Assim, este post já deveria estar velho, haja vista que a ‘euforia’ em torno dos últimos acontecimentos no Rio já esfriou um pouco e outras manchetes ganharam o ‘alto da primeira página’ dos jornais nacionais e mundiais nestes últimos dias.
Mas, no entanto, conversa que acaba de acontecer entre esta repórter e blogueira relapsa (e prolixa que não sabe fazer posts pequenos) que vos fala me trouxe de volta um comentário que fiz na página da querida Luciana Coelho, repórter da Folha e correspondente das melhores: http://rabbitchowder.blogspot.com/2010/1…
Lu perguntava “Quando é que passamos a nos resignar, e comemorar, que a bala “só pegou de raspão”? Ou que o assalto “foi só um assalto”, o sequestro “só um sequestro”, que “por sorte ninguém enconstou em mim”, “foi só o susto”?”
Eu respondi com o texto que vai logo aqui abaixo.
Mas, na verdade, o que me fez querer postar o comentário/resposta à Luciana foi o comentário de um belga que cresceu em Nova York e está em Marrakesh (onde estou também agora). Na antesala da entrevista com Susan Sarandon que eu faria (e ele também), o belga me disse: “É incrível o que o Brasil está fazendo. Nunca vi nada assim. Polícia e população unidas contra o crime, policiais indo às escolas mostrar para as crianças que não é bom negócio ser um ‘bad guy’ e que ser policial é bom. Acho que o Brasil tem muito a ensinar ao mundo. E acho que a Copa e as Olimpíadas serão incríveis.”
Eu, como comentou a Luciana, que ficou ‘confusa’ quando viu tudo que ocorria no Rio de longe, lá dos States onde está morando neste seu ano sabático, também fiquei confusa. O que responder ao gringo? “Claro! Claro! Está tudo indo muito bem.” Não seria verdade. Ou dizer: “Olha, não é bem assim.. Não está tão bem…”. Também não seria verdade porque a nossa verdade tropical tem tantos pontos de vistas e arestas. Vontade de dar um caleidoscópio para o colega gringo olhar para o Brasil. Seria muito mais útil que um binóculo.
Mas, enfim, entre entrevistas com Coppola (que está aqui e veio direto do Brasil e fez comentários ótimos que posto no post a seguir), Susan Sarandon e Harvey Keitel, aqui vai a resposta que dei à Luciana. E que queria ter dado ao gringo:
“olha, Mlle. Lapin querida, eu subi faz pouco tempo o Dona Marta para ver como estava tudo depois do ‘advento’ da UPP no Rio. Eu achei a coisa mais feliz uma paulistana como eu, que entende muito bem da perifa da Paulicéia, mas que é crua crua nas quebradas cariocas, poder subir tranquila. Sentar num barzinho e tomar uma cerveja observando a vista mais linda que tem de lá de cima.
Mas, ao mesmo tempo, vi que a entrada das UPPs e a ‘saída do crime’ do morro não levava junto o lixo absurdo que se acumulava embaixo das casas construídas sobre pilares talvez tão frágeis quanto a sensação de segurança que eu tinha naquele momento.
As marcas de bala nas paredes não tinham nada de ‘que’ de Cidade de Deus e me faziam pensar que ‘Gaza é aqui’. A agressividade latente, que podia se sentir na pele dos jovens do morro era algo que me dizia que havia uma violência ali batendo à porta para sair como um grito de ‘Não, não está tudo tão bem assim.’
Ao ver a polícia descer as escadinhas do morro de ‘mão na arma’, aquela mão que a Polícia sempre tem de posicionar no revólver por segurança e por prontidão, dava arrepios de que a arma podia a qualquer momento ‘sair do bolso’. Estavam atrás de não sei quem que brigou com não sei quem.
E o povo, gente boa demais o povo daquele morro, assistia a tudo ‘resignado, amudado, cnfuso e pequeno no meio daquilo tudo.”
Assim como também assistiam ao futebol na TV. Era Corinthians que passava porque a TV não passa jogo do Flamengo em pleno domingo porque enfim…
O meu olhar de ‘gringa paulista’, como queridos cariocas gostam de me chamar, não se convencia. Havia algo ali. Pelo menos não tinha o tráfico, nem bala perdida sendo trocada. E era só passar um reboco novo que as marcas de bala iam sumir da parede. Da parede, talvez. Da lama e da história do Brasil, jamais.
