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Flip

“Todo mundo aqui entende francês?”, perguntou a tradutora do Claude Lanzmann ontem, antes do início da entrevista coletiva que daria na Pousada do Ouro, e todo mundo manteve um silêncio que fazia parecer que sim. “Vou começar a fazer perguntas a vocês, então”, rebateu o escritor e cineasta, num misto de mau e bom humor, e as risadas dos jornalistas apenas depois que a tradutora explicou o que era entregou que boa parte da gente ali estava que nem eu, pescando alguma coisa e olhe lá.

Ficou decidido que, para evitar mal entendidos, frase por frase dele seria traduzida. Começou assim, com a resposta para uma pergunta que ninguém fez:

“O clima de Paraty está acabando com a minha vida.”

Lanzmann tinha acordado com febre e passado o dia entocado na pousada. Eu não sabia que ele já tinha chegado, muito menos que tinha coletiva. Estava só acompanhando a entrevista anterior (o anúncio dos detalhes sobre a Granta só com autores brasileiros) quando ouvi que ele seria o próximo. Como o Toninho, que estava agendando entrevista com o Lanzmann pelo Estadão, não estava lá, me ajeitei no fundo para ver o que rolava.

“Essa festa literária deveria ser feita no verão. A primeira coisa que quero saber é se há algum cemitério bastante atraente aqui em Paraty. Estou lutando para salvar a minha vida.”

Paraty está frio como nunca esteve numa Flip. Foi pior na quarta, mas ainda não dá para sair sem um casaco, nem que seja na mochila. Hoje de manhã, no dia em que descobri que perdi meus óculos de sol (ou talvez por causa disso), até que abriu o tempo. Mas mal passou do meio-dia e o dia já estava com aquela cara de cinco da tarde.

Ao ouvir uma comparação com o clima na Inglaterra, Lanzmann reagiu: “Lá não é tão úmido nem tão lúgubre. Não quero atacar o Brasil, mas tenho que dizer que estou exalando meus últimos suspiros aqui. Para conseguir falar com vocês, tive que tomar um uísque.”

E cumpriu a promessa de fazer perguntas, mandando logo uma fatídica:

“Quem de vocês leu meu livro?”

Eu, que estava de gaiata, sabia apenas que era um volume de memórias (A Lebre da Patagônia, Companhia das Letras). Um livrão que nem trouxe na mala, já que Lanzmann não estava na minha cota de entrevistados. E pelo jeito na de ninguém por lá, porque só o André Miranda, do Globo, levantou a mão.

“É muito difícil falar de um livro que os interlocutores não leram. Vou passar a palavra para você, o único que leu.”

Miranda defendeu a classe, argumentando que a obra cinematográfica de Lanzmann fala por si (a obra-prima é o documentário Shoah, de 1985, que trata do holocausto em nove horas de entrevistas), antes de perguntar se a morte e a crueldade humana eram uma obsessão na vida do cineasta.

“Não se trata da uma obsessão. O que faço é retratar a realidade. Não é obsessão porque obsessão é uma coisa que você não controla. Um homem que é obcecado por mulheres e que violenta mulheres não é dono dos seus atos. Não sou obcecado pela morte, mas penso nela a cada minuto da minha vida. É justamente o contrário, eu amo radicalmente a vida. Acho que a morte é um escândalo.”

Nesse momento, tive que sair, porque outra entrevista, uma que fazia parte da minha cota, estava à espera.

Mas daí já tá pra ter uma noção da figura que recebe o público na última mesa de hoje na Tenda dos Autores. Ou quase. Espera-se que a situação por lá seja um tanto melhor, já que, imagino, nenhum mediador enfrentaria a fera sem conhecer cada entrelinha da obra.

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O escritor angolano radicado em Portugal valter hugo mãe fala como escreve – a saber, saíram dele neste ano no Brasil o remorso de baltazar serapião e máquina de fazer espanhois. É uma coisa bem bonita de ouvir. Tenho cá pra mim que a mesa dele com a Pola Oloixarac, hoje, ao meio dia, será das melhores desta Flip, no que depender da desenvoltura dos dois.  Vai ficar dependendo da mediação.

Coloco abaixo o vídeo com trechos da conversa que Bira e eu tivemos com ele anteontem, na qual hugo mae fala sobre como integram o livro o esquecimento bom (o da perda de memória na velhice, que para ele ajuda a superar as perdas) e o esquecimento ruim (que faz com que hoje Salazar comece a ser celebrado em Portugal por jovens e adultos).

Antes, uma curiosidade que destaquei no lide da entrevista publicada hoje no Caderno 2: enquanto valter vê com estranheza a extrema direita ganhando espaço em Portugal, sua colega de mesa na Flip, Pola, ironiza a ultraesquerda em seu único livro, As Teorias Selvagens.

O vídeo quem fez foi o Wilton Junior, fotógrafo da sucursal do Rio do Estadão que teve a linda ideia de trazer uma câmera de vídeo além da fotográfica (foram dele também os vídeos do Antonio Candido). Uma sacada e tanto que está fazendo a maior diferença numa cobertura feita por uma equipe reduzida.

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A segunda parte do post em progress, agora que a repórter almoçou um pastel. =P

Estou salvando conforme vou tirando a gravação. Como falei, participaram da entrevista Miguel Conde, do Globo; Fábio Victor, da Folha; Ubiratan Brasil, do Estadão; e outras vozes que não conheço (alguém me fale, se tiver participado).

Sobre como vê o momento político do PT, tendo sido um dos fundadores

Não estou aqui para falar de política nem do PT. O senhor não me provoque, que sou Candido, mas não aceito provocações (risos).

Sobre livros digitais

Isso é um mundo fechado pra mim. Se os senhores prometerem não contar nada pra ninguém (risos), eu conto: eu escrevo em máquina de escrever. Não sei o que é computador. As pessoas perguntam, professor, qual o seu email? Eu não sei o que é isso. O sr. tem fax? Eu não sei o que é. Comigo não adianta coisa moderna, eu sou um homem do passado. Eu estou encalhado no passado.

Sobre cobertura jornalística de literatura

Conheço muito pouco. Eu pra falar a verdade sempre fui um mau leitor de jornal. Todas as manhãs dou uma olhada rápida na Folha de S.Paulo, só.

O que é boa crítica literária

Isso não tem definição. A boa crítica literária é a crítica que é boa (risos). Agora, quando eu leio artigos de jornal, sobretudo a crítica universitária, é muito boa a crítica brasileira. Eu admiro muito os jovens críticos brasileiros. Eu tive inclusive a sorte extraordinária de reunir em torno de mim os melhores críticos do Brasil. Eu tenho a impressão de que… Isso acontece. Eu tenho amigos que não têm, em volta deles não se juntou… Eu tive a sorte de ter como… Vocês vão ver hoje à noite um deles, o José Miguel Wisnik. São os meus filhos. Eu costumo dizer sempre com muita sinceridade que a coisa mais importante que fiz na vida foi ter em volta de mim o grupo de jovens que eu tive. Isso foi contribuição maior que eu dei para a cultura brasileira e para a universidade de São Paulo. Roberto Schwarz, José Miguel Wisnik, João Lafetá, Walnice Nogueira Galvão, Telê Ancona Lopes… Grandes estudiosos de primeira categoria, fizeram tese comigo de mestrado, doutorado. É uma questão de sorte.

