Voltei ao Vale do Cuibá para rever o lugar, cem dias depois da tragédia na serra. O Vale continua bonito e a limpeza caminhou aqui talvez um pouco mais rápido do que nos outros lugares. Mas só um pouco. Ainda há muito o que fazer, me disse um morador de um pequeno núcleo de casas que foi quase todo arrasado.
O Rio Santo Antônio está muito raso – e ainda não começaram a dragagem. Qualquer chuva é muito perigosa.
Esta é a preocupação do morador que coincide com a de todos que acompanham o processo e o vêem como uma corrida com a chegada da primavera, quando começam chuvas mais fortes.
O problema da maioria dos rios de quase todos os rios da região atingida: eles precisam de uma calha. Alguns chegaram a mudar de curso. A proposta do governo é criar um parque fluvial para garantir uma outra relação com as margens.
Mas as propostas do governo são mais retóricas. Não só os rios como as montanhas carecem de um projeto articulado de intervenção. Segundo a EMOP, Empresa de Obras Públicas do Rio de Janeiro, 770 encostas do estado precisam de obras urgentes, num esforço orçado em R$3,3 bilhões.
O Vale tem muitas casas de gente rica e alguns dos bons haras do estado, entre eles o da Boa Esperança. Voltei à pousada Tambo Los Incas cuja limpeza foi feita por um grupo de doze voluntários. Dificilmente alguma coisa poderá ser construída ali onde era a pousada porque está muito próxima do rio.
O Vale do Cuiabá está em Itaipava, distrito de Petrópolis. Outro fator comum as áreas que visitei: as casas pobres foram abandonadas e o processo de reconstrução é mais rápido para quem tem recurso. O Colégio Santo Antônio conseguiu reconstruir sua ponte.
As pontes são outro problema, me disse o morador com quem conversei mais longamente. O governo afirma que já determinou todos os pontos que serão religados por pontes. Mas ainda não começou a fazê-lo.
No meio da tarde, deixei o Vale do Cuiabá para recolher o material da CPI da Assembléia. Foi difícil trabalhar na véspera do feriado. Escolhi o contrafluxo para evitar retenções de trânsito na estrada. Mas o trânsito estava tão confuso que acabava complicando o contrafluxo. Qualquer acidente de um lado, reduz o ritmo do outro, porque os motoristas avançam lentamente para ver o que aconteceu.
Vou usar o feriado para escrever o texto da reportagem. Na verdade, apesar da tristeza do cenário em muitos pontos destruídos, os dias foram magníficos.
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Nesse momento, estou subindo de novo a serra para iniciar um balanço da reconstrução, após a tragédia do princípio do ano. Meu objetivo inicial é Friburgo, onde assistirei uma audiência pública e visitarei dois bairros, Córrego Dantas e Duas Pedras.
A semana parece normal, dentro do flexível conceito de normalidade que estamos adotando. Em Niterói, perto do Mercado Velho, uma estação de esgotos se rompeu, feriu sete pessoas e inundou a região com uma onda de dejetos. Posso imaginar a surpresa de Selma Pinheiro e seus clientes: ela inaugurou um restaurante perto do Mercado e e casa estava cheia quando entrou a onda de água suja.
No Japão, nos reatores 1 e 3 de Fukushima foram registrados, de novo, altos índices de radiação. E na Líbia, as tropas de Kadafi mataram 17 pessoas em Misurata.
Assim começa a manhã de segunda. Os tornados nos EUA mataram 40 pessoas. Continuarei monitorando esses temas na estrada, mas creio que hoje vai se falar muito de Aécio Neves, cuja carteira de motoristas foi apreendida, e de Ronaldinho Gaúcho que chutou um pênalti para os céus de Volta Redonda. É a velha máxima que diz ser notícia apenas o homem que morde um cachorro e não o contrário.
Se bem que com a chegada da internet, a lógica tradicional foi para o espaço. Temas que antes considerávamos prosaicos, como dois bebês tentando conversar, tornam-se um grande sucesso entre os internautas. Mas isso é outra história. Agora é subir a serra. Não sei se terei chance de visitar os sete municípios atingidos. Mas farei o máximo para transmitir o que se passa pois analisarei também documentos que foram produzidos sobre o tema por gente que já iniciou o balanço.
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Petrópolis- Começo minha reportagem num dia de sol. Meu primeiro contato foi o prefeito Paulo Mustrangi com quem conversei sobre os planos de reconstrução. Na verdade ainda não existem, porque a maior tensão no momento está voltada para desobstruir estradas,limpar casas, recolher entulhos.
O noticiário fala de R$480 milhões que o BNDES vai injetar na economia serrana. Até o momento, o governo liberou R$7 milhões para Petrópolis, R$7 milhões para Teresópolis e para Friburgo R$10 milhões. Tudo voltada para a emergência.
Ouvi ainda histórias da noite das chuvas. Uma delas relata o desespero dos donos de haras no Vale do Cuiabá. Muitos perderam cavalos avaliados em R$500 mil. Alguns animais estavam no seguro. E os proprietários ofereciam até r$15 mil pelo corpo do cavalo, pois sem ele não receberiam o seguro.