De fato estava menos mau o Dona Marta. Mas não estava tão ‘mais bom’.
O meu olhar perdido pensando em tudo aquilo, fez com que meu amigo que me acompanhava desafiasse: Tá com medo, paulista?
Não. Eu não estava com medo. Estava confusa e pequena ali no meio.
E disse a ele o que sempre digo. Que somos tão pacíficos de certo modo que nos tornamos passivos. Que somos tão felizes com pouco que o pouco às vezes é demais!
E a verdade é que eu acho, quando também tive tempo de olhar tudo de fora e de longe (e acho que vou fazer assim pra sempre pq simplesmente não consigo mais ‘enxergar só de dentro a terra brasilis) é que há uma imensa carga de preguiça sim, de indolência sim e de embriaguez sócio-política neste povo que consegue se articular lindamente para pintar as ruas para a Copa do Mundo, para parar o país para ver a seminifinal desta Copa e a final da novela, que quase corta a cabeça do presidente do Corinthians, do Flamengo, do Palmeiras, do Inter se os times são rebaixados, mas não consegue se articular para outros fins da mesma forma. uma pena. Porque o brasileiro sabe viver como nenhum outro povo. Mas cada país tem o que se acha merecedor. o dia em que o brasileiro (e não os de classe media, mas os que moram ali na Penha) entenderem e aprenderem lutar para que tenham o que merecem, e que merecem muito, mas muito mais. A começar por educação que lhe abra os olhos e não a programação da TV no domingão, nem só uma gelada e uma pelada. Aí sim, aí pelo menos o serviço de coleta de lixo vai ser bom na região. Já será, então, um começo. Será então menos mau. Quem sabe um dia , quem sabe muito logo, fique bom!”
Preleção:
Então. O querido Ugo Giorgetti escreveu em sua última crônica de domingo do caderno de Esportes do Estadão uma espécie de carta aberta à declaração de um certo Mr. Parker a um jornalista, na qual dizia, durante um almoço com William (o capitão do Corinthians), que filme de (e sobre) futebol em geral não é bom. “Porque futebol funciona ao vivo e na TV.”
Bola em Jogo e Ataque
E Ugo, bom diretor de ótimos filmes de (e sobre) futebol, Boleiros 1 e 2, respondeu: “Filme de futebol é bom sim, Mr. Parker.”
O tal do Mr. Parker era o Alan Parker, responsável por filmes que marcaram gerações. Não fui adolescente nos anos 70, mas assisti a The Wall umas 20 vezes e, como todo bom fã de Pink Floyd, sei todos os diálogos de cor e salteado.
O jornalista em questão era eu. A entrevista era para mim. E, como Ugo bem o diz, entrevistas são coisas rápidas, não há muito tempo para pensar. Tem-se que dizer tudo rápido. E só uma situação assim justificaria uma resposta tão equivocada de Parker.
Defesa
Ugo tem razão. Filme de futebol é bom sim porque futebol não se resume ao campo. Que o diga eu, que assisto Corinthians-Itaquera ficar cada dia mais solar diante da Copa que está por vir, com ou sem irregularidade no tal do terreno, aquele terreno devia ser da grande nação corintiana que não perde a fé nem diante de burocracias infinitas.
Mas, ao mesmo tempo, Parker também tem razão. Futebol é jogo orgânico, em que tudo acontece ali, na arena, num corner, no passe do goleiro. “Como cortar do kick off do goleiro para o atacante, dar uma panorâmica do campo e voltar pra o close de um gol?”, perguntou-me Parker comparando o jogo que seus compatriotas britânicos inventaram e que os brasileiros, sem falsa modestia, melhoraram? “Baseball funcina no cinema. Porque as jogadas são bem marcadas, perfeitas para a montagem. Boxe é como um palco, há o plano, o contra-plano, o close-up… Já o futebol é tão mais ‘o todo’, em grandes proporções. A adrenalina de um jogo jamais será montada do mesmo jeito em que se pode ver ao vivo ou na TV, quando tudo é simultâneo.”
Matando a jogada
Mas aí é que está. Eu, no meio do campo, adoraria promover outro almoço entre Ugo e Parker e passar mais duas horas conversando sobre isso. Aliás, esta seria uma ótima mesa de discussões para a próxima Mostra de São Paulo. Eu seria a primeira a fazer minha lista de filmes que não têm, como diz o Ugo, o pitch (como os ingleses chamam o campo) mas sim ‘o mundo do futebol, a vida do jogador” como principal foco.
