ir para o conteúdo
 • 

Flávia Guerra

Vietnã – Província de Dang Dinh

 

funeral.jpg

Então, ontem também foi dia de filmar na província de Dang Dinh. Mais precisamente na Estrada do Cemitério da pequena província a leste de Hanoi. Mais precisamente  ainda, não era exatamente um cemitério. Só algumas poucas tumbas espalhadas em meio aos arrozais.  E a pequena Mai Vy, atriz do nosso pequeno-grande filme, que, aos 10 anos fala melhor inglês que muito marmanjo, me pergunta: “Vocês também têm isso no seu país?”

Tem o que, Vi? Arroz? “Não. Isso!”.  Isso o que? Plantações? “Não…Isso?” Isso o que? Tumbas? “É! Estas casas em que moram as pessoas que estão dormindo para sempre.”

Sim, Vi. A gente tem isso no Brasil também. Em todos os lugares as pessoas morrem. E a gente enterra, crema… Só não faz no meio da plantação… Mas a morte está em todo lugar.

A diferença é que aqui, e em toda Ásia, os mortos (que dormem neste mundo para acordar em outro), ganham mais presentes do que os vivos. Em toda casa, há um pequeno altar aos antepassados. Cultuados com carinho, ganham seus quitutes favoritos, frutas, bolinhos de arroz, incenso, e até cigarro. Mas melhor mesmo é que ganham dinheiro. É tradição das mais sérias por aqui literalmente queimar dinheiro (falto, claro) para os mortos fazerem bom uso dele lá do outro lado. E para que nunca falte aos deste lado aqui.

Diferente é também como se celebra (sim, deve-se celebrar sempre!) a partida de alguém. Hoje, enquanto filmávamos cenas do nosso caminhão (não por acaso, o filme se chama O Caminhão, que no próximo post explico mais), um funeral passou pela plantação, pelo cemitério e seguiu. O silêncio era quebrado por uma barulhenta harmonia que anunciava a passagem do cortejo. Em vez de preto, muita cor. De acordo com o grau de parentesco do morto, usa-se uma faixa colorida na cabeça. Os netos usam amarelo. Os amigos, branco.

E o ser que hoje virou antepassado era veterano de guerra. Os netos abriam o cortejo. Os amigos, todos devidamente fardados e lindos em sua nobreza, fechavam o desfile.

É… a vida e a morte são denomidores comuns. Mas cada um dá a ela a cor e o som de acordo. E fica de fato a sensação de que o que se leva desta vida é de fato a vida que a gente leva. Incluindo o funeral.

Amem!

1 Comentário | comente

plantarfilmescolheramor.jpg

 

Vietnam thoughts (ou das coisas que vejo por aí e ouço por aqui):
A gente acha sempre que já viu de tudo. Tenha 18 ou 81 anos, a arrogância é algo que quase sempre nos acompanha.

Mas há sempre algo que nos surpreenda. Há sempre palavras simples que contam mais que qualquer matéria de jornal. Há sempre imagens do cotidiano que contam mais que qualquer foto premiada.

E hoje, e então, entre um take e outro do curta que ajudo a filmar aqui (The Truck, O Caminhão), um velho vietnamita meio assim fora do contexto olhava as filmagens. Até aí, nada de novo no front. Filmagens e sets são sempre atração para a população local. Mas o velho, certa hora, como quem não ouviu pergunta alguma, mas tem a resposta certa, me diz, com seu parco inglês aprendido na Guerra:
“Faça um filme de amor. E não de guerra. Sun Tzu dizia que todos gostamos de belas palavras, porém poucos as transformam em atos. A guerra passa. A vida passa. O amor fica. Eu só guerreei, e, com medo, deixei meu amor passar. Tinha mais medo do amor do que da guerra. Você sabe o que é amor? Amar, minha filha, é como cuidar do arroz no campo. É todo dia. Se você ama, cuide do seu arroz. Só amor de que você cuida é capaz de ser teu alimento. O resto são palavras, e sementes, ao vento.”

comentários (5) | comente

 

Ihanoi.jpg

Então você achava que o trânsito de SP era caótico… e que tinha motos demais…
e que a cidade era muito seca e poluída no inverno… e que buzina irrita… Bom dia, Hanoi!

Hanoi – Vietnã

 

Então, depois de meses de ausência do front, recomeço, sem muita explicação, mas com grande satisfação, este blog que vos fala desta vez do Vietnam.

O mote, o olhar periférico, que a tudo observad do centro da periferia para as periferias centrais de tudo, continua o mesmo. Mas o ponto de partida desta vez é a capital do Vietnã.

Antes que se perguntem, estou aqui para passar férias. E tirando férias das férias, estou também para rodar um curta-metragem. The Truck of My Father. O caminhão do meu pai, que, a meu ver, deveria se chamar It’s a dog’s life. É uma vida de cão a que os cães vietnamitas têm. Ainda que os ocidentais matem tantos outros animais para comer, é inegável que aceitar o fato de que alguns orientais matem cães para fazer não sabão, mas sopão, é difícilimo.

O filme não fala exatamente disso. Dirigido pelo grande amigo e talentoso Maurício Osaki, que me dá a chance única de passar minhas férias aprendendo um pouquinho mais a fazer cinema para, então, escrever melhor ainda sobre a sétima arte e me aventurar ainda mais em sets futuros, The Truck fala da infância de das descobertas feitas pela pequena Vi, uma garotinha de 10 anos de idade que descobre que o pai é muito mais, e também muito menos, do que ela pensava ser.

