Ontem pela manhã, durante a entrevista coletiva de encerramento da Flip (que acontece horas antes do encerramento da Flip, por questões logísticas), o diretor de programação, Flávio Moura, admitiu que a mesa com a iraniana Azar Nafisi e o israelense A.B. Yehoshua foi muito além do que ele imaginava. Liz Calder concordou: “Não sabia se eles poderiam sequer se falar, foi assombroso, eles dialogaram de maneira tão intensa…”
Digo isso para admitir que não tinha nenhuma grande expectativa em relação à mesa com a cubana Wendy Guerra e a chilena naturalizada brasileira Carola Saavedra, que aconteceu logo em seguida. Para começar, porque achava frágil o critério que as unia, sob o tema “Cartas, diários e outras subversões” – o fato de tanto o livro de Wendy Guerra lançado neste ano no Brasil, Nunca Fui Primeira Dama, quando o mais recente de Carola, Paisagem com Dromedário, recorrerem a fragmentos de histórias narradas de outras formas, como áudio (nos dois livros), cartas e diários (no livro de Wendy).
E também porque, vamos combinar, a mesa foi marcada justo para domingo à tardinha, último dia de Flip, logo depois do almoço, em pleno Dia dos Pais, com um solzinho convidando para uma cerveja de despedida…
Um mediador pouco preparado poderia fazer desta mesa uma das mais drásticas desta edição. Mas o escritor João Paulo Cuenca, escolhido para abdicar da cervejinha ao sol na tarde de domingo, mostrou não só conhecer muito bem as obras das duas autoras como soube embasar perguntas a partir de teorias de estudiosos da narrativa, como Ricardo Piglia. E ainda evitou qualquer banalização ao focar as questões no discurso literário, e não na vida pessoal.
No fim das contas, falou-se o suficiente de linguagem, recursos literários, exposição do autor na obra e por aí vai, temas que fizeram falta em mesas muito mais badaladas dos dias anteriores. E ainda houve espaço para momentos de descontração, como quando Cuenca relatou o receio que sentiu ao andar numa lancha conduzida em alta velocidade por Wendy. ”Admiro muito os kamikazes. Seria um bom final bater meu barco na Flip”, disse ela, cheia de poesia, e ele rebateu: “Eu não precisava fazer parte desse projeto!”.
O público da Flip acompanhou mesas bem distintas, no final do sábado. Na penúltima do dia, Ferreira Gullar encantou a plateia com histórias de sua vida (o início no Maranhão, o surgimento do neoconcretismo, o exílio e medo de morte), além de disparar frases que já se tornaram clássicas no Twitter, como “A arte existe porque a vida não basta”. Ele também reforçou sua profissão de fé ao dizer que a poesia é uma espécie de alquimia ao transformar a dor em alegria.
Em seguida, o palco foi ocupado pelos esperados Robert Crumb e Gilbert Shelton. Impossível não estremecer quando, logo em sua primeira intervenção, Crumb disse: “Não sei o que estou fazendo aqui. O que interessa é meu trabalho. Eu sou chato, sem graça”. Infelizmente, estava certo: o que se seguiu foram intervenções pouco interessantes tanto para os neófitos como (principalmente) para os fãs. Com exceção de alguns momentos engraçados, Crumb não sentiu vontade de mostrar porque é um quadrinista genial. Uma pena.
Neste sábado, almocei com o americano Colum McCann, autor do belíssimo ‘Deixe o Grande Mundo Girar’, editado agora pela Record. Ele tem uma curiosidade interminável. Como pretende colocar um personagem brasileiro em seu próximo romance (ficou influenciado por garçons de várias nacionalidades que trabalham nos restaurantes de Nova York), McCann passou a anotar nomes genuinamente nacionais em uma caderneta especial – não só escreveu o meu como ainda me entrevistou sobre a origem tupi. Ele não confirmou mas o tal personagem terá algum envolvimento com o futebol, daí acreditar que sua nacionalidade será tupiniquim.