O que dizer, por exemplo, de Linha de Passe, de Walter Salles? A maneira como Walter filma a peneira no campinho do Aricanduva (terreno e terra arrasada por qual passei tantas vezes na infância) comoveu a plateia crítica de jornalistas do Festival de Cannes, que acordou cedo para ver, às 8h da matina, um garoto ver bater na trave a única chance de ascensão, e inclusão social, em um País chamado Brasil.
A cidade era São Paulo. E poucas vezes senti a sensação tão nítida de que “alguém estava espiando a bagunça da minha casa pelo buraco da fechadura.” Ah… as peneiras da vida.
Fui ontem ao Roda Viva. Há muitas críticas ao novo formato, mas há também sempre muita resistência a qualquer mudança.
O tempo dirá se o ‘novo Roda’ funciona ou não.
Seja como for, Wagner Moura, o entrevistado, tem opiniões perifericamente muito interessantes. Para ele, pessoa rara de se ver e ouvir, “Tropa de Elite 2 é melhor do que o Tropa 1″, “o dinheiro gasto com invasão de favela devia ser aplicado na saúde e no tratamento de dependentes químicos.” e “a classe média quer comprar droga de forma mais segura.”
Casos para se pensar. E ver:
http://bit.ly/wmoura
Assim, eu não imaginava que um simplório post sobre Itaquera e a Zelê fosse render tanto.
Não por falsa modéstia. E muito menos por achar que a ZL, o Fielzão, a Copa, Itaquera enfim não fossem render assunto.
Mas sim porque já não andava mais esperando reações em relação ao tema ‘ser da perifa’.
Mas, como diz o chavão (aqui adaptado), “você pode sair da Perifa, mas a Perifa nunca sai de você.”
E nunca sai de pauta também.
E não é um orgulho suburbano de auto-afirmação que me move neste blog. Nem é para passar uma visão ‘da Perifa e do excluído social e geograficamente’ que este blog se presta.
A visão aqui é sempre periférica, como o post inicial diz. Mas posso falar desde a Paris Fashion Week à USP Leste Fashion Week (sim, porque lá no campus leste tem muita gente que adora moda e estuda isso lá).
A Perifa está em toda parte.
então, vamos lá:
O leitor José Carlos deu uma lição de ZL explicando que a formação da Zona Leste é igual a de todo o Brasil. Pois bem. Mais um motivo para que Itaquera seja uma bela metonímia de um País onde a pobreza diminui, mas a diferença entre os ricos e os pobres, curiosamente, não muda. Veramente um enigma isso.
Ensina-me também que tem classe A e B e que estão no Tatuapé… Anália Franco… Eu, como ex-aluna do Agostiano Mendel do Tatuapé, vi o bairro deixar de ser a simpática reunião de casinhas operárias italianadas para se tornar um emaranhado de prédios de condomínios caros (mais de R$ 9mil o metro quadrado?) e de onde os moradores não necessitam “nem sair do bairro para nada.”
Desculpe, José, mas discordo. É por achar que não precisamos dar um rolê no fundão (ou no Centrão, ou na Zona Sul, Norte, Oeste), e vice-versa, que piadas como as que ouvi e ainda ouço se perpetuam. Assim como a formação da minha querida ZL é ‘tudo junto e misturado’, o mundo também devia o ser.
É esta mistura que me faz de fato ter orgulho, muito, de ter nascido na Bela Vista, ter família italianada no Itaim Bibi, na Zona Norte, em Interlagos e até no Rio, ter crescido na Ponte Rasa (desculpem decepcionar, mas não sou de Itaquera), morado no Paraíso, em Londres (aliás, no East End, a zelê com cara de Baixo Augusta londrina) e voltado para a Ponte Rasa por ora.
Aliás, a ponte é Rasa, mas o povo é de uma sabedoria darwiniana profunda. Foi na ZL que vi uma família mezzo italiana – mezzo japonesa (a minha) misturar seu sangue ao de uma família baiana e render um fruto muito brasileirinho de olhos puxados e verdes chamado Felipe, que tem cara de que algum Holandês andou brincando no quintal da avó de sangue africano e português, e que, como aprendeu com a tia Flavia ‘carcamana’ solta um ‘cáspita’ a cada cinco minutos.
