

Duas ou três coisas que eu vi no Vietnam:

No Brasil ou no Vietnam, Mulheres são mulheres! As da etnia hmong das flores, que habita o noroeste do país, são coloridas, fashions e lindas!
Duas ou três coisas que eu vi no Vietnam:

Vietnam, Sapa.
No mercado da gélida Sapa (sim… faz frio, e muito!) um outro tempo dita o relógio, que diz quando é época de comer ‘fruta dragão’…morango ou de esperar as maças amadurecerem… Enquanto isso, as mulheres da dinastria hmong bordam e tecem o tempo nos coloridos vestidos.

Hanoi, Vietnã
Momento refresco.
Hoje, só por hoje, sem cachorro defumado, sem bicho da seda frito, sem sorvete de carne. Hoje foi dia de rolinho primavera de papel de arroz com vegetais. Prova de que a gastronomia vietnamita revela sim lindas e delicadas surpresas.


Set do curta O Caminhão reproduz a cena de uma das tantas fazendas de cachorro do Vietnã
Vietnã, Hoa Binh Province
Hoje foi dia de cão. Ou não. Foi dia da pequena May Vi, a atriz e estrela de The Truck (O Caminhão), filmar a cena em que sua personagem entra pela primeira vez em um matadouro de cachorros. Vi entrou distraída na ‘sala de abate’, onde os cachorros ainda vivos podem olhar sacos plásticos com ‘cachorros já bifes’ e outros cachorros inteiros defumados. Quando ela, nos seus 10 anos de ativismo contra o hábito de seu pai de adorar ensopado de cão, avistou um dos abatidos, simplesmente pulou, assustou-se e calou. Numa mistura de fascínio, curiosidade e medo.
Foi a primeira vez que eu também vi que fim levam os cachorros que vejo por aí indo de um lado para o outro em gaiolas nas garupas das motos. Isso porque, hipocrisias e julgamentos morais e culturais à parte, os magricelos cãezinhos que vão e vêm, como já disse em outro post, são tudo menos ‘apetitosos’ à uma primeira olhada.

Quando não são vendidos por pedaços, os cachorros são defumados inteiros e pendurados nas vendas locais
A meu ver, à segunda e à enésima olhada também. Já aos olhos dos vietnamitas que apreciam a iguaria, como bem disse a bela Ly, não é a aparência nem a textura da carne de cachorro que a torna um bom prato, mas sim o preparo e os temperos.
Pudera! O tal fim que levam os cachorros, além de ser a panela, é virar uma espécie de bicho embalsamado que, exposto e pendurado, é vendido inteiro e talhado em casa pelo comprador. Ou talhado aos pedaços nas vendas locais.
Os meus descritos sobre este hábito alimentar dos mais esdrúxulos aos meus olhos ocidentais quase vegetarianos (uma vez que nem mesmo uma bela picanha entra no meu cardápio) são impossíveis de não soaram um tanto tétricos, mas a mera descrição do abate de um animal, seja ele uma vaca, um porco ou uma galinha, são, por si só, crueis e tétricos.
Cabe a nós não julgar, mas aprender e conhecer. E olhar, quem sabe, para nossos próprios hábitos alimentares e encontrar similaridades. Que vida, e fim, têm os frangos e chesters e afins que já nascem ‘prontos para o abate’ e jamais sabem o que é ter ‘uma vida de frango feliz do terreiro’? Que alegria de vida de ‘vaquinha do campo’ têm as vacas que vivem confinadas com as tetas aprisionadas por extratores de leite? Mais uma vez pergunto, sem encontrar resposta, qual a diferença?
ly no
Feijoada completa e ensopado de cachorro. Qual a real diferença?
Vietnã, Hoa Binh Province
Então eis que a linda Ly, atriz e coach dos atores do curta-metragem que estamos rodando no Vietnã, me diz com a maior naturalidade: “Carne de cachorro não é boa pela consistência. Porque é normal. Parece carne de porco e de frango. Mas sim pelos temperos. É tão bem temperada que fica uma delícia.”
Confesso que para uma ocidental que nem mesmo carne de vaca come (apesar de achar a vaca tão ‘humana’ quanto os cachorros), ouvir tal comentário enquanto os criadores de cachorros locais tiravam vários de uma gaiola grande em que são transportados para gaiolas menores (em que são, em geral, transportados em motos) causa, no mínimo, estranheza.
A linda Ly ali, exibindo sua delicada beleza asiática ao mesmo tempo que discorria sobre os temperos usados para deixar um autêntico vira-latas com gostinho da fazenda… Nem mesmo o mais cosmopolita dos ocidentais fica indiferente ao costume asiático (sim, porque na China e na Coreia cachorro também é iguaria muito apreciada) de criar cachorros feito galinhas (quanta crueldade, não?), sem ter ‘vida de bicho sadia’ (qualquer semelhança com o Chester é mera coincidência) e nem mesmo ter o cuidado de não causar ferimentos no transporte.

No Vietnão, cachorro de rua não vira sabão. Vai para a panela.
Esmilinguidos, raquiticos, com pulgas, conjuntivite, ferimentos e um olhar triste de não ter jeito, os cãezinhos pele e osso me faziam pensar: Mas que bife sai deste ser tão franzinho?
“Bife não sai, mas pata de cachorro é uma delícia… e tem as costelas…” Eis que enquanto Ly comentava as práticas, uivos de dor dos cães que eram retirados da gaiola com um enforcador me sufocavam. Mas o que mais me sufocava mesmo era o olhar melancólico e resignado dos cachorros. Ao contrário dos pets, que são extremamente estimulados, mimados, escovados, valorizados e amados (às vezes, desculpem os que chamam os seus cães de ‘filhinho da mamãe’, até amados demais) os cães criados para serem abatidos são apáticos e tristes. Exibem uma resignãção digna de um louvável bode expiatório. Como se soubesse cumprir com dignidade sua sorte.
O curta O Caminhão do Meu Pai (nome provisório), que estamos filmando aqui, conta justamente a história de uma garotinha, May Vi, cujo pai transporta cachorros. A nossa pequena estrela mirim, uma linda menina de 10 anos cujo inglês fluente e perspicácia faz inveja ao ensino de linguas estrangeiras nas escolas públicas do Brasil, é contra comer cachorro. Disse ela hoje: “Meu pai come, mas eu não. Eu tenho um cão de estimação. Cães são família. Família a gente não come.”
Amanhã, Vi entra no set para filmar numa Dog Farm (a Fazenda de Cachorros) e vai ver pela primeira vez ‘membros da família’ pendurados, já ‘depenados’, prontinhos para defumar. A reação dela, conto também amanhã aqui.
É…. parafraseando Guimarães, cão e cães é questão de opiniães.

No rigoroso e húmido inverno vietnamita, o pescador, na terceira margem do Rio Nam Hung, resiste.
“Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.” Guimarães Rosa
(Texto extraído do livro “Primeiras Estórias”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1988, pág. 32)
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