Cannes

Dizer que nem só de glamour se faz o festival de Cannes é tão cliché quanto dizer que nem só de folia se faz um Carnaval. Mas é sempre bom ver para crer.
O que faz este povo acampanhado na Croisette já às 8horas da matina? A vontade de ver passar a banda das celebridades pelo tapete vermelho. E esta tribu cinéfila não é menos fanática que nenhum fã que acampa na porta do estádio para ver seu ídolo da ‘fila do gargarejo. Vale guardar lugar, vale alugar, vender, levar guarda-sol, guarda-chuva, levar lanchinho…

E para terminar, filas também para a sala escura. Meio dia, sol a pino, e a fila para conferir o filme de Brandon Cronenberg (sim…filho do mestre Cronenberg) já ia até o Cassino.

Cannes 2012 – Cenas de um festival # Dia 3
Dia começa com um Jackie Chan mais que bem humorado anunciando o fim de sua carreira nos filmes de ação e distribuindo sorrisos e autógrafos:

Segue com um Sean Penn mais que mal humorado anunciando suas ações sociais no Haiti e distribuindo declarações diretas e, ainda assim, autógrafos:

Quer saber como é ‘o outro lado de uma das concorridíssimas coletivas’? Aqui:

E termina com ‘chuva’ dentro do Palais. Sim! Momento Pinga Nimim da Croisette:

Ator realizou coletiva de imprensa inédita no festival para promover ação humanitária no pais

“Quem me conhece sabe que a palavra Humanidade nao se dão bem. A gente faz o que faz porque se vê em situações que nos levam a ser como somos.”
Flavia Guerra/ Cannes
Só mesmo Sean Penn para ir a Cannes, mobilizar imprensa e opinião pública, convocar uma coletiva de imprensa sem estar em filme algum no festival. Isso porque o ator, que foi presidente do júri em 2008, foi a Cannes para organizar uma festa beneficente, em prol das ações sociais que promove no Haiti. Haiti: A Carnival in Cannes ocorre na noite de hoje e deve arrecadar quantias vultosas dos convidados, que, como bem afirmou Penn em conversa com a imprensa hoje.
Penn foi lembrado que, alguns dias antes do terremoto no Haiti, em janeiro de 2010, ainda estava ajudando as vítimas do furacão Katrina, que assolou New Orleans em 2008. “ Sim. Esta era outra missão. E o Haiti é outra missão importantíssima. A gente faz o que pode pelas pessoas incríveis que são tão resistentes e vivem lá. A primeira vez que fui ao Haiti foi antes desta tragédia, em 2007. Os haitianos são as pessoas mais incríveis e de bom coração que já conheci. Acho que é muito importante que esta coletiva aconteça”, declarou o ator, que está a frente de diversas ações no país.
Penn contou com a companhia da top model Petra Nemcova e do diretor Paul Haggis para defender sua causa. Quando questionado quem faz que tipo de trabalho em suas respectivas ONGS, o ator foi categórico: “Não faz muita diferença explicar quem faz o que. O que importa é que esta é uma oportunidade única. A gente esta aqui porque um Festival de Cinema nunca é sobre política. Não só, claro. Você vai falar só de Madagascar, que, claro, as crianças vão amar, ou de união!?”
Penn, sempre direto em suas declarações, ainda completou:
“Assim como os EUA não se classificam como o país do 11 de setembro, o Haiti não se define como o país do terremoto ou da pobreza.
O que a gente tem feito, porque trabalhamos juntos, e é único, é que comunidade nenhuma é auxiliada só por médicos, professores etc. Estamos trabalhando juntos com o governo para criar empregos… Condições de trabalho. Só assim o país vai de fato mudar.”
Penn contou também que a iniciativa de realizar uma coletiva de imprensa inédita que, pela primeira vez na história do festival não foi atrelada a nenhum filme, começou com um telefonema do diretor artístico do festival, Thierry Frémaux. “Amo filmes. E filmes são grandes bálsamos, mas se você não fizer nada, a gente perde esta oportunidade. Então, Thierry nos ligou e perguntou o que poderia fazer. E eu disse que esta era a melhor forma de nos ajudar.”
Aniello Arena, que vive o protagonista Luciano, não pôde vir à Cannes, pois cumpre pena na prisão

