Foram 18 dias de protestos mas valeram: Mubarak caiu. Nesta tarde de sexta-feira há um grande júbilo entre os manifestantes a Praça Tahir e outras praças do país. Mubarak tentou a última cartada no discurso de ontem. Só o mais próximos podem explicar o que se passou na sua cabeça. Já estava tudo perdido para ele e, mesmo assim, queria sobreviver no posto até setembro.
O período que se inicia agora no Egito é muito complexo. As forces políticas terão de encontrar uma forma transitória de poder, até que as eleições de setembro resolvam a questão.
A história contemporânea, e creio que toda a história, não têm fórmulas às quais podemos nos apegar. As revoltar na Praça da Paz Celestial foram sufocadas na China; o Irã conseguiu, a ferro e fogo, debelar a revolucão verde, surgida após as eleições.
Tanto no leste europeu, como na Tunísia e agora no Egito, o movimento de contestação torna-se vitorioso. A China como o Irã não vacilam em reprimir, fuzilar e torturar dissidentes politicos. Não se importam com o isolamento político. A China chegou a formar um bloco de países para boicotar o prêmio Nobel da Paz, conferido a um dissidente, Liu Xiaobo. O formidável poder econômico dá ao Partido Comunista chinês uma espécie de licença para barbarizar.
As coisas andam nessa sexta-feira. Não sei por obra de Alá, depois de tantas rezas nas mesquitas, ou por obra de uma lenta acumulação. Aqui no Rio, cantamos Alá em marchas que falam do calor, ( Alá, meu bom Alá/,mande água prá Ioiô/ mande água pra Iaiá). Num desses curtos circuitos, depois das rezas nas mesquitas, Mubarak foi para o espaço e com ele uma das bandas podres da polícia do Rio.
Tags: Egito, Mubarak, Praça Tahir, Transição
Está difícil escrever sobre o Egito, mesmo quando o texto vem do Cairo. Imaginem à distância, como a coisa não se complica. O diretor da CIA, Leon Panneta, informou que Mubarak renunciaria. Mubarak não renunciou. A multidão preparou uma grande festa na praça Tahir, a festa não aconteceu.
Alguns dizem que Mubarak passou todos os poderes para o vice Omar Suleiman. Correspondentes que falam árabe afirmaram que , no discurso , Mubarak dá a entender que passou apenas alguns poderes.
O próprio Mubarak deve estar confuso, aos 82 anos, doente, acossado pela multidão, não creio que consiga ir até setembro. Quando setembro chegar, acho eu, Mubarak ou estará em Sharm El Sheikh curtindo os últimos meses de vida ou já estará asilado na sua casa em Londres. Seriam os cenários mais otimistas para seu futuro.
El Baradei com seu megafone diz que o Egito vai explodir. De certa maneira, o Egito já explodiu. O esforço agora é para juntar os fragmentos e reconstruir o país.
De muitos lados virá o apelo para que o Exército assuma. Poderia ser uma solução para que as eleições fossem organizadas de forma democrática e transparente em setembro. Mas quem vai achar as soluções é o próprio povo egípcio.
As vezes, olhando a foto de Mubarak ainda jovem oficial, ao lado de Sadat, fico me perguntando se não há nele também uma vontade de martírio, um desejo de uma saída de cena mais dramatica e espetacular do que, simplesmente, arrumar as malas e dar adeus.
Terminamos a quinta feira especulando. Amanhã, prevejo grandes demonstrações. Será o dia em que, ao sair das mesquitas, os egípcios vão homenagear os mortos na rebelião. As sextas são dias de grande comoção. Vamos esperar a noite de amanhã , para saber onde estamos.
Tags: Egito, Mubarak, Praça Tahir, Suleiman
Uma certa confusão se instalou na cobertura sobre a crise no Egito. Ali pelas 14h, CNN enviava uma mensagem dizendo que a direção do Partido Nacional Democrático, o partido do governo, havia renunciado. A notícia deixava no ar a possibilidade de Mubarak ter renunciado também.
Ontem foi o dia da despedida, a sexta-feira em que os manifestantes esperavam concluir a tarefa de derrubar Mubarak. No entanto, foi a direção do partido que caiu e não se sabe qual exatamente a disposição de Mubarak nesse momento. O filho sim, deixará direção do PND, Partido Nacional Democrático.
Correram boatos de tentativa de assassinato do vice-presidente Suleiman, o homem que deverá conduzir, em diálogo com a oposição, o processo transitório até setembro, data das eleições.
Está tudo um pouco confuso nesse momento, embora percorra os jornais do mundo inteiro em busca de uma notícia sobre a situação real do governo Mubarak.
Ele não tem mais nenhum horizonte. Com 82 anos, recuperando-se de um câncer, disse que estava cansado de tudo e não renunciava para evitar o caos. Até o momento, sua resistência é que mantém as pessoas nas ruas. Não será uma transição fácil.
Tudo indica, entretanto, que ela já começou , como afirmaram alguns líderes ocidentais. Primeiro foi o anúncio de Mubarak, dizendo que não disputará as eleições, designando , depois de tanto tempo, um vice-presidente.