Colum interessa-se muito por novidades. Antes do almoço, conheceu o angolano Ondjaki, com quem trocou ideias sobre a literatura africana. Passou dicas também, para as adoráveis meninas que trabalham na Record, sobre autores jovens que estão despontando e ainda são pouco conhecidos – nomes, para evitar concorrência, precisam, por enquanto, ser evitados. Por fim, fez uma catalogação de muitos festivais literários que acontecem ao redor do mundo, colocando Paraty no topo, ao lado do de Capri, na Itália. E, no fim da tabela, estão os festivais americanos, boring, boring…

Fotos Tasso Marcelo/AE
A imagem que me ocorreu ao sentir o clima na saída da mesa de Crumb e Shelton na Flip, na noite de ontem, foi a de torcedores deixando do estádio após o time perder de virada. Quando a mesa começou, às 19h, todo mundo ali vibrava de antemão pela dupla, rindo de qualquer tirada, uma claque atenciosa. Na saída, no entanto, todos se olhavam sem acreditar naquele final tão anunciado. A mesa mais esperada desta festa literária, com dois dos maiores nomes dos quadrinhos mundiais, simplesmente não funcionou.
Acho importante aqui abrir um parêntese. É notório que Crumb não gosta de dar entrevistas; já falei isso tantas vezes desde que este blog começou que daqui a pouco me acusarão de plagiar meus posts. Mas vi comentários sobre o que seria descaso dele com a plateia. Discordo. Apesar de toda a “fama de mau” e de abrir a noite descrevendo o desconforto em falar de si próprio, Crumb lançou mão de várias frases de efeito ao longo da interminável uma hora de duração da conversa.
O fato é que ninguém esperava fofuras no discurso dele, mas as falas e o gestual, quase pastelões, foram todos medidos para agradar aqueles que o conhecem de verdade. Descaso? Os comentários cáusticos fazem parte do show que o cartunista sabe oferecer dentro e fora das HQs. Então, até aí, nenhuma surpresa.
O que houve, então? Não acho que seja o caso de escolher um único culpado. Não fluiu, e esse é o ponto, e era meio esperado. Shelton, é fato, estava viajandão, distraidíssimo, mas mandou algumas das melhores perguntas da noite. Após alguns minutos observando atentamente uma imagem do Gênesis do Crumb, por exemplo, estranhou: ”Por que seu Adão não tem barba?”. O colega parou e pensou antes de responder: “Acho que ele deveria ter barba só quando fosse mais velho. Ele era novinho em folha nessa época, foi criado já adulto.”

Aline, que entrou no terço final da mesa, chamada pelo mediador, Sérgio Dávila, foi acusada por espectadores de falar demais. Na média, todo mundo com quem conversei odiou a entrada dela. Eu, particularmente, acho que deu um fôlego para a conversa seguir até o final. Aliás, acho que ela deveria estar no palco desde o começo, porque tem esse senso de humor afiadíssimo e ajuda a evitar aqueles silêncios constrangedores causados pelo desconforto de Crumb (como dá para ver neste vídeo de um festival literário em Praga).
A mediação também não era trabalho dos mais fáceis – quando o convidado não se estende nas respostas, não dá para fazer milagre. Mas sou da opinião de que o debate teria a ganhar se se falasse menos da vida pessoal, essas coisas que todo mundo sabe e/ou pergunta a eles, e mais das obras deles e dos quadrinhos em geral, do atual boom no mercado de HQs na comparação com o cenário incipiente no qual se destacaram e de como isso afetou as antigas editoras independentes, do peso do roteiro e da imagem numa história.
Dito tudo isso, seguem algumas frases da noite, pra quem não viu e não aguenta mais blablablá. Pularei aquelas que já tinham sido ditas, com outras palavras, na entrevista coletiva de sexta-feira.

