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Flávia Guerra

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Se Londres não vai ao Brasil, o Brasil vai a Londres

Londres e São Paulo

Depois da avalanche de correria, agitação, Christmas Sales, neve e frio, desembarco em São Paulo. De volta ao Brasil após um ano, experimento a sensação que muitos, sejam proletários, retirantes, alta classe, universitários e afins, sentem. A sensação de deslocamento no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo em que nada mudou, tudo parece diferente. Eu bem que podia gastar muitas das minhas intermináveis palavras para descrever o ‘mix of feelings’ (nada mais que a mistura de sentimentos) que atordoa quem passa um ano ralando no exterior e volta à terrinha nesta época do ano. Mas vou roubar os diálogos de conterrâneos que, como eu, esperavam pelos seus vôos no aeroporto de Heathrow há menos de uma semana.

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A picanha que aqui eu saboreio, não tem o mesmo gosto de lá

Estava eu saboreando um chá com leite (alguns vícios e qualidades a gente sempre herda de outros povos), quando um grupo de brasileiros sentou-se ao lado:

“Adoro Londres, mas esta cidade não dá. Preciso ir para São Paulo, ver a galera da Zona Sul, comer um churrasquinho, matar uma pizza de verdade”, provocou o Paulista.
“Não dá por quê? Londres é ótima. E nem vem dizer que São Paulo é melhor. Cidade mais feia, suja, poluída, um trânsito da peste, violenta..”, retrucou o amigo nordestino em seu sotaque indefectível.
“É verdade, aqui é muito melhor para trabalhar e para viver. Mas sinto falta de pegar meu carro, ir até a padaria da esquina, ser reconhecido no trajeto, parar para falar com o amigo do bar, tomar umas breja, matar umas coxinha! Meu, coxinha!! Há quanto tempo eu não como uma coxinha e tomo uma água-de-côco. Inglês é bacana, mas brasileiro é brasileiro”, explicou o Paulista num saudosismo de encher Gonçalves Dias de orgulho.
O amigo goiâno não se fez de rogado e retrucou: “Ói qui, acho tudo muito bão aqui na Londres. Aqui na Inglaterra nem mesmo a polícia é corrupta. Uma vez fui parado pela polícia e claro que o cara se ligou que eu estava ilegal. Ele teve a cara-de-pau de me liberar mas não pediu nenhuma ‘cervejinha’. No Brasil, era capaz de pedirem a minha casa para não me entregar para o Home Office. E na boa, nem tanta saudade dá. Até coxinha, picanha, farinha e requeijão a gente acha. Mas eu quero mesmo é me jogar num bailão de Goiânia, sair com as meninas, ir num rodeio, dançar muiiito! Vou lá matar a saudade depois eu volto.”
Diante dos ataques de Policarpo Quaresma indeciso do amigo, a mineira sintetizou: “É… Quando a gente tá aqui, quer estar lá. Quando está lá, quer estar aqui porque começa a sentir saudade da organização, dos políticos honestos, do eletrônicos mais baratos, dos planos para celular que não roubam a gente, do metrô que funciona e vai para tudo quanto é canto, da segurança, do salário em libras. Sabe quando eu, como cleaner (faxineira), ia ter um iphone no Brasil? Nunca.”

É… Como bem diz o ditado, the grass is always greener on the other side. Or ‘a grama é sempre mais verde no quintal do vizinho.’

HAPPY NEW YEAR! FELIZ 2010!

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Na Carter House, em pleno East End londrino, já era noite nevada às quatro da tarde

Londres

Enquanto os comerciantes comemoram o White Christmas (Natal Branco), que garante, sabe-se lá por que, muito mais empolgação dos consumidores e altas nas vendas, as companhias aéreas não têm muito o que se alegrar com a neve que tem tingindo de branco boa parte da Europa e de Londres.
A neve que não se viu em dezembro passado, desta vez presenteou os londrinos com um lindo, porém caótico, cenário de Natal. Só entre os amigos e moradores do flat 1 da Carter House (a minha casa, na foto), dois perderam seus vôos para Portugal e Berlim. Motivo: Neve e aeroportos fechados. Gatwick e Luton, no norte da capital, fecharam suas portas hoje e enlouqueceram passageiros e operadoras low-cost.
Por hora, nem sinal de outros vôos extras. E os europeus que querem voltar para casa no Natal correm o risco de terem de saborear, como eu, uma autêntica ceia inglesa. Cidra (ou cider), batata e neve, pelo menos, não vão faltar.