Se hoje cabe um projeto literário ligado ao político, como o de Oswald de Andrade

Não sei. Eu fui ainda de uma geração muito engajada, como se dizia. Nós achávamos que era obrigação do intelectual participar da política. Eu participei. Não gosto de política e não tenho nenhuma vocação política. Mas na minha geração havia essa ideia, talvez não fosse correta, não sei, que o intelectual tinha obrigação (com ênfase) de participar politicamente. Eu participei, também. Começamos com pequenos grupos clandestinos no tempo da outra ditadura, do Estado Novo.

Se acha que a literatura participa menos de questões do gênero por ter perdido importância cultural

Não sei. Já não é mais o meu mundo. Eu insisto com os senhores, eu só posso dar respostas sobre o passado. Eu sou uma pessoa de temperamento conservador. Uso bigode, ainda. Os jovens usam barba.

Se existe um herdeiro literário de Oswald de Andrade

Isso eu não sei. Oswald era único, Oswald era único. Oswald era único. Era um tipo curiosíssimo, muito irregular, uma obra cheia de altos e baixos. Momentos de genialidade e momentos muito ruins. Ele era uma força da natureza. Agora, como personalidade, vou procurar fazer sentir hoje à noite, era uma coisa fantástica. Sempre inesperado. Saiu agora recentemente um livro muito interessante que estou lendo sobre as memórias de Rubens Borba de Moraes. Pegaram pedaços de manuscritos, montaram um livro muito interessante. E ele fala sobre o Oswald. Ele conta por exemplo do Oswald nos anos 20, Oswald era rico naquele tempo, era riquíssimo. Oswald chegando da Europa com paletó azul celeste, calça cor de rosa, gravatas e camisas de um camiseiro francês, o mais luxuoso do mundo, de cores berrantes. E andava em São Paulo tranquilamente pela rua, imagina o susto, naquele tempo as pessoas andavam de azul marinho ou de branco ou de cinza. Oswald tranquilamente com a calça cor de rosa, dele. Era um homem diferente.

Como Oswald reagia à mitologia que o cercava

Ele achava graça. Ele achava graça. Talvez ele até achasse pitoresco, mas o que se inventava do Oswald era incrível. Mas ele era uma pessoa da idade que requeria invenção, ele era fantástico. Era um homem ao mesmo tempo na conduta, no velho estilo. Ele tinha uma coisa que, os senhores são todos muito moços, não ouviram falar nisso. Chamava-se educação pré-Guerra. Antes da Guerra de 14. Era uma pessoa completamente diferente. Era educadíssimo. Cortesia, as formas. Para dar uma ideia desse homem, o que era educação, a minha avó, a família da minha mãe é do Rio, a minha vó dizia assim: o último homem bem educado do Rio de Janeiro é o doutor Coelho Lisboa, porque para para cumprimentar uma senhora. Na Rua do Ouvidor. Nesse tempo um senhor tirava o chapéu, parava e fazia assim. Isso era educação antes da Guerra de 14. O Oswald era desse tipo. Ele recebia na casa dele uma cortesia. Dava almoço. Às vezes, tava sem dinheiro. Acabava o dinheiro dele. Recebia dinheiro, dava um grande almoço, com vinhos franceses, chamava o cozinheiro. Era de uma cortesia, uma polidez. De antes da guerra. Pisava no calo dele, a fera soltava. Maneira de cumprimentar, de andar, de receber pessoa, de contribuir, uma coisa que acabou completamente. Hoje, minha filha foi quem chamou a atenção, papai, você já reparou que na rua as pessoas não desviam mais? Se eu não desvio, bate em mim. Isso é bem depois da guerra, já.

Idade (ele está prestes a fazer 93 anos)

O Fernando Henrique Cardoso fez 80 anos outro dia. Foi meu aluno, é muito meu amigo. Então disseram, um repórter, colega de vocês, perguntou: o senhor faz 80 anos? E ele: isso é intriga do PT.

Receita para estar bem nessa idade

Bons genes. Mas essa viagem me cansou muito. A viagem a Paraty me ensinou meu limite, eu não posso mais viajar de automóvel. Há muito tempo eu não viajava…

Então, o que posso ser útil aos senhores? (risos). Eu nunca gostei de dar entrevista. Inclusive porque a entrevista frequentemente sai muito deformada. Eu sempre gosto de dar entrevista escrita. Falada… Existe um mistério qualquer entre o jornalista e o entrevistado que… (risos). Não sei bem o que que é. Eu digo alguma coisa e sai outra escrita no jornal. Isso é toda hora. O Fernando Henrique Cardoso me disse uma vez, quando era jovem político, ele me disse: “Tudo o que eu digo sai deformado. Então eu escrevia pro jornal. Depois desisti. Deixa dizer à vontade. Não sai uma coisa certa.” Não é por mal, é a própria coisa de ouvir e falar. A coisa falada e ouvida, eu próprio falo muito as coisas que (inaudível, outro avião passando – aliás, irônico passar justo nessa fala…)

Por que resolveu dar entrevista hoje

Olha, eu tinha dito pra eles. Entrevista eu não dou (ainda o avião passando). Falei: vamos colaborar com a imprensa. Vocês estão trabalhando, esse é o seu trabalho. Agora, o que vocês vão dizer eu não sei. Já tive experiências muito negativas, eu dizia uma coisa e saía o contrário. Inclusive eu dei  uma vez uma entrevista sobre o Ignazio Silone, escritor italiano antigo, fiz uma palestra. E Ignazio Silone era odiado pelo partido comunista italiano, porque ele tinha sido comunista e tinha largado. Eu dei a entrevista e o repórter de um jornal… saiu o contrário no jornal. Depois eu soube, o rapaz era do Partido Comunista e virou tudo o que eu falei. Em vez de eu falar bem do Silone ele me fez falar mal. Eu tive interferência desse tipo. Interferência ideológica (risos). Mas não é que seja por mal, eu próprio vejo que as coisas que eu ouvi, que eu reproduzo, eu já reproduzo diferente. Não é possível se guardar exatamente. Ainda mais os senhores correndo aí com caderninho na mão (risos). Eu sou muito compreensível. Estou recebendo os senhores porque tenho o prazer da companhia dos senhores. Vocês estão aqui, vão ter de prestar satisfação aos seus redatores, seu jornal.

