Em algum momento, num passado nem tão distante, Antonio Candido começou a reduzir tanto o número de entrevistas e aparições concedidas que uma e outra se tornaram artigo precioso (digo, ainda mais) no mundo literário. Acho que tem um dado que resume a relevância: nenhum jornalista se arrisca a cravar que fulano ou sicrano é “o maior escritor do Brasil”, mas “o maior crítico literário do Brasil” é uma expressão que acompanha o nome de Antonio Candido com frequência razoável.
Quando a Flip anunciou sua presença na abertura da edição deste ano, junto veio o aviso: ele pede para que não tentem entrevistá-lo. Candido completa 93 anos no próximo dia 24 de julho, tudo o que quer é paz – tanto que uma das primeiras coisas que fez na entrevista surpresa hoje foi ressaltar que considera sua vida intelectual “já completamente encerrada.”
Sobre a entrevista, então. Ninguém achava que ele ia falar com jornalistas a respeito da participação na Flip, mas, é claro, todo mundo tentava via assessoria de imprensa, para não importuná-lo diretamente (pobres assessores…). A informação chegou hoje literalmente num sussurro: “Ele vai falar daqui a pouco.”
Quando ele enfim falou, instalado numa cadeira ao ar livre na Pousada do Pardieiro, onde está hospedado, ficou claro: ele gosta de falar.
Antonio Candido não foi professor à toa, sabe como segurar a atenção, alternando histórias pessoais com fundamentos críticos. Na mesa de abertura, à noite, por exemplo, José Miguel Wisnik destacou que Candido tinha abordado toda a temática de Oswald de Andrade, enquanto para boa parte do público pode ter parecido só um saboroso desfiar de causos.
Mas daí, quase ao fim da entrevista, Candido explicou: 1. por que resolveu falar com jornalistas (para ajudar os repórteres que sofrem cobranças de seus chefes; isso me emocionou de verdade); e 2. por que não queria falar (porque jornalistas quase sempre deturpam o que ele fala).
Foi esse segundo argumento que me pegou. Já passei pela situação de saber de um entrevistado que não se sentiu retratado num perfil que fiz, e isso me incomodou tanto – justamente porque procuro ser tão fiel ao que me dizem e ao que vejo ou percebo – que pensei: a única alternativa, então, será transcrever tudo.
Mas transcrever toda uma entrevista de 40 minutos demoraria mais que o normal para um blog noticioso, já que todos os outros jornalistas que acompanharam a entrevista iriam logo colocar os melhores momentos no ar.
Então, resolvi fazer uma experiência que me saiu muito capenga. Que foi o post in progress: comecei a transcrever e fui salvando conforme tirava a gravação, até porque ele já começava com ótimas frases. E porque, afinal, essa é uma possibilidade que num blog se torna simples de executar. Digo que saiu capenga, em primeiro lugar, porque, na correria, deixei passar um monte de errinhos (de grafias de nomes próprios a substantivos comuns), já devidamente avisados por leitores ou notados depois por mim e corrigidos (se tiver notado algo mais, por favor, me diga).
E, em segundo lugar, embora muita gente tenha elogiado, por causa de um comentário que me partiu o coração cheio de boas intenções: “Valeu pelo esforço, mas o vídeo dá de dez no relato. Parece até que Candido é chato, insosso, blasé até.”
Ouvindo ele falar estava tão na cara que não era insosso nem blasé que nem parei para pensar que poderia ficar estranho para quem lesse. Em minha defesa, escutei há pouco de alguém que acompanhou a entrevista: “Qualquer outra pessoa falando tudo o que ele falou pareceria arrogante, mas ele não parece, porque ele não é.” (O Antonio Candido, me faltou falar isso no post da transcrição, é de uma gentileza raríssima.)
Vou tentar descobrir como a gente faz uma transcrição sem roubar do entrevistado a entonação.
Desculpe, Antonio Candido, juro que a intenção foi boa.
2011
2010
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