“Eu não entendo porque as pessoas me colocam nessa situação. Sou uma pessoa entendiante na vida real. Meu trabalho é interessante, mas minha personalidade não é nada demais, vou entendiar todos eles. E todos esses fotógrafos, é muito desconfortável. É extremamente incômodo.” (Crumb)
“Eu gostei da ideia de viajar de graça para um lugar bonito como Paraty.” (Shelton, justificando sua vinda ao Brasil)
“Eu acordei um dia e estava vivendo na França.” (Crumb, sobre a decisão de sair dos EUA, tomada por Aline)
“Não lembro de muita coisa daquele período, estava fumando muito, usando muito LSD, tudo se confunde na minha cabeça.” (Crumb, desconversando sobre a época em que conheceu Shelton)
“Competitivo? Competitivo? Está brincando? Havia tão poucos de nós, uns quatro, talvez, não havia nada por que competir.” (Crumb, sobre se era competitivo o cenário em que começou a fazer HQs)
“Eu fazia uma página semanal dos Freak Brothers, e todos que faziam parte do editorial viviam chapados, enquanto eu dizia, não, não, preciso terminar minha história. Quando saía a publicação, todas as histórias eram completamente ilegíveis, exceto a minha página.” (Shelton)
“Ela (Janis Joplin, que era amiga de Shelton e rejeitava a ideia de passar do folk para o rock) devia ter continuado no folk, eu acho. Estaria viva hoje…” (Crumb)
“Não sou mais tão obcecado por sexo quanto era. Vejo esse trabalho agora e não me identifico com a pessoa que fez isso. Penso: Jesus, que lunático. Ah, me assentei com a idade. Sou um velho acadêmico agora.” (Crumb)
“Acho que as mulheres brasileiras são… tall and tan and young and lovely, the girl from Ipanema goes walking, and when passes each one she passes goes a-a-ah” (Shelton)
“Eles estão publicando meu Gênesis em Israel, vai sair em hebraico. E como é escrito da direita para a esquerda, eles estando colocando na posição inversa todas as ilustrações, para colocar o texto. É louco. E foram os editores que me deram o menor adiantamento entre todos os que me publicaram.” (Crumb)
“Quem você gostaria que interpretasse você num filme?” (Shelton)
“Brad Pitt? Não sei.” (Crumb)
“Eu queria ser interpretado por Clint Eastwood” (Shelton)
“Mel Gibson para mim, então” (Crumb)
“Os Três Patetas são populares aqui? Isso me faz respeitar muito mais o Brasil. Na França, eles são completamente desconhecidos. Eu os mostrei a um amigo lá, e ele me disse: ‘Isso é completamente estúpido’. E eu lá rolando no chão de rir.” (Crumb)
“Estou feliz em estar aqui porque venho sendo ignorada há 40 anos” (Aline)
“As pessoas mandavam cartas cheias de ofensas quando começamos a desenhar juntos. Diziam: ‘Ela pode ser boa na cozinha, mas deixe-a longe do papel’. As pessoas estavam furiosas.” (Aline)
“Não é do seu interesse.” (Aline, sobre se a dinâmica do casal também funciona bem no sexo)
“Meu desenho é tão primitivo que se eu desenhar com o pé ninguém vai perceber.” (Aline)
Ontem joguei aqui algumas frases ditas por Crumb durante a entrevista, e o post foi linkado num blog que chamava para o que seria um ”show de grosserias e mau humor” do cartunista. Daí reli e pensei que talvez, fora de contexto, pudesse sim ter essa leitura. Mas não é assim. Crumb é muito menos ranzinza do que parece. Ou melhor, ele reclama mesmo de tudo, mas está longe de ser grosseiro. Ele se sente sufocado com o assédio, é fato, detesta ser fotografado como se fosse galã e reage quase como criança. Ele é, como definiu Aline, “um cara doce”. O que não significa que não seja também um bocado debochado.
Daí resolvi colocar aqui o texto que saiu no Sabático de hoje sobre a entrevista coletiva e os dias dele em Paraty. Acho que ao menos contextualiza um pouco as frases que ele disse na coletiva.
***
Humor autêntico e pelo avesso
RAQUEL COZER

Foto: Tasso Marcelo/AE
“Parem, por favor”, disse Robert Crumb, na manhã de ontem, ao se aproximar da sala na qual enfim falaria aos jornalistas em Paraty – algo que até dois dias antes a organização da Flip temia que ele nunca chegasse a fazer. Tentar caretas ou levantar o dedo do meio para os fotógrafos que o cercavam na entrada, na tentativa de evitar registros, havia surtido o efeito inverso (foram as fotos preferidas por todos ali), então o cartunista precisou reclamar. A questão é que Crumb sorri quando está desconfortável, numa espécie de reação reflexa, de modo que os outros demoram a entender quando é hora de deixá-lo em paz.
