Kadafi morreu, dizem as forças rebeldes na Líbia. Morreu em sua cidade natal, Surt, tentando escapar de automóvel.
Cerca de 48 horas antes, Hilary Clinton visitou a Líbia e disse que gostaria de ver Kadafi morto.
Foi uma coincidência, presumo. A batalha militar pela tomada de Líbia está concluída, com a queda de Kadafi.
Mas a batalha pela reconstrução do país está apenas começando. Alguns bens da família Kadafi no Brasil foram congelados, a pedido da ONU. O que acontecerá com eles?
Kadafi resistiu até o fim. Não fugiu do país e continuou ameaçando seus adversários. De uma certa forma, morreu melhor do que Sadam Hussein, pois conseguiu escapar das humilhações do julgamento, condenação e execução por um pelotão de fuzilamento.
Hilary disse que se alegrava com a morte de Kadafi. O ideal teria sido um julgamento e a prisão. Nesse aspecto, não coincido com a posição americana.
Na noite de ontem, em Ohio, ao invés de capturarem os animais com dardos, os policiais mataram leões, tigres e leopardos. Tudo por uma questão de segurança.
Conheço gente que trabalhou em parques na África do Sul, usando dardos para entorpecer e transportar hipopótamos. Eles funcionam.
São diferenças culturais. E olhem que não são tão grandes. A maioria no Brasil aceita prisão perpétua e cerca de 45 % já admite a pena de morte.
Não tenho nenhuma simpatia por Kadafi. Mas não quer dizer muito. Não tenho simpatia por quase todos os condenados à morte. Ainda assim, se consultado um dia, diria: sou contra.
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Talvez baseando-se nos dois mitos mais comuns a respeito de Kadafi( progressista interna e externamente), o Brasil relutou muito antes de reconhecer o fim de jogo.
Ainda assim, o Ministro Antônio Patriota acaba de declarar que nosso país reconhece estados e não governos e deve esperar a ONU definir qual é governo legítimo na Líbia
.A julgar pela entrevista dos líbios que ocuparam a Embaixada da Líbia em Brasília, a percepção que eles têm é a de que o Brasil ficou contra os rebeldes.
Um deles chegou a dizer: logo nós, que torcemos tanto pela seleção brasileira. Esperávamos a simpatia do Brasil.
Há uma continuidade na política externa de Lula. Aliás os líbios se referiram algumas vezes à amizade Lula-Kadafi.O Brasil não teve, por exemplo, a mesma resposta da Venezuela. Em Caracas, Chavez afirmou que reconhece apenas o governo de Kadafi.
Teremos de trabalhar com as nuances para recuperar a simpatia para o Brasil na Líbia. Pelo menos, esta seria uma posição a discutir. O Itamaraty acha que foi bem. Não considera um problema ter voltado às costas à rebelião.
O conjunto das entrevistas de Patriota revela que não ficou satisfeito com o desfecho da crise na Libia. Mas o faz de uma forma bem mais diplomática que a Venezuela.
Nem tudo está perdido. Mas Kadafi perdeu. Os que sonhavam com sua continuidade, delirando sobre seu papel progressista, se equivocaram.
O grande amigo de Kadafi, Silvio Berlusconi, vai receber os rebeldes amanhã. A Itália se move.
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Especialista americano em Oriente Médio, Juan Cole, escreve um artigo que ajuda a compreender o processo na Líbia. O título: Dez grande mitos sobre a guerra na Líbia.
Os dois primeiros mitos que ele aborda dizem respeito a Kadafi. Segundo alguns analistas, o ditador líbio teria uma política interna progressista.
Cole afirma que na década dos 70, Kadafi foi mais generoso na distribuição dos frutos do petróleo, comprando tratores e máquinas para sua lavoura. No entanto, depois disso, Kadafi se fechou e passou a negar a algumas tribos do leste e sudeste a cota de riquezas a que tinham direito.
Um outro mito comentado por Cole: o de que Kadati desenvolveu uma política externa progressista. Kadafi apoiou ditadores e guerras sangrentas na África. Tido como defensor da causa palestina, ele, em 1996, expulsou 30 mil refugiados da Líbia e, nos últimos anos, aproximou-se de George Bush e Silvio Berlusconi.
Nesse ponto, é necessário admitir que Kadafi tomou algumas decisões necessárias para uma tentativa de se reaproximar do Ocidente: desmontou suas instalações nucleares e pagou uma indenização de US2,3 bilhões às vítimas do atentado de Lockerbie, de 1988.
