Estão dizendo que o colete mais poderoso permitido pelas Forças Armadas é o IIIA. Acho que Carlos Lupi andou tomando muito IIIA.
É a única explicação que encontro para sua frase de hoje: só saio daqui abatido por uma bala e assim mesmo tem de ser bala forte.
Diante de Orlando Silva, temos uma nuance de humildade. Lupi não disse que era indestrutível : só sai com bala forte.
Ambos deviam ouvir o Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes e Baden Powell. O homem que diz sou/não é/porque quem é mesmo/ não sou.
Apesar das imperfeições, a democracia brasileira funciona. Nela, um ministro que diz o que Lupi disse, não é caso de bala, mas de amendoim.
Ate Silvio Berlusconi, ao perceber que a maioria lhe faltava, vai sair de fininho. Lupi é só bravatas.
A maneira como se comporta nesta crise, independente da corrupção no Ministério, já era o bastante para fosse demitido.
A outra parte da fala, refere-se aos que pensam que vão carregar o seu caixão. Segundo Lupi, devem morrer antes dele.
Outra metáfora maluca. Mortes, tiros, lutas sangrentas, pra que tudo isso?
Basta seguir o conselho do deputado Regufe: sair do cargo é mais inteligente.
Mas não tem jeito. As saidas dos ministros são cheias de declarações patéticas. A Casa Branca foi forçada,hoje, a dizer, em seu site que não há extraterrestres entre nós. Cerca de 17 mil eleitores exigiram uma resposta para a pergunta.
Daqui a pouco, o próprio Palácio do Planalto sera forçado a repetir a nota americana.
Sinceramente, viver num país em que um Ministro do Trabalho diz que só deixa o cargo abatido à bala é ser jogado, através da metáfora, nas cavernas pré-democráticas. Ou num outro planeta.
Lupi tem de parar de beber esses coletes IIIA e começar a fazer sentido.
Tags: Carlos Lupi, Ministério do Trabalho, Orlando Silva, Silvio Berlusconi
Brasília- Estou na capital para um seminário. Nada a ver com os escândalos. Mas aqui na corte, só se fala nisso. O Brasil é hexa na modalidade queda de ministros: Orlando Silva cai e o PC do B , parece, continuará com o Ministério dos Esportes.
Orlando Silva aparelhou o ministério para o PC do B, que o defendeu com unhas e dentes. As ONGs, que pegaram o dinheiro e não comprovam seu uso , também são ligadas ao PC do B.
O ministro foi punido, seu partido não. O PC do B se comportou de uma forma que merecia a mesma punição que o próprio Orlando.
Sempre se dizendo um partido experiente, afirmando ter passado por várias situações difíceis, sua reação às denúncias foi elementar.
Produziu um programa de televisão para incensar o comunismo no Brasil. Não era isto que estava em jogo. Usou, indevidamente ,a imagem das pessoas. E não respondeu às acusações de frente.
Sinceramente, não esperava que seus dirigentes fossem tão estreitos. Eles se dirigem a uma opinião democrática tentando infantizá-la, como se estivessem num pais sem liberdade de imprensa.
No movimento estudantil, chamávamos os quadros do PC do B de a tigrada. Isto por causa da frase de Mao: o imperialismo é um tigre de papel.
É surpreendente, tantos anos depois, que a tigrada reduza o mundo a uma guerra de propagandas.
Fala–se que Aldo Rebelo será o no novo ministro. Ele tem mantido posições independentes da esquerda, a partir de sua própria reflexão.
Mas daí a contestar o aparelhamento do estado pelo PC do B vai uma grande distância. O esporte continuaria nas mãos de um partido, alimentando suas finanças e seu crescimento.
Impressionante a mediocridade do governo. Não consegue dar um passo adiante, na liberação da máquina do estado de seus ocupantes espúrios.
Pela mesma lógica, demite alguém do Sarney, mas coloca outra pessoa do Sarney no Turismo.
Não acredito que Orlando Silva seja o culpado sozinho. O governo, com a renúncia do Ministro e a continuação do cargo com o PC do B, tenta nos passar esta ideia.