Foi na ZL que fiz amigos libaneses, turcos, judeus, cearenses, pernambucanos, portugueses, italianos, espanhóis, japoneses, paraibanos, e agora, vejam só, vejo crianças bolivianas e peruanas correrem pelas ruas vindas ‘de não sei onde’.
Seus pais sei que voltam em geral dos galpões do Bom Retiro com o dinheiro para pagar o aluguel de alguma uma casa que algum imigrante humilde italiano deixou quando merecidamente prosperou e se mudou para o Tatuapé… Anália Franco… e passou a prestar atenção nas tendências da Fashion Week que as vitrines do Shopping Anália Franco propagam. Vitrines estas que devem exibir peças produzidas nos galpões do Bonra, comandados por chineses e coreanos que contratam os ‘zelenses’ bolivianos…
Eu, sem falso moralismo, ainda gosto de pensar na frase de um tal de Ghandi que dizia “seja você a mudança que você que ver no mundo.” Mude-se para onde for, mas leve a ZL consigo e faça sempre por melhorá-la.
Portanto, acredito, não é o preço do metro quadrado de onde se mora que define quem se é, mas sim saber que assim como o Sertão, a ZL está em toda parte.
Amigo, José, como brincam meus amigos da ‘zona sul, quando tiver mais opinião da boa como a sua para dar, venha, que eu sou da Penha!
PS: Na contramão, e na perifa, da tendência dos blogs, não, eu não sei fazer posts hai-kai de dois parágrados. Mas vou me exercitar e um dia chego ao poder da síntese!
Assim, em três meses muita água rola debaixo de uma ponte, seja do Tâmisa seja do Tietê. Desde o último post, a Espanha foi campeã do Mundo, o Corinthians completou 100 anos e Itaquera virou o centro do mundo.
Quer dizer, centro do mundo de quem, no fundo de seu coração suburbano, sempre soube que podia demorar, mas um dia, um dia o mundo ia olhar para aquele descampado meio melancólico meio ‘terra arrasada’, meio colorida de tons nordestinos, italianos, portugueses, japoneses… enfim, aquele pedaço de terra tipicamente paulistano.
Dizer que se é ou se vem da Perifa sempre me rendeu piadas. Por vezes engraçadas. Por vezes preconceituosas. A primeira vez que me apresentei diante da classe de jornalismo da ECA – USP, quando todos deviam dizer seus nomes e de onde vinham, disse:
Venho da Zona Leste.
E ouvi: – Existe vida inteligente na Zelê?
(risos)
É… O tempo passou.. Hoje a Zona Leste, a Zelê, virou Zona Lost.
E as piadas divertidas continuam. Nada de novo.
A novidade mesmo foi chegar em casa outro dia e ouvir do pedreiro, morador de Itaquera há décadas, corinthiano desde sempre, dizer, numa alegria suburbana de dar gosto:
- Flavinha, Itaquera vai ser o Centro do Mundo. Nem que seja por um único dia, em 2014 o mundo todo, todos os jornais do mundo (inclusive ‘o seu’) vão ter de escrever: Fielzão é sede da Copa do Mundo. Já imaginou isso? Eu vou morar do lado e ver tudo isso acontecer.
É… Nem nos meus sonhos suburbanos mais delirantes eu imaginei isso. Que o estádio do Corinthians era um sonho… Que há polêmicas e polêmicas rondando esta ‘realização dos sonhos’… Que a Copa do Mundo vem.. Que a Copa do Mundo vai… Que as controvérsias são muitas… Tudo isso eu sei e imaginei.
Mas eu jamais imaginaria o pedreiro lá de casa, imigrante, ‘esquecido’ e ‘excluído’ na última estação da Linha Vermelha do Metrô… Tendo como vizinhos outros milhares de ‘pretendentes à uma vida inteligente’ sorrir de peito aberto só de pensar em ver ‘Fielzão – Itaquera’ escrito nas capas do Guardian, do New York Times, do Estadão, nas chamadas da CNN, da ABC, da BBC, da RAI…
Confesso que senti uma certa ternura compatriota ao conversar com vários outros ‘zelenses’ sobre o assunto. Seja lá o time do coração, a simplória ideia de que ‘agora sim algo muda porque o povo vai olhar pra gente’ me fez ouvir Gente Humilde tocando ao fundo, em momento de rara pieguice bairrista. Difícil explicar. Só quem é sabe o que é.
Mais de uma década depois, eu gostaria de apresentar o ‘meu pedreiro’ para meu colega da USP e deixar a cargo dele a tarefa de explicar que tipo de vida há na Zelê.