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Equipe de Avatar em entrevista coletiva para a imprensa mundial na capital inglesa

Londres

Caros leitores,

Interessante observar o quanto não se pode agradar jamais a gregos e troianos. Toda vez que escrevo um post mais pretensioso e sério, alguém me diz que meu blog deveria ser mais leve e descontraído e falar mais das trivialidades de Londres. Isso porque, segundo quem geralmente me diz isso, os detalhes do dia-a-dia muitas vezes contam mais sobre uma cidade que questões muito edificantes.
No entanto, toda vez que tento postar algo mais leve, trivial, fútil e bobo, alguém (desta vez foram muitos ‘alguéns’, aliás) vem me dizer (para não usar outros verbos mais pesados) que eu devia gastar meu raro espaço com temas mais edificantes, sérios que realmente revelam o que há por trás das trivialidades de uma cidade como Londres.
Bom, diante do impasse dicotômico, eu concluo que devo continuar a escrever sobre o que bem entender. Isso porque o que entendo é que este blog não é só meu. Como sempre digo, o que mais gosto ao ter um blog é da relação orgânica e direta que posso ter com meus leitores. Por isso, quando entendo que devo postar algo leve, sei que alguém vai ouvir e ter algo construtivo a dizer. E quando entendo que devo postar algo mais sério, informativo etc, alguém também terá algo construtivo a dizer. Seja negativo. Seja positivo. Nunca, jamais, deixei de postar nenhum comentário negativo em relação a meus posts. E nem vou deixar. Este espaço não é meu palanque de massagem no ego. É um canal aberto.

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Sigourney Weaver e James Cameron tentam explicar o que faz de Avatar um fenômeno mesmo antes de chegar aos cinemas

Para concluir, leitores que pedem algo mais ‘profundo, informativo, jornalístico etc’, entendo. Só deixo claro que um blog é um blog. E posts não são matérias, nem artigos, nem teses de mestrado. Posts são posts. Um híbrido de tudo isso. Um comentário, consideração, ponto de vista… E assim o devem ser. Quem ainda não entendeu a que vêm os blogs tem de começar a se acostumar com este novo veículo.
Quem prefere ler minhas matérias, artigos, mais sérios, mais bem apurados, mais informativos, leia o que publico no Estadão.

A matéria, completa, informativa, séria etc, sobre Avatar segue aqui:
 
PS: Já Shelock Holmes, que assisti no domingo, não recebeu comentários tão acalorados da crítica. É interessante observar como Guy Ritchie empresta o frescor e a ação do cinema norte-americano a um clássico tão inglês. Mas falta a atmosfera meio que emborolada (no melhor dos sentidos) da Londres vitoriana ao filme.
Futuros comentários virão. Por ora, cena da entrevista coletiva que ocorreu anteontem por aqui. Aliás, se as fotos que posto nem sempre são dignas da capa do jornal é simplesmente porque, como repórter, não sou autorizada a levar minha super câmera profissional às entrevistas (coletivas e exclusivas) que faço. Para isso, eu precisaria ser ‘repórter fotográfico’, o que não sou. Bem, não se pode ter tudo.

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Fachada do Odeon, em Leicester Square, hoje à noite depois da première mundial de Avatar

Londres

“É impossível ficar entediado em Londres”, disse-me Sarah Jessica Parker em entrevista ontem, por conta do lançamento do seu novo filme, Did You Hear About the Morgans, no qual ela divide a cena com o galã e eterno solteirão ingles Hugh Grant.

Tem razão a nova-iorquina e eterna Carrie Bradshaw. Em apenas uma semana, a capital inglesa teve nada menos que quarto grandes premières mundiais que agitaram os hotéis de Park Lane e garantiram o tumulto que os turistas tanto adoram ver em Leicester Square.

