- Deixa o da cerveja e está liberado.
Assim falavam os PMs cariocas no passado, quando cuidavam do trânsito e precisavam de um dinheiro extra.
Com o surgimento das milícias, organizações lucrativas foram montadas e hoje a situação é outra: 2600 latas de cerveja foram apreendidas ao darem entrada no Batalhão Especial Prisional, onde 276 policiais militares estão presos.
O interessante é que a Corregodoria disse que vai apurar e punir quem deu o dinheiro e quem comprou as cervejas.
Não caiu a ficha ainda: não há como esconder 2.600 latas de cerveja numa cela. Se os presos encomendaram esta quantidade é porque estavam com total controle da situação.
Não se trata apenas de achar quem deu dinheiro e quem comprou. É todo o sistema prisional dos PMS que está em colapso disciplinar.
Aliás em colapso estão também as autoridades brasileiras que dirigem a Copa do Mundo. Orlando Silva e Ricardo Teixeira, a dupla do ataque, não sairão do noticiário tão cedo.
Policiais que investigam Ricardo Teixeira descobriram que comprou um avião Cessna, por apenas US$1.
Espantoso, como o estoque de cervejas no presídio dos PMs. Mas é o momento que vivemos. Evidências não valem. Orlando Silva diz que é indestrutível porque pertence ao PC do B.
Na sua fase romântica, durante a Guerra Civil Espanhola, os comunistas cantavam canções e La Passionária, diante do avanço das forças facistas, gritava: no pasarán.
Os comunistas de hoje fogem dos fiscais do TCU e gritam: não tomarão . Não tomarão nossos empregos nem secarão nossa fonte de grana.
É compreensível que os PMs deixem de pedir uma cervejinha na esquina e comprem logo 2600 latas, para o fim de semana na cadeia. São os novos tempos. Em caso de dificuldade, faz-se uma campanha :Sou Orlando, Sou Brasil; Sou Teixeira sou Brasil; Sou Orlando, Sou Teixeira, Sou otário.
Já não somos mais uma república de bananas. Nesse meio século, trocamos de símbolo e viramos a república dos laranjas.
Tags: Batalhão Especial Prisional, Milícias, Orlando Silva, Rcardo Teixeira
Quase todos diziam no dia do crime que era precisa desvendar o assassinato da juíza Patrícia Acioli e prender os autores para “tranquilizar a sociedade”.
O crime foi desvendado, aparentemente. Seus autores e o mandante, o que é raro no Brasil, estão presos. Mas a sociedade não se acalmou.
A descoberta de que o 7º Batalhão de São Gonçalo era um o abrigo de uma grande quadrilha assusta. Saber que a quadrilha era dirigida pelo comandante, tenente coronel Cláudio de Oliveira assusta muito mais.
Os policiais eram ligados às milícias, tanto que pensaram em utilizá-la para matar a juíza. Eram ligados ao tráfico de drogas e recolhiam, semanalmente, sua gratificação nas favelas do Salgueiro e da Coruja.
Na verdade, a PM funcionava como uma mediação entre o tráfico e a milícia. Do tráfico recolhia dinheiro e armas, da milícia obtinha cooperação.
Tenho alguns amigos que estudam a segurança pública em São Gonçalo, tão problemática como a de outras cidades da região metropolitana.
Semana que vem, vou tentar entender o que se passa realmente por lá, depois de esclarecido o crime e presos os autores. Quais são as favelas dominadas, que grupos controlam que áreas?
Numa das visitas para verificar estragos da chuvas, constatei que o campo de basquete e a área de lazer estavam vazios porque os traficantes, que nos olhavam do bar, queriam trabalhar em paz.
A PM está entre duas forças informais. Seus soldados são mal treinados e ganham uma ninharia, comparado com os salários dos policiais de Brasília, por exemplo.
A reforma não se limita apenas a retirar os péssimos militares. É preciso investir e adotar a PM como um instrumento real de proteção.
O governador Cabral é um pouco arrogante para empreender uma reforma com êxito, ou até mesmo admitir que ela é necessária.
Passado o oba-oba das UPPs, o quadro continua sério e sem horizontes.
Tags: 7º Batalhão PM, Milícias, São Gonçalo, Sérgio Cabral, tráfico de drogas
Passei a tarde fazendo uma entrevista, tirando fotos. Manhã de quarta é dedicada ao artigo de sexta no Estadão.
Sobra essa madrugada para comentar alguns fatos. O artigo do Estadão é sobre a Copa. Cada vez mais questiono racionalidade do processo. Preço a pagar: a acusação de estar torcendo contra o Brasil.