Assim tem sido o Vietnã para mim. É muito mais, e muito menos, do que eu (e a a maioria esmagadora) de brasileiros pensava ser. É mais encantador, intrigante, surpreendente, caótico e zen ao mesmo tempo. É menos amendrontador, perigoso, pobre, estranho.  É um novo olhar a cada dia.

A partir de hoje inicio um diário de filmagens do curta. E outro de pequenas-grandes impressões desta terra encantadora.

 

Antes, é bom saber:

HaNoi significa ‘Cidade Entre Rios. Ou em que o rio corre em seu interior.’

Mas poderia se chamar: EM MODO DE CAOS CALMO. Quiet chaos inside.

O trânsito da capital do Vietnam é um grande caos de fazer inveja à 23 de Maio em sexta-feira à tarde antes do Natal, mas há uma espécie de caos zen que faz com que todos saibam que está tudo errado, mas que tudo vai dar certo no final.

1 Comentário | comente

‘A Serbian Film – Terror sem Limites’, polêmico por cenas com violência fictícia contra crianças, estreia no dia 26

serbianfilm.jpg

Quatorze dias depois de ter sua cópia em 35mm apreendida pela Justiça do Rio, em 22 de julho, o filme A Serbian Film – Terror Sem Limites teve sua exibição liberada no País. Mas segue proibido no Rio por conta de ação encaminhada pelo DEM.
Além da liberação, após o distribuidor Raffaele Petrini, da Petrini Filmes, ter entrado com pedido oficial de esclarecimento ao Ministério da Justiça, o filme recebeu classificação indicativa de 18 anos. “Havia entrado com o pedido de classificação em 28 de junho, antes da polêmica e da proibição começarem, mas não recebi resposta nenhuma. Já imaginava que este seria um filme complicado por conta de seu tema, mas não imaginava que tomaria tais proporções. A proibição não diz respeito à qualidade do filme, mas sim à liberdade de expressão e à censura no Brasil”, disse Petrini ao Estado.
A carga polêmica se deve ao fato de conter cenas de sexo e violência. A Serbian Film conta a história de um ator pornô obrigado a entrar em um projeto obscuro, sendo submetido a barbaridades.
O procedimento que apontaria se a produção seria indicada para maiores de 18 anos, como foi decidido ontem, foi interrompido em 29 de julho, quando o procurador Fernando Martins, de Minas Gerais, entrou com uma ação pedindo a interrupção. “Finalmente a decisão saiu. E vamos esperar o desenrolar da situação no Rio”, disse Petrini.
No Rio, mesmo após a decisão do Ministério da Justiça, o filme continua proibido porque o partido DEM pediu a apreensão da cópia, alegando “verdadeira apologia a crimes contra crianças e um incentivo a práticas de pedofilia”. “O que não é verdade. Quem viu o filme reconhece claramente que é um ato político contra as barbaridades do mundo de hoje. Em poucas palavras: é um filme feito para chocar, com conteúdo político, sim, mas fundamentalmente é um produto de entretenimento, uma obra de ficção com posição clara contra a pedofilia e contra outras barbaridade”, declarou Petrini.
O distribuidor, que tenta recuperar a cópia em 35mm apreendida no Rio, vai lançar o filme nos cinemas em cópia digital, em várias capitais brasileiras, em 26 de agosto.

comentários (33) | comente

360rachelejude1.jpg
Jude Law e Rachel Weisz em cena de 360
O Amor cabe em 360
“QUANTO DA VIDA É DE FATO FRUTO RACIONAL DE NOSSAS ESCOLHAS? E QUANTO É FRUTO DE UM MOSAICO EM QUE AS PEÇAS ESTÃO CONECTADAS?”
Quanto da vida cabe em um filme de pouco mais de uma hora e meia? Filme este que consumiu três anos da vida do diretor Fernando Meirelles e de outras dezenas de pessoas da equipe de 360, seu mais novo filme, que tem pré-estreia mundial em setembro, no Festival de Toronto.
Quanto de uma bela entrevista cabe em uma página de jornal? A limitação ‘física’ do formato impresso sempre nos obriga a cortar (e na maioria das vezes melhorar) um texto. Mas quando o assunto é 360, é o filme-táxi que o sempre atencioso Meirelles está acabando e que, aos 45 min do segundo tempo, mostrará pela primeira vez em Toronto, a ‘ilimitação’ do online se justifica.
Outro dia uma leitora escreveu que eu escrevo ‘meio mal’, que eu não sou concisa, que meus temas não são ‘novos’ e que enfim… Bem ou mal. Pão e pães é questão de opiniães, já dizia Guimarães. E de fato não sou concisa. De fato meus temas não reinventam o mundo. Mas, honestamente, há temas que prescindem da concisão. E os temas que ainda giram o mundo em 360, como bem diz Meirelles na entrevista abaixo, são os mesmos desde os tempos dos Visigodos. “Ainda somos Visigodos, só que com Iphones.”
Enfim, para tentar ser menos prolixa,paropor aqui. Segue a íntegra da entrevista que Meirelles me concedeu. Nela, falou de cinema, da vida, do tempo e de um ‘grande mal’ que o acomete: O entusiasmo!
360meirellesfilma.jpg
Meirelles durante filmagem de 360, seu filme mais global e intimista ao mesmo tempo
ANTES. UM APARTE IMPORTANTE:
Que os jornalistas e críticos de cinema assistem aos filmes antes deles chegarem aos cinemas, nas chamadas cabines, quase todo mundo já sabe. O que não sabíamos é que Meirelles planeja lançar 360 SEM fazer nenhuma cabine para jornalistas. Por quê?
Por isso:
“Vou propor ao distribuidor no Brasil, Paris Filmes, que não faça cabine do filme para os críticos antes do lançamento. Nada contra os críticos, leio regularmente muitos deles quando escrevem sobre outros filmes que não os meus, mas é que lembro que anos atrás um filme estreava num final de semana e a crítica só saia no final de semana seguinte. Com esta obsessão que os jornais têm por furar o concorrente hoje em dia, antes da estreia, o filme já foi carimbado com as tais estrelinhas. Seria bom conseguir ao menos uma semana em que o público pudesse avaliar por si mesmo o que viu antes de ler a opinião de especialistas. Acho que voltarmos a fazer como era feito antes é melhor para os produtores e diretores, para o público e para os críticos, que poderão ser mais honestos sem ficarem com receio de serem duros antes do filme estreiar. É isso! Vou começar a tentar convencer meus amigos diretores e produtores a fazerem o mesmo. Morte às cabines! Pronto, um novo desafio para minha vida. Já me entusiasmei com a idéia.”
A VER!!!

