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Flávia Guerra

estacaodiferenciada.JPG

Próxima estação: Diferenciada

São Paulo (Bairro do Limão, onde está a redação do Estado, para onde venho de metrô até o Barra Funda e atravesso a ponte porque ainda não há metrô do outro lado do rio)

Então. Pronto! Virou bagunça! Minha gente. Pera lá. Preconceito se combate com inteligência, ação e humor.

Quer ver? Ó o que o leitor Eduard postou:

GENTE DIFERENCIADA

Tem gente diferenciada no Metrô
Servindo os clientes nos bistrôs
E cuidando das casas da elite
Que adora vê-los na televisão
Como seres de outra dimensão
Dimensão que para eles não existe.

Essa tal gente diferenciada
Quando divide as calçadas
Desperta verdadeiro horror
E chega a causar ânsia
Quando a sua fragrância
Não é ao menos Azzaro.

Isso me faz refletir
Sobre o direito de ir e vir
E me força a dizer: Basta!
Mudemos a nossa sociedade
Pois nela na realidade
Existe o sistema de castas.

Eduardo de Paula Barreto

peruao.JPG

Vagão Diferenciado

Já a Juliana mandou  a letra do pagodão que a galera vai cantar no churrascão! (paródia do Pagode na Cohab, do Negritude Jr)

Pagode Com Kassab

Tô votando no Kassab
E daqui da minha janela
Vejo estádio pacaembu e essa região tão bela

No Serra também tô votando
Pra ele não ficar sozinho.
Porque odeio camelô e quero meu bairro limpinho.

No meu rodízio eu só pego Taxi
pra rodar pela cidade
eu sou contra esse metrô
e a favor dessa desigualdade!

Pra chegar no bairro
Só no ar condicionado no maior astral!
Aqui em Higienópolis
Ninguém gosta de facilitar pra serviçal!

churrascao1.jpg

Churrasqueira diferenciada

Aí, o Lula se manifestou ontem em sua primeira visita no ABC depois de deixar a presidência e disse:

“Eu acho um absurdo porque isso demonstra um preconceito enorme. Eu pessoalmente não posso conceber que uma pessoa que estudou tanto, que uma pessoa que tem posses, seja preconceituosa e queira evitar que as pessoas mais humildes possam transitar no bairro onde moram”, disse Lula ao deixar o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, após receber homenagem.

O comentário foi semelhante ao feito pelo ex-presidente quando questionado sobre um artigo do também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o papel da oposição.  No texto, FHC sugere que o PSDB pare de disputar os votos do “povão” com o PT.

“Sinceramente não sei como alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão. O povão é a razão de ser do Brasil. E do povão fazem parte a classe média, a classe rica, os mais pobres, porque todos são brasileiros.”, disse Lula na ocasião.

Aí, Pronto! A discussão que até agora era de logística, classes, inclusão social, territorial, astral enfim, virou política!

E tem mais, o Danilo Gentili fez uma piada que eu acho sem a menor graça! Eu posso até ser acusada de não ter senso de humor, mas eu, que já percorri a Marcha da Morte que os judeus percorriam na Polônia durante a Segunda Guerra, durante as filmagens do ótimo documentário Marcha da Vida (em cartaz, aliás), que já estive em mais de dez tipos de campos de concentração, não consigo, desculpe,  não consigo achar a mínima graça quando o Gentili me vem com “Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwiz.”

file:/C:/Documents%20and%20Settings/fy81960/Desktop/gentili.htm

Tem gente que acha que piadista e humorista tem licença poética. Mas eu tenho minhas limatações e não acho a mínima graça em piada racista, classista e anti-semita. Sei lá. Dar vários rolês pelos fundões de Birkinau acabaram com este ‘meu senso de humor’.

Aí, o Gentili gentilmente se retratou e disse: Peço perdão se falhei nesse meu objetivo com a piada q fiz esta tarde. Me coloco a disposicao da comunidade Judaica para me redimir.

e

Minha intenção como comediante nunca foi trazer nenhum outro sentimento ao publico que não fosse alegria.

aqui:

http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1974228126337&set=a.1940152994480.2116977.1562096844&type=1&theater

POIS É!!!

Pronto. Virou questão de racismo e preconceito agora? Ah não! Não!

Assim como a Ruth Rutman Rutman me disse hoje no facebook:

“para flavia guerra,
gostaria de não receber mais seus comentarios idiotas, guarde para quem os valoriza, não sei quem é flavia guerra
este e-mail não me acrescenta nada. Vá jantar no clube nacional com os pobretões q fazem esta campanha. Lá tem jantar com direito a discurso de vereador e deputado e menbrosdojudiciario dividindo a mesa.”