O artigo de Cole é de um simpatizante do movimento contra Kadafi. Ele reconhece que haverá dificuldades na formação do governo pelo CNT. Mas acha que os berberes, nativos do norte da África, terão uma novo espaço na Líbia multicultural.
No seu combate aos mitos sobre a Líbia, Cole afirma também que o país não sera dividido e que não havia impasse na guerra. Fronts decisivos, como Misrata, não estavam sendo cobertos. Ali, houve uma resistência do tipo Stalingrado. E também nas montanhas ocidentais dominadas pelos berberes , houve muita luta que culminou com a tomada de Zawyia pelos rebeldes da região.
Segundo ele, essas lutas não tão foram valorizadas pela OTAN, mas a queda de Zawyia teria contribuido para a de Trípoli pois cortou a linha de suprimentos de armas e municões vindas da Tunísia para a capital.
Cole se dedica a analisar também o mito de que na Líbia houve uma guerra civil. Não havia luta de civis, como em Badgá, em 2006. As tropas de Kadafi eram compostas de mercenários.
Aliás o patético apelo de Kadafi para que o povo viesse às ruas ontem confirma essa suposição.
De qualquer forma o longo artigo de Cole(www.juancole.com) pode servir a todos que tentam entender o que se passa na Líbia e o que se passará adiante. Ele é otimista e considera um erro afirmar que o Ocidente estava na Líbia por causa do petroleo. Todas as grandes companhias, BP, ENI, estavam presentes no território líbio fazendo negócios tranquilos com Kadafi. O petróleo líbio, de alguma forma, já era explorado pela Europa e Estados Unidos.
Ainda assim, vamos esperar os próximos dias. A Itália designou uma equipe para cooperar com a governabilidade líbia e o Qatar deve ter um grande papel no processo. A posição do Egito e da Tunísia, importantes vizinhos, é outra variável para examinar o tabuleiro.
O próprio Cole afirma que a situação no momento é de xeque mate. E lembra que xeque mate é uma palavra persa xhah maat, o que significa “ o rei está confuso”.
No caso líbio, o rei está mais do que confuso: está encurralado.
Repórteres na Líbia afirmam que a chegada dos rebeldes a Trípoli pareceu mais um passeio dominical do que uma ofensiva de guerra.
No entanto, ainda na manhã de segunda feira, foram registrados combates. Um dos rebeldes, entrevistado pelo New York Times, afirmou que as tropas de Kadafi ainda controlam de 15 a 20 por cento da capital.
Todo esse processo só foi possível com a ajuda da OTAN que, ao longo de todo o período de guerra, fez 7459 ataques aéreos às forças do ditador. Só ontem, dia decisivo, 20 intervenções na capital.
Nas últimas semanas, os rebeldes avançaram no próprio treinamento e na coordenação com a OTAN. Os Estados Unidos participaram do processo com uma ampla vigilância aérea.
No post de ontem, mencionei a variável importante sobre o futuro: qual o nível de destruição Kadafi deixará para trás?
Ao que parece, a guerra em Trípoli não foi arrasadora. O legado mais sério de Kadafi é a desorganização da sociedade civil, a predominância de uma lógica tribal que ele manipulava bem.
No seu próprio discurso divulgado ontem, Kadafi dizia que as tribos marchavam para Trípoli com o objetivo de evitar que o pais se tornasse escravo do imperialismo.
Apesar dos seus chamados, só sairam às ruas os opositores do regime. O clima é de fim de jogo. Mas os rebeldes não atacaram ainda a fortaleza de Kadafi, Bab al Azizya.
Falou-se muito num avião venezuelano que estaria na Tunísia à espera de Kadafi. O deputado Protógenes Queiroz(PC do B, SP) que estava na fronteira afirmou que viu o avião de Chavez.
Kadafi é procurado pelo Tribunal Internacional de Haia. A saída, se houver saída para ele, talvez seja a África. O Sudão, por exemplo, é uma alternativa. O presidente Omar al Bashir também é processado por genocídio.
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Tudo indica que a Líbia está perto do fim do jogo. Os rebeldes entraram em Tripoli e encontraram pouca resistência.
Um porta-voz do governo informou que morreram 1300 pessoas nas últimas horas e que os hospitais estão cheios de feridos.
O porta voz do governo, Moussa Ibrahim,insiste em afirmar que Kadafi domina a situação no país e o correspondente da Al Jazeera anunciou que o ditador não está mais em Tripoli. Os rebeldes , afirmam que prenderam seus filhos, Saif Al Islam e Al Saadi