A sexta-feira começou em clima de chuva e de Big Brother. Ou Grande Fratello, como os italianos chamam o reality show. Reality também é o nome do novo filme de Matteo Garrone (de Gomorra), o quarto filme a concorrer a uma Palma de Ouro este ano. O filme foi exibido na manhã de hoje e agradou, mas não muito. Bem cuidado, super analítico e até um tanto frio, Reality retrata a transformação de um peixeiro napolitano, um ‘homem comum’ em um ser obcecado pela ideia de estar sendo observado o tempo todo pela produção do programa. Causou desconforto e trouxe à tona as discussões sobre a medida do real, da fantasia e da ética na TV atual.
Detalhe irônico: O ator que vive o pescador Luciano (Aniello Arena) não veio a Cannes porque está preso há 18 anos. “Ele faz parte do grupo de teatro Companhia da Fortaleza, que trabalha com prisioneiros em Pisa, e ganhou permissão para sair da prisão e rodar o filme, mas não para comparecer ao Festival de Cannes”, explicou Garrone em coletiva de imprensa após a sessão.
Flavia Guerra/ Cannes

O segundo dia do Festival de Cannes começou em clima de romance (ainda que bem complicado) com Rusty and Bones (Algo como Ferrugem e Ossos). Estrelado por Marion Cotillard, o filme de Jacques Audiard (de O Profeta, premiado aqui em 2009) conta a historia de uma treinadora de baleias que se envolve com um ex-boxeador. Emocionou crítica e público e trouxe o amor para o primeiro plano da competição. Amor também foi o tema do terceiro concorrente à Palma de ouro, o austríaco Paradise: Love/ (Paraíso/Amor, de Ulrich Seidl). Quer dizer, amor e dinheiro. E por que nao dizer: sexo, dinheiro, política, racismo, colonialismo… O filme conta a história de uma senhora austríaca que vai passar férias em um balneário paradisíaco do Quênia. Ela está em busca de descanso e amor. Quer dizer, de sexo… Mas para isso, tem de pagar a um dos centenas de jovens quenianos que rondam os resorts locais oferecendo artesanatos, passeios e, claro, ‘amor’.

O filme não agradou muito a imprensa internacional, que o julgou exagerado e apelativo. Eu particularmente vejo uma grande ousadia em revelar cenas que todos sabemos que existem..mas que não gostamos nem de imaginar, como um grupo de mulheres que paga para um garoto de programa ser a cereja do bolo de aniversario de uma delas. O diretor filma este universo quase com rigor documental. A dramaturgia perde, mas a crueza ganha. E a estranheza é o que fica. Escolha, no mínimo, ousada de Cannes.
Já nas seções paralelas Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica foi dia de abertura. Na primeira, o sempre cult Michael Gondry apresentou seu The We and The I. Na segunda, foi a vez de Broken, de Rufus Norris, inaugurar a Semana da Crítica sob problemas técnicos que paralisaram a sessão. Mas que foram contornados.