O grande debate não é mais sobre o fim de Mubarak, mas sobre o destino do Egito sem ele. As dúvidas se concentram no papel de Irmandade Muçulmana. A revolução iraniana entregou o país a um governo islâmico antidemocrático.. É este o modelo que espera o Egito? Ou, ao contrário, apesar da presença da Irmandade, o exemplo de Turquia é uma alternativa viável? Desejos dos comentaristas à parte, só esperando o desenrolar dos fatos. Num país onde a imprensa é controlada, os estrangeiros acabam sabendo apenas o que veem nas ruas ou o que contam os diplomatas. São raros os que têm fontes dentro do atual governo egípcio. Suleiman escolheu a CNN para dar suas entrevistas, quem sabe não sairão dele as novas informações?
Tags: Egito, Mubarak, Partido Nacional Democrático, Suleiman
Os videos sobre o dia seguinte no Cairo ainda mostram edificios em chamas. Foram feitos praticamente ao amanhecer. Mais tarde, os manifestantes se agruparam e reiniciaram seus protestos. Segundo depoimento de Peter Beaumont, correspondente do Guardian, alguns oficiais atiraram balas de verdade do interior de um prédio do governo. Há mortos. Aliás, a contagem dos mortos de ontem ainda não foi completada.
O Museu Egípcio foi atingido pelas manifestações. Está lá dentro a coleção de Tutancâmon. Duas múmias segundo funcionários, foram danificadas. Não podem errar de faraó, nem começar saques. Há rumores, segundo os blogs em tempo real, de saques em Alexandria.
No plano nacional, a novidade é Mubarak ter indicado um vice, o que pode ser um indício de transição. Omar Suleiman, o nome indicado, é também o chefe do serviço de inteligência e, segundo os telegramas, tem boas relações com os Estados Unidos.
Tanto as descrições dos repórteres na rua quanto os videos mostram uma certa ambiguidade do Exército: nem todos estão pegando pesado e parece que a polícia já cansou.
Nada está decidido. Mubarak deve ter percebido, a esta altura, que não bastou demitir ministros, nem indicar um vice-presidente, depois de 30 anos.
Tags: Alexandria, Mubarak, Museu Egípcio, Tutancâmon
Um novo personagem chega à crise egípcia. E vale acompanhá-lo. Mohamed El Baradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, decide voltar ao seu pais e disputar as eleições presidenciais. No caminho, foi logo dizendo que Mubarak deveria se aposentar. Com esta frase, colocou-se como alternativa, uma vez que já se falava na sua candidatura à presidência do Egito.
Ele esteve no Cairo em 24 de janeiro e se reuniu com aliados para iniciar uma campanha. Não pela presidência ainda, mas para alterar um artigo da Constituição que veta candidaturas independentes. Ele quer ser candidato independente.
Talvez tivesse sido mais fácil para Baradei se já estivesse morando no Egito. Ou talvez esse longo período como funcionário internacional o tenha poupado dos anos mais duros no seu pais, onde a policia política e manobras eleitorais pesadas parecem andar juntas. A oposição chegou a se recusar a participar de um segundo turno porque achou o processo contaminado.
Quando apenas nos concentramos nos protestos vemos que a questão não é só política no Egito. Algumas manifestantes egípcios que portavam bandeira da Tunísia levavam também um pedaço de pão. Nas ruas fala-se em fome. No próximo post sobre Egito vou levantar alguns dados sobre a conjuntura econômica.Sempre ajudam, mesmo quando não determinam uma crise.
Ausente algumas horas para produzir reportagem para Estadão, não tive tempo de entrar melhor na questão da possível Primavera Árabe, iniciada com as revoltas na Tunísia.
Por razões locais, focalizei o Líbano, que interessa ao Brasil porque temos mais libaneses em nosso país do a população de lá. O centro da observação se desloca para o papel dos Estados Unidos. Obama deve estar buscando uma solucão sutil: nem romper com Mubarak, nem dar as costas para um movimento democrático.
Os EUA usam com Mubarak a velha tática de negociar, manter boas relações e influenciar, nos bastidores, pela democracia. Estavam contentes porque ele não usou mais a Lei de Emergência, que existe ao longo de todo o governo, e também liberou alguns presos.
O mais supreendente nesse movimento árabe é que ele escapa com facilidade do radar dos formuladores de política externa porque a concentração é no conflito Israel- Palestina. Os Estados Unidos consideram o processo de paz o tema mais urgente e tendem a analisar os outros em função dessa tarefa principal.
Nas ruas de algumas cidades egípcias manifestantes tinham nas mãos bandeiras da Tunisia, anunciando que chegou a hora de lutar pelos direitos no Egito.
Dizem os analistas que Mubarak é muito mais hábil do que Ben Ali, que governou a Tunísia. Ele deve fazer algumas concessões e jogar a polícia política contra os núcleos mais resistentes.
De fato, são raros os momentos em que alguma coisa acontece no Oriente Médio sem conexão direta com o conflito Israel-Palestina. É muito cedo para dizer que começou ou não uma Primavera Árabe. Mas alguma coisa começou e , nos tempos de twitter e facebook, ela se propaga com mais facilidade.
Tags: Ben Ali, Mubarak, Obama, Primavera Árabe, Tunísia
2011