Visitei o hospital de campanha da Aeronáutica, em Itaipava, e segui direto para o Vale do Cuiabá. Quando sai do vale domingo,.estava chovendo muito e as pessoas tinham dificuldades em limpar suas casas. Agora o problema é pó. Quase todos estão usando máscaras.
Em alguns lugares na estrada senti o cheiro de animais mortos e do barro apodrecido. Visitei uma oficina em que os garis de Petrópolis estavam limpando. Todos com máscaras , sob os escombros havia comida.
Cabral falou pelo rádio em ajuda aos 17 mil agricultores. Isto é essencial. Mas os pequenos empresários atingidos na área urbana vão precisar de novos lugares para tocar seu negócio.
No Vale do Cuibá encontrei muita gente trabalhando ativamente para transportar seus objetos ou mesmo recuperando sua casa. Na visita de domingo, falamos sobre o problema do aluguel social. O governo destinou CR30 milhões para aluguel social: R$500 mensais por família.
Acontece que não ha casas de aluguel no Vale. A saída é construir novas no próprio lugar, porque muitos trabalham aqui e não querem sair.
O prefeito de Petrópolis informou que um grupo de empresários liderados pelo Presidente da Federação das Indústrias, Eduardo Eugênio Gouveia Vieira, está buscando este terreno e talvez possa fazer uma doação: boa saída.
Como Blumenau, a Serra terá de se reinventar. Os prefeitos das três maiores cidades fizeram um consórcio com o objetivo de ganhar mais eficácia. Mas para fazer o que, alem de recuperar uma certa normalidade? O fato de Petrópolis ter recebido uma estação meteorológica, com pontos avançados no Vale do Cuibá, e não ter feito funcionar o equipamento, é preocupante. Houve um jogo de empurra entre estado e prefeitura porque a estação demandava R$900 mil anuais, para sua manutenção. Espero que ,no momento em que se conta o prejuizo, os governantes reconheçam a importância dos gastos com prevenção.
PS: Estadão publica amanhã minha reportagem na Venezuela. Os que leram os posts de Caracas vão poder ter números e uma visão mais extensa do tema.
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Em três dias de visita aos principais cenários da tragédia na região serrana do Rio, confesso que há dois tipos de tristeza nos ameaçando: uma é conseqüência do impacto real das chuvas, outra é conseqüência de nossas dúvidas sobre a resposta adequada. Esta sensação reapareceu, ontem, na visita ao Vale do Cuibá. Cem famílias desabrigadas, algumas na Igreja Metodista. Muitas casas ali não podem ser reconstruidas. A única saída para essas famílias, no momento, é o chamado aluguel social. O valor é de $400 reais. Mesmo se fosse maior, não resolveria pois não há casas disponíveis.
Temo que aconteça com eles o que aconteceu com muitos. Passada a tragédia, são esquecidos e, quando pedem socorro, transformam-se numa pequena nota de jornal. O impacto econômico sobre a região é muito forte. Friburgo foi atingida no centro e deve perder grande parte de seus visitantes, este ano
A região do Vale do Cuiabá, em Petrópolis, apresenta esta dificuldade de realocação. Em vários lugares, como Campo do Coelho e Vieira, o processo de reconstrução será caro. Mas o governo pensa assim: vamos gastar R$2 bilhões com a reconstrução, logo o desastre nos custará isto. Acontece que as perdas individuais são incalculáveis. Os carros, por exemplo, darão direito aos seguros?
A paralisação de parte da agricultura pode gerar salários compensatórios? O desemprego pela queda do turismo será atenuado de que maneira? Isso para ficar apenas no desastre que passou. E as providências para o futuro? O que aprendemos , de fato, com mais esta tragédia natural? Aos poucos, vou mencionando as principais propostas que a experiência em desastres indica. Se considerarmos a importância do governo federal, as mudanças deveriam começar de cima. Mais tarde vamos a elas.
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Friburgo. De todas as cidades atingidas, esta foi a que sofreu um golpe mais visível. O centro de Friburgo foi atingido e ao visitá-la ontem, no meio de um novo temporal, encontramos um outro tipo de destruição. Havia móveis nas ruas, entulhos, mas também um batalhão de garis vestidos de laranja tentando limpá-las. As lojas continuavam fechadas e quando o temporal apertou, as rádios locais pediam as pessoas para não saírem às ruas. Os que já estavam na chuva, como nós, sentiram medo porque as águas do rio já estavam transbordando no canal. Não havia sinais de trânsito, andava-se na contramão de acordo com a necessidade. Cada esquina era uma armadilha: por onde escapar?
Caíram duas barreiras na saída para o Rio. Vimos um carro amarelo levando o governador para a cidade. Decidimos seguir outro caminho, a estrada para Teresópolis. Travamos contato, no lado de Friburgo, com a destruição em Campo do Coelho, onde uma casa ficou apenas com o telhado e a caixa d’agua de pé.