Obra filosófica do Oswald

Oswald era um homem curioso. Oswald era um homem que tinha traços de gênio. Ele não lia muito. Agora, o que ele pegava era extraordinário. Há pessoas assim. Ele pegava. Inclusive ele… Eu vi um livro difícil de filosofia que é O Ser e o Nada, do Sartre, dessa grossura. Eu vi o exemplar do Oswald, anotado. (Outro avião passando, inaudível) Ele era um precursor. Sobre o papel da mulher, por exemplo. Ele dizia brincando: “Dizem que sou um bicho papão, que tenho uma porção de mulher. Eu sou o brasileiro que mais respeita a mulher. Nunca houve na história do Brasil um brasileiro que respeitasse a mulher porque o brasileiro normal faz o seguinte, ele é casado e tem amante, uma, duas, três, quatro. Eu não. Eu sou casado, gosto de uma mulher, largo a minha mulher e caso com aquela” (risos). Portanto ninguém respeita mais a mulher do que Oswald, o que é um paradoxo perfeitamente defensável. Ele casou seis ou sete vezes. Fora os avulsos. A visão que ele teve do papel da mulher na sociedade eu acho extraordinária. A ligação que ele faz da (mais uma vez passa um avião). Mulher é fonte de vida… Mulher dá a vida. (…) O homem tem ideias de que a mulher é “minha mulher”, “meu filho”, “minha casa”, “meu automóvel”. A mulher é muito mais do nosso. Então, dizia ele, a sociedade futura só será uma sociedade igualitária quando a mulher tiver predominância. Nós estamos encaminhando pra isso. A coisa mais positiva do nosso tempo é a presença da mulher. A mulher (…) Isso Oswald viu perfeitamente. Ele era defensor (inaudível) a mulher é fonte da vida e não tem o senso da posse que o homem tem. É uma ideia muito bonita. O homem é da propriedade privada, a mulher não. (inaudível)

Isso eu vou contar hoje: uma vez ele quis fazer um concurso de filosofia. Eu falei: “Não faça isso, Oswald. Você não é filósofo.” Ele: “por que não, sou brasileiro, maior de 21 anos, vacinado, posso fazer”. E eu: “Não, não faça. Agora com esse negócio de existencialismo, fenomenologia, hoje em dia, tem uma terminologia muito complicada que você não domina. E depois certamente irá para a banca o doutor Fulano de Tal, uma fera, te pega lá com uma terminologia complicada e você não sabe responder.” E ele “então faça uma pergunta pra mim”, e eu: “Não sei, eu não sou filósofo.” E ele: inventa, inventa uma figura complicada. Falei: “Bom, vou fazer uma pergunta pernóstica pra você que ele pode fazer: Senhor candidato, diga-me vossa senhoria qual é a impostação hodierna da problemática ontológica? Ele responde assim: “Eu respondo, está vossa excelência muito atrasado, porque na nossa era de devoração universal, a problemática não é ontológica, é odontológica (risos).

Reconciliação com Oswald pós-críticas negativas

Eu escrevi um artigo… Hoje quando eu vejo… Ele disse que era leviano, eu fui leviano. Ele fez um romance. Ninguém ousava escrever contra Oswald de Andrade. Eu escrevi que o livro dele era ruim, o Marco Zero. Os anteriores muito bons, esse é ruim. Ele ficou fulo. Escreveu um artigo descendo o pau. Depois quando recolheu esse artigo num livro ele atenuou.  Mas no jornal era muito pior. Aí fui ver e falei, olha, Oswald tem razão, fui injusto. Eu sempre achei o seguinte, a gente não deve ir nessa conspiração de silencio em volta do Oswald porque é um grande escritor. Eu não tenho medo dele. Aí escrevi um ensaio longo sobre o Oswaldo, um ensaio. Publiquei no primeiro livro, um livrinho pequeno. Nós estávamos assim, bom dia, bom dia, como vai. Seco. Eu frequentava a casa dele, mas depois desse artigo ele fechou-se. Eu encontro com ele numa livraria que abriu em São Paulo, chamada Livraria Jaraguá, uma livraria muito requintada com uma casinha de chá num fundo, em que iam artistas e intelectuais. Encontro Oswald com o filho dele. E ele diz, eu quero falar com você porque eu fiz mal de escrever aquele artigo contra você porque você não perdeu a serenidade. Você voltou, estudou a minha obra com cuidado, com muito senso de justiça, de maneira que vim lhe oferecer a minha amizade. De hoje em diante você pode escrever o que quiser contra mim que eu não digo nada. Dali em diante ficamos profundamente amigos. Amigos mesmo. Ele gostava muito de mim, e eu gostava muito dele. E como os senhores sabem a coisa mais importante da vida é ter certeza de que alguém gosta da gente.  Uma vez escrevi um artigo meio injusto em que dizia que a literatura brasileira era muito fraca. Ele escreveu um artigo sem falar em mim dizendo que a literatura brasileira era formidável. Ele me respondeu sem brigar. E ele como amigo tinha uma coisa extraordinária, vou acentuar isso hoje: ele não tinha rancor.

Sobre ter aceitado participar da Flip só com José Miguel Wisnik

Foi o seguinte, eu disse ao Manuel e à Marília: eu vou se estiver em perfeita condição de saúde. Eu tenho 93 anos de idade. Se eu estiver… Eu estive resfriado até semana passada. Se eu estiver resfriado eu não vou. Então eles falaram: ótima ideia. Zé Miguel é meu aluno, meu amigo, fazemos assim é até bom. Para eu não precisar falar a hora inteira, fazemos assim, eu falo 40 minutos, Zé Miguel 20 minutos.

FIM DA SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA

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É difícil Antonio Candido dar entrevistas coletivas. Neste ano, antes da abertura da Flip 2011, ele arrancou risadas de jornalistas e de outros que  acompanharam o momento com histórias sobre o amigo e homenageado desta edição, Oswald de Andrade.

Assista nos vídeos abaixo:

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Antonio Candido, o mais importante crítico literário do País, acaba de dar uma raríssima entrevista coletiva na Pousada do Pardieiro, onde está hospedado em Paraty. Fizeram perguntas, entre outros, os repórteres Miguel Conde, do Globo (ele fez a maior parte das  questões sobre crítica literária); Fábio Victor, da Folha; e Bira, do Estadão. Eu fiz lá só umas três perguntinhas, porque eu tava tuitando algumas coisas que ele falava, e não sou tão polivalente. =P

Ele reclamou que jornalistas sempre mudam o que ele fala, então, em respeito a ele, resolvi colocar aqui a íntegra da entrevista.

Este é um post in progress. Vou salvando conforme for tirando a gravação, ok? (a segunda metade da entrevista vai num próximo post)

Sobre o suspense em relação à participação na Flip

É fácil explicar. Eu sou muito idoso. Daqui a uns dias faço 93 anos. E considero a minha vida intelectual já completamente encerrada. Sou um sobrevivente. Não dou entrevistas, não dou cursos, não publico mais nada. Mas acontece o seguinte. Eu fui muito amigo do Oswald de Andrade. Eu e Oswald de Andrade começamos, tínhamos boas relações, depois escrevi uns artigos sobre ele que ele não gostou. Ele desceu a lenha em mim, e ele era terrível, me chamou de mineiro malandro. Mas depois eu achei que tinha sido um pouco injusto nos artigos, então fiz um ensaio sobre Oswald de Andrade, e ele gostou. Aí ficamos amigos e amigos mesmo. Fomos muito amigos. Inclusive eu fui padrinho de um filho dele, que infelizmente morreu com 20 anos num desastre de automóvel.