Em tempo, só quem é sabe o que é é o título de um documentário sobre o Corinthians que já estrou online e já bateu records de acesso: http://terramagazine.terra.com.br/intern…
Mas isso não importa. O que importa mesmo é que, corinthiano, sãopaulino (há sim muitos na ZL), palmeirense, santista, lusinha… A ZL vai ser o Centro do Mundo. Só por um dia. E neste dia, amigos, o meu pedreiro quer “ver o mundo todo fazendo baldiação na Sé para tomar o Corinthians Itaquera e, pela primeira vez na vida, só precisar abrir a janela de casa e deixar o mundo entrar.”
A ver!
Em Londres, cenas de uma paixão. E de uma derrota:
Na perifa da Copa, Londres se despede do mundial:

Na vitrine de uma loja descolada do East End londrino, a decoração já anunciava o placar de há pouco:

Antes (e depois), a cidade ‘se veste com as cores do Mundial’:



Paris
Em plena Copa do Mundo, em dia que os Bleus voltam para casa e pouco tempo depois da Azzurra ter sido eliminada também na primeira fase do Mundial, nenhuma visão poderia ser mais periférica.
“Os ‘azuis’ desembarcaram ‘discretamente’ hoje em Paris”, disse a comentadora do Paris Direct, o canal que mostra tudo ‘em cima do lance’ que acontece na capital da França.
Enquanto a seleção francesa estava presa no trânsito que tomou conta de Paris, o CO da Lacoste (a grife do crocodilo, porque ‘jacarezinho’ é lerdo e a marca foi criada em homenagem a seu fundador René Lacoste, e jogador rapidíssimo das quadras) me diz: “A nossa seleção entrou em greve, não foi? Então, o país todo decidiu entrar também. Está tudo parado!”
E foi… Paris está longe de ser uma festa hoje. Ainda que linda e ensolarada, está um caos. Mas, como é ‘bon suar’ na França… Os franceses perderam a Copa mas não perdem a fleuma. O CO, enquanto conversava comigo sobre (que assunto periférico hoje) moda, olhava atento à TV para acompanhar a “Mais longa partida da história”.
De futebol? Não. De Tênis. A final da partida da segunda rodada do Torneio de Wimbledom (na Inglaterra) durou exatamente 11horas e 5 minutos. Começou na terça e acabou há pouco. E, mais uma vez, a França perdeu. O ‘jogador do crocodilo’, o francês Nicolas Mahut foi derrotado pelo norte-americano John Isner por 3 sets a 2 depois de três dias de batalha.
Ironia do destino
“O espírito do crocodilo continua vivo”, dizia o anúncio comemorativo à vitória de Mahut, que já havia sido preparado e esperava só o placar para estampar as páginas dos jornais esportivos do mundo, perdeu. Uma pena. A homenagem era linda, a camisa idem e a paixão do CO maior ainda. Mais uma vez, que fase!, a França perdeu.
Ganhou a polêmica. A ministra francesa dos esportes, as manchetes dos jornais discutem e os ‘cidadãos comuns’ hoje discutem: Futebol e esporte. Uma questão de estado?
Os comentadores da France 24 discordam. Estão mais interessados nos dois milhões que foram às ruas em greve e contra as Reformas. Já no ‘centro do futebol’ no mundo, hoje, a África, os tifosi não concordam tanto… Enquanto isso, de longe, vejo que no Brasil, Dunga se desculpa pelos palavrões. Aqui, ‘os canarinhos’ vêm, obviamente, ganhando a principal atenção dos ‘cidadãos do centro do mundo’ (que não têm mais ‘para quem torcer’).
O enviado especial da France 24 à Cidade do Cabo há pouco dizia: Agora é ficar de olho no Brasil. E os italianos se olham, postam em seus blogs e ironizam: Ci vediamo in Brasile a 2014.

Ônibus 174 – Documentário sobre o trágico 'caso Sandro' é o quinto melhor filme latino da década
Veja só. A Periferia também tem seu centro e seus personagens centrais. Principalmente no cinema.
O Cinema Tropical www.cinematropical.com, conceituada organização sem fins lucrativos que promove o cinema latino-americano nos Estados Unidos, escolheu na semana passada seus dez melhores filmes latino-americanos da década.