Assim como o PC do B, o governo desistiu de fazer sentido. Resolve apenas mudar um pouco, para deixar tudo como está. Inauguramos, sob inspiração da tigrada, o grande salto no mesmo lugar.
Tags: Dilma Rousseff, hexa, Orlando Silva, PC do B
Coisas do jornalismo. Escrevi um artigo sobre o conselho de Lula a Orlando Silva: resistir aos ventos fortes.
Mostrei como era frágil a argumentação do governo e previ que, pelo menos a médio prazo, não daria certo.
Quando terminei o artigo, surgiu a notícia de que Orlando Silva será investigado pelo STF, que atendeu ao pedido do Procurador Roberto Gurgel.
Não sei se Orlando Silva dura até sexta-feira. Se vão enterrar logo sua passagem pelos Esportes ou vão prolongar as cerimônias fúnebres.
No momento em que encerro o texto( na linguagem técnica se chama deadline) sinto a necessidade de trabalhar uma nova formulação.
Bem que hesitei, ao supor que o esquema teria mais algumas semanas de vida. Quando Orlando Silva declarou que se sentia indestrutível, percebi que a coisa tinha atingido também sua mente. Os deuses enlouquecem aqueles que querem destruir.
No caso de Orlando Silva, talvez não tenha sido preciso intervenção divina. O PC do B também perdeu o contato com a realidade.
A decisão autoritária de se defender martelando os fatos é escandalosa numa programação normal de tevê.
Talvez fosse cômodo criticá-los por mais alguns dias. Preciso de um tempo para refazer o trabalho porque se Orlando Silva amanhecer no cargo, no princípio de semana, certamente será uma atração turística
Tags: corrupção, Ministério dos Esportes, Orlando Silva, PC do B, STF
- Deixa o da cerveja e está liberado.
Assim falavam os PMs cariocas no passado, quando cuidavam do trânsito e precisavam de um dinheiro extra.
Com o surgimento das milícias, organizações lucrativas foram montadas e hoje a situação é outra: 2600 latas de cerveja foram apreendidas ao darem entrada no Batalhão Especial Prisional, onde 276 policiais militares estão presos.
O interessante é que a Corregodoria disse que vai apurar e punir quem deu o dinheiro e quem comprou as cervejas.
Não caiu a ficha ainda: não há como esconder 2.600 latas de cerveja numa cela. Se os presos encomendaram esta quantidade é porque estavam com total controle da situação.
Não se trata apenas de achar quem deu dinheiro e quem comprou. É todo o sistema prisional dos PMS que está em colapso disciplinar.
Aliás em colapso estão também as autoridades brasileiras que dirigem a Copa do Mundo. Orlando Silva e Ricardo Teixeira, a dupla do ataque, não sairão do noticiário tão cedo.
Policiais que investigam Ricardo Teixeira descobriram que comprou um avião Cessna, por apenas US$1.
Espantoso, como o estoque de cervejas no presídio dos PMs. Mas é o momento que vivemos. Evidências não valem. Orlando Silva diz que é indestrutível porque pertence ao PC do B.
Na sua fase romântica, durante a Guerra Civil Espanhola, os comunistas cantavam canções e La Passionária, diante do avanço das forças facistas, gritava: no pasarán.
Os comunistas de hoje fogem dos fiscais do TCU e gritam: não tomarão . Não tomarão nossos empregos nem secarão nossa fonte de grana.
É compreensível que os PMs deixem de pedir uma cervejinha na esquina e comprem logo 2600 latas, para o fim de semana na cadeia. São os novos tempos. Em caso de dificuldade, faz-se uma campanha :Sou Orlando, Sou Brasil; Sou Teixeira sou Brasil; Sou Orlando, Sou Teixeira, Sou otário.
Já não somos mais uma república de bananas. Nesse meio século, trocamos de símbolo e viramos a república dos laranjas.