O meu comentário era uma piada a respeito do fato de que há quem em Higienópolis (seja judeu, japonês, chinês, boliviano, cearence, baiano, italiano, da ZL, do Capão, do Pacaembu, da Barra Funda enfim) prefira ter um terceiro supermercado Pão de Açúcar a uma segunda estação de metrô.

Duvida? Assista: http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/…;

A minha piada dizia: “mas pro povo ‘não diferenciado’, o pão de açucar valoriza mais! afinal, tem vários produtos importados da escandinávia lá. e o metrô vai atrair camelôs que trazer produtos importados da china! e isso, hoje em dia, tem até lá na Oscar Freire! :-P

GENTEM, queridos leitores, pelamore!  A discussão pode até ser politicamente incorreta, mas racista jamais. Como eu disse ontem que o buraco (e não só o do Metrô) é mais embaixo, o que a priori era (ou parecia ser) só uma questão de logística (distância ou necessidade de uma estação e/ou linha tão próxima da outra) serviu de pretexto para que recalcadas mágoas de ambos os lados diferenciados e não diferenciados começassem a se alfinetar mutuamente.

Locomover-se é preciso. Discutir não é preciso. Mas manisfestar-se é sempre necessário.

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Foi convidado pro Churras? Então, RSPV!

Então, para os que pensam que o Churrascão foi cancelado digo: Não foi não. O criado pelo Danilo Saraiva  foi só ‘modificado’ e vai ocorrer sim. Olha só: http://www.facebook.com/event.php?eid=11…

E um dissidente (sim, porque brasileiro tem de ‘dissidir’ até na hora de concordar) foi mantido: http://www.facebook.com/event.php?eid=17…

então, sabadão é dia de dar um rolê por Higienópolis e ver se a praça (Vilaboim e afins) é do povo (local ou diferenciado). A ver! e a vir!

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London Tube, não é o metrô dos meus sonhos, mas é ótima base de comparação

São Paulo

Prólogo: Notícia publicada hoje no Estadão online afirma:

Polêmica. Hoje, o Ministério Público de São Paulo informou que solicitou ao Metrô e à Secretaria de Transportes Metropolitanos informações sobre as mudanças na Linha 6-Laranja. “Se a decisão for realmente técnica, o processo será arquivado. Mas se a decisão foi feita por pressão de um grupo de moradores, iremos discutir as razões”, afirmou o promotor Antônio Ribeiro Lopes.

A Companhia do Metropolitano de São Paulo nega que a recusa dos moradores de Higienópolis tenha influenciado a obra. “A Companhia está reavaliando a localização da futura Estação Angélica em razão de ela estar a apenas 610 m da futura Estação Higienópolis-Mackenzie e a 1.500m da futura Estação PUC-Cardoso de Almeida”, informou ontem o Metrô em nota.

Em entrevista ao Estadão.com.br, o presidente da associação Defenda Higienópolis, o empresário Pedro Ivanow, comemorou a decisão. “Um dos pontos que a associação levantou era a pouca distância entre uma estação e outra. Higienópolis não é contra o metrô, mas queria entender isso. Foi um movimento de esclarecimento”, destacou. Para ele, as piadas e os protestos organizados na internet são “parte da democracia.”

a íntegra segue aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,mobilizacao-para-churrasco-em-higienopolis-ganha-forca-na-internet,718391,0.htm

ENTÃO, a ‘pouca distância’ do metrô, diante do fato de que São Paulo possui de fato menos linhas e estações do que necessita, é um motivo compreensível para se deslocar uma estação para um local onde não há nenhuma outra estação vizinha.

Aqui, justifica-se.

Interessante é que, como comentei ontem, em volta do Palácio de Buckingham há CINCO estações de metrô e, segundo apurei no site do London Tube (http://www.tfl.gov.uk/assets/downloads/standard-tube-map.pdf), nenhum morador do palácio, muito menos a Rainha, nem morador das redondezas protestou e pediu o deslocamento de nenhuma destas estações. Interessante.

Lembro que só estou comparando a situação brasileira com a inglesa porque o metrô de Londres é o mais antigo do mundo e detentor de uma das maiores redes ferroviárias também. Aqui não entra nenhuma noção de complexo de vira-lata tupiniquim de minha parte. Não acho que os ingleses estão mais certos, mais errados, são melhores, piores etc etc. Entra aqui a base de comparação urbanística e estrutural. Com exceção de possuir uma corte real (ao menos oficial), Londres é uma cidade que tem muitas semelhanças com São Paulo por suas dimensões, ritmo de vida, trânsito caótico, distribuição geográfica, população heterogênea e forte tradição classista.

churras_p.jpg

Churras no Facebook: Estão todos convidados!