Um grande tema aqui no Rio é a prisão do tenente coronel Cláudio Oliveira, acusado de ser o mandante da morte da juíza Patrícia Acioli.
Ele era o Comandante do Batalhão de São Gonçalo, e, ao ser transferido, recentemente, para a Maré, ganhou uma promoção.
A sensação é de vulnerabilidade. Se um crime desses é planejado dentro de um Batalhão da PM e executado por soldados, quem pode se achar seguro no Rio?
Apesar da imagem cosmopolita e liberal do Rio, alguns aspectos da vida parecem um cangaço urbano.
Interessante constatar, em Mossoró , Rio Grande do Norte, que o orgulho histórico da cidade foi ter resistido a Lampião e seus cangaceiros.
A situação do Rio é diferente pois os grupos armados ocupam territórios. As famosas UPPs expulsam os bandidos para outros lugares. As milícias controlam grande parte da Zona Oeste com múltiplas atividades.
A célebre tomada do Complexo do Alemão foi apresentada como uma vitória da civilização contra a bábarie. Mas o comportamento dos ocupantes , em muitos momentos, foi a de saqueadores.
A morte da juiz Patrícia Acioli não é um fato isolado. O blogueiro Ricardo Gama foi baleado e quase morreu. Até hoje, não há pistas.
Pensando em Mossoró, imagino que o Rio ainda vai ter como como orgulho histórico a resistência ao cangaço urbano. Sem subestimar Lampião, as coisas aqui são mais complexas e demoradas. Além do mais, Lampião era de uma clareza cristalina, aqui há muita ambiguidade.
Tags: Milícias, PM, tenent coronel Cláudio Oliveira, ∆uíza Patrícia Acioli
A morte da juíza Patrícia Acioli, em Niterói, é um marco no debate sobre segurança no Rio. Ela foi assassinada, possivelmente , por membros da milícia que condenou, ou estava por condenar.
O crime aconteceu à noite, na porta da casa dela. Não havia escolta para protegê-la, apesar dos processos que julgou e e iria julgar.
Outro dia, conversando com o deputado Marcelo Freixo convidei-o para fazer uma caminhada e ele hesitou. Vive cercado de seguranças porque conduziu a CPI da Milícias e produziu um relatório preciso e arrasador sobre esta atividade criminosa no Rio.
Como Freixo, existem outras pessoas sob risco. Patrícia julgava casos em São Gonçalo fixou-se em Niterói, em busca de melhor qualidade de vida.
Daqui a pouco, vou ao enterro da juíza Patrícia Acioli, em Niterói, e tentarei dar um quadro situação. Lembro-me que essa região de São Gonçalo é uma das mais perigosas do estado.
Mas lá trabalham também alguns grandes especialistas em segurança pública, como Paulo Storani, que participou do Tropa de Elite, estuda e conhece bem a ação dos bandidos da área.
Agora, só nos resta correr atrás.
Tags: Marcelo Freixo, Milícias, Patricia Acioli, São Gonçalo
Demorei algumas horas para comentar a queda do chefe de polícia Allan Turnowski Precisava dados, estabelecer conexões e confesso que ainda faltam alguns pontos para esclarecer. O importante, entretanto, é que ele caiu e abre-se uma chance da polícia do Rio combater sua banda podre.
A delegada Marta Rocha assumiu o comando. Não se sabe ainda quem a cercará, se serao pessoas comprometidas com o esquema anterior. Ela foi candidata à deputada pelo PSB e, certamente, terá de conter qualquer ambição política para realizar bem seu trabalho.
Uma peça importante para se entender o que aconteceu é o depoimento do delegado Cláudio Ferraz, explicando as razões pelas quais Turnowski fechou sua delegacia e o acusou de corrupção. Cláudio Ferraz participou do livro Tropa de Elite 2. O livro apresenta, em forma de ficção elementos da realidade da polícia do Rio. Um deles, em 2009, a contribuição da policia carioca para que o traficante Ropinal escapasse de uma blitz da PF. O episódio deixa mal Allan Turnowski e seu braço direito, no momento na cadeia, Carlos Antônio de Oliveira. Eram os que sabiam antecipadamente da operação.
Outro problema que levou Turnowski a perseguir Cláudio Ferraz foi sua tentative de investigar a milícia da favela Roquete Pinto. Oliveira estava comprometido com ela.