Mais adiante, no Hotel Saint Mauritz, bombeiros retiravam corpos num bosque e estávamos apenas a alguns minutos de outra grande destruição: Vieira. Este pequeno distrito de Teresópolis praticamente desapareceu. Duas grandes massas de barro e entulho foram afastadas uma das outras para dar passagem aos carros. Vieira fica à margem da estrada. Cruzamos com pessoas vindas da zona rural, que acabaram escapando do isolamento, no fim da tarde. Diante de bares destruídos, ou mesmo concentrados na porta da igreja, moradores em grupos silenciosos olhavam os destroços.
Estamos seguindo para o Vale do Cuiabá, em Petrópolis. E esperamos também chegar a São José do Rio Preto. As cidades pequenas ficam meio esquecidas.
Tags: Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, Vale do Cuiabá, Vieira
No momento em que acontecem tragédias como essa , há vários caminhos a se percorrer. Há o caminho tomado por Chavez que é o de politizar o processo e utilizá-lo para impulsionar o socialismo.Há o caminho australiano no qual o governo indicou um general da região para comandar as obras de socorro e reconstrução e há também a discussão estratégica, sobre como atenuar o impacto dos desastres, através de processos longos de reeestruturação urbana.
Considerando que as chuvas não escolhem culpados para cair e que os projetos estratégicos são tema de discussão permanente, é preciso dar um espaço para o quesito resposta. Está sendo adequada ou não? O que se faz no Brasil em termos de preparação?
A Presidente Dilma Rousseff não quis quantificar a verba de ajuda nem o prazo de recuperação. Foi cautelosa porque, as vezes, anunciam-se milhões e, depois de alguns meses, aparecem apenas alguns milhares. Por isso, sempre se batalhou por um fundo para desastres naturais. Com as regras estabelecidas, a liberação do dinheiro é automática. É um mecanismo institucional que não precisa depender do presidente, exceto em momentos excepcionais pois não se podem prever todas as situações numa lei que cria o fundo.
Passei parte da tarde em contato com pilotos de helicópteros para conhecer melhor o trabalho de resgate e obtive informações ainda não confirmadas sobre corpos sepultados em alguns bairros atingidos. Parto pela manhã para dedicar os próximos dias ao tema. Um leitor me acusou de frieza porque usei algumas horas para concluir um trabalho de semana, inclusive virando a última noite em aviões e aeroportos. Tenho limites físicos e prefiro além de estar presente, preciso render mais.
O governador do Rio disse que a remoção das famílias não avança, as vezes, por causa de alguns politicos. E conclui que é preciso coragem. Isso é bom para quem quer manter o prestígio com o eleitorado. Mas além de coragem, é preciso recursos. Existe uma janela para um grande empréstimo no Banco Mundial. Se for aproveitada para aumentar a segurança será fundamental.
Mas é preciso mudar muita coisa. Sempre tivemos um Ministro do Interior do Nordeste. Esta opcão se deve às secas que atingem grandes áreas e maltratam pessoas muito indefesas. Acontece que os desastres naturais estão se repetindo muito nas regiões metropolitanas. Não importa se o ministro é ou não do Nordeste, é preciso que se interesse pelo problema e saiba mobilizar a sociedade.
Esta última questão é vital. Se o governo reconhecer que não responde sozinho pela defesa civil, acaba transferindo poder para as pessoas, para os bairros. O modelo do Caribe, onde os furacões se sucedem, talvez seja o mais adequado. Através de cartilhas e programas informativos, os governos envolvem a população.
Em alguns bairros facilmente alagáveis do Rio, como a comunidade dos marítimos em São Gonçalo, as pessoas já sabem onde estão os barcos, e o endereço de quem não consegue se mover. Em São Francisco de Pádua as chuvas , de repente, levaram o hospital. Foi preciso buscar um a um os dependentes de hemodiálise para transferi-los para uma cidade fronteiriça mineira.
No Rio, certos líderes comunitários já estão recebendo celulares para que sejam avisados de temporais se aproximando. As pessoas com quem falei no bairro de Campo Grande foram dormir sem saber que ia chover forte. É um aprendizado que vale para o futuro. Aliás, Teresópolis tinha um levantamento de risco mas não chegou a extrair as consequências práticas .
Lembro-me, nas muitas vezes em que percorri a região serrana com Luis Paulo Correa da Rocha em dias ensolarados observando a disposição das casas na encosta . Pensar num grande temporal dava calafrios.
Os avisos não faltaram. Era exatamente isto que pensava ontem, quarta-feira, no vale onde está situada Caracas. Visitei o bairro do Limon, onde cairam várias casas. Em seguida, percorri encostas da monte Ávila, fotografando a precariedade das casas que restaram. É uma situação idêntica ao que vivi na Serra. Ao desembarcar no Brasil, ouço a noticia da tragédia.
Tags: chuvas, desastres naturais, Petrópolis, Teresópolis
2011