flip vier a garantir espaço para  os grandes intelectuais/pensadores brasileiros, como Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e outros, seria interessante recorrer ao auxílio luxuoso da tecnologia e garantir acesso direto do público a páginas destes autores, durante os dias da Flip, via computador, e-readers, painéis eletrônicos, etc.

Tudo bem que é caro, tudo bem que as pessoas podem fazer por si mesmas, mas, convenhamos: seria o máximo.

Adorei Edson Nery da Fonseca dizendo o poema Bahia de todos os santos ( e de quase todos os pecados), de Gilberto Freyre, hoje pela manhã. E o poeta fala da “gente da Bahia, cor de jacarandá, madeira que cupim não corrói….”. Ô beleza…Meu amigo Humberto Werneck me aconselhou a não usar jamais o verbo “declamar” para Nery. Porque ele ”diz”  poesia. E como diz, Humberto…

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