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Flávia Guerra

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Mulher rendeira da etnia hmong no mercado de Bac Ha
 Bac Ha – Vietnã
 Que mulher nunca ouviu a frase: Você já ouviu a frase: “Mas precisa se arrumar pra ir à feira?”
PRECISA!E é assim, fashion na essência que as mulheres hmong vâo ao Mercado de Bac Ha, no os confins do Vietnã.

Lá elas vendem o artesanato que produzem por uma boa coxa de porco…uma dúzia de incenso para os deuses…um punhado de pimentas…produtos de beleza…Vestidas com trajes que elas levam meses para fazer, bordados à mão, tingidos com o í…ndigo das árvores locais, delicadamente desenhados com pincéis rústicos, elas me inspiram mais que qualquer semana de Paris.

 Em clima de pré- SP Fashion Week, cujo assunto devem dominar meus posts nesta semana que começa, as vietnamitas me fazem pensar: Fashion é ser espontâneo!

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Duas ou três coisas que eu vi no Vietnam:

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No Brasil ou no Vietnam, Mulheres são mulheres!  As da etnia hmong das flores, que habita o noroeste do país, são coloridas, fashions e lindas!

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Duas ou três coisas que eu vi no Vietnam:

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Vietnam, Sapa.

No mercado da gélida Sapa (sim… faz frio, e muito!) um outro tempo dita o relógio, que diz quando é época de comer ‘fruta dragão’…morango ou de esperar as maças amadurecerem… Enquanto isso, as mulheres da dinastria hmong bordam e tecem o tempo nos coloridos vestidos.

 

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Hanoi, Vietnã

Momento refresco.

Hoje, só por hoje, sem cachorro defumado, sem bicho da seda frito, sem sorvete de carne. Hoje foi dia de rolinho primavera de papel de arroz com vegetais. Prova de que a gastronomia vietnamita revela sim lindas e delicadas surpresas.

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                                                             Set do curta O Caminhão reproduz a cena de uma das tantas fazendas de cachorro do Vietnã

Vietnã, Hoa Binh Province

 

Hoje foi dia de cão. Ou não. Foi dia da pequena May Vi, a atriz e estrela de The Truck (O Caminhão), filmar a cena em que sua personagem entra pela primeira vez em um matadouro de cachorros. Vi entrou distraída na ‘sala de abate’, onde os cachorros ainda vivos podem olhar sacos plásticos com ‘cachorros já bifes’ e outros cachorros inteiros defumados. Quando ela, nos seus 10 anos de ativismo contra o hábito de seu pai de adorar ensopado de cão, avistou um dos abatidos, simplesmente pulou, assustou-se e calou. Numa mistura de fascínio, curiosidade e medo.

Foi a primeira vez que eu também vi que fim levam os cachorros que vejo por aí indo de um lado para o outro em gaiolas nas garupas das motos. Isso porque, hipocrisias e julgamentos morais e culturais à parte, os magricelos  cãezinhos que vão e vêm, como já disse em outro post, são tudo menos ‘apetitosos’ à uma primeira olhada.

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Quando não são vendidos por pedaços, os cachorros são defumados inteiros e pendurados nas vendas locais

A meu ver, à segunda e à enésima olhada também. Já aos olhos dos vietnamitas que apreciam a iguaria, como bem disse a bela Ly, não é a aparência nem a textura da carne de cachorro que a torna um bom prato, mas sim o preparo e os temperos.

Pudera! O tal fim que levam os cachorros, além de ser a panela, é virar uma espécie de bicho embalsamado que, exposto e pendurado, é vendido inteiro e talhado em casa pelo comprador. Ou talhado aos pedaços nas vendas locais.

Os meus descritos sobre este hábito alimentar dos mais esdrúxulos aos meus olhos ocidentais quase vegetarianos (uma vez que nem mesmo uma bela picanha entra no meu cardápio) são impossíveis de não soaram um tanto tétricos, mas a mera descrição do abate de um animal, seja ele uma vaca, um porco ou uma galinha, são, por si só, crueis e tétricos.

Cabe a nós não julgar, mas aprender e conhecer. E olhar, quem sabe, para nossos próprios hábitos alimentares e encontrar similaridades. Que vida, e fim, têm os frangos e chesters e afins que já nascem ‘prontos para o abate’ e jamais sabem o que é ter ‘uma vida de frango feliz do terreiro’? Que alegria de vida de ‘vaquinha do campo’ têm as vacas que vivem confinadas com as tetas aprisionadas por extratores de leite? Mais uma vez pergunto, sem encontrar resposta, qual a diferença?

 

ly no

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Vietnã – Província de Dang Dinh

 

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Então, ontem também foi dia de filmar na província de Dang Dinh. Mais precisamente na Estrada do Cemitério da pequena província a leste de Hanoi. Mais precisamente  ainda, não era exatamente um cemitério. Só algumas poucas tumbas espalhadas em meio aos arrozais.  E a pequena Mai Vy, atriz do nosso pequeno-grande filme, que, aos 10 anos fala melhor inglês que muito marmanjo, me pergunta: “Vocês também têm isso no seu país?”

Tem o que, Vi? Arroz? “Não. Isso!”.  Isso o que? Plantações? “Não…Isso?” Isso o que? Tumbas? “É! Estas casas em que moram as pessoas que estão dormindo para sempre.”