————————————————————————————————————
AGORA
ENTREVISTA: FERNANDO MEIRELLES

360fejameldebouzebybarriemculloch.jpg
Meirelles e o ator Jamel Debouze
Foto de Barrie McCulloch, assistente de direção de “360″
(foto do blog de 360: http://blog360ofilme.blogspot.com)
A 360 por hora
Menos é Mais. Mais difícil. Mais desafiador. Mais intimista. Mais introspectivo… Ao menos quanto se trata de 360, o novo filme de Fernando Meirelles que tem pré-estreia mundial no Festival de Toronto. Apesar de sugerir, e ser, uma volta ao mundo (ainda que metafórica), 360 é o filme mais simples do diretor que já filmou a guerra do tráfico no Rio, calamidade mundial, conspirações internacionais… Com roteiro do premiado Peter Morgan (de A Rainha, Frost/Nixon e Além da vida, inspirado na polêmica obra do austríaco Arthur Schnitzler, Der Reigen (Ronda), escrita em 1897. A trama da peça gira em torno dos encontros e desencontros de casais de diferentes classes sociais e origens culturais, raciais, religiosas. A cada ‘ato’, um personagem do ‘ato’ anterior se repete, e assim sucessivamente.

Quando Schnitzler, que era médico, publicou a obra, foi acusado de imoralidade por seu marcado erotismo. Ronda ganhou adaptações para o teatro e o cinema, como Conflitos de Amor (1950), do alemão Max Ophüls, indicado ao Oscar de melhor roteiro. Porém, Meirelles nega que haverá muitas semelhanças entre as tramas. “Peter se inspirou principalmente nos elos que unem as pessoas, sem que elas mesmas saibam. E sem que possam interferir nas escolhas que acabam sendo feitas e que as afetam. Quanto de fato é fruto racional de nossas escolhas? Quanto é fruto de um mosaico em que todas as peças estão conectadas?”
Assim como as contradições humanas que fazem de 360 uma história tão rica, a contradição entre o fato de ser, como Meirelles define, um filme pequeno, despretensioso e íntimo, o longa exigiu uma estrutura de produção complexa, com equipes na Inglaterra, França, Áustria, EUA e Eslováquia. 360 é, como o próprio Meirelles define, um filme-táxi, em que os passageiros/ personagens/atores sobem e descem de seu táxi todo o tempo. E ele, mesmo sem itinerário definido, acaba conduzindo todos a um destino comum. Os passageiros deste táxi vão desde a brasileira Maria Flor ao astro Anthony Hopkins, passando por Rachel Weisz, Jude Law, Juliano Casarré, Jamel Debouze e Ben Foster.
Além do desafio de conduzir sua trupe em cenas que não contavam com a saída fácil da parafernália de grandes tomadas aéreas, Meirelles pela primeira vez dirigiu atores em línguas que não compreende, como alemão, eslovaco… Sem contar que teve de se adaptar a variações de clima, cama, comida…
Orçado em US$ 15 milhões, o filme é uma co-produção Inglaterra, França, Áustria e Brasil, “mas a Ancine não o considera brasileiro por não preencher todos os requisitos técnicos necessários para isso, ou seja, não estamos usando dinheiro brasileiro mas isso não faz com que o filme deixe de ser brasileiro, já que além do diretor, montador e dois atores, a montagem e pós-produção estão sendo feitas na O2 Filmes, em São Paulo”, explicou o diretor ao Estado.
360meirellesjudet.jpg
Set internacional, com locações na Inglaterra, França, Áustria, EUA e Eslováquia
Lançar 360 em Toronto foi desde sempre uma estratégia?
Os produtores falaram em Veneza ou Berlim mas não teríamos tempo para terminá-lo para Veneza e Berlim está muito distante. Quero lançar o filme ainda este ano para começar 2012 com uma nova claquete. Estamos correndo para pegar Toronto, vamos acabar aos 45 do segundo tempo. Para o mercado norte-americano, Toronto é hoje o principal festival de cinema. O mercado está se igualando a Cannes em volume de negócios e a cada ano cresce mais. Esta será minha quarta vez em Toronto, onde estive com Domésticas, CDD e Cegueira.