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Sarah ‘Carrie’ Jessica Parker em conversa com jornalistas para lançar novo filme em Londres

Meca dos cinéfilos londrinos, a Leicester Square (cuja pronúncia foge completamente à regra do bom senso e vira um ‘Léster Square’ de enrolar a lingual até mesmo dos nativos) está para o cinema assim como a Picadilly Circus está para o teatro. Parada obrigatória de todas as grandes produções que estréiam na capital, o completo Empire/Odeon teve a semana mais agitada do ano. Nesta semana, foram Nine (musical em homenagem a Fellini estrelado por Daniel Day Lewis), os Morgans… Anteontem Jessica Parker, Hugh Grant e cia desfilaram por lá.

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Daniel Day Lewis, Jude Dench, Penelope Cruz e Nicole Kidman lançam Nine em Londres

Hoje foi a vez de James Cameron provar porque ainda é um dos mestres do cinemão. O mais que aguardado Avatar arrasou o quarteirão da Leiscester Square. Confesso que fui à première em missão ‘crítica’ e cheguei para não gostar. Confesso que me rendi à visão que os óculos 3D descolados distribuídos aos convidados me garantiram. Em uma platéia que contava com ícones como Sigourney Weaver, Avatar prova que, de ação, efeitos e roteiros bem ao gosto do freguês do bom blockbuster Cameron entende. Se ele ainda precisava provar algo depois de Exterminador do Futuro e Titanic, agora não precisa mais. Além de garantia certa de zilhões de bilheteria, garantiu uma das quintas-feiras mais animadas da cidade em que se pode até ficar estressado, mas entediado, jamais!

Domingo tem mais. Vem aí o Sherlock Holmes de Guy Ritchie.

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Vista do Estádio Olímpico na última terça: Parque Olímpico londrino começa a tomar forma

Londres

Faltam exatamente 966 dias para as Olimpíadas de Londres 2012. Estive passeando pelo canteiro de obras do Parque Olímpico nesta semana. Fui em função jornalística, representando a imprensa brasileira em um grupo no qual eu era a única latino-americana. E, confesso, virei uma espécie de porta-voz. Não pela minha relevância brasuca, mas porque todos queriam saber tudo que os brasileiros andam sentindo em ter pela frente a oportunidade e o desafio de provar que podem, sim, hospedar uma Olimpíada e criar uma Vila Olímpica que, mais que palco da festa, seja um legado para a população e, mais difícil, melhorar a cultura esportiva e o incentivo cotidiano ao esporte olímpico no país do futebol.
Confesso que procurei ser o mais entusiasta, e, ao mesmo tempo, menos deslumbrada, possível. Tendo em vista que temos 2014 antes para cuidar, esta década reserva muita lição de casa para nosso espírito de Policarpo Quaresma. Ma, enfim…

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Do alto da casa de forças do Parque Olímpico, um grande painel explica no que se transformará o hoje imenso canteira de obras

Os mais céticos que me perdoem, mas o deslumbre ainda é fundamental. Nunca havia estado em uma Vila Olímpica antes. E tenho de confessar que há algo de maior que provoca um arrepio na espinha quando se vê, e se ouve, a palavra Estádio Olímpico.
Chega a ser estranho que um jornalista, profissional da mídia, que não deve, a priori, deslumbrar-se com construções midiáticas de qualquer natureza e manter sempre um senso crítico apurado, sinta ainda tamanha emoção ao pensar que, além da abertura, da competição, das medalhas que ali serão ganhas e perdidas, um certo Brasil irá participar da cerimônia de encerramento e começar a abrir os trabalhos para Rio 2016.

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“Em dois anos, tudo isso se transformará em legado para a população inglesa”, garante o chefe executivo das obras do Olympic Park

Por ora, a Vila Olímpica é um imenso canteiro de obras. Por ora, o que se vê é pouco mais que o esqueleto do que vai se transformar em meca do esporte dentro de dois anos. Por ora, o leste londrino, uma das regiões mais pobres da cidade, ainda não sentiu a transformação que os jogos vão provocar em suas ruas de tijolinhos aparentes. Por ora… Daqui dois anos, o canteiro se transfere para o Rio. Espera-se! Espera-se também que logo logo a Vila Olímpica inglesa recebe muitas visitas oficias brasileiras. Até agora, segundo me disse David Higgins, chefe executivo do Olympic Park, nenhuma comissão brasileira entrou em contato com ele. “Mas queremos muito colaborar e trabalhar junto com os brasileiros. O Rio 2016 tem muito o que aprender com Londres 2012. Espero que recebamos uma visita logo de representantes do seu país”, disse-me Higgins. Eu também, caro Mr. Higgins, eu também.

