
Foto Tasso Marcelo/AE

Em cerca de uma hora começa a abertura da Flip, com FHC em debate com Luiz Felipe de Alencastro, às 19h, seguido de show de Edu Lobo, às 21h.
Mas o sinal de que a Flip já começou é o monte de crianças na praça do centro histórico (foto), ali perto da Flipinha. Paz, agora, só no domingo à noite, já que as músicas ao vivo começam sempre antes que os ouvidos descansem da programação infantil.
Ontem, a barulheira fez Robert Crumb e Aline, mulher dele, pedirem para mudar de quarto. Como a maior parte dos convidados, eles ficam na Pousada da Marquesa, exatamente em frente à praça. Estavam num quarto bem na frente e agora se ajeitaram num mais aos fundos. Conversei com Aline hoje, e ela disse que trocar de quarto por enquanto só serviu para hoje acordar ao som de marteladas, do outro lado da pousada. Mal sabe ela que a tendência é daqui pra frente só piorar…
Aliás, pela manhã, enquanto esperava Aline, esbarrei no Crumb, que parou para falar com Gilbert Shelton, no hall de entrada, e foi só até a portaria da pousada antes de voltar pro quarto. Aline diz que ele não está se escondendo, que é só o jeito dele. E que ele não aguenta mais ouvir falar sobre o Gênesis, tema de sua mesa no sábado. Mas vem novidade por aí, em 2011. Mais tarde posto aqui a entrevista com a Aline, com todos os detalhes.

Preparem-se: Fernando Henrique Cardoso abrirá a programação da Flip com uma conferência e tanto. Chama-se Gilberto Freyre, perene e é trabalho de fôlego. Mergulho na obra e no autor em águas profundas. Volta em grande estilo de FHC ao universo da sociologia — ouviram? Nada de improviso, tudo pensado. Em vários momentos o conferencista deverá mencionar (e reverenciar) o mestre Florestan Fernandes e a escola paulista/uspiana de sociologia, que tanto estranhamento teve em relação a conceitos desenvolvidos por Freyre, como o da “democracia racial” e certas análises em torno da sociedade patriarcal. Pode dar um debate interessante, vamos ver…
Pois FHC destrinchará esse estranhamento, lidando ardilosamente com as palavras – ”Gilberto Freyre acreditava ter sido pioneiro em incluir nas análises sociais aspectos subjetivos (…)”. E vai longe ao dissecar seu personagem-tema. Logo no início da conferência o presidente-sociólogo dirá algo como: …”quem sabe, ao me aproximar de tão gabado Autor, me sobrem umas lasquinhas de glória…”. Ironia aplicada a si mesmo. Freyre também apelava para o humor ao rebater as críticas que lhe faziam no meio acadêmico. Dizia jamais ter feito voto de “castidade sociológica”…
Mal chegou a Paraty, a escritora chilena Isabel Allende, que está lançando A Ilha Sobre o Mar, foi convidada pela editora Liz Calder a navegar junto a outros convidados pelas ilhas da região, habitada no passado por escravos, também personagens de seu novo livro, que deveria tratar das origens de New Orleans e terminou como a saga de uma escrava. Isabel veio acompanhada do marido William Gordon, também escritor, que lança na Flip seu livro O Anão.
Sabia que Gilberto Freyre, além de sociólogo, antropólogo, jornalista, historiador, escritor, pintor (etc etc), era caricaturista? Este lado dele poderá ser visto de perto por quem for a Paraty. Uma pequena exposição ocupará o hall de entrada da Tenda dos Autores, com alguns desses desenhos. Escrevi sobre a mostra, que também terá cartas e outros manuscritos inéditos para o público, no Caderno 2 de hoje.



Que mudanças o senhor observa em nossa noção de narrativa?
(…) Atualmente, os mais jovens criaram o hábito de ler pequenos blocos de texto e em grande velocidade, seja em Twitter, blogs, ou ainda na troca de mensagens recebidas em celulares e portáteis. Assim, a leitura de um livro tornou-se um ato pouco usual. Por conta disso, é possível acreditar que logo os livros serão adaptados a esse tipo de escrita, ou seja, uma prosa breve, segmentada. Isso vai influenciar decisivamente a forma de se apresentar personagens, descrever cenários, criar atmosferas, utilizar recursos narrativos. Tudo ficará achatado. É uma possibilidade. (…)
***
Trecho da entrevista que o Bira fez com o pesquisador americano Robert Darnton, convidado da Flip. Saiu no Sabático de ontem (a íntegra da conversa você pode ler aqui). Uma das duas mesas das quais ele participa será com o CEO do Penguin Group, John Makinson, com que falei neste mês, em entrevista publicada no Caderno 2. A conversa será nesta sexta-feira, às 10h.