 

Assim como em Ensaio Sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel, 360 tem locações, em vários países, com equipes e culturas diferentes trabalhando juntos. O que foi parecido, o que você trouxe do aprendizado anterior?

Desta vez rodei em alguns países diferente, mas o envolvimento da equipe e o processo todo foram parecidos com o Ensaio, tranquilo e agradável. Mais uma vez fiz muitos amigos de infância que sei que levarei pela vida.

O que foi novo?
Nunca havia dirigido atores em línguas que não falo. Em 360 há cenas em russo, eslovaco, árabe e algumas falas em alemão, além do português, inglês e francês. Mesmo quando não se entende o que um ator fala, é possível saber se um ator está bem ou não. Mas ser capaz de entender todas as palavras é bem mais confortável. Com um dos atores, Vladimir Vdovinchenko, eu falava sempre por meio de uma intérprete.
360mariafloreanthonyhopkins.jpg
Maria Flor e Anthony Hopkins em cena de 360
Rodar um filme em uma só locação já é exaustivo. Rodar com o circo todo por tanto tempo, ao mesmo tempo em que é mais difícil, é também material dramático. Este deslocamento ajudou? O’drama real’ de se adaptar a cada locação, clima, culturas ‘imprimiu’ no ‘drama na tela’?
O trabalho num set é bem globalizado. Em todos os lugares as equipes se comportam mais ou menos da mesma maneira. Então a adaptação é fácil. A equipe principal de 360 era basicamente inglesa. E foi sempre a mesma nas nove semanas. Creio que anos de violência contra outros povos, pirataria e todo tipo de atrocidades que os britânicos praticaram ao longo da sua longa história no final lhes deram uma espessa camada de civilidade. São educados, cultos, divertidos, extremamente bons para se ter como parceiros. ( Curioso é que, apesar de tão civilizados, são hoje os maiores vendedores de armas do mundo).
Diante de um novo projeto, daqueles que parecem que não têm solução à primeira vista, você diz que vê a bola de neve descendo… e tem de se virar para correr ou encará-la. Quando entrou no projeto de 360, não sabia exatamente que filme ia fazer. E isso já é adrenalina e tanto. Não seria todo diretor um ‘viciado em adrenalina’?
No meu caso acho que não é tanto o vício na adrenalina, meu problema é que sofro de entusiasmo. De acordo com o dicionário a palavra vem do grego en + theos (em Deus), ou possuído por uma força divina. Não sou religioso então Deus está fora da minha equação, mas percebo quando sou arrebatado por uma alegria que me dá vontade de avançar sem medir obstáculos. Quando a onda passa, já estou comprometido e aí às vezes vem o arrependimento. Mas tenho que seguir em frente. Nunca ‘cherei’ na vida mas imagino que o efeito do pó tenha alguma relação com esta onda que me arrebata. Com a idade, aprendi a controlar isso um pouco e já sei que, mesmo quando vem a baixa, uma hora vou pegar a onda novamente. Se num momento me entusiasmei é porque alguma coisa ali falou com alguma parte dentro de mim então vale a pena ser investigada.
360filmagens.jpg
Esta foi a primeira vez em que Meirelles dirigiu atores em línguas que não entende
Depois de seu instinto ter te ajudado a solucionar os imprevistos de filmagem, de edição, você já pode responder, honestamente, que, além do impulso (e da intuição), por que entrou para o projeto de 360?
Porque gostei ou me identifiquei com um aspecto que está presente em quase todos os personagens do filme. São pessoas boas que tentam agir da melhor maneira possível mas nem sempre conseguem. Como todos nós, lutam contra seus desejos e pulsões. Às vezes ganham, às vezes perdem. Um sentimento muito humano e reconhecível mesmo para quem não tenha feito análise ou não costuma pensar nisso. O texto do Peter Morgan também é como pudim de leite, você vai devorando e não consegue parar.
Tratar de uma (ou várias) história que investiga as profundezas do desejo humano, das relações amorosas e sexuais que não ‘enxergam’ diferenças de classe social, cultura, língua etc já é um ‘motivador’ e tanto, não?
A semelhança deste filme com La Ronde do A. Schnitzler ficou praticamente reduzida a golpe de marketing. As histórias são muito diferentes e a estrutura, que na peça do austríaco é absolutamente circular, inovadora na época mas previsível hoje, em 360 está mais para uma circunferência desenhada pelo Braque, meio cubista.
360.jpg
Antes de filmar ‘de fato’ em Londres, equipe fimou ‘o frio’ em Minneapolis, nos EUA
Mas esta ciranda humana, este táxi de situações, é uma metáfora para os dias de Globalização em que vivemos? Quando Schnitzler escreveu as histórias, o ‘mundo era menor’. Há esta adaptação ‘de tempo e espaço’ no roteiro de Peter Morgan, não? O mundo hoje é maior, mas os dramas humanos continuam tão pequeninos quanto antes.
Fato. Ha uma coisa em nós que nem toda esta parafernália de internet e vida virtual mudará, como querem crer alguns. No fundo ainda somos como os Visigodos mas agora com IPhones. É por isso que ao ler Shakespeare, por exemplo, parece que conhecemos cada um daqueles personagens. Quando se toca neste núcleo duro, que é o que somos, uma obra tem mais chances de durar.
Ronda foi ‘proibido’, condenado enfim, na época de seu ‘lançamento no teatro’. Você acha que ainda há algo que choque (em questão ‘moral’) o espectador? Há muita cena de sexo? É mais difícil filmar ‘o sexo’ ou ‘a intimidade’?
Chocar é muito fácil e igualmente tolo. Filmar sexo explícito também não deve ser nada complicado, basta ter estômago. Já conseguir um clima de intimidade e verdade é bem mais complicado. Colocar os atores numa mesma sintonia, deixá-los à vontade, ser técnico mas manter um frescor. Acho que neste 360 há uma cena muito íntima entre a Rachel Weisz e o Juliano Cazarré em que chegamos em algum lugar. Não ha muitas cenas sexo no filme, aliás e as que estão lá acho que são elegantes ou tem humor.
360judelawerachelweiz.jpg
Rachel e Law em cena
Você, no processo de Cegueira, já ouviu muito sobre isso. Mas algo de novo deve ter havido no processo de trabalhar com esta Babel de pessoas novamente. Em específico com os atores, como foi trabalhar com o germânico Moritz Blerteu na mesma cena com Jude Law, com Juliano contracenando com Rachel?
Trabalhar com bons atores é sempre uma alegria. Você pede 4, eles entregam 25. Basta não ser uma anta e deixar eles fazerem o trabalho deles, que conhecem melhor do que você, que a cena sai boa. Às vezes acho que o momento de escolher o elenco é mais importante para o resultado do que o trabalho com os atores no set. Um diretor dificilmente salva um mal ator mas um mal diretor pode derrubar um grande ator. Com Neymar e Ganso em campo, o técnico tem que dar espaço. É mesma coisa no cinema.