Quem quiser conferir como andam as obras do Parque Olímpico Londrino, pode conferir:
 http://www.estadao.com.br/noticias/espor…

ou

www.london2012.com

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30.novembro.2009 21:55:04

Pedalando

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Ciclistas pedalam livres, leves e soltos pelas ruas londrinas durante a London Naked Ride: http://www.worldnakedbikeride.org/uk/

Londres

Estava eu hoje lendo a edição especial “World in 2010′ da Economist e mais uma vez Inglaterra e Brasil ocupam lugar de destaque no tabuleiro da vida econômica e política mundial. Nas páginas e páginas de análises e previsões para o mundo no ano que virá, o Brasil entra com uma página inteira sobre ‘O que vem depois de Lula’ e a Bretanha entra com várias páginas num tom ‘E agora, José’?

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Anúncio vende para investidores a edição “The World in 2010′

E deu na Economist. Na verdade, não é nenhuma novidade. Mas, já que a Economist falou, eu aproveito o ensejo.
No dossiê ‘Inglaterra: Ser ou não ser ainda uma potência mundial’ uma meia página cheia de otimismo despretensioso me chamou atenção. ON YER BIKES é o nome do artigo. E nada mais é que uma doce previsão sobre a decisão do famigerado prefeito Boris Johnson de adotar o sistema de aluguel de bicicletas. Sistema este que já é sucesso em cidades como Paris, Barcelona, Berlim… Alugar uma bicicleta pública não requer prática nem agilidade. Funciona basicamente do mesmo jeito que ‘alugar’ um carrinho nos aeroportos. Bota-se uma moeda, leva-se a magrela. E devolve-se a mesma em algum outro ponto da cidade onde haja um ‘estacionamento’ oficial. Em uma cidade em que o metrô ameaça entrar em colapso todos os dias (comparações com a malha paulistana chegam a ser injustas e dispensáveis), sair pedalando é garantia de stress e minutos a menos gastos no trânsito ou nos túneis do Tube.

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para saber mais, acesse o London Bycicle: http://www.londonbicycle.com/

A medida vem se juntar a várias outras para transformar Londres em uma cidade mais prática e viável, capaz de hospedar com tranqüilidade eventos como as Olimpíadas 2012.

Bom, nós, brasileiros, temos alguns anos a mais, e anos luz de diferenças sociais, urbanas e históricas, para tentar transformar nossas cidades mais viáveis para hospedar a Copa do Mundo 2014 e os Jogos Olímpicos 2016.

Resta saber se vamos assumir o compromisso ou simplesmente sair pedalando…

PS: Quem não leu ainda o especial da Economist sobre o Brasil, não pode perder:
 http://www.economist.com/members/survey_…

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Rachel Holmes aprende a fazer uma autêntica caipirinha no Guanabara, a casa noturna brasileira mais famosa de Londres

Londres

Prólogo:
Deu no Guardian. Um amigo no Brasil, o Zé Kley, me mandou o vídeo acima e comentou: Brasil em Londres para inglês ver. ai, ai, ai…

O vídeo completo da Rachel vai aqui:
 http://www.guardian.co.uk/travel/video/2…

Como não virar um post no blog? Impossível!