Tags: Batalhão Especial Prisional, Milícias, Orlando Silva, Rcardo Teixeira
Esboço de um artigo para semana. Lula aconselhou o PC do B a resistir com Orlando Silva. É preciso enfrentar firme a ventania, não se deixar arrastar por ela-teria dito.
O orientais aconselham o contrario. Dobrar-se para que a ventania passe e não nos arraste com sua força.
Os orientais buscam a sabedoria, com essa frase. Lula busca o poder com a sua afirmação. Eu tenho a força, parece dizer como um personagem de histórias infantis.
Há casos, na história, em que figuras históricas enfrentaram a ventania sem se dobrar. Alguns foram vitoriosos. Mas todos tinham algo em comum: uma grande causa .
Qual é a causa do governo ao enfrentar a ventania? É uma causa clandestina: a legimitidade de se usar o aparato do governo para construir a estrutura partidária.
Ela tem validade à boca pequena, entre militantes de partido que, com suas perspectivas revolucionárias, se acham acima do bem ou do mal.
Mas é abertamente antirepublicana e não pode ser defendida à luz do dia. Portanto, o governo está no olha do furação sem uma ideia para defender.
Daí ter caído na simplicidade da pergunta: cadê as provas? Ora não é apenas o recebimento do dinheiro na garagem que está em jogo. São quase 50 milhões de contas não prestadas. Onde estão as provas de que foram gastos com honestidade?
O governo e o PC do B estão devendo provas e, para confundir, pedem provas. Sua decisão de resistir é apenas um gesto de força de Lula que se sente invencível por duas razões: a popularidade interna e o reconhecimento internacional.
Ele parece não compreender que são fatores dinâmicos. Uma pessoa bem informada na oposição ao Irã já não o considera um interlocutor, tantos equívocos cometeu em relação ao pais.
As ventanias no país não são idênticas umas às outras. O sudoeste aqui significa chuva. A ventania trazida pela corrupção nos esportes é de fácil compreensão popular, em tempos de Copa do Mundo. É portanto um vento de tempestades.
Os populistas do passado diziam que as denúncias não pegavam porque seus eleitores acreditavam que eram apenas perseguições políticas.
As condições de hoje permitem informar melhor. Espelhos e miçangas sempre serão distribuídos, mas são mínimas as chances de gritarmos Caramuru.
Tags: Dilma Rousseff, Lula, Orlando Silva, PC do B, prestação de contas
Com a decisão de Dilma de manter Orlando Silva o cargo, vamos ter mais algum tempo de crise e revelações sobre a extraordinária máquina que o PC do B. Inclusive tempo de diversão.
Esse escândaloestá ficando cheio de w. No princípio da semana, apareceu Wacilon, da Associação dos Funcionários do Tribunal de Contas. É do partido, levou dinheiro e não prestou conta.
Agora, aparece Wadson Ribeiro, chefe de gabinete do ministro Orlando Silva e candidato derrotado pelo PC do B. Suas entidades levaram R$9,4 milhões.
Nesse ritmo, daqui a pouco aparecem Wellingtons ,Washingtons . Leio que Wadson inclusive é candidato a prefeito em Juiz de Fora. Elementar, caro Wadson; não vai dar certo.
Voltando ao início do alfabeto , antes mesmo de Agnelo,destaco o Amendoin, líder comunitário no Rio,candidato derrotado pelo PC do B. Quando o jornalista perguntou pelo dinheiro destinado à sua entidade, respondeu: se você souber me diz, porque também gostaria de saber.
Através do humor, Amendoin se aproxima da nossa situação de perplexidade: para onde foi tanto dinheiro?
O Tribunal de Contas calcula em R$49 milhões a soma dos gastos que precisam ser melhor demonstrados. Muitos dos gastos aprovados, por outro lado, foram usados na estruturação do partido. O relatório do Procurador Geral da República, pedindo abertura de investigação, tem 100 páginas.
Lendo a história, no Globo, de uma fábrica de artigos esportivos, em São Paulo, tenho a sensação de estar na China., sem a produtividade chinesa. Financiada pelo governo, que através do Ministério dos Transportes já injetou R$17,3 milhões, ela produz artigos esportivos.