Listas são sempre controversas e polêmicas, mas é interessante observar que, em se tratando de um cinema ‘periférico’, os cineastas latino-americanos têm emplacado nas últimas décadas sucessos de público, abocanhado vários ‘centrais’ Oscar e se mantido no centro das atenções da classe cinematográfica mundial.
Se a bola ainda está rolando na África do Sul, no Cinema Tropical os hermanos argentinos foram tri-campeões. E a ‘técnica’ Lucrecia Martel emplacou três de seus belos filmes. Em primeiro, La Ciénaga (O Pântano), em oitavo, A Mulher Sem Cabeça, Em nono, A Menina Santa. Nada mal.. nada mal!
Entre os dez ‘melhores’, O cinema brasileiro entra duas vezes. Em quarto, com Cidade de Deus, e em quinto com Ônibus 174. Não por acaso, Bus 174 é um dos filmes latinos mais vistos na história dos EUA.
A seguir, a lista comple, ‘en español’:
| 1) | La Ciénaga (2001) |
Lucrecia Martel |
Argentina |
| 2) | Amores Perros (2000) |
Alejandro González Iñárritu |
Mexico |
| 3) | Luz Silenciosa / Silent Light (2007) |
Carlos Reygadas |
Mexico |
| 4) | Cidade de Deus / City of God (2002) |
Fernando Meirelles |
Brazil |
| 5) | Ônibus 174 / Bus 174 (2002) |
Jose Padilha, Felipe Lacerda |
Brazil |
| 6) | Y Tu Mamá También |
Alfonso Cuarón |
Mexico |
| 7) | Whisky (2004) |
Juan Pablo Rebella, Pablo Stoll |
Uruguay |
| |
La mujer sin cabeza / The Headless Woman (2008) |
Lucrecia Martel |
Argentina |
| 9) | La niña santa / The Holy Girl (2004) |
Lucrecia Martel |
Argentina |
| 10) | El laberinto del fauno / Pan’s Labyrinth (2006) |
Guillermo del Toro |
Mexico |
Periferia
Segundo Aulete,
(pe.ri.fe.ri.a)
sf.
1. Geom. Linha, imaginária ou não, que delimita um lugar, um corpo, uma superfície; CONTORNO; PERÍMETRO: a periferia de um círculo/território.
2. Geom. Superfície de um sólido.
3. Fig. Condição ou localização do que está em volta, próximo, na vizinhança de algo, e não no centro: a periferia da biblioteca pública.
4. Fig. Contiguidade, proximidade: Ficava sempre na periferia dos problemas, sem examiná-los a fundo.
5. Bras. Região afastada do centro urbano de uma cidade, ger. habitada por população de baixa renda: Vive na periferia do Rio de Janeiro
6. P.ext. Conjunto dos países em desenvolvimento, em relação às grandes potências.
7. Bot. Extremidade marginal da folha.
Michaelis:
pe.ri.fe.ri.a
sf (gr periphéreia) 1 Geom Contorno de uma figura curvilínea. 2 Estereometria. 3 Superfície de um sólido. 4 Circunferência. 5 Anat Superfície externa do corpo ou de um órgão. 6 Bot Extremidade marginal da folha. 7 Urb Região distante do centro urbano, com pouca ou nenhuma estrutura e serviços urbanos, onde vive a população de baixa renda.
Definições de dicionário muito ajudam, mas no caso do presente blog muito atrapalharam esta que vos escreve a encontrar um conceito que definisse e reunisse (em seu centro e periferia) o que é de fato um blog que versa sobre o que ocorre Na Perifa.
A minha Perifa é relativa. Absoluta em seus princípios. Relativa em seus pontos de vista.
E não se submete a ser definida por um conceito geográfico, não é só a perifa de quem ‘está do outro lado da ponte’ do Rio Tietê, do Tâmisa, do Siena, do Hudson, do Capibaribe, da Lagoa…
A minha Perifa passa pela música que não toca na ‘rádio da hora’. Pelo livro que não será lançado naquele shopping bacana. Pela alta costura que não será vista naquela revista de bairro. Pelo filme ‘para o grande público’ que não será exibido naquele cinema de arte. E pelo filme de arte que não será exibido naquela sala comercial… Pela moda que não desfila nas Fashion Weeks. E pela moda da fashion week que não chega na perifa… Pelos anônimos que não saem nas colunas sociais. E pelos famosos que não entram nas quebradas… Por tudo que gira em torno de algo que nos mobilize, encante, chame atenção, que nos alumbre.