Eu vim aqui pelo seguinte. Porque a filha dele, a Marília, amiga de infância da minha filha, pediu e eu achei que eu sou provavelmente o último amigo vivo do Oswald de Andrade. Não sou da geração dele, sou 30 anos mais moço que ele, quase. Acho que sou da geração seguinte. Então eu achei que eu talvez tivesse obrigação de contar como é que eu e a minha geração víamos aquela personalidade vulcânica do Oswald de Andrade. Combinei com o José Miguel Wisnik, meu aluno, fez mestrado comigo, doutorado, meu grande amigo. Zé Miguel falará sobre como a geração dele viu Oswald. Só faltou uma pessoa da geração de Oswald de Andrade, mas aí… Não é possível mais. Eu vim para dar o meu testemunho.

Eu vim para dar meu testemunho por causa disso, porque só quem conheceu Oswald de Andrade pessoalmente pode testemunhar sobre a personalidade raríssima que ele tinha.

Sobre se eventos literários como a Flip podem prejudicar a discussão literária propriamente dita

É possível. Claro. A minha visão é uma visão de amigo que quer mostrar como… Eu não vou falar nem sobre a obra dele, nem sobre a biografia dele. Vou falar sobre a personalidade literária dele. E a relação que essa personalidade literária tem eventualmente com a obra. Esse é o meu tema. Depois o Zé Miguel Wisnik falará sobre como a geração dele viu Oswald.

Eu vim por causa disso. Enfrentei essa complicada serra de Paraty, que não é brincadeira.

O que distinguia o Oswald que a geração dele conheceu do Oswald que as novas gerações conhecem

A única coisa que tem de realmente própria é o contato pessoal. Conviver com aquela pessoa, ver aquela pessoa fazer piada, almoçar, jantar, ficar bravo, xingar os outros, fazer as pazes, estar com dinheiro, estar sem dinheiro, isso foi o que eu vi. O cotidiano. Nada de extraordinário. Mas Oswald de Andrade, dada a personalidade dele, tornou-se um mito. Inventava-se coisas. Inventava-se que ele tinha um filho chamado Lança Perfume Rodo Metálico (foi isso o que eu entendi da gravação). Aí diziam: Não, não é esse. É Rolando pela Escada Abaixo. Contava-se que ele tinha roubado uma normalista à luz do dia na escola normal. A personalidade dele chamava essa… Ele era mitológico. É que ele fazia o que lhe passava pela cabeça.

Sobre se acompanha a produção literária contemporânea

Nada. Inclusive doei grande parte da minha biblioteca, doei 12 ou 14 mil volumes. Eu to completamente fora do mundo literário, nem sei quais são os autores atuais. Eu saio perdendo, obviamente. Há cerca de 20 anos eu não leio coisa nova nenhuma do Brasil e do estrangeiro.

Sobre o que lê hoje

Leio coisa do passado sobretudo. Eu leio autores que me interessam mais, como Dostoievski, por exemplo. Tolstói, Proust, Machado de Assis, Eça de Queiroz. Não quero dizer que os atuais não sejam no mesmo nível. Só que eu não os conheço.

Sobre ter dito que a atual crítica literária brasileira é muito boa

Muito boa. Estou pensando, egoísticamente, na Universidade de São Paulo e no pessoal que eu conheço lá. Porque se eu vejo sempre os meus antigos alunos fazendo tese, me levam a tese, me mostram, dou uma olhada. Sempre foi um País de boa crítica literária. Você pega a América Latina, nenhum país que tenha (inaudível – avião passando, isso aconteceu algumas vezes durante a entrevista)… Sempre teve, e eu, pessoalmente, tive uma sorte extraordinária porque fui crítico literário militante num tempo de esplendor da literatura brasileira.

Às vezes, brinco com alunos meus que são bons críticos: tenho pena de vocês, porque vocês têm que escrever artigos sobre os autores atuais. Por melhores que sejam, não são Mário de Andrade, não são Guimarães Rosa, não são Carlos Drummond de Andrade… Eu fazia pro jornal um artigo por semana sobre as novidades. Quais eram as novidades? Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge Amado, José Lins do Rego… Essas eram as novidades que eu escrevia: acaba de publicar um livro o senhor Graciliano Ramos (risos). Eu tive a sorte de viver um tempo de esplendor da literatura brasileira. Foi mais ou menos até 1950 e poucos. Não quer dizer que seja má, mas não tem mais aquele esplendor.

Sobre ter vivido um momento de confluência entre imprensa e academia

Isso é outra questão interessante. Eu costumo sempre dizer: eu sou um professor universitário muito defeituoso. Porque fui professor de literatura e não sou formado em letras. Tenho uma ignorância total da linguística, de gramática, tudo isso. Eu sou formado em ciências sociais. Fiz a faculdade de filosofia e ciências sociais e fiz a faculdade de direito quase até o fim. Eu me fiz no jornal. Eu sou de um tempo em que a crítica literária era atividade jornalística. Não havia no Brasil… O Brasil só teve ensino superior de humanidades a partir de 1934. Antes não se ensinava no Brasil regularmente filosofia, sociologia, história, literatura, não se ensinava. Então eu me formei no jornal. Quando eu fui… Eu cursei sociologia. Tive doutorado em letras, eu passei para letras já quarentão. Eu levei para a universidade a crítica jornalística. Hoje é o contrário. A universidade tomou conta da crítica e os professores vem escrevendo em jornal. Eu não, eu fui pra faculdade.

Sobre a crítica militante

Antigamente havia a crítica militante. Havia o seguinte, uma coisa que talvez vocês até ignorem. Havia o crítico titular. Não todos os jornais, mas muitos jornais tinham o que se chamava crítico titular. Eu era o crítico titular da Folha da Manhã, atual Folha de S.Paulo. O que era o crítico titular. Tinha que todas as semanas fornecer um artigo de cinco a seis laudas datilografadas a 32 linhas e 70 toques sobre livros do momento. Ocupava a parte de baixo, chamado rodapé. E tinha um nome fixo. O meu era Notas de Crítica Literária. O do Álvaro Lins, que era um grande crítico do meu tempo, do Correio da Manhã, era Jornal de Crítica. O do Plínio Barreto do Estado de S.Paulo, Últimos Livros. O do Alceu Amoroso Lima, Livros e Ideias. Esse era o crítico titular. Esse representava o jornal. Isso acabou. Não existe mais. Então esse crítico tinha muita autoridade. Ele era o representante do jornal, e não era brincadeira, eu costumo dizer que a crítica literária daquele tempo era uma atividade de alto risco.

Eu recebi um livro um dia. Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem. Quem será? Deve ser pseudônimo, porque isso não é nome de gente, Lispector. Eu não sabia quem era. Então eu tinha que dizer se o livro era bom ou era ruim.