Hoje, às 19h30, ele participará de uma das mesas mais concorridas desta edição, com o pai dos Freak Brothers, seu amigo Gilbert Shelton – que, como ele, é um dos nomes centrais das HQs underground dos anos 60. Os dois chegaram da França com suas respectivas mulheres, a cartunista Aline e a agente literária Lora Fountain, na terça pela manhã, mas quase não se viu Crumb. Shelton circulou à vontade, sempre de calça jeans com suspensórios, mas o criador do Mr. Natural deu parcos sinais de vida. Anteontem, foi passear de barco e almoçar na ilha do Catimbau com seu mesmo figurino básico de personagem de quadrinhos: calça e camisa social, chapeuzinho à moda antiga e casaco preto. E passou longas horas “meditando” na pousada, nas palavras de Aline.
Como o trabalho mais recente do artista, a versão ilustrada do Gênesis, saiu no Brasil no ano passado, duas editoras trataram de arrumar material para sua passagem pela Flip. A Conrad, que tem quase toda a obra dele por aqui, preparou uma edição de capa dura de Meus Problemas com as Mulheres, que reúne cartuns do título homônimo em inglês e outros feitos de 1964 a 1991. A Desiderata fez nova edição do Kafka de Crumb, biografia com texto de David Zane Mairowitz, publicada em 2006 pela Relume-Dumará. O próximo trabalho inédito está previsto para 2011. A princípio, se chamará Drawn Together, e reunirá histórias feitas em parceria com Aline Crumb – inclusive aquelas que, feitas para a New Yorker, foram publicadas em português pela revista piauí.
Crumb não gosta de dar entrevistas porque jornalistas perguntam sempre as mesmas coisas, é o que ele diz. Não teria nem vindo ao Brasil não fosse uma forcinha “das sras. Shelton e Crumb”, que, dispostas a sair da rotina, o convenceram a pegar o avião. “Vim de classe executiva, foi legal. Estou me divertindo à beça”, disse, irônico, aos repórteres interessados em detalhes. “Se pudesse escolher, iria para um lugar onde fosse anônimo. Sou melhor em observar que em ser observado.” É verdade que Crumb é bom em reparar em pessoas e situações para depois ilustrá-las, mas também é curioso observá-lo. O quadrinista é o ranheta menos ranzinza de que se tem notícia. Reclama de tudo, do governo, da música dos dias de hoje, do assédio do púplico, do barulho (Aline e ele acharam o povo brasileiro, até onde foram dados a conhecê-lo, em Paraty, um tanto “inquieto”), só que cada uma de suas frases de efeito vem acompanhada por uma sacudida de ombros, aquele sorriso por ato reflexo e a famosa franzida na testa para evitar que os óculos lhe escorreguem pelo nariz. Um ator não faria melhor, mas ninguém duvida de que seja autêntico.
Não é sempre que Aline consegue arrastá-lo para fora da vila onde os dois vivem desde os anos 80, no sul da França. No ano passado, por exemplo, ao viajar para a Índia, achou melhor deixar o marido em casa. “Adorei tudo por ali, mas ele teria morrido”, disse ela ao Sabático, na quarta-feira. Ele até sabe se virar sozinho, conta a mulher – depois de 25 anos entre franceses, sabe da língua o suficiente para conseguir comida e sobreviver, “E agora ele está com uma secretária, uma amiga minha, americana. Além do mais, todo mundo na cidade o conhece e o protege.”
Crumb diz ainda não ter se acostumado com a ideia de que quadrinhos hoje são vistos como arte ou literatura. Acha “bizarro” participar de um evento como a Flip e estranha o boom nas vendas de HQs. “Quadrinhos não foram feitos para se levar a sério, me assusta ver isso acontecer”, diz. Mas não reclama, e por isso aceita fazer tudo isso que detesta – viajar, dar entrevista, dar autógrafo vez por outra, quando alguém o pega de surpresa. “É algo economicamente muito viável, e é também por isso que estamos aqui.”
