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O brasileiro ‘Ventos de Agosto’ leva Menção Honrosa no Festival de Locarno

Flavia Guerra

16 agosto 2014 | 09:48

Primeiro longa de edição do diretor Gabriel Mascaro foi o único filme nacional a integrar a competição oficial do evento

 

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Cena de ‘Ventos de Agosto’, de Gabriel Mascaro

O longa brasileiro Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, levou uma menção honrosa no Festival de Cinema de Locarno, que acaba de divulgar os premiados de sua 67a. edição. Em uma competição acirrada, que teve grandes nomes do cinema de autor como o filipino Lav Diaz,  o Pedro Costa, Ventos de Agosto chama a atenção por sua direção livre e segura ao mesmo tempo, em que o diretor, estreando em longas de ficção, encontrou um equilíbrio tênue, mas marcante, entre a realidade e o roteiro pré-escrito.

O filme foi bem recebido em Locarno por público e crítica e abriu caminho para que o júri também ressaltasse a obra com este prêmio especial. “É mais que uma honra sair com uma menção especial de um festival que apostou em filmes arriscados e dividiu este risco junto com os realizadores. Mais ainda quando os premiados são artistas que muito admiro e resumem com muita honestidade o espírito do Festival de Locarno e o cinema que eu acredito”, declarou o diretor ao Estado.

 

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Cena de ‘From What is Before’, do filipino Lav Diaz, Melhor Filme em Locarno

Já quem levou  o principal prêmio do evento, o Pardo D’Oro, foi justamente Lav Diaz,  por seu rigoroso e belo Mula Sa Kung Ano Ang Soon (From What Is Before), com duração de mais de cinco horas.  O prêmio especial do júri foi para o americano Listen Up Phillip, de Alex Ross Perry,  com Jason Schwartzman e Jonathan Pryce, sobre dois escritores que, apesar do sucesso, são infelizes e incapazes de se relacionar com seus amores  e amigos.

A melhor direção foi para Cavalo Dinheiro, do cultuado diretor português Pedro Costa, que contou a bela história de Ventura, um homem às voltas com os símbolos e os fantasmas de sua vila destruída pela revolução.

 

ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE PASSAM OS ‘VENTOS DE AGOSTO’

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‘Ventos de Agosto’  caminha entre a fronteira da ficção e da realidade

Para compreender a atenção despertada no júri oficial de Locarno, presidido por e composto por Alice Braga, é preciso entender que, mais do que somente o resultado, o que interessa ao diretor Gabriel Mascaro é o processo de se realizar um filme. Para ele, é extremamente difícil distinguir a ficção da realidade. Pudera. Mascaro tem no currículo documentários de sucesso como As Aventuras de Paulo Bruscky, Domésticas, Avenida Brasília Teimosa, entre outros. Em todos, há sempre um olhar atento para os limites entre ficção e realidade. Ao assinar Ventos de Agosto, seu primeiro longa de ficção, o cineasta faz uso de toda experiência que adquiriu com o documentário para criar uma narrativa porosa, que está aberta a absorver o que de melhor a realidade oferece, quase que por puro acaso, diante de suas lentes atentas.

Para isso, Mascaro mistura o roteiro pré-escrito com ações espontâneas dos personagens não-atores do filme, que contracenaram com a protagonista Shirley, vivida pela atriz Dandara de Morais. Ela, aliás, ao contrário dos não atores, não tinha roteiro e trabalhava suas ações com base em proposições e improviso. “Assim como a vida e a morte, que não são separados, o real e o ficcional também estão ligados. São parte da mesma questão. É por isso que para mim é importante trabalhar a convergência entre tudo. São partes da mesma experiência de filmar e experimentar a vida”, declarou o cineasta para a imprensa do Festival de Locarno logos após a primeira sessão mundial de Ventos de Agosto, único filme brasileiro na principal competição do evento.