Para concluir, faço minha a definição da famigerada Wikipedia (e periférica nos ‘livros de citações’ acadêmicos) nossa de todos os dias: “num sentido genérico, quer dizer ‘tudo o que está ao redor’”
Pronto! Eureka! É isso. Na Perifa versa, fala, enfoca, tergiversa, mostra, enfim, versa sobre tudo que acontece ao redor do que se convencionou chamar de ‘Centro’, ‘mainstream’ dos acontecimentos deste mundo grande, global, globalizado e, ao mesmo tempo, tão provinciano, local e periférico.
A partir de hoje, sem mais delongas, esta blogueira, finalmente, abre os trabalhos do Na Perifa.

Grafite que integrou a exposição Street Art Brazil, na Galeria 32 de Londres, prova que a arte brasileira vai muito além dos estereótipos tropicais. E que a verdade está no meio. No meio da rua.
São Paulo
Prólogo, o comentário do leitor João Baroni a respeito do post anterior:
“Quando nos deparamos com tantos teóricos no estudo das diferenças culturais, me impressiona o Estado manter um blog como esse, que além de ter posts absolutamente fundados em estereótipos e com temas idióticos, coloca um post pior ainda, de uma imbecilidade tremenda.
Realmente quando nos deparamos com uma cultura nova ficamos mais atentos às nossas próprias raízes, mas, como é comum entre brasileiros no exterior (e, caio eu mesmo no tal estereótipo), eles se juntam em bando e ficam comendo goiabada que foi enviada pelo correio.
Para definir em uma palavra: mediocre”
Vamos lá:
Vejam só. O comentário do leitor João Baroni me fez pensar nas últimas semanas.
Isso porque nas últimas semanas também tenho colocado o propósito deste blog em perspectiva. Uma vez que estou em terra Brasilis, falar de Londres talvez se torne algo descabido, não?
Mas, pensando na pressuposto de que quando falando dos outros, falamos muito, na verdade, de nós mesmos, é que penso de fato que este blog, claro, é para brasileiro ler.
Mas que amargor faria um leitor destilar tamanho azedume diante do blog alheio? Eu nunca me achei lá muito dona da verdade e nem do blog. Mas o fato é que imbecilidade e estereótipos ainda dão muito o que falar no mundo.
Não seriam, justamente, os estereótipos que nos afirmam o caráter, esfregam na cara quanto ainda somos naïf sim e, muito, mas muito provincianos?

Qual pátria é nossa?
Isso não afirma que somos ou seremos melhores ou piores que qualquer outro país. Apenas diferentes. E, de forma naïf é que afirmo que é com as diferenças que aprendo. Seja com as minhas diferenças em relação aos ‘estrangeiros’, seja em relação aos próprios conterrâneos. Muitos compartilham a visão da Vanessa. Outros preferem o Baroni. Há outros que, como eu, preferem observar em vez de julgar. Diante disso, perdoe Baroni, mas o pessoal de Goiânia que migra para Londres não compartilha a opinião dos teóricos acadêmicos. Não por ignorância orgulhosa de nem se dar ao trabalho de ouvir o que ‘o outro’ tem a dizer, mas, por pura e simples falta de educação formal, não consegue acompanhar o discurso sofisticado.
É por isso que o discurso espontâneo da Vanessa me diz tanto sobre ‘nossa própria gente’. Somo isso aí, caro Baroni. Sem tirar nem por uma vírgula sequer.
E, como também acredito que o primeiro passo para se superar uma questão é, em vez de negá-la, admiti-la, é exatamente o que tento fazer aqui a todo momento.
Este blog não se presta nem nunca se prestou a descobrir a última banda mais descolada da esquina ali de Londres dos últimos tempos da última semana. Tanto porque este estereótipo sim é fartamente alimentado por qualquer veículo de imprensa britânico ou tupiniquim.
Tampouco este blog se presta às mais novas teorias revolucionárias fresquinhas baseadas em estatísticas acadêmicas. Não que os teóricos não sejam imprescindíveis para entender ao outro e a nós mesmos. Mas este blog é baseado em fatos. E muitas vezes os fatos são baseados em imbecilidades e estereótipos.
É e sempre foi por meio dos estereótipos e das imbecilidades (minhas e alheias) que sempre quis investigar, como bem diz o nome do blog, o que é para inglês e para brasileiro ler.
Se o tom não agrada a muitos, como dizia um grande brasileiro chamado Guimarães, pão e pães é questão de opiniães.
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