Então, aí vai:

A Brazilian noitada que muitos londrinos encaram pensando ter, assim, um taste of real
Brazil. Não que não seja o Brasil… nem que não seja real… Mas o lado picky (cricri) da colônia brasileira está cansado de ver e ser visto como a ‘Terra da Lambada”. Não que a lambada não tenha nascido no Pará antes de ganhar o ritmo caribenho que transformou o Kaoma (!!!) em fenômeno mundial. Juro, até os húngaros conhecem ‘Chorando se foi’… Não que a lambada não seja diversão garantida! Como bem definiu a Brazilian Expert, no Café Rio, Bel Groves, lambada é como Dirty Dancing, mas mais divertido.
Não que a feijoada não seja uma das nossas deliciosas ‘comfort foods’, não que a caipirinha do Guanabara não seja ótima e feita com cachaça de verdade. Não que os brasileiros que aqui sofrem de banzo (ou que estão homesicks) não se orgulhem de todos estes ‘quality labels’.

Mas, enfim, já que o Brasil está mais na moda do que nunca por conta dos ‘por vir’ Copa do Mundo e Olimpíadas, por que o Guardian não consegue descobrir o Brasil que vive em Londres além destes clássicos da terrinha? Clássicos que, de tão bons, acabam se tornando reducionistas. Só para citar um pequena lista, o Brasil londrino vai muito além do Favela Chic (o descolado point dos fãs de tudo isso acima, mas que querem uma pegada mais ‘hype’ para sua noite latina), do Festival de Cinema Brasileiro (tanto o do Barbican quanto o do Riverside Studios), do Raízes, do Guanabara…

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Supla e João Suplicy em foto de entrevista publicada no site do Guanabara: www.guanabara.co.uk

O Brasil londrino passa pelo exército de compatriotas que se espalham cada vez mais por Willesdem Junction… Pela Harrow Road… Vai desde os cleaners (os faxineiros que garantem a ordem dos escritórios da City London muito antes dos bankers chegarem ao trabalho para decidir os rumos do credit crunch), dos couriers (que, como o Karl Max, levam de cima para baixo pelas ruas de Cannary Warf documentos que eles jamais terão legalidade de ter), dos artistas gráficos que se espalham pelos estúdios de Old Street, Shoreditch, Soho, dos estudantes que ocupam os bancos de mestrado da London School of Economics, da Goldsmiths, da St. Martins…Estudantes que vão voltar para o Brasil cheios de idéias novas que tiveram no Velho Mundo. E chega até ao Forró da Brick Lane (a rua dos indianos, paquistaneses e bengalis que acabou virando uma das ruas mais descoladas do East End) e passa até pela Galeria 32, espaço anexo à prolífica Embaixada Brasileira.

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galeria de capas e site oficial da Jungle Drums: www.jungledrumsonline.com

Em dezembro, por exemplo, a 32 vai trazer a ao West Side a Experiência NeoConcreta de mestres como Amílcar de Castro, Cláudio Mello e Souza, Ferreira Gullar, Lygia Pape… E tudo isso vai parar nas páginas caprichadas da Jungle Drums. Revista que uma bela equipe de brasucas jornalistas faz a duras penas e que dita, em português e em inglês, para todos gringos lerem, que o Brasil londrino inclui também shows de Adriana Calcanhoto, Céu, e até mostra de cinema político na alternativa Bethnal Green Road. Cá entre nós, o ‘meu’ East End, onde moro, é o que há de autêntico e inovador no cenário imobiliário, cultural e fashion da capital inglesa.

Por que será que o mais do mesmo ainda vende mais? Ou será que não? Resta a nós, brasileiros de Londres, ou do Brasil mesmo, ampliar esta janela pela qual nós vemos o mundo e que, por consequência, o Velho (e o novo) Mundo nos vê. Como bem dizia um certo Oswald de Andrade, Tupi or not Tupi? That’s the question!

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Sheffield

Prólogo

Sobre o PITCHING

Uma das atrações principais de qualquer festival de cinema é o Pitching. Pelo menos, para quem vive ‘dentro do sistema’, ou seja, escreve sobre, trabalha com, ‘meche com’, quer trabalhar, quer fazer ou faz filmes. O Pitching, que vem do pitch palavra que tem dezenas de usos e definições, mas que neste caso, nada mais é que uma apresentação de um projeto, idéia, produto diante de uma platéia de especialistas que julgam se tal projeto deve ou não ser escolhido para ganhar apoio, patrocínio, investimento etc.