 

Como foi, na prática, deixar temas como os de Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel, Cegueira para adentrar em temas mais introspectivos? Além da luz, que surge granulada para sugerir ao espectador em vez de ‘entregar de bandeja’, há outras descobertas e soluções que você e a equipe foram encontrando?
Este filme, mais do que os outros que rodei, foi sendo encontrado pelo caminho. Estava meio tenso antes de começar a rodá-lo pois gostava daqueles personagens mas não sabia exatamente sobre o que era 360.Numa tarde sentei com o Peter Morgan, roteirista, confessei que não entendia muito o que estávamos dizendo e pedi para ele ser claro e me explicar o que tinha na cabeça quando escreveu o roteiro. Para minha surpresa ele respondeu tranquilo: ‘Não sei, mas uma hora vamos saber ou então vamos quebrar a cara.” Por causa desta imprecisão na largada eu estava especialmente permeável à contribuição dos atores e de todos ao redor.

 

Valeu a pena?
O processo foi uma maravilha, foram dias muito felizes. Já o resultado não sei dizer, perdi a noção depois de ver o filme tantas vezes. Agora é esperar para ver se alguém paga o ingresso para assistir e esperar também que a turma que têm espaço nos jornais assistam e carimbem o filme com seus bonequinhos e estrelinhas informando a seus leitores se o último ano da minha vida foi de algum proveito ou se foi puro equívoco e perda de tempo.

 

 

comentários (10) | comente

educacaoruim.jpg

do blog:http://rmnofoco.blogspot.com/2010/12/brasil-um-dos-piores-na-educacao.html

São Paulo

Então. Hit do dia hoje na internet não foi o churrascão. Não foi nenhuma piada do CQC, não foi nenhum twitt polêmico. Foi o vídeo da professora Amanda Gurgel, detentora de um salário diferenciado de professora pública no Brasil, que faz um discurso diferenciado na Câmara de Deputados em audiência pública no Rio Grande do Norte.

Vale perder cinco minutos de qualquer reality show para entender melhor o nosso reality horror show: http://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lc…

E, vê lá, ela diz: ” Só quem está em sala de aula, só quem está pegando três ônibus por dia para poder chegar a seu local de trabalho, ônibus precário inclusive, é que  pode falar com propriedade sobre isso. Fora isso, qualquer consideração que seja feita aqui é apenas para mascarar uma verdade, que é visível a todo mundo. Em nenhum governo, em nenhum momento, que nós tivemos em nossa cidade, nosso Estado,  nosso País, a educação foi uma prioridade. “

Qualquer semelhança com o quadro negro de muitas e muitas escolas do restante do País e de São Paulo não é mera coincidência.

E, diante disso, pergunto: A escola pública está precária porque ‘os professores não se dedicam’ ou os ‘professores não se dedicam’ porque a escola pública (e o salário deles) está precária?

comentários (22) | comente

São Paulo – Zona Leste

camisetadiferenciada.jpg

MOTE

“A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida. A gente quer saída para qualquer parte. De preferência, DE METRÔ!”


Lembrando que blog não é jornal. Post não é matéria, eu, pessoa Flavia que cresceu em uma família diferenciada na Zona Leste, morou no Paraíso (ali do ladinho dos Jardins e que só teve a ganhar com a chegada do metrô Brigadeiro), em Londres (do ladinho de 5 linhas de metrô),  já rodou muitas capitais (de metrô, claro), estudou na Zona Oeste (ali na USP, na época em que não tinha metrô), trabalha na Zona Oeste-Norte (No Limão, para onde vai de metrô), eu gostaria de tentar fechar com humor, isso:

Diferenciados e não-diferenciados de todo o mundo, uni-vos! Sejamos realistas! E peçamos o (im)possível! Metrô pra todo lado! Por uma São Paulo menos classista e racista (de ambos os lados)! E mais bem humorada, reeeca para todos e moderna! Porque eu e os outros diferenciados queremos poder ir de metrô fazer comprinhas no Shopping Cidade Jardim e deixar nossas Maseratti na ZL!