O depoimento de Ferraz mostra também como a organização criminosa invadia os morros já combinando com a milícia que ela seria a herdeira do lugar. Um exemplo desses planos completos de expulsão dos traficantes e ocupação pela quadrilha de policiais seria realizado na favela da Coreia.
Além desse interface com traficantes, a polícia do Rio tem problemas em pelo menos mais quatro setores: as termas, onde há prostituição, as clínicas de aborto, o jogo do bicho e bocas de ouro, onde vendem joias roubadas.
Esse esquema no conjunto é que o torna as delegacias atraentes para muitos policiais. O dinheiro é recolhido e da soma total R$200 mil seguem direto para o chefe de polícia. Segundo os conhecedores do setor não é um problema específico do atual chefe de polícia: seria assim há pelo menos 20 anos.
O mais diábolico de tudo é o fato da quadrilha de policiais ter infiltrado um informante no serviço Disque Denúncia, um importante trabalho auxiliar que conta com o apoio da população. Foi esse informante que passou para Carlos Antonio Oliveira a notícia de que estava sendo investigado por Cláudio Ferraz. Antes de qualquer investigação numa comunidade, o delegado pedia ao Disque Denúncia as principais ocorrências registradas no lugar.
Colaborador do Tropa de Elite, em choque com as mílicias e com as quadrilhas desarticuladas agora, Ferraz passou a ser perseguido por Turnowski que designou um delegado chamado Maurício Demétrio para espalhar notícias contra ele. A sorte é que Ferraz anotava os boatos em sua agenda e entrevistava as fontes. Com isto tem um apanhado completo do processo de perseguição.
Turnowski mentiu quando disse que recebeu uma carta anônima contra Ferraz. A história já era conhecida e os documentos que ele mencionou para incriminar Ferraz têm uma das assinaturas que não é a Ferraz e foi forjada, possivelmente, por dois policiais que ele afastou de sua delegacia e foram acolhidos por Turnowski.
A Polícia Federal vai ouvir Turnowski de novo, não mais como testemunha. Parte da estrutura criminosa foi desarticulada, mas outra parte continua de pé. Era um grupo que matou muita gente pois resolvia suas questões internas de forma radical.
Quando todas essas histórias vierem à tona talvez seja preciso fazer um Tropa de Elite 3. O interessante é que o delegado Carlos Antônio de Oliveira foi deslocado para o setor de ordem pública da Prefeitura, o famoso Choque de Ordem. Outra mina de ouro pois em tese é possível apertar os pobres com muito estardalhaço na mídia e assustar os ricos para que paguem boas propinas.
A vereadora Andreia Gouveia Vieira (PSDB) está tentando uma CPI municipal para apurar a passagem de Carlos de Oliveira pelo Choque de Ordem. Toda a história do Choque de Ordem só seria levantada se as pessoas que deram dinheiro denunciassem. A historia da repressão pura e simples deve existir até em CDs pois foi amplamente divulgada pela imprensa.
De vez em quando, voltaremos ao tema.
Tags: Allan Turnowski, Carlos Antonio Oliveira, Cláudio Ferraz, Milícias
Muito difícil seguir esta profunda crise na polícia do Rio. Acuado pela operação Guilhotina, o chefe de polícia, Allan Turnowski partiu para uma represália contra aquele que considera um dos autores da operação: o delegado Cláudio Ferraz.
Observei atentamente a entrevista do chefe de policia, acusando Ferraz, o homem que prendeu centenas de milicianos no Rio. Foi patético, sobretudo porque , as vezes,jornalistas não emendam perguntas e, raramente, questionam a lógica das respostas.
O chefe de policia acusa um delegado de abrir e fechar um inquérito em dois dias. Como prova, apresenta dois documentos: um da abertura, outro do fechamento do inquérito. Não há dados sobre propina, não há levantamento das contas bancárias, nada, apenas dois documentos. E que não foram ainda periciados.
Com uma questão embrionária, o chefe de policia conclui que Ferraz é culpado e disse que o exoneraria se estivesse subordinado a ele. Na verdade, a Delegacia de Ferraz está subordinada diretamente ao Secretário de Segurança.
A represália, o desejo de vingança ficam evidentes na pressa de condenar. Allan Turnowski dá a impressão de um homem desesperado e que em breve cairá do seu posto. Pode ser que minha análise seja equivocada, mas Turnowski deve cair. Caso não caia, simplesmente voltaremos ao estágio anterior, quando dirigia a policia do Rio o delegado Álvaro Lins e as suspeitas foram acumulando de tal forma que acabou sendo algemado e preso.
Tags: Allan Turnowski, Cláudio Ferraz, Milícias
2011