HOUVE TAMBÉM QUEM, como a leitora Ruth,  pontuasse que:

Na verdade trata-se da elite da rica Pacaembú(nada popular com suas mansões) que tinha enorme influencia no governo Kassab(DEM), colocando inclusive integrantes de sua associação em postos chaves de planejamento. definiram 2 estações uma ao lado da outra, para eviter uma estação perto do estadio(próximo as suas mansões). Como este governo, ao se desligar do PSDB, perdeu força junto ao governo do estado;o traçado foi revisto e prevaleceu o bom senso sim, com distancia equidistante entre as estações.
No Pacaembú não há nenhuma estação, ruas são fechadas e em muitas não há nem mesmo calçadas para pedestres: quem se acha sangue azul?”

ENTÃO É ISSO?! É mais do que justificável e compreensível que moradores (seja de que bairro for) não queiram vândalos membros de torcidas organizadas fazendo algazarra em suas calçadas e fachadas. Acontece que nem só os torcedores que vão aos jogos no Pacaembu serão (ou seriam) servidos pela estação. Acontece que nem todo torcedor e/ou membro de torcidas organizadas é vândalo. E os torcedores chegam de qualquer forma. Aliás, chegam de ônibus, a pé, de carro, de lotação… Quem sabe com a estação de metrô a vida de todos em dias de jogos e evento não melhore muito?

E, vejam só, sabem o estádio do Chelsea? Em Londres? Aliás, no West London que (bem diferente do East proletário, claro) é posh (assim bacana, classe média, média alta), bem quase um Higienópolis. Então, o Estádio do Chelsea está localizado na verdade no bairro de Fulham. E a somente dois quarteirões da estação de metrô de Fulham Broadway. O Chelsea é folcloricamente considerado algo como o São Paulo inglês. Time de bem nascidos. Mas, como o São Paulo, tem muitos torcedores diferenciados de regiões periféricas e moradores de zonas 3, 4, 5, 6 (as mais distantes, menos bem nascidas). E estes torcedores chegam como ao Chelsea Stadium? De metrô, claro.

Então. Nem todo torcedor é civilizado e preserva calçadas, fachadas e a paz da vizinhança dos estádios. Tampouco nem todo torcedor é mal educado, vândalo enfim.

Talvez em São Paulo não faça ainda sentido haver duas estações tão próximas umas das outras. Talvez os torcedores mal educados não sejam ainda passíveis de serem fiscalizados e controlados. Talvez esta discussão que, a priori, parecia meramente ‘logística’, tenha sido detonadora de uma luta de classes que há muito estava recalcada nos corações e mentes de diferenciados e não diferenciados.

O fato é que o buraco (não só o do Metrô) é mais embaixo. Tem boi na linha. E caroço neste angu. E fortes indícios de que o churrasco da amizade e da igualdade social paulistana e brasileira seja de carne de gato. Um não quer o metrô porque uma estação está muito perto da outra. Outro não quer abrir mão do mercado da esquina. Outro não quer perder o sossego do bairro para legiões de torcedores e fãs de shows de rock e diferenciados afins. Outro acha que acesso ao metrô é fato de inclusão social, de que quem tem de decidir isso é ‘o governo’. Outro diz que a decisão da mudança foi antes da associação de moradores de Higienópolis se manifestar oficialmente. Outro acha que a solução é criar uma entrada de serviço e outra social para o bairro. Alguém tem a ideia de usar o gancho para promover o churrasco dos diferenciados e descontentes com as diferenças sociais, a luta de classe, o preconceito, o racismo, o elitismo enfim. Acende-se a churrasqueira, os ânimos, a fogueira das vaidades.  E  é assim que começam as guerras. De torcida. Dos vizinhos. Civis.

Particularmente, acho a ideia do churrasco, se for pacífica e não danificar nada e ninguém (além do silêncio que vai ser devidamente quebrado), muito melhor que o tipo de protesto que vi em Londres há pouco, quando estudantes britânicos destruíram várias estações de metrô por conta dos cortes que o governo inglês promoveu na educação.

Quem sabe o churrasquinho e o jeitinho brasileiro sejam mais produtivos a longo prazo. E discutindo, e não brigando nem agredindo, mas sim tentando entender os dois lados (sim, inclusive o dos moradores de Higienópolis que não querem abrir mão de um supermercado, que não julgam necessário ter uma estação tão próxima de outra, que têm também o direito de se manifestar) que se vencem as guerras de classe.

Para terminar, um amigo inglês, que mora no Rio (no Arpoador) e nunca entendeu porque certos moradores de Ipanema não queriam metrô no bairro, disse hoje: “Este tipo de reclamação nunca houve em Londres, que eu me lembre. A sociedade inglesa é mais classista que a brasileira. Mas não faz diferença. Metrô não é questão de classe. É infraestrutura. O País tem de se desenvolver.”

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