Fui! De Metrô. Claro.

comentários (5) | comente

estacaodiferenciada.JPG

Próxima estação: Diferenciada

São Paulo (Bairro do Limão, onde está a redação do Estado, para onde venho de metrô até o Barra Funda e atravesso a ponte porque ainda não há metrô do outro lado do rio)

Então. Pronto! Virou bagunça! Minha gente. Pera lá. Preconceito se combate com inteligência, ação e humor.

Quer ver? Ó o que o leitor Eduard postou:

GENTE DIFERENCIADA

Tem gente diferenciada no Metrô
Servindo os clientes nos bistrôs
E cuidando das casas da elite
Que adora vê-los na televisão
Como seres de outra dimensão
Dimensão que para eles não existe.

Essa tal gente diferenciada
Quando divide as calçadas
Desperta verdadeiro horror
E chega a causar ânsia
Quando a sua fragrância
Não é ao menos Azzaro.

Isso me faz refletir
Sobre o direito de ir e vir
E me força a dizer: Basta!
Mudemos a nossa sociedade
Pois nela na realidade
Existe o sistema de castas.

Eduardo de Paula Barreto

peruao.JPG

Vagão Diferenciado

Já a Juliana mandou  a letra do pagodão que a galera vai cantar no churrascão! (paródia do Pagode na Cohab, do Negritude Jr)

Pagode Com Kassab

Tô votando no Kassab
E daqui da minha janela
Vejo estádio pacaembu e essa região tão bela

No Serra também tô votando
Pra ele não ficar sozinho.
Porque odeio camelô e quero meu bairro limpinho.

No meu rodízio eu só pego Taxi
pra rodar pela cidade
eu sou contra esse metrô
e a favor dessa desigualdade!

Pra chegar no bairro
Só no ar condicionado no maior astral!
Aqui em Higienópolis
Ninguém gosta de facilitar pra serviçal!

churrascao1.jpg

Churrasqueira diferenciada

Aí, o Lula se manifestou ontem em sua primeira visita no ABC depois de deixar a presidência e disse:

“Eu acho um absurdo porque isso demonstra um preconceito enorme. Eu pessoalmente não posso conceber que uma pessoa que estudou tanto, que uma pessoa que tem posses, seja preconceituosa e queira evitar que as pessoas mais humildes possam transitar no bairro onde moram”, disse Lula ao deixar o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, após receber homenagem.

O comentário foi semelhante ao feito pelo ex-presidente quando questionado sobre um artigo do também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o papel da oposição.  No texto, FHC sugere que o PSDB pare de disputar os votos do “povão” com o PT.

“Sinceramente não sei como alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão. O povão é a razão de ser do Brasil. E do povão fazem parte a classe média, a classe rica, os mais pobres, porque todos são brasileiros.”, disse Lula na ocasião.

Aí, Pronto! A discussão que até agora era de logística, classes, inclusão social, territorial, astral enfim, virou política!

E tem mais, o Danilo Gentili fez uma piada que eu acho sem a menor graça! Eu posso até ser acusada de não ter senso de humor, mas eu, que já percorri a Marcha da Morte que os judeus percorriam na Polônia durante a Segunda Guerra, durante as filmagens do ótimo documentário Marcha da Vida (em cartaz, aliás), que já estive em mais de dez tipos de campos de concentração, não consigo, desculpe,  não consigo achar a mínima graça quando o Gentili me vem com “Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwiz.”

file:/C:/Documents%20and%20Settings/fy81960/Desktop/gentili.htm

Tem gente que acha que piadista e humorista tem licença poética. Mas eu tenho minhas limatações e não acho a mínima graça em piada racista, classista e anti-semita. Sei lá. Dar vários rolês pelos fundões de Birkinau acabaram com este ‘meu senso de humor’.

Aí, o Gentili gentilmente se retratou e disse: Peço perdão se falhei nesse meu objetivo com a piada q fiz esta tarde. Me coloco a disposicao da comunidade Judaica para me redimir.

e

Minha intenção como comediante nunca foi trazer nenhum outro sentimento ao publico que não fosse alegria.

aqui:

http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1974228126337&set=a.1940152994480.2116977.1562096844&type=1&theater

POIS É!!!

Pronto. Virou questão de racismo e preconceito agora? Ah não! Não!

Assim como a Ruth Rutman Rutman me disse hoje no facebook:

“para flavia guerra,
gostaria de não receber mais seus comentarios idiotas, guarde para quem os valoriza, não sei quem é flavia guerra
este e-mail não me acrescenta nada. Vá jantar no clube nacional com os pobretões q fazem esta campanha. Lá tem jantar com direito a discurso de vereador e deputado e menbrosdojudiciario dividindo a mesa.”

O meu comentário era uma piada a respeito do fato de que há quem em Higienópolis (seja judeu, japonês, chinês, boliviano, cearence, baiano, italiano, da ZL, do Capão, do Pacaembu, da Barra Funda enfim) prefira ter um terceiro supermercado Pão de Açúcar a uma segunda estação de metrô.