Sobre se a crítica literária hoje assume riscos

Nenhum. A crítica universitária (outro avião…). Os rapazes fazem tese sobre Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego. Agora, a pessoa pegar o livro e dizer este é bom e este é ruim, isso acabou. O crítico literário arriscava sua reputação toda semana. O crítico titular. Essa era a tradição que vinha da França. Era a tradição francesa, que passou para o Brasil. E nós tivemos sempre bons críticos no jornal. José Verissimo no passado, Alceu Amoroso Lima. No meu tempo, Álvaro Lins. Agora, é muito curioso e eu gosto muito de citar dois grandes críticos do meu tempo, admiráveis: Álvaro Lins e Augusto Meyer. Álvaro Lins, crítico titular, toda semana, com vontade ou sem vontade, chovesse ou fizesse sol. Augusto Meyer, escrevia quando queria no jornal. Sobre quem escrevia? Pirandello, Dostoievski, Marcel Proust, Machado de Assis, Cervantes… Ele tava jogando no certo. Aí não tem problema de avaliação, ninguém vai avaliar Cervantes e Machado de Assis. O Álvaro Lins toda semana arriscava a reputação dele. Agora, os dois tipos de crítico havia naquele tempo com muita qualidade. Tive essa sorte extraordinária de ser um jovem crític. Me deram o rodapé crítico de um grande jornal de São Paulo quando eu tinha 25 anos de idade. 24 anos. No meio desses grandes críticos. E era um momento de grande literatura. Eu pude fazer artigos falando do aparecimento de Terra do Sem Fim. De Fogo Morto. De Sentimento do Mundo, Carlos Drummond de Andrade. Escrevi o primeiro artigo no Sul sobre João Cabral de Melo Neto, que ninguém sabia quem era. O próprio João Cabral não ficou sabendo do meu artigo, ele me contou. Anos depois o Drummond falou pra ele… A gente arriscava. E isso acabou. Isso acabou. Hoje a crítica é muito importante, a universitária. Eu acho a crítica universitária brasileira, o que eu conheço, sempre a minha paróquia, excelente. E admiro muito essas novas gerações de críticos que são críticos muito eruditos.

Espaço público de discussão na imprensa

Isso caiu. Cada época com seu perfil.

(Voltando a falar sobre os riscos da crítica universitária) Nada. Ela se arrisca só se é bom ou mal o que ela escreveu. O juízo já está feito. Ninguém vai fazer uma tese universitária sobre o jovem escritor Pedro de Araújo de Paraty, eles vão fazer a tese deles…

Como pode ser a crítica excelente se não se arrisca

Não é tarefa dela se arriscar. Não que seja mal, não é tarefa dela. Inclusive na universidade houve sempre a seguinte tradição no Brasil e fora: não se escreve sobre autor vivo. O professor Lins Figueiredo, grande crítico português que foi professor em São Paulo, dizia: enquanto o autor está vivo, ele pode mudar. Então o professor universitário não tem meios para fazer um juízo sobre ele. Eu fui professor da universidade de Paris por dois anos e lá aprendi que o primeiro autor moderno sobre o qual se deu curso na Sobornne foi Guillaume Apollinaire. Que tinha morrido em 1918. E uma senhora, porque as mulheres são sempre mais ousadas, uma senhora resolveu (depois checo o nome, não peguei) resolveu dar um curso de Apollinaire. “Mas como, esse homem morreu só faz 30 anos” (risos). A universidade estuda o seguro. Agora, hoje em dia mudou. Quando fui estudar literatura na Universidade de São Paulo pela primeira vez dei um curso sobre a teoria do romance, poesia, que usava Carlos Drummond de Andrade… Por que? Porque havia a Editora do Autor, que tinha publicado esses autores. Não havia inclusive os livros dos autores modernos. Na Universidade de São Paulo até eu chegar lá o último autor estudado era Aluisio Azevedo. O mais recente. Porque ainda não estava consolidada a visão. Como vou transmitir para os meus alunos a visão de um autor que não está consolidado. Isso acabou. A minha mulher deu o primeiro curso de modernismo na Universidade de São Paulo. Depois a coisa mudou. Os jovens hoje só querem fazer teses sobre autores atuais. Sobre a Lygia Fagundes Telles são 40 ou 50 teses. Mudou. Agora é difícil falar para os rapazes, não, estude Machado de Assis, não, isso é muito velho. Agora eu quero é autor atual. Mudou, é até um pouco exagerado. Mas é uma conquista. Quer dizer, a Universidade está aplicando os métodos de pesquisa erudita à atualidade. Cada época tem o seu perfil, ou melhor ou pior.

FIM DA PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA

***

Gente, vou almoçar, porque jornalista também é gente. Daqui a pouco coloco aqui a segunda parte, que tem mais ou menos o mesmo tempo do que postei até agora. Começa com ele falando (ou melhor, não falando) do PT.

Update às 21h: A segunda parte da entrevista está aqui.

Comentários (40)| Comente!

Ontem joguei aqui algumas frases ditas por Crumb durante a entrevista, e o post foi linkado num blog que chamava para o que seria um ”show de grosserias e mau humor” do cartunista. Daí reli e pensei que talvez, fora de contexto, pudesse sim ter essa leitura. Mas não é assim. Crumb é muito menos ranzinza do que parece. Ou melhor, ele reclama mesmo de tudo, mas está longe de ser grosseiro. Ele se sente sufocado com o assédio, é fato, detesta ser fotografado como se fosse galã e reage quase como criança. Ele é, como definiu Aline, “um cara doce”. O que não significa que não seja também um bocado debochado.

Daí resolvi colocar aqui o texto que saiu no Sabático de hoje sobre a entrevista coletiva e os dias dele em Paraty. Acho que ao menos contextualiza um pouco as frases que ele disse na coletiva.

***

Humor autêntico e pelo avesso

RAQUEL COZER

 

Tasso Marcelo/AE

Foto: Tasso Marcelo/AE

“Parem, por favor”, disse Robert Crumb, na manhã de ontem, ao se aproximar da sala na qual enfim falaria aos jornalistas em Paraty – algo que até dois dias antes a organização da Flip temia que ele nunca chegasse a fazer. Tentar caretas ou levantar o dedo do meio para os fotógrafos que o cercavam na entrada, na tentativa de evitar registros, havia surtido o efeito inverso (foram as fotos preferidas por todos ali), então o cartunista precisou reclamar. A questão é que Crumb sorri quando está desconfortável, numa espécie de reação reflexa, de modo que os outros demoram a entender quando é hora de deixá-lo em paz.

Hoje, às 19h30, ele participará de uma das mesas mais concorridas desta edição, com o pai dos Freak Brothers, seu amigo Gilbert Shelton – que, como ele, é um dos nomes centrais das HQs underground dos anos 60. Os dois chegaram da França com suas respectivas mulheres, a cartunista Aline e a agente literária Lora Fountain, na terça pela manhã, mas quase não se viu Crumb. Shelton circulou à vontade, sempre de calça jeans com suspensórios, mas o criador do Mr. Natural deu parcos sinais de vida. Anteontem, foi passear de barco e almoçar na ilha do Catimbau com seu mesmo figurino básico de personagem de quadrinhos: calça e camisa social, chapeuzinho à moda antiga e casaco preto. E passou longas horas “meditando” na pousada, nas palavras de Aline.

Como o trabalho mais recente do artista, a versão ilustrada do Gênesis, saiu no Brasil no ano passado, duas editoras trataram de arrumar material para sua passagem pela Flip. A Conrad, que tem quase toda a obra dele por aqui, preparou uma edição de capa dura de Meus Problemas com as Mulheres, que reúne cartuns do título homônimo em inglês e outros feitos de 1964 a 1991. A Desiderata fez nova edição do Kafka de Crumb, biografia com texto de David Zane Mairowitz, publicada em 2006 pela Relume-Dumará. O próximo trabalho inédito está previsto para 2011. A princípio, se chamará Drawn Together, e reunirá histórias feitas em parceria com Aline Crumb – inclusive aquelas que, feitas para a New Yorker, foram publicadas em português pela revista piauí.