Não acho coisa do outro mundo injetar dinheiro em empresa de mutuários, quando os governos injetam tanto dinheiro em estruturas industriais clássicas e no sistema financeiro.
Acontece que o presidente da entidade que recebe o dinheiro, José Amorim, é do PC do B. Sua filha, Janaina Amorim, é delegada na convenção estadual do partido.
São muitos os exemplos de uso da máquina estatal para o crescimento partidário. Não é na coisa nova na história política brasileira..
Nessa caso específico, de um partido centralizado, a ocupação é mais racional, no sentido de obter o máximo do espaço de governo que se detém.
Duvido que tenham surgido grandes fortunas pessoais disso tudo. Grande parte dos recursos garantem a máquina partidária e sua sobrevivência eleitoral.
O que me pareceu mais rico até agora foi o PM João Dias, dono de academias de kung-fu e com tres carros importados, na garagem.
O caso do terreno de que Orlando Silva comprou por R$370 mil me pareceu impossível de processar na cabeça: economizar toda a vida para comprar um terreno de repouso em cima de um oleoduto da Petrobrás…
É muito patriotismo. O PC do B já tem um dirigente trabalhando na direção da Agência Nacional de Petróleo. Agora, terá outro dirigente repousando sob um oleduto da Petrobrás.
Uma das coisas que acredito na propaganda do PC do B : o partido está crescendo. A questão é como está crescendo e o que isso representa para um já degradado processo político brasileiro.
Tags: Orlando Silva, PC do B, Procuradoria da República, Tribunal de Contas
O filósofo do futebol, Neném Prancha dizia: pênalti é tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube.
Dilma parece ter seguido esta orientação. A Copa do Mundo é um evento tão importante que será monitorada, diretamente, pela presidente do país.
Isto foi o que saiu no Estadão de hoje. O governo é muito ambíguo, nessa e em todas as questões delicadas em que se envolveu.
Detesta a palavra faxina, quando está perto dos políticos; adora a palavra faxina, quando ela aumenta alguns pontos na pesquisa de popularidade.
O fato é que o governo é sempre bem informado. Mesmo longo de Brasília, ouço os rumores de que correm vídeos de mão em mão, vídeos que podem ofuscar aqueles que derrubaram o governo Arruda.
Muito em breve, a situação vai se complicar. Assim que o caso Orlando Silva for solucionado, começará o de Agnelo Queiroz.
O PM João Dias, dono de academias de kung-fu, faz carga pesada contra Orlando Silva. Mas é discreto quando fala do governador de Brasília. Agnelo era ministro na época. Dizem que, hoje, João Dias tem até afilhados nomeados em cargos de confiança no governo local.
Será difícil limitar o escândalo ao Ministro dos Esportes. Agnelo Queiroz passou pelo Ministério e faz política em Brasília. Ele agora é do PT e governador.
Está sendo investigado pelas mesmas razões que levaram Orlando Silva à desgraça. E outras decorrentes de sua prática específica em Brasília.
Se depender do acusador, o escândalo nos Esportes morre com a queda de Orlando Silva.
É uma ilusão pensar que essas histórias podem acabar no dia certo, com a ação, personagem e diálogos já escritos. Não são novela de televisão.
A médio prazo monitorar a Copa pode ajudar. Mas no momento, o problema é monitorar o escândalo e seus imprevisíveis desdobramentos. Daqui a pouco, começa a campanha Sou Agnelo, Sou Brasil.
A mais recente crise mostrou que a política em Brasília é complicada, sobretudo quando é preciso achar um nome para tirar a capital da crise.
Tags: Agnelo Queiroz, copa do mundo, Dilma Rousseff, João Dias, Orlando Silva
-Se você souber para onde foi o dinheiro, me diz que eu quero saber.
Esta frase foi dita por Paulo César Martins, coordenador do Instituto Rumo Certo, filiado ao PC do B, respondendo sobre o destino dos R$11,3 milhões do programa Segundo Tempo, que seriam aplicados na Rocinha.