Além da programação oficial da Flip, merecem destaque os encontros que vêm acontecendo na Casa de Cultura de Paraty. Alguns, sob o patrocínio/coordenação do Itaú Cultural, vem sendo gravados e logo alguns minutos estarão disponível no site do instituto além de figurar em sua enciclopédia eletrônica. Nesta sexta, Cristóvão Tezza (que lança um esperado livro em setembro – o que virá depois do premiadíssimo O Filho Eterno?) entrevistou José Castello, certamente o melhor jornalista cultural do País e um dos nossos melhores e mais desconhecidos escritores. Ele lança na Bienal do Livro de SP o romance Ribamar. Castello partiu da ideia de ficcionalizar a história do pai e acabou criando um interessante jogo em que, ao mesmo tempo em que a narrativa prossegue, é discutido o ato de se escrever o romance. Biscoito fino. Neste sábado, Castello volta à Casa de Cultura, agora como entrevistador de Benjamin Mozer, o americano que entrou para o time dos grandes biógrafos nacionais(honraria para um estrangeiro) ao narrar os passos de Clarice Lispector.
Hoje o dia na Flip teve um acento mais político. O filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton já baixou em Paraty e é bem conhecido o fio da lâmina com que ele disseca a realidade política, lâmina afiada num marxismo que ele jura não ter abandonado. E quando Eagleton fala em marxismo refere-se a um método de análise, não entra em papo ideológico. Pois hoje estive com Eagleton, que falará amanhã cedo, e ele lascou o verbo contra ”a moda de falar mal de Deus”, firme na polêmica que mantém com Richard Dawkins, Sam Harris , Christopher Hitchens. Acha que esta turma não entende nada de religião e que, no fundo, é gente conservadora.
Pois bem, na apresentação de Salman Rushdie que acaba de terminar, eis que Eagleton já foi chamado pra briga. Rushdie, que foi acusado de servir à direita bushiana por Eagleton, desafia o inglês a dizer isso … cara a cara. Rushdie reclamou que Eagleton, além de mentir, refere-se a ele de maneira desonrosa. Amanhã vamos ver se a provocação de Rushdie já chegou aos ouvidos de Eagleton. O que sei é que Eagleton logo deixa Paraty para ir a Porto Alegre, onde tem uma conferência agendada.
Outra mesa bem política foi a da iraniana Azar Nafisi e do israelense A B Yehoshua. Com o caso Sakineh bombando, ou seja, a condenação de uma iraniana ao apedrejamento por adultério, Azar fez intervenções fortes, tirando proveito da fala torta de Lula ao oferecer abrigo para Sakineh no Brasil. Algo como: se está incomodando aí, manda a moça para cá, companheiro Ahmadinejad. Yehoshua saiu-se com uma boa tirada: quem incomoda é o Ahmadinejad, então, o governo brasileiro precisa oferecer abrigo pra pessoa certa!!! Nafisi foi tão enfática que Moacir Scliar, mediador da mesa, já sugeriu que ela se lance candidata à presidência do Irã. Precisa combinar primeiro com os aiatolás, certo?

Azar Nafisi, foto de Tasso Marcelo/AE
Li seu artigo sobre Sakineh no Huffington Post…
Ah, ele será publicado no Brasil, com um adendo sobre Lula.
O que você diz nesse adendo?
Que é uma pena que o governo do Irã não ouça a voz de um governo que ele chama de amigo. E o fato de que, quando o presidente Lula disse “se essa mulher causa algum desconforto a vocês…”, não é a mulher que causa desconforto a Almadinejah, é Almadinejah que causa desconforto à vida dessa mulher. Digo também que gostei do que Lula disse, que ninguém pode tirar a vida de outra pessoa, que Deus dá a vida e só ele pode tirar. E acho que isso é o mais importante.
Neste caso, acho que o mais chocante é como é brutal a morte por apedrejamento…
Sim. É brutal. Mesmo que o que ele diga é verdade, que ela tenha cometido adultério, a punição do Estado iraniano para isso é uma das coisas mais horríveis. Agora eles dizem: não, não vamos apedrejá-la, vamos mantê-la presa. Isso torna as coisas melhores? Eles deveriam deixá-la ir e pedir desculpas!