Duvida? Assista: http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/…;

A minha piada dizia: “mas pro povo ‘não diferenciado’, o pão de açucar valoriza mais! afinal, tem vários produtos importados da escandinávia lá. e o metrô vai atrair camelôs que trazer produtos importados da china! e isso, hoje em dia, tem até lá na Oscar Freire! :-P

GENTEM, queridos leitores, pelamore!  A discussão pode até ser politicamente incorreta, mas racista jamais. Como eu disse ontem que o buraco (e não só o do Metrô) é mais embaixo, o que a priori era (ou parecia ser) só uma questão de logística (distância ou necessidade de uma estação e/ou linha tão próxima da outra) serviu de pretexto para que recalcadas mágoas de ambos os lados diferenciados e não diferenciados começassem a se alfinetar mutuamente.

Locomover-se é preciso. Discutir não é preciso. Mas manisfestar-se é sempre necessário.

convitaodiferenciadao_1.JPG

Foi convidado pro Churras? Então, RSPV!

Então, para os que pensam que o Churrascão foi cancelado digo: Não foi não. O criado pelo Danilo Saraiva  foi só ‘modificado’ e vai ocorrer sim. Olha só: http://www.facebook.com/event.php?eid=11…

E um dissidente (sim, porque brasileiro tem de ‘dissidir’ até na hora de concordar) foi mantido: http://www.facebook.com/event.php?eid=17…

então, sabadão é dia de dar um rolê por Higienópolis e ver se a praça (Vilaboim e afins) é do povo (local ou diferenciado). A ver! e a vir!

comentários (3) | comente

london_underground_tube_map.jpg
London Tube, não é o metrô dos meus sonhos, mas é ótima base de comparação

São Paulo

Prólogo: Notícia publicada hoje no Estadão online afirma:

Polêmica. Hoje, o Ministério Público de São Paulo informou que solicitou ao Metrô e à Secretaria de Transportes Metropolitanos informações sobre as mudanças na Linha 6-Laranja. “Se a decisão for realmente técnica, o processo será arquivado. Mas se a decisão foi feita por pressão de um grupo de moradores, iremos discutir as razões”, afirmou o promotor Antônio Ribeiro Lopes.

A Companhia do Metropolitano de São Paulo nega que a recusa dos moradores de Higienópolis tenha influenciado a obra. “A Companhia está reavaliando a localização da futura Estação Angélica em razão de ela estar a apenas 610 m da futura Estação Higienópolis-Mackenzie e a 1.500m da futura Estação PUC-Cardoso de Almeida”, informou ontem o Metrô em nota.

Em entrevista ao Estadão.com.br, o presidente da associação Defenda Higienópolis, o empresário Pedro Ivanow, comemorou a decisão. “Um dos pontos que a associação levantou era a pouca distância entre uma estação e outra. Higienópolis não é contra o metrô, mas queria entender isso. Foi um movimento de esclarecimento”, destacou. Para ele, as piadas e os protestos organizados na internet são “parte da democracia.”

a íntegra segue aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,mobilizacao-para-churrasco-em-higienopolis-ganha-forca-na-internet,718391,0.htm

ENTÃO, a ‘pouca distância’ do metrô, diante do fato de que São Paulo possui de fato menos linhas e estações do que necessita, é um motivo compreensível para se deslocar uma estação para um local onde não há nenhuma outra estação vizinha.

Aqui, justifica-se.

Interessante é que, como comentei ontem, em volta do Palácio de Buckingham há CINCO estações de metrô e, segundo apurei no site do London Tube (http://www.tfl.gov.uk/assets/downloads/standard-tube-map.pdf), nenhum morador do palácio, muito menos a Rainha, nem morador das redondezas protestou e pediu o deslocamento de nenhuma destas estações. Interessante.

Lembro que só estou comparando a situação brasileira com a inglesa porque o metrô de Londres é o mais antigo do mundo e detentor de uma das maiores redes ferroviárias também. Aqui não entra nenhuma noção de complexo de vira-lata tupiniquim de minha parte. Não acho que os ingleses estão mais certos, mais errados, são melhores, piores etc etc. Entra aqui a base de comparação urbanística e estrutural. Com exceção de possuir uma corte real (ao menos oficial), Londres é uma cidade que tem muitas semelhanças com São Paulo por suas dimensões, ritmo de vida, trânsito caótico, distribuição geográfica, população heterogênea e forte tradição classista.

churras_p.jpg

Churras no Facebook: Estão todos convidados!

HOUVE TAMBÉM QUEM, como a leitora Ruth,  pontuasse que:

Na verdade trata-se da elite da rica Pacaembú(nada popular com suas mansões) que tinha enorme influencia no governo Kassab(DEM), colocando inclusive integrantes de sua associação em postos chaves de planejamento. definiram 2 estações uma ao lado da outra, para eviter uma estação perto do estadio(próximo as suas mansões). Como este governo, ao se desligar do PSDB, perdeu força junto ao governo do estado;o traçado foi revisto e prevaleceu o bom senso sim, com distancia equidistante entre as estações.
No Pacaembú não há nenhuma estação, ruas são fechadas e em muitas não há nem mesmo calçadas para pedestres: quem se acha sangue azul?”

ENTÃO É ISSO?! É mais do que justificável e compreensível que moradores (seja de que bairro for) não queiram vândalos membros de torcidas organizadas fazendo algazarra em suas calçadas e fachadas. Acontece que nem só os torcedores que vão aos jogos no Pacaembu serão (ou seriam) servidos pela estação. Acontece que nem todo torcedor e/ou membro de torcidas organizadas é vândalo. E os torcedores chegam de qualquer forma. Aliás, chegam de ônibus, a pé, de carro, de lotação… Quem sabe com a estação de metrô a vida de todos em dias de jogos e evento não melhore muito?