De como vencer um Pitching em um festival de documentários

Em Sheffield, o maior festival de documentários da Inglaterra, que foi realizado há duas semanas, o Pitching do Channel 4 (o canal ‘alternativo’ e badalado cujo carro-chefe por anos foi a produção de documentários e que hoje ganha mais publicidade quando exibe o famigerado X Factor) não poderia ser mais concorrido.
A correria para ver quem se atira na cova dos leões do mercado de documentários ingleses inclui de tudo um pouco. Gente na platéia para tentar entender como vender seu peixe. Gente no palco tentando gritar mais alto que seu peixe é mais gostoso. Ou mais polêmico. Ou mais urgente. Ou mais dramático.
Drama é a palavra de ordem na atual produção de documentários mundial. Não basta ser interessante. Não basta informar. Não basta revelar algo. Tem de fazer tudo isso e ter um drama. Um herói, uma trajetória do herói (ou anti-herói) a ser percorrida. Tem de ter história.

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De como as pessoas se matam no London Tube e de como as pessoas querem saber quem se mata no London Tube

Pois bem… Lá estavam os projetos. Cada um apresentado por um jovem e talentoso documentarista inglês. Um sobre quem enxerga embaçado… Outro sobre terapia de regressão a vidas passadas… Outro sobre quem se mata se jogando nas linhas do metrô.
Ah, este último de drama e de urgência, e de curioso, tem muito.

É fato que a diretora estava bem preparada. Personagem já escolhido. Cenas já filmadas e exibidas no telão. Um drama daqueles. Um motorista (ou maquinista?) do metrô londrino que sofre de stress pós-traumático e não consegue voltar ao trabalho depois de ter atropelado uma mulher que escolheu uma das tantas linhas do London Tube para dar cabo de sua vida.

Tudo isso somado aos milhões de minutos e libras que a cidade perde todos os anos tentando retomar a ordem no sistema metroviário toda vez que mais um usuário resolve dar uma de boi na linha. E temos um drama documental perfeito.

Nome o filme já tem. ‘Down Under’… Lá em baixo… Muito escondida mesmo está a verdade por trás de quem são estas centenas de pessoas que não pensam no maquinista, nem nos milhões de usuários de um dos mais antigos metrôs do mundo.

Assunto não falta. Praticamente todos os meses há algum dia em que o sistema entra quase em colapso e os trens são detidos nas estações “por conta de usuário na linha”. E o recado é dado assim. Como se uma bolsa, um guarda-chuva, ou um usuário, estivessem atrapalhando o tráfego. Resta saber quem são estas centenas de pessoas que morrem na contramão do ritmo frenético da capital londrina.

Com muito drama, a carreira de Down Under promete.

Fica a dúvida. Qual será o número de suicidas nas linhas dos metrôs do Brasil todos os anos. Isso bem que daria um documentário…

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Londres

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England X Brazil?

Vamos lá. Depois de passar o mês editando a última versão de Karl Max Way, ajudando Karl a preparar sua resposta ao tribunal de trânsito inglês, entendendo como vai o mercado de documentários na Inglaterra, tentando entender se a BBC ainda ama os documentários, participando de workshops no Festival de Documentários de Sheffield, um dos mais importantes da Europa, e tentando entender as novas medidas de Gordon Brown para a imigração no Reino Unido e, para finalizar, o que Gilberto Gil veio fazer aqui, volto à ativa.

Não adiante justificar a ausência. Londres borbulha em cada canto. Portanto, falta tempo, mas assunto não falta. Como bem diz o ditado, que quem se cansou de Londres se cansou da vida.

Portanto, neste mês, para fazer jus a este espaço tão privilegiado que vinha sendo negligenciado, vou de um post por dia até o Natal. Como devia ter sido desde sempre mas que, por conta da falta de tempo e do muito tempo gasto entre metrôs, trens, baldiações, ônibus, andanças, acabou por ter o tempo de quem faz um mestrado em um idioma estrangeiro, um documentário (cuja produção, direção, promoção ficaram por conta própria), escreve matérias em geral e, nas horas vagas, experimenta uma cider ou uma pint no pub da esquina.

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Ou Egland E Brazil?

Assuntos a ver e a vir:

- De como as campanhas de Natal em Londres começam antes que qualquer outro lugar do mundo. Em fins de outubro o bombardeio já começa!