Crumb não gosta de dar entrevistas porque jornalistas perguntam sempre as mesmas coisas, é o que ele diz. Não teria nem vindo ao Brasil não fosse uma forcinha “das sras. Shelton e Crumb”, que, dispostas a sair da rotina, o convenceram a pegar o avião. “Vim de classe executiva, foi legal. Estou me divertindo à beça”, disse, irônico, aos repórteres interessados em detalhes. “Se pudesse escolher, iria para um lugar onde fosse anônimo. Sou melhor em observar que em ser observado.” É verdade que Crumb é bom em reparar em pessoas e situações para depois ilustrá-las, mas também é curioso observá-lo. O quadrinista é o ranheta menos ranzinza de que se tem notícia. Reclama de tudo, do governo, da música dos dias de hoje, do assédio do púplico, do barulho (Aline e ele acharam o povo brasileiro, até onde foram dados a conhecê-lo, em Paraty, um tanto “inquieto”), só que cada uma de suas frases de efeito vem acompanhada por uma sacudida de ombros, aquele sorriso por ato reflexo e a famosa franzida na testa para evitar que os óculos lhe escorreguem pelo nariz. Um ator não faria melhor, mas ninguém duvida de que seja autêntico.

Não é sempre que Aline consegue arrastá-lo para fora da vila onde os dois vivem desde os anos 80, no sul da França. No ano passado, por exemplo, ao viajar para a Índia, achou melhor deixar o marido em casa. “Adorei tudo por ali, mas ele teria morrido”, disse ela ao Sabático, na quarta-feira. Ele até sabe se virar sozinho, conta a mulher – depois de 25 anos entre franceses, sabe da língua o suficiente para conseguir comida e sobreviver, “E agora ele está com uma secretária, uma amiga minha, americana. Além do mais, todo mundo na cidade o conhece e o protege.”

Crumb diz ainda não ter se acostumado com a ideia de que quadrinhos hoje são vistos como arte ou literatura. Acha “bizarro” participar de um evento como a Flip e estranha o boom nas vendas de HQs. “Quadrinhos não foram feitos para se levar a sério, me assusta ver isso acontecer”, diz. Mas não reclama, e por isso aceita fazer tudo isso que detesta – viajar, dar entrevista, dar autógrafo vez por outra, quando alguém o pega de surpresa. “É algo economicamente muito viável, e é também por isso que estamos aqui.”

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Azar Nafisi, foto de Tasso Marcelo/AE

Azar Nafisi, foto de Tasso Marcelo/AE


Se Azar Nafisi lançasse hoje o livro de memórias O Que Eu Não Contei (Record), ele se chamaria O Que Não Parei Mais de Contar. O comentário a própria autora fez, aos risos (e tosses, estava gripada), durante a conversa com o Estadão, na tarde de ontem. No livro lançado neste ano no Brasil, a autora iraniana (mais conhecida pelo best-seller Lendo Lolita em Teerã) revê a história de seu país a partir das vivências de sua família. Altamente literário, o título ajuda a entender o país de Neda, a jovem que morreu durante os protestos nas eleições fraudulentas do ano passado, e de Sakineh, a mulher condenada à morte por apedrejamento. Nafisi, aliás, é ativa na campanha pela libertação de Sakineh, um dos assuntos sobre os quais fala na entrevista a seguir.

Li seu artigo sobre Sakineh no Huffington Post…
Ah, ele será publicado no Brasil, com um adendo sobre Lula.

O que você diz nesse adendo?
Que é uma pena que o governo do Irã não ouça a voz de um governo que ele chama de amigo. E o fato de que, quando o presidente Lula disse “se essa mulher causa algum desconforto a vocês…”, não é a mulher que causa desconforto a Almadinejah, é Almadinejah que causa desconforto à vida dessa mulher. Digo também que gostei do que Lula disse, que ninguém pode tirar a vida de outra pessoa, que Deus dá a vida e só ele pode tirar. E acho que isso é o mais importante.

Neste caso, acho que o mais chocante é como é brutal a morte por apedrejamento…
Sim. É brutal. Mesmo que o que ele diga é verdade, que ela tenha cometido adultério, a punição do Estado iraniano para isso é uma das coisas mais horríveis. Agora eles dizem: não, não vamos apedrejá-la, vamos mantê-la presa. Isso torna as coisas melhores? Eles deveriam deixá-la ir e pedir desculpas!

O quão comum é esse tipo de morte por apedrejamento no Irã?
Não é muito comum, em parte porque o povo resiste a isso. As leis iranianas sobre as mulheres têm sido muito progressivas. As mulheres iranianas têm lutado por mais de um século. Na época da Revolução de 1979, elas estavam no parlamento. Quando esse governo chegou, elas não podiam mais ser juízas, por exemplo. Conto isso no meu livro (O Que Eu Não Contei), em 1963, minha mãe se tornou a primeira mulher no parlamento. As pessoas no meu país não estão acostumadas a ver as pessoas sendo apedrejadas. Mas isso vem sendo feito desde o começo. Além de Sakineh, há outras pessoas presas para serem apedrejadas. Não sei dizer quantas pessoas, cinco ou seis. Mas, como não é popular, e como um comitê foi formado contra o apedrejamento, e as pessoas desse comitê vem trabalhando muito, a certa altura eles disseram: ok, nós não vamos tirar a lei da Constituição, mas não vamos mais fazer isso. Mas há gente fazendo isso.

Por que você acha que esse caso específico chamou tanta atenção do resto do mundo, se isso vem acontecendo?
Por 30 anos, as pessoas vêm fazendo isso, e só agora o mundo começou a prestar atenção. Estou feliz que estejam prestando atenção agora, mas gostaria que tivessem notado isso antes. Mas o ponto é que por muito tempo a mídia entendeu que as leis iranianas eram a cultura iraniana, e só organizações dos direitos humanos entendiam que não. No ano passado, e é por isso que no meu artigo sobre Sakineh falo também de Neda, quando centenas de milhares de pessoas foram às ruas no Irã, o mundo inteiro viu que as pessoas pensam diferente das leis, e agora as pessoas entendem que essas leis não representam o que o povo pensa. Essas leis são levadas a cabo, e não são boas.

O que você acha que vai acontecer nesse caso?
 Não tenho ideia. A experiência tem sido a de que o apoio internacional ajuda, porque o governo não quer que o mundo pense sobre ele dessa maneira. Alguém como o presidente Lula, que representa um governo amigo, e agora até ele vem e diz… Esperamos que o apoio ajude essa mulher, mas nunca podemos ter certeza. Eles podem querer dizer: não importa o que ninguém diz. Isso precisa ser parado. Foi o pedido da família da Sakineh. O filho dela pediu que o mundo se envolvesse. Quando presidente Lula fez aquela declaração, ele disse que esperava que a Turquia fizesse o mesmo.