O quão comum é esse tipo de morte por apedrejamento no Irã?
Não é muito comum, em parte porque o povo resiste a isso. As leis iranianas sobre as mulheres têm sido muito progressivas. As mulheres iranianas têm lutado por mais de um século. Na época da Revolução de 1979, elas estavam no parlamento. Quando esse governo chegou, elas não podiam mais ser juízas, por exemplo. Conto isso no meu livro (O Que Eu Não Contei), em 1963, minha mãe se tornou a primeira mulher no parlamento. As pessoas no meu país não estão acostumadas a ver as pessoas sendo apedrejadas. Mas isso vem sendo feito desde o começo. Além de Sakineh, há outras pessoas presas para serem apedrejadas. Não sei dizer quantas pessoas, cinco ou seis. Mas, como não é popular, e como um comitê foi formado contra o apedrejamento, e as pessoas desse comitê vem trabalhando muito, a certa altura eles disseram: ok, nós não vamos tirar a lei da Constituição, mas não vamos mais fazer isso. Mas há gente fazendo isso.
Por que você acha que esse caso específico chamou tanta atenção do resto do mundo, se isso vem acontecendo?
Por 30 anos, as pessoas vêm fazendo isso, e só agora o mundo começou a prestar atenção. Estou feliz que estejam prestando atenção agora, mas gostaria que tivessem notado isso antes. Mas o ponto é que por muito tempo a mídia entendeu que as leis iranianas eram a cultura iraniana, e só organizações dos direitos humanos entendiam que não. No ano passado, e é por isso que no meu artigo sobre Sakineh falo também de Neda, quando centenas de milhares de pessoas foram às ruas no Irã, o mundo inteiro viu que as pessoas pensam diferente das leis, e agora as pessoas entendem que essas leis não representam o que o povo pensa. Essas leis são levadas a cabo, e não são boas.
O que você acha que vai acontecer nesse caso?
Não tenho ideia. A experiência tem sido a de que o apoio internacional ajuda, porque o governo não quer que o mundo pense sobre ele dessa maneira. Alguém como o presidente Lula, que representa um governo amigo, e agora até ele vem e diz… Esperamos que o apoio ajude essa mulher, mas nunca podemos ter certeza. Eles podem querer dizer: não importa o que ninguém diz. Isso precisa ser parado. Foi o pedido da família da Sakineh. O filho dela pediu que o mundo se envolvesse. Quando presidente Lula fez aquela declaração, ele disse que esperava que a Turquia fizesse o mesmo.
Na Tenda dos Autores, você e A.B. Yehoshua falarão sobre a literatura em terras de conflito. Você pensou no que gostaria de conversar com ele sobre o tema?
Acho que literatura pode se tornar um veículo para verdade em países como os nossos. Eu gostaria de falar sobre o papel da imaginação e que, não importa de que país você venha, o que nos liga como humanos é a literatura. Árabes, israelistas, iranianos, todos dividem algo da cultura, mas o que tem causado tanto sofrimento aos nossos povos é a política. Será bom falar com ele para mostrar ao mundo que o problema não é das culturas.
Você vive em Washington, e A.B. Yehoshua, que vive em Israel e é sionista, acha que só em seu país é possível viver o judaísmo em sua completude. Acha que seria possível algum pensamento do tipo em relação ao Irã?
Não sei bem o que ele quer dizer com isso. Não venho nenhum tipo de fronteira física. Acho que, sendo do Oriente Médio, você pode viver em qualquer lugar do mundo e entender o que acontece ali. Ele deveria explicar isso. Vamos ver se aprendo algo com ele. Não acho que eu seja menos iraniana por viver em outro país.
Você sempre acaba sendo questionada sobre política em festivais literários. Não sente falta de falar em literatura, só de literatura?
Sim, eu adoraria que isso acontecesse (risos). A única razão pela qual falo sobre política quando as pessoas me perguntam sobre isso é que certas coisas só são bem compreendidas… Não sou política no sentido de nõa pertencer a nenhum grupo, mas tenho de defender minha integridade como mulher, como ser humano, escritora e professora. E, no Irã, a política interfere em tudo, no jeito como escrevo, como dou aulas.
2011
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