Se  o longa agradou a crítica internacional e o júri, a resposta do público foi ainda  melhor. A plateia embarcou na história de Shirley, uma garota que chega da cidade grande para viver em um pequeno vilarejo de pescadores em Alagoas. Ela sonha em ser tatuadora, mas ganha a vida com a colheita de cocos na região. Enquanto seu romance com o pescador Jaison (Geová Manoel dos Santos) segue por caminhos tortuosos, o forte vento da “zona de convergência intertropical” se revela mais um personagem que ronda as vidas dos personagens e dos reais moradores da vila. Enquanto isso, um pesquisador de vento, interpretado pelo próprio Mascaro, registra as fortes rajadas que varrem a região no mês de agosto. O  contraste entre a figura tecnológica e racional do pesquisador causa um estranhamento singular. “É possível viver de vento? Dá dinheiro”, pergunta um morador ao pesquisador. “Eu, por ser documentarista, sei que, por mais que queiramos passar despercebidos, quando chegamos com uma câmera, somos muitas vezes agressivos. Filmar é um gesto de violência. E eu quis falar disso, e de como a ficção muitas vezes é até mesmo mais honesta com a verdade que o documentário”, analisou o diretor diante do público que lotava o debate após o filme.

Sobre a escolha do local das filmagens, Mascaro declarou ao Estado: “Comecei a pesquisar sobre o avanço do mar no litoral brasileiro e me deparei com várias mansões abandonadas e destruídas pelas ondas. Comecei a refletir sobre esta arquitetura ‘recente’, que em menos de 30 anos de sedimentação já virou ruína e escultura de um sonho passageiro. Em seguida, descobri um cemitério que estava sendo engolido também pelo mar. Com essas duas imagens na cabeça, o roteiro começou a ser esboçado. Escrevi sobre abandono, sobre a água, o sol, o sal, o cimento… Mas por trás de tudo isso, invisível, estava o vento. Como criar imagens de coisas invisíveis? Minha inquietação partiu do desejo de pesquisar esta impossibilidade. Ventos de Agosto terminou virando um filme sobre permanência e passagem, e nada mais simbólico que o vento para soprar uma narrativa tão porosa e livre.”

Já sobre seu personagem, o diretor contou que surgiu depois que a estrutura narrativa do filme estava pré-definida. “Foi bom quebrar esta estrutura. Foi uma forma de me reencontrar com minha pesquisa, que vem das artes visuais. Para mim foi importante porque isso dizia muito sobre a história. Criar o estranhamento de alguém que se modifica e modifica as pessoas. Fala da impossibilidade da vida.”

A carreira de Ventos de Agosto começa agora e, em breve, o filme deve estrear em festivais e nas salas comerciais do Brasil. É a chance para se conferir um belo trabalho que, em vez de se ater às amarras de um roteiro pré-planejado, deixa corajosamente espaços para o que de imponderável vai acontecer diante da câmera. Esta liberdade de contar com o acaso que Mascaro por alguns pode ser vista como falta de controle, mas, para quem sabe que realizar documentários é estar justamente disposto a perder o suposto controle e navegar com o vento, soltar as amarras é justamente a grande força de um diretor.

CONFIRA A LISTA DOS PREMIADOS DO FESTIVAL DE LOCARNO 2014

Melhor Filme – Pardo d’oro
MULA SA KUNG ANO ANG NOON (From What Is Before) de Lav Diaz, Filipinas

Prêmio Especial do Júri
LISTEN UP PHILIP, de Alex Ross Perry, Estados Unidos

Menção Honrosa
VENTOS DE AGOSTO, de Gabriel Mascaro, Brasil

Pardo de Melhor Direção
PEDRO COSTA, de CAVALO DINHEIRO, Portugal

Pardo  de Melhor Atriz
ARIANE LABED, de FIDELIO, L’ODYSSÉE D’ALICE, dirigido por Lucie Borleteau, França

Pardo de Melhor Ator
ARTEM BYSTROV, de  DURAK (The Fool), dirigido por Yury Bykov, Rússia

 

Concurso Cineastas do Presente

Pardo d’oro – Melhor Filme
NAVAJAZO, de  Ricardo Silva, México

Prêmio Especial do Júri
LOS HONGOS, de Oscar Ruiz Navia, Colômbia/França/Argentina/Alemanha

Prêmio de Melhor Diretor Emergente
LA CREAZIONE DI SIGNIFICATO, de Simone Rapisarda Casanova, Canada/Itália

Menção Honrosa
UN JEUNE POETE, de Damien Manivel, França

 

Filme de Estreia

Melhor Filme de Estreia
SONGS FROM THE NORTH, de Soon-mi YOO, Estados Unidos/Coreia do Sul /Portugal

Menção Honrosa
PAROLE DE KAMIKAZE, de SAWADA Masa, França