Na Tenda dos Autores, você e A.B. Yehoshua falarão sobre a literatura em terras de conflito. Você pensou no que gostaria de conversar com ele sobre o tema?
Acho que literatura pode se tornar um veículo para verdade em países como os nossos. Eu gostaria de falar sobre o papel da imaginação e que, não importa de que país você venha, o que nos liga como humanos é a literatura. Árabes, israelistas, iranianos, todos dividem algo da cultura, mas o que tem causado tanto sofrimento aos nossos povos é a política. Será bom falar com ele para mostrar ao mundo que o problema não é das culturas.

Você vive em Washington, e A.B. Yehoshua, que vive em Israel e é sionista, acha que só em seu país é possível viver o judaísmo em sua completude. Acha que seria possível algum pensamento do tipo em relação ao Irã?
Não sei bem o que ele quer dizer com isso. Não venho nenhum tipo de fronteira física. Acho que, sendo do Oriente Médio, você pode viver em qualquer lugar do mundo e entender o que acontece ali. Ele deveria explicar isso. Vamos ver se aprendo algo com ele. Não acho que eu seja menos iraniana por viver em outro país.

Você sempre acaba sendo questionada sobre política em festivais literários. Não sente falta de falar em literatura, só de literatura?
Sim, eu adoraria que isso acontecesse (risos). A única razão pela qual falo sobre política quando as pessoas me perguntam sobre isso é que certas coisas só são bem compreendidas… Não sou política no sentido de nõa pertencer a nenhum grupo, mas tenho de defender minha integridade como mulher, como ser humano, escritora e professora. E, no Irã, a política interfere em tudo, no jeito como escrevo, como dou aulas.

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06.agosto.2010 14:23:31

E Crumb fala, enfim

O autor de Gênesis se escondeu o quanto pôde em Paraty, mas, hoje pela manhã, foi obrigado a jogar-se aos leões. Seguem algumas frases da entrevista coletiva da ele qual participou com Gilbert Shelton, acompanhados por suas respectivas mulheres, Aline e Lora. As fotos mais bacanas ainda não entraram aqui no sistema, então vai uma comportadinha do casal.

 

Tasso Marcelo/AE

Tasso Marcelo/AE

“As piadas dos quadrinhos de hoje já não são tão engraçadas” (Crumb)

“É bom, a gente faz muito dinheiro com isso” (Aline, sobre a supervalorização dos quadrinhos de Crumb)

“Não conheço nenhum jovem” (Shelton, sobre as novas gerações de quadrinistas)

“Quadrinhos não foram feitos para se levar a sério, me assusta ver que isso acontece” (Crumb)

“Como eu criei Kafka? Kafka já existia” (Crumb, sobre a biografia do escritor, ilustrada por ele e lançada pela Desiderata)

“Estavam escondidas, mas já não estão, contei tudo” (Crumb, sobre o fato de ser gentil e “esconder” fantasias sexuais relatadas nas histórias)

“Tenho um pouco de vergonha de viver no planeta Terra” (Crumb, sobre se teria vergonha de voltar a viver nos EUA)

“Sou um artista do século 19″ (Crumb, sobre tecnologia)

“Sim, amor, estou me divertindo à beça” (Crumb, sobre Aline tê-lo obrigado a vir ao Brasil)

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Tive uma longa conversa com Aline Kominsky-Crumb ontem pela manhã, na pousada da Marquesa, onde os Crumb estão hospedados. Acompanhada por Lora Fountain, agente literária do casal e mulher de Gilbert Shelton, Aline falou do livro dela que sairá por aqui em breve pela Conrad, do pouco conhecido papel das mulheres nas HQs underground dos anos 60, dos trabalhos em parceria com Crumb, do livro que ambos lançarão juntos, no ano que vem.

Falou também da mágoa de Crumb com a New Yorker, revista na qual ele não quer mais ter histórias publicadas (aquelas que costumavam ser reproduzidas por aqui pela piauí)… E muito mais.

Segue aqui só a primeira parte da entrevista

 

 

Aqui no Brasil, do seu trabalho, é conhecido só o que faz junto com o Crumb…
Aline: No ano que vem, sairá pela Conrad um livro com todo o meu trabalho. Não sei ainda como chamarão.
Lora: Da última vez que falei com eles, seria algo como Aline: Uma Autobiografia Não-Autorizada
Aline: Por mim, tudo bem, não vejo problema. Mas o título do livro em que se baseou esse da Conrad é Need More Love, que eu acho que é um bom título. E Love That Bunch, um livro mais antigo. Há algumas coisas dos dois livros. Need More Love tem fotos, pinturas e textos, é um livro multifacetado. É um grande livro, uma autobiografia gráfica, com todos os tipos de imagens. Mas Conrad usará apenas histórias desse trabalho.

Você também é pintora, então.
Aline: Comecei meu trabalho como pintura. Fiz meus estudos em aquarela e óleo em tela, me formei e sou professora de arte, mas só dei um ano de aula em toda a minha vida. Quando me formei, nos anos 60, me interessava pelas comics underground, o trabalho do Gilbert, do Crumb, e de um artista chamado Justin Green, que fez um trabalho muito autobiográfico e me inspirou a fazer o mesmo. Comecei a fazer quadrinhos naquela época, embora não tivesse ideia de como publicar, o que fazer. Então me dei conta de que todos os quadrinhos estavam sendo publicados em San Francisco, então fui para lá, em 1971.
Lora: Você foi para lá originalmente para conhecer o Justin.
Aline: Sim, fui conhecer Justin Green, que era o artista que eu admirava de fato. Queria falar com ele e perguntar coisas. Ao mesmo tempo, alguns amigos nossos disseram que eu parecia um personagem de Robert Crumb e me levou para uma festa onde o conheci, e também Lora e Gilbert, ao mesmo tempo.
Lora: O que significa que todos nós nos conhecemos por quase 40 anos…

Você desenhava naquela época, certo, Lora?
Lora: Sim, nós fomos as primeiras cartunistas mulheres naquela época. (Para Aline) Seu timing foi perfeito de chegar a San Francisco naquela época.
Aline: Eles precisavam de mais trabalhos desesperadamente, porque não havia cartunistas mulheres. Se você parar para pensar, não tinha isso. Então eles estavam tentando atrair isso, e para qualquer uma que pudesse minimamente desenhar um quadrinho eles diriam: OK, você pode estar nesse livro. Foi por isso que conseguimos entrar nisso.

Seus cartuns já eram autobiográficos naquela época, Aline?
Aline: Sim, eu não sabia fazer mais nada. Não conheço nenhum outro assunto bem o suficiente para poder desenhar a respeito.
Lora: Você trabalhou naquele livro que fizemos para o (neurologista e escritor) Timothy Leary (El Perfecto)?
Aline: Sim, mas escrevi sobre mim, sobre LSD. Participei, mas escrevi sobre minha própria viagem de LSD.

E por que parou você de desenhar, Lora?
Lora: Eu? Porque… algumas pessoas pessoas podem fazer isso, e outras não. E eu não posso. Não tenho o talento ou a paciência para desenhar boas histórias. Comecei a me interessar mais por vídeo e fotografia.