E, vejam só, sabem o estádio do Chelsea? Em Londres? Aliás, no West London que (bem diferente do East proletário, claro) é posh (assim bacana, classe média, média alta), bem quase um Higienópolis. Então, o Estádio do Chelsea está localizado na verdade no bairro de Fulham. E a somente dois quarteirões da estação de metrô de Fulham Broadway. O Chelsea é folcloricamente considerado algo como o São Paulo inglês. Time de bem nascidos. Mas, como o São Paulo, tem muitos torcedores diferenciados de regiões periféricas e moradores de zonas 3, 4, 5, 6 (as mais distantes, menos bem nascidas). E estes torcedores chegam como ao Chelsea Stadium? De metrô, claro.

Então. Nem todo torcedor é civilizado e preserva calçadas, fachadas e a paz da vizinhança dos estádios. Tampouco nem todo torcedor é mal educado, vândalo enfim.

Talvez em São Paulo não faça ainda sentido haver duas estações tão próximas umas das outras. Talvez os torcedores mal educados não sejam ainda passíveis de serem fiscalizados e controlados. Talvez esta discussão que, a priori, parecia meramente ‘logística’, tenha sido detonadora de uma luta de classes que há muito estava recalcada nos corações e mentes de diferenciados e não diferenciados.

O fato é que o buraco (não só o do Metrô) é mais embaixo. Tem boi na linha. E caroço neste angu. E fortes indícios de que o churrasco da amizade e da igualdade social paulistana e brasileira seja de carne de gato. Um não quer o metrô porque uma estação está muito perto da outra. Outro não quer abrir mão do mercado da esquina. Outro não quer perder o sossego do bairro para legiões de torcedores e fãs de shows de rock e diferenciados afins. Outro acha que acesso ao metrô é fato de inclusão social, de que quem tem de decidir isso é ‘o governo’. Outro diz que a decisão da mudança foi antes da associação de moradores de Higienópolis se manifestar oficialmente. Outro acha que a solução é criar uma entrada de serviço e outra social para o bairro. Alguém tem a ideia de usar o gancho para promover o churrasco dos diferenciados e descontentes com as diferenças sociais, a luta de classe, o preconceito, o racismo, o elitismo enfim. Acende-se a churrasqueira, os ânimos, a fogueira das vaidades.  E  é assim que começam as guerras. De torcida. Dos vizinhos. Civis.

Particularmente, acho a ideia do churrasco, se for pacífica e não danificar nada e ninguém (além do silêncio que vai ser devidamente quebrado), muito melhor que o tipo de protesto que vi em Londres há pouco, quando estudantes britânicos destruíram várias estações de metrô por conta dos cortes que o governo inglês promoveu na educação.

Quem sabe o churrasquinho e o jeitinho brasileiro sejam mais produtivos a longo prazo. E discutindo, e não brigando nem agredindo, mas sim tentando entender os dois lados (sim, inclusive o dos moradores de Higienópolis que não querem abrir mão de um supermercado, que não julgam necessário ter uma estação tão próxima de outra, que têm também o direito de se manifestar) que se vencem as guerras de classe.

Para terminar, um amigo inglês, que mora no Rio (no Arpoador) e nunca entendeu porque certos moradores de Ipanema não queriam metrô no bairro, disse hoje: “Este tipo de reclamação nunca houve em Londres, que eu me lembre. A sociedade inglesa é mais classista que a brasileira. Mas não faz diferença. Metrô não é questão de classe. É infraestrutura. O País tem de se desenvolver.”

comentários (16) | comente

o-metro-dos-sonhos_1.jpg

Metrô dos Sonhos do blog do Igor C. Barros

http://igorcbarros.wordpress.com/2010/07…)

São, São Paulo

Queridos, leitores, queridos!

Feliz! Não porque Higienópolis vai ficar sem metrô, nem porque o povo do Pacaembu tem a ver com isso também, nem porque o Capão merece mais metrô, mais cinema, mais escolas, mais tudo, muito menos porque o Itaquerão/Fielzão vai sair do papel, nem porque a Bastilha (real e simbólica já caiu. ou não), muito menos porque tem (ou não) metrô na USP.

Estou feliz porque estamos debatendo.Mais de 400 ’compartilhar’ (número atualizado quinta, às 20h45) no Facebook pra este post. Sabem o que é isso? Diálogo, debate! Eu sempre digo que, se o brasileiro cuidasse do seu quarteirão, bairro, cidade, estado, país como os fiéis cuidam do Corinthians, este reino tupiniquim ia ser de fato o Eldorado. Então, com ou sem churrasco de gato na laje do Shopping Higienópolis, por favor, debater é preciso!

Amanhã eu volto com um post mais consistente, viu Lucas? Post. Matéria o Metrópole deve estar preparando uma ótima e completa.

vou de metrô pra Zelê!

e vos deixo com o comentário do Zé Ninguém:
” Chefia, muito bonito tudo isso aí, mas por que ninguém vem brigar pela construção de metrô prá nóis, aqui no Capão Redondo?

É só porque não querem ir andando da Augusta até o Apê no Higienópolis?

E NÓIS NO CAPÃO REDONDO!? VAMO FICÁ SEM METRÔ?”

comentários (8) | comente

Arquivo

Blogs do Estadão