- De como os ingleses (incluindo a mídia) gastam horas e muito papel para tentar explicar que a seleção inglesa de futebol tem de provar o quanto é ‘tão boa quanto a brasileira’.

- De como os ingleses (incluindo a mídia) gastam horas e muito papel para tentar explicar que o Brasil tem de provar o quanto é tão bom, e organizado, quanto a Inglaterra e que, portanto, vai ser capaz de sediar uma Copa do Mundo e as Olimpíadas sem passar por situações como a última ‘guerra urbana no Rio’, que rendeu mais comentários que o gol tomado no último sábado

- De como Londres está de fato se preparando para sediar os jogos olímpicos em 2012 e de como o East Side (a operária e um tanto decadente zona leste da cidade, que abriga o Estádio e a Vila Olímpica) vão mudar e se tornar o novo ‘hype’

- De como os empresários, empreendedores, artistas e ingleses ‘comuns’ já voltam seus olhos para o Brasil e planejam desde viagens a negócios no ‘vizinho de Olímpiadas’. Um exército de ingleses já se prepara para conhecer e estreitar ainda mais os laços com o ‘país da moda’.

- De como os ingleses não sabem se são contra ou a favor que seus jovens, sob a insígnia do exército inglês, continuem a se enveredar por zonas de conflito além mar

- De como o alcolismo continua sendo assunto da ordem do dia quando as festas de Natal das ‘firmas’ se aproximam

- De como a ilegalidade ainda continua sendo ‘uma ficção no Reino Unido’ e de como os imigrantes ilegais parecem ser os últimos a se preocuparem com as novas medidas do ‘estatuto da imigração inglês’

Bem, assunto não falta. E o tempo, ruge!

Até amanhã.

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Londres

Prólogo – Ou lembrança àqueles que insistem em resumir a visão deste blog em apenas um dos tantos posts que ele contem.
Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Quem pensa que a minha visão seja a dourada pílula inglesa acompanhada do chá-das-cinco não deve, no mínimo, ter lido os posts anteriores.
Mas eu realmente acredito que os ingleses tenham muito a ensinar aos brasileiros. Assim como também acredito que os brasileiros tenham muito a ensinar aos ingleses. A graça de tudo está na moderação.
Já que é assim, resolvi fazer uma pequena grande lista de pequenas-grandes lições que os ingleses têm de bom. Isso não significa que não haja quem faça melhor ou igual. Simplesmente, como o título deste blog já sugere, seus temas em geral se atêm à Terra da Rainha.

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Max, um dos tantos motoboys brasileiros em Londres, passou para o lado dos que precisaram de fato cuidar da saúde em outro país

Lição 1 – Saúde

Uma das lições, por exemplo, o sistema de saúde. Antes de mais nada, vale dizer que acredito que o Brasil avança a passos largos. E não deve sofrer de complexo de vira-lata nenhum. O que mais se fala por aqui é sobre o quanto o Brasil cresce, prospera, está crescendo, está na moda etc…
Mas, como bem observou uma leitora, e os índices de condições básicas que elevam o nível de vida de todo país? Como vai a saúde, a educação, os níveis de diferença de renda no Brasil e na Inglaterra?
Então, a saúde na Inglaterra… Muitos dizem que o NHS (National Health System) está em colapso. Outros com razão alegam que o tratamento dado aos pacientes por parte dos médicos é frio e seco como as macas de alumínio. Quase todos brasileiros dizem que os médicos dos GPs (o centros de General Practice, uma clínica de atendimento geral que poderia ser comparado aos postos de saúde brasileiros) usualmente só receitam paracetamol e mandam os doentes para casa.
Quem ousa negar tais fatos? Mas, o que vi neste último ano em que freqüentei mais os corredores de hospitais que os túneis do metrô londrino, foi uma face interessante de como funciona o atendimento em Londres, seja formal quanto informal.