Quando conversei com Crumb, no ano passado, ele me disse que você (Aline) tinha mais talento para o roteiro que para o desenho de uma HQ, um humor judeu…
Aline: Sim, é verdade. Quando trabalhamos juntos, eu faço quase todo o roteiro. É como um time de duas pessoas, ele quer dizer uma coisa, e eu vou e quase sempre faço o humor. E, sim, é verdade, sou mais uma roteirista de quadrinhos. Meu desenho é muito primitivo e estranho e idiossincrático. Prefiro pintar, não sou uma cartunista profissional nem estou interessada nisso. Meus quadrinhos não são muito comunicativos no que diz respeito a forma dos quadrinhos, eles são muito pessoais e doidos. Eles são mais apreciados por pessoas que gostam de ver minha arte em galerias. É mais fácil para eles olhar para os meus quadrinhos do que é para as pessoas que gostam de quadrinhos profissionais. Não uso nenhuma das técnicas formais dos quadrinhos.

De que tipo de técnicas você fala?
Aline: Estilização, simplificação, por exemplo, quando você tem um personagem, fazê-lo sempre da mesma maneira o tempo todo. Quando desenho, eu mudo o tempo todo. Se estou de bom humor, eu me desenho melhor, se estou de mal humor, me desenho mais feio. Mudo meu cabelo, meu peso. Cada desenho para mim é um desenho, não penso no sentido de arte sequencial, expressão comercial, de manter um público.

E você é tão magra, mas se desenha tão grande nas HQs em que aparece com o Crumb…
Aline: Eu costumava ser maior. E ainda sou muito, sabe (levanta o braço e mostra os bíceps sob a blusa)… forte. Eu me sinto como uma guerreira. Dou aulas de pilares seis horas por semana. Eu gosto de comer, mas também de me mover muito.

 

 

Quando você desenha com Crumb… Ele tem esse respeito pelas técnicas da arte sequencial, e você não tem…
Aline: É insano como isso funciona. Não deveria funcionar, mas, por alguma razão, funciona. Eu aproveito as deixas. Ele coloca a linha lá e eu aproveito as deixas. Mas, em termos de desenho, é totalmente irracional, porque o desenho de Robert é tridimensional, e o meu é chapado. Da primeira vez que fizemos isso, não era para publicar, era só para nos distrair. Foi em 1974, eu acho, e eu tinha caído e quebrado a perna, e estava chovendo, e estávamos no campo, e eu estava muito entediada e o deixando louco. Então, para me deixar ocupada, meu irmão e eu costumávamos fazer quadrinhos juntos, como ele fazia com o irmão dele, Charles, então ele falou, vamos fazer isso.
Lora: Para evitar que você o deixasse louco.
Aline: Sim, para que ele não pirasse. O primeiro que fizemos foi muito louco, a história vai a todo lugar, espaço sideral, criaturas que aterrissam na nossa fazenda,Timothy Leary aparece, é realmente louco. Não tentamos fazer nada coerente porque não pensávamos em publicar, mas daí um editor viu e quis publicar.

Você sabe quantas histórias fizeram desde então?
Aline: Temos esses dois livros chamados Dirty Laundry, dos anos 70, e uma compilação. Fizemos para jornais locais, para a revista Weirdo.
Lora: Quando começaram a fazer para a New Yorker?
Aline: A primeira coisa que fizemos para a New Yorker foi no meio dos anos 90. Fizemos algo, a primeira acho que foi sobre nossa reação ao documentário de Terry Zwigoff, chamado Crumb, que saiu em 1995. A New Yorker pediu para nos escrever sobre nossa reação. Nós queríamos desaparecer depois daquele filme. Robert usava chapéu e não usava barba, mas ele começou a ser reconhecido em todo lugar. Então ele mudou o tipo de chapéu e deixou a barba crescer, mudou o visual.
Lora: Ele ainda usa o mesmo tipo de roupa.
Aline: Não, naquela época ele usava uns casacões de homem velho, agora ele acabou voltando a usá-los, mas durante aquele tempo ele parecia mais um francês, com uma jaqueta. Ele foi ver o filme num cinema central onde estariam todos os seus fãs, com esse visual diferente, barba e tal, e ele estava na tela, e dentro do cinema, e ninguém o reconheceu.
Lora: Teve uma vez que um fã o parou e disse que o viu no filme, mas estava falando sobre Max, e não sobre Crumb. Achou que Crumb era o irmão.
Aline: Sim, sim. Hoje ele ainda é muito reconhecido, mas naquele época foi mais estranho.Em qualquer lugar alguém o reconhecia, era demais.

E aqui em Paraty, como tem sido? Ele quase não saiu da pousada…
Aline: Não, não muito.
Lora: Nós acamos de chegar, também, ontem…

Mas vocês e Shelton foram passear, ele não.
Lora: Ele estava cansado. Não estava com fome, e nós estávamos. Mas nós saímos ontem à noite para jantar com ele.
Aline. Ele não está se escondendo. Ele virá para almoçar agora. Ele é um cara muito doce, muito legal. É tímido. E, depois de certo ponto, ele não pode mais falar. Ele não gosta de falar dele mesmo.
Lora: E ele falou tanto do Gênesis no ano passado. Você falou com ele naquela época, Raquel, logo no começo, mas você foi uma em um milhão…
Aline: Centenas de milhões. Foi muito. Ele divulgou muito, fez uma tour nos EUA, fez uma conferência com cententas de jornalistas.

Ele deve estar cansado de responder sempre as mesmas coisas.
Aline: Sim, as perguntas são sempre as mesmas. É normal, os jornalistas fazem as perguntas que eles têm de fazer, é normal, nada contra o jornalismo. Mas, depois de um tempo… Depois de um tempo ele não aguenta mais falar sobre o assunto.

E como vocês dois sabem quando têm uma história em parceria?
Aline: A gente não tem nenhuma regularidade para isso. A New Yorker sempre nos pede coisas, mas ele não quer mais fazer nada para eles.

Por quê?
Aline: Porque eles pediram a ele uma capa, e ele fez, estava muito boa. Era meio controversa, porque pediram a ele que fizesse uma capa sobre casamento, e ele fez uma sobre casamento gay, e eles não usaram. Até aí tudo bem, ele não se importa, mas eles nunca explicaram a ele por que não usaram a capa. Ele perguntou muitas vezes, e nunca teve resposta. Ele disse: “Se eles me dissessem a razão, estaria tudo bem, eu faço outras coisas para eles. Mas, como eles não tiveram coragem nem respeito o suficiente para me explicar isso…”. Ele está zangado. É compreensível. Durante um ano, eles ficaram dizendo que usariam, que usariam, fizeram isso dez vezes, durante um ano, eles pagaram pela capa… Mas ele ficou realmente frustrado de não saber por quê. Se não gostaram. Ele trabalhou com muito afinco naquilo, e não tiveram coragem de ligar para ele e dizer o que houve. Era só dizer: “Não é seu melhor trabalho”.

Mas vocês ainda fazem histórias juntas?
Aline: Sim, estamos trabalhando num novo livro. O título provisório é Drawn Together, que tem dois significados em inglês, atraídos um pelo outro e desenhando juntos.  Incluirá o trabalho New Yorker, o trabalho anterior e algumas outras histórias. Sai no ano que vem.

Será a história de amor de vocês dois?
Aline: Sim… Sim. Como você quiser chamar (risos). Mas haverá trabalhos antigos que provavelmente quase ninguém viu, que foi publicado só em editoras muitas pequenas, e histórias totalmente inéditas.

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