No ano passado, quando estreei como repórter na Flip – até então, tinha ido só como público e frequentado mais os bares que as tendas, por absoluta dificuldade de comprar ingresso -, conheci a estranha logística da cobertura de um evento literário. Em geral, repórteres de jornais impressos que estejam em cobertura fora da redação podem enviar textos para o editor até a noite do dia anterior à notícia, mas os cadernos de cultura – cujas notícias dependem menos das agruras diárias que os cadernos de política, por exemplo – precisam estar prontos para ir para a gráfica mais cedo, em torno de umas 14h. É uma maneira de “desafogar” a gráfica do excesso de páginas a serem impressas à noite, quando roda o resto do jornal.
Isso significa que a cobertura se divide em dois. Não adianta cobrir as mesas para o caderno que fecha “frio” (como reza o jargão para fechamentos mais distantes do horário em que o jornal chegará às bancas), pois daria para falar só sobre as mesas da manhã. Em geral, o que a gente faz, no caderno que tem fechamento às 14h, são textos de apresentação das mesas que ainda acontecerão no dia, acompanhados de um relato menor do que aconteceu no dia que, para o leitor, será “anteontem”. É claro, se rolar algo muito curioso, bizarro ou polêmico na mesa das 19h de quinta, por exemplo, pode ser o caso de ligar no jornal e pedir espaço no caderno de cidades (que fecha à noite) para sair ainda na sexta. Porque, se você for esperar até as 14h de sexta para noticiar com destaque o que aconteceu às 19h de quinta, o leitor do jornal impresso só poderá ler o texto no sábado, quando a notícia já estiver meio murcha depois um dia inteiro na rede. No sábado pode sair esse relato menor sobre as mesas de quinta – afinal, nem todo mundo acompanha pela internet.
Hm, não sei se me fiz clara nesta explicação, mas juro que tentei.
Enfim, daí que achei ótimo a cobertura deste ano incluir o blog. Será minha primeira cobertura pelo Estadão e também a primeira vez que o jornal terá um blog específico para o período da Flip. O que significa que, além de nos dividirmos entre os textos que entram no Caderno 2, no Sabático e eventualmente no Metrópole, teremos de saber dividir também o que entra aqui e o que guardamos para o jornal impresso. O bom é que teremos esse espaço para que nada de importante passe em branco.
Eu, em particular, ainda tenho de saber o que guardar para o meu blog pessoal, mas algo que me diz que não sobrará é tempo… Porque as exíguas horas que restarem será preciso aproveitar no bar, é claro.
(A foto do painel na Tenda dos Autores sendo preparado eu roubei lá do blog da Flip)

Foto Divulgação
Estamos nos preparando para mais uma Festa Literária Internacional de Paraty, às voltas com as possibilidades de uma cobertura dinâmica, em tempo real, que esperamos seja vibrante não só no conteúdo impresso, mas no online, especialmente. De minha parte, tomo certa cautela ao dizer “esperamos”, pois o nosso time de cobertura reúne de blogueiros e tuiteiros natos, como nossa brava Raquel Cozer (tem idade para tanto…), a blogueiros de primeira viagem, como Antonio Gonçalves Filho, Ubiratan Brasil e esta que vos escreve. A sorte está lançada, portanto.
Hoje, revendo a programação prevista para os próximos dias, me lembrei do primeiro ano da Flip, em 2003, quando pude assistir à programação na confortável condição de…público. Confortável porque eu não tinha o compromisso de tomar notas, redigir textos, buscar pautas, caçar entrevistas, nada, nada. Era sentar e ouvir. E me lembrei da Casa da Cultura dura de gente, o assoalho do solar colonial rangendo sob os nossos pés, um medo danado de que uma parede desabasse. Ou seja, confortável para a jornalista metida a ouvinte. Para o público mesmo já foi um sufoco…De qualquer modo, sentia-se ali em Paraty um cheiro de coisa boa que vinha pra ficar.
A Flip avança para sua oitava edição. Desfilou nos últimos anos nomes estelares do universo das letras, como Julian Barnes, Ian McEwan, J. M Coetzee, Mia Couto, grandes intelectuais, como Eric Hobsbawn e Beatriz Sarlo, para citar apenas dois, profissionais que apontaram rumos para o jornalismo, como Lilian Ross e Gay Talese, sem falar nos representantes da melhor literatura nacional. E vêm as perguntas inevitáveis: até onde a Flip vai? Que grifes literárias ainda atrairá? Até quando manterá essa resposta de público impressionante, a julgar pela rapidez com que seus ingressos esgotam? Que influência teve e ainda terá nas festas e feiras literárias que pipocam pelo país?
Toninho, Bira, Raquel e eu voltaremos a conversar com nossos leitores sobre estas ( e outras) questões ao longo da próxima semana. Sempre neste blog de velhos e novos aventureiros de navegação. E no twitter: @cultura_estadao.
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