Flavia Guerra/ Cannes
Já dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. E o concorrente à Palma de Ouro exibido nesta quinta-feira para a imprensa (a sessão de gala do filme ocorre amanhã e promete) foi quase unânime na rejeição e nos risos nervosos que causou. Isso porque o longa do austríaco Ulrich Seidl pesa a mão ao contar uma história repleta de diferenças culturais, econômicas, socais, afetivas, geográficas, sexuais… Vamos à trama: Em um paradisíaco balneário do Kênia, mulheres europeias, todas já beirando os 50 anos, passam as férias curtindo o paraíso. E por paraíso entenda-se não só as águas quentes e claras das praias transparentes, nem a água de coco local… O que cheira e tem gosto de coco é a pele dos negros que elas ‘experimentam’ ao se deixarem levar pelos prazeres da carne. Carne esta paga com muito gosto e muito suor. Mas quem sua mesmo são os negros locais, que prometem ‘amor eterno’ em troca de muitos trocados para ajudar um irmão doente, um outro acidentado, um sobrinho precisando de leite…

O mal-estar causado por cenas de um grupo destas senhoras que contratam um negro para ‘animar’ a festa de aniversário de uma delas é digno de nota. No fundo elas sonham na verdade com um homem que lhes olhe nos olhos e não nas formas já longe de seu auge. Elas querem amor. Eles querem dinheiro. Elas também querem uma ‘besta safada’, que pule em cima delas como um predador… ‘um tigre, um gorila’. Quem está mais certo ou mais errado nesta trama altamente contemporânea? Difícil responder. Falta sutileza? Falta. Mas sobra ousadia e contundência. As entrevistas e a coletiva de imprensa do filme ocorrem nesta sexta. E a sessão de gala também. O choque entre o desfile pelo tapete vermelho, a pompa e circunstância dos convidados à la black tie com este retrato em branco-e-preto do turismo sexual, do colonialismo tardio e de tantas outras questões será, no mínimo, interessante. A ver!
O diretor do filme “After the Battle”, Yousry Nasrallah, fala sobre filmar na Praça Tahrir e o futuro do cinema árabe:
http://tv.estadao.com.br/videos,PRIMAVERA-ARABE-E-TEMA-DE-DEBATE-EM-CANNES,169778,0,0.htm
Cenas de Cannes – As benditas filas

Cena típica de um festival. Depois de cruzar com o presidente do júri, Nanni Moretti, que caminha calmo e tranquilo pela super lotada Croisette em direção à sessão de abertura da Quinzena dos Realizadores, o jornalista, o cinéfilo, o produtor, o distribuidor enfim, chega esbaforido em frente ao Théâtre Croisette no hotel Marriot. Obviamente, diante da fila imensa, que vira a esquina, o ‘cidadão comum’, ou o que não chegou uma hora antes, perdeu a estreia mundial de
The We and The I, do sempre cult Michel Gondry.
O que fazer então? Correr para o Espace Miramar, na esperança de conseguir entrar na sessão de abertra da Semana da Crítica, de Broken, Rufus Norris, com a presença do presidente do júri da seção Un Certain Regard, Tim Roth. Corrida por dois quarteirões até a sala mais próxima e… bang! Outra fila quilométrica, outro empurra-empurra para conseguir um lugar não ao sol, mas sim na sala escura.
Sala lotada..
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“Moonrise Kingdom”, de Wes Anderson, foi uma escolha acertada para abrir o festival; Flavia Guerra comenta esse e o filme egípcio “After the Battle”
http://tv.estadao.com.br/videos,FESTIVAL…
Cannes 2012 – Cenas de um Festival:
Ingresso sobrando? Eu quero!
Você sabia que há pessoas que acordam cedo, madrugam praticamente, voam de outro país, vestem seus longos, seus smokings, e vão para a porta do Palais em Cannes para, literalmente, mendigar um convite para alguma sessão de gala do dia? Pode ser qualquer filme. O que importa é que seja A gala! E que se possa desfilar pelo tapete vermelho lindo (ou quase, depois de horas debaixo do sol). E como conseguir isso? Pedindo, oras! Vale cartaz, cara de cão-sem-dono, mini-saia de paetê justinha para atrair algum caridoso de plantão que não vai usar seu ingresso… Na briga pelo glamour, vale tudo!
Assista na TV Estadão:
http://video.br.msn.com/watch/video/a-ba…
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