Isso saiu no Globo de hoje, onde há um levantamento dos principais projetos do programa Segundo Tempo.
Por seu lado, a Contas Abertas fez um balanço dos projetos do Segundo Tempo e concluiu que R$25,5 milhões foram destinados a duas entidades que têm dirigentes do PC do B, entre 2006 e 2001.
Na pequena cidade baiana de Conceição do Jacuipe, a Associação Cultural, ligada ao PC do B, recebeu R$9,8 milhões para construir uma fábrica de xadrez,soma equivalente a três vezes o que a Prefeitura da cidade conseguiu captar do Ministério.
Uma boa síntese de tudo está no próprio Tribunal de Contas que pede de volta às entidades conveniadas com o Ministério dos Esportes cerca de R$49 milhões, usados sem comprovação adequada.
Tudo isso mostra a singularidade da cultura política brasileira. O Ministro dos Esportes foi aplaudido por uma claque ao afirmar que não havia provas de que recebeu dinheiro na garagem.
A presidente da República afirma também que o ministro é de sua confiança e , como todos os acusados, merece a presunção da inocência.
O visível aparelhamento do ministério, com a inequívoca distribuição de dinheiro para cabos eleitorais do PC do B, não é considerado um tema importante, ou pelo menos, digno de questionamento.
Tudo o que interessa é o os americanos chamam de revólver fumegante e, na cultura brasileira, batom na cueca.
O paciente acúmulo de dados, a relação entre as inúmeras dotações de verbas do Ministério- tudo isso escapou aos debates de ontem no Congresso.
No fundo, a sensação que tem é de que é legítimo destinar dinheiro em grande quantidade para cabos eleitorais, ou gente que concorre pelo partido para acrescentar uns votinhos à legenda.
A cultura política pressupõe que o Ministério pertença a um partido e deva ser usado para que ele cresça e aumente sua esfera de poder.
O que se condena apenas é receber dinheiro na garagem do Ministério. Ou melhor, receber dinheiro e ser filmado.
Assim mesmo, se for filmado como Jaqueline Roriz, tem condições de escapar. Depende do ângulo, da luz, da composição.
Parecemos o marido que foi descoberto com outra na cama pela própria mulher e, no dia seguinte, com um bouquê de flores, volta para ela e pergunta: você vai acreditar no que viu ou vai acreditar em mim?
Tags: Contas Abertas, ONgs, Orlando Silva, PC do B
Quando estoura um escândalo no Brasil, os acusados, de um modo geral, negam e tentam resistir no seu cargo. Alguns resistem. Sarney e Renan Calheiros são um exemplo da resistência bem sucedida.
Mas há uma diferença na capacidade de resistência e ela é determinada pelo contexto eleitoral. Sarney e Calheiros se elegem de qualquer maneira. Muitos de seus eleitores ignoram as acusações contra eles, outros são simplesmente agradecidos por seus favores.
O caso de um escândalo no PC do B é diferente. Em tese, remanescentes do stalinismo são capazes de negar qualquer fato ou de atribuir um duplo sentido às palavras mais transparentes.
Acontece que o PC do B tem uma base de eleitores urbanos. Há estudantes que votam no partido. No Rio, alguns intelectuais têm se revelado fieis eleitores e, em Porto Alegre, a deputado Manuela Dávila é favorita nas eleições de 2012.
Tudo isso significa que o PC do B não pode usar a mesma tática de Sarney e Calheiros. Seria menos eficaz .
Mas, por outro lado, o PC do B tem se mostrado um aliado de confiança. Vota com o governo, esvazia investigações contra aliados e, segundo as denúncias, até dinheiro para a campanha presidencial teria destinado.
O alvo principal das investigações não deveria ser apenas a participação de Orlando Silva, mas o próprio programa Segundo Tempo.
Os principais jornais e revistas já denunciaram algumas vezes o aparelhamento do programa. Pelo menos, Veja e Estado de São Paulo, Correio Brasiliense, já mencionaram as ONGs amigas do PC do B atuando no Segundo Tempo.