Cinco meses atrás, o personagem principal do documentário que estou agora editando, sofreu um acidente. Karl Max (sim, sem o R) é o nome dele. Ironia pouca do destino, é bobagem…
Goiano e sem falar bem o inglês, ele era um dos centenas de motoboys brasileiros que se arriscam ilegalmente todos os dias nas ruas da Inglaterra para entregar os documentos (legais) que fazem mover uma das maiores economias do mundo. Max se acidentou numa tarde de maio. Quase morreu, quase perdeu o pé. Quase ficou inválido. Chegou ao hospital quase morrendo. Tudo que conseguia processar era: ‘Talvez vamos ter de cortar seu pé”. Bateu o desespero. Max sozinho, sem saber se explicar em inglês, sem poder ligar para ninguém, passou a noite na maca gelada do Whitechappel Hospital. De seu nome, mal grafado, à sua situação legal, passando pelo seu pé esquerdo, tudo estava errado.
Os funcionários do hospital poderiam ter alegado, diante da obviedade da situação, que Max era ilegal e, portanto, não teria direito a tratamento. Que nada. Max foi tratado do começo ao fim dos longos 44 dias em que passou internado como um autêntico inglês. Tão autêntico quanto Roy, o inglês de Kent, que dividia com ele uma das macas da ‘ala dos estropiados’ como eu a definia. Nos outros dois leitos, um russo desabrigado comemorou seu aniversário com um bolo improvisado, pago pelo ocupante do outro leito: um mafioso marroquino que recebia visitas regulares de seus ‘funcionários’, que lhe entregavam sumas impressionantes de libras de dar gosto de ver.

Com algumas destas libras, o marroquino pagava a TV (que não é de graça) do leito do Max, para que ele se distraísse nas tantas horas de solidão hospitalar. Enquanto isso, Roy ensinava o Max a falar direito com as enfermeiras descendentes de famílias da Índia, do Paquistão, do Iraque, de Bangladesh e, veja só, até da Inglaterra!

Os 44 dias serviram para o Max parar de falar que médico inglês “só taca paracetamol na gente”. Serviu também para ele melhorar o parco inglês que falava. Serviu para aprender que, por mais ilegal que fosse, médico inglês nenhum iria largá-lo no corredor ou chamar o Home Office (o tão temido caça-ilegais) antes de ter a certeza absoluta que o pé esquerdo do Max estava em condições de passar para a fase da fisioterapia e, em seguida, para a cirurgia plástica.

Enquanto isso, a mulher do Max, também ilegal, fazia o pré-natal em um outro hospital da cidade. Fui a quase todas as consultas do pré-natal com ela. Traduzi linha por linha do que as midwives (algo que poderia ser traduzido como uma parteira, mas que é de fato uma enfermeira especializada) diziam para ela. Do fato dela ter de tomar mais ferro (que era fornecido gratuitamente) ao fato dela ter de fazer parto normal (porque na Inglaterra parto cesárea não é banal e só é feito em último, mas último caso mesmo). Passando até pelo fato das enfermeiras se recusarem a fazer mais do que os quatro necessários ultrassons durante os nove meses. “Não deu para ver o sexo do bebê direito? Espere a surpresa. Compre tudo branco e verde e vai ser feliz.” Foi assim que a midwife, muito carinhosamente, com uma frieza que uma enfermeira do Brasil nunca falaria, explicou porque não iria mais fazer ultrassom nenhum na barriga da mulher do Max. “Se o marido dela não está contente com uma menina, o problema é dele.”
Eu achei uma grosseria inglesa das maiores ouvir aquilo. Afinal, era só para comprar roupinhas da cor certa. Mas, depois de uma olhada melhor, e de perceber que 90% da grávidas que ali faziam o pré-natal são em geral de famílias muçulmanas, chinesas e do Leste Europeu, entendi a lição.

O tratamento continua sendo sim frio e impessoal. Como brasileira, continuo achando estranho que o médico em geral só apareça na primeira consulta e depois de o bebê nascer. Mais estranho ainda que todo mundo sabe que todo mundo sabe que há milhares de ilegais trabalhando, sendo tratados, parindo, gastando suas libras, pagando impostos e contribuindo para a economia inglesa. Como numa república dos acordos tácitos, todo mundo sabe que o Rei (ou a Rainha) muitas vezes está nu. Mas ninguém fala. Muitas vezes para o mal. Outras tantas para o bem.

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