Sim, Vi. A gente tem isso no Brasil também. Em todos os lugares as pessoas morrem. E a gente enterra, crema… Só não faz no meio da plantação… Mas a morte está em todo lugar.

A diferença é que aqui, e em toda Ásia, os mortos (que dormem neste mundo para acordar em outro), ganham mais presentes do que os vivos. Em toda casa, há um pequeno altar aos antepassados. Cultuados com carinho, ganham seus quitutes favoritos, frutas, bolinhos de arroz, incenso, e até cigarro. Mas melhor mesmo é que ganham dinheiro. É tradição das mais sérias por aqui literalmente queimar dinheiro (falto, claro) para os mortos fazerem bom uso dele lá do outro lado. E para que nunca falte aos deste lado aqui.

Diferente é também como se celebra (sim, deve-se celebrar sempre!) a partida de alguém. Hoje, enquanto filmávamos cenas do nosso caminhão (não por acaso, o filme se chama O Caminhão, que no próximo post explico mais), um funeral passou pela plantação, pelo cemitério e seguiu. O silêncio era quebrado por uma barulhenta harmonia que anunciava a passagem do cortejo. Em vez de preto, muita cor. De acordo com o grau de parentesco do morto, usa-se uma faixa colorida na cabeça. Os netos usam amarelo. Os amigos, branco.

E o ser que hoje virou antepassado era veterano de guerra. Os netos abriam o cortejo. Os amigos, todos devidamente fardados e lindos em sua nobreza, fechavam o desfile.

É… a vida e a morte são denomidores comuns. Mas cada um dá a ela a cor e o som de acordo. E fica de fato a sensação de que o que se leva desta vida é de fato a vida que a gente leva. Incluindo o funeral.

Amem!

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Vietnam thoughts (ou das coisas que vejo por aí e ouço por aqui):
A gente acha sempre que já viu de tudo. Tenha 18 ou 81 anos, a arrogância é algo que quase sempre nos acompanha.

Mas há sempre algo que nos surpreenda. Há sempre palavras simples que contam mais que qualquer matéria de jornal. Há sempre imagens do cotidiano que contam mais que qualquer foto premiada.

E hoje, e então, entre um take e outro do curta que ajudo a filmar aqui (The Truck, O Caminhão), um velho vietnamita meio assim fora do contexto olhava as filmagens. Até aí, nada de novo no front. Filmagens e sets são sempre atração para a população local. Mas o velho, certa hora, como quem não ouviu pergunta alguma, mas tem a resposta certa, me diz, com seu parco inglês aprendido na Guerra:
“Faça um filme de amor. E não de guerra. Sun Tzu dizia que todos gostamos de belas palavras, porém poucos as transformam em atos. A guerra passa. A vida passa. O amor fica. Eu só guerreei, e, com medo, deixei meu amor passar. Tinha mais medo do amor do que da guerra. Você sabe o que é amor? Amar, minha filha, é como cuidar do arroz no campo. É todo dia. Se você ama, cuide do seu arroz. Só amor de que você cuida é capaz de ser teu alimento. O resto são palavras, e sementes, ao vento.”

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Então você achava que o trânsito de SP era caótico… e que tinha motos demais…
e que a cidade era muito seca e poluída no inverno… e que buzina irrita… Bom dia, Hanoi!

Hanoi – Vietnã

 

Então, depois de meses de ausência do front, recomeço, sem muita explicação, mas com grande satisfação, este blog que vos fala desta vez do Vietnam.

O mote, o olhar periférico, que a tudo observad do centro da periferia para as periferias centrais de tudo, continua o mesmo. Mas o ponto de partida desta vez é a capital do Vietnã.

Antes que se perguntem, estou aqui para passar férias. E tirando férias das férias, estou também para rodar um curta-metragem. The Truck of My Father. O caminhão do meu pai, que, a meu ver, deveria se chamar It’s a dog’s life. É uma vida de cão a que os cães vietnamitas têm. Ainda que os ocidentais matem tantos outros animais para comer, é inegável que aceitar o fato de que alguns orientais matem cães para fazer não sabão, mas sopão, é difícilimo.

O filme não fala exatamente disso. Dirigido pelo grande amigo e talentoso Maurício Osaki, que me dá a chance única de passar minhas férias aprendendo um pouquinho mais a fazer cinema para, então, escrever melhor ainda sobre a sétima arte e me aventurar ainda mais em sets futuros, The Truck fala da infância de das descobertas feitas pela pequena Vi, uma garotinha de 10 anos de idade que descobre que o pai é muito mais, e também muito menos, do que ela pensava ser.

Assim tem sido o Vietnã para mim. É muito mais, e muito menos, do que eu (e a a maioria esmagadora) de brasileiros pensava ser. É mais encantador, intrigante, surpreendente, caótico e zen ao mesmo tempo. É menos amendrontador, perigoso, pobre, estranho.  É um novo olhar a cada dia.

A partir de hoje inicio um diário de filmagens do curta. E outro de pequenas-grandes impressões desta terra encantadora.

 

Antes, é bom saber:

HaNoi significa ‘Cidade Entre Rios. Ou em que o rio corre em seu interior.’

Mas poderia se chamar: EM MODO DE CAOS CALMO. Quiet chaos inside.

O trânsito da capital do Vietnam é um grande caos de fazer inveja à 23 de Maio em sexta-feira à tarde antes do Natal, mas há uma espécie de caos zen que faz com que todos saibam que está tudo errado, mas que tudo vai dar certo no final.

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