Colunistas esportivos dos maiores jornais, dizem agora que sempre desconfiaram do que se passava no Ministério dos Esportes.
As denúncias vêm se arrastando e agora ganham nova dimensão. Sou bastante experimentado para não ter muitas ilusões. Em 2008, kits de merendas do Segundo Tempo foram usados pelo PMDB do Rio na conquista de votos. Foram apreendidos dentro do diretório do partido, quando preparava o trabalho de boca de urnas.
O processo morreu no TRE, assim como as notícias sobre o tema desapareceram no segundo dia. Nem todo escândalo no Brasil pega. Teoricamente, é possível roubar merenda de criança pobre ao longo de todo o século.
As chances do escândalo ser levado a sério, dependem ,em primeiro lugar, de uma denúncia no interior da quadrilha que opera o desvio. Mas dependem também da pressão das outras quadrilhas que se sentem alijadas e querem parte do botim.
A agenda da política brasileira, com todas as suas deformações, se desloca, no momento, para a Copa do Mundo. Quem sabe, através do governo do esporte, grande parte da população acabe entendendo a lógica do governo em geral?
Tags: Orlando Silva, PC do B, PMDB, Renan Calheiros, Sarney
Penso um pouco diferente acerca da frase do El Pais: o governo Dilma viverá a hora da verdade na auditoria dos gastos na Copa e nas Olimpíadas.
Não é certo que o governo nas Olimpíadas seja o mesmo de hoje. Há uma eleição no meio. Mas ainda que fosse, não escaparia de julgamentos preliminares.
No campo da infraestrutura, apesar da continuação do PAC, as obras da Copa tendem a ocupar o centro da atenção. Sua singularidade: têm prazo de conclusão, o que chamamos no jargão jornalístico de deadline.
Não se trata apenas de mobilizar recursos para um objetivo, mas realizá-lo dentro de um prazo inexorável.
As relações com a FIFA e as diferentes concessões no processo de negociação são outro fator de análise.
Segundo alguns jornais, a FIFA está satisfeita com a desgraça de Orlando Silva. Assim o estariam também PMDB e PT, de olho num ministério com importância crescente.
Não importa que combinação saia daí, entre a FIFA e o do núcleo do governo. Quem subir à cena vai ocupar um palco pesado demais para ambos.
Os atores lembram um pouco aqueles andarilhos da peça de Harold Pinter que caíram na cozinha de um restaurante de luxo e choveram ordens de pratos sofisticados. Como atendê-las: não eram cozinheiros e só tinham o seu farnel?
As eliminatórias dos jogos mal começaram e há uma dupla crise na área. Ricardo Teixeira investigado pela PF; o Ministério de Transportes sob denúncia de corrupção.
A crise de imagem da CBF e do governo dificulta o já problemático fluxo das obras. Orlando Silva, segundo declarações do Ministro Aloísio Mercadante, foi o arquiteto dos jogos panamericanos e da preparação da Copa.
As obras já estão atrasadas, o arquiteto foi atingido no peito, a crise mundial aperta e desacelera o crescimento. Os recursos usadas na área social rivalizam com os investimentos.
Não se trata de pessimismo. São os fatos na mesa. Sempre se pode dizer que não há provas materiais contra Orlando Silva. Mas dificilmente se sustenta no cargo.
As denúncias, no mínimo, vão demonstrar a ligação de seu partido com as ONGs que executam o programa Segundo Tempo.
Já se foi o tempo do oba-oba por sediarmos a Copa. Começou a realidade da preparação. Alguns países já jogam as eliminatórias da Brasil-2014. É preciso lembrar que esse Brasil-2014 somos nós e falta um balanço geral do caminho trilhado.
A presidente Dilma não gostou da imagem de faxineira com uma vassoura na mão. Que tal agora e a de um zagueirão que limpa a área?
Tags: FIFA, Orlando Silva, PC do B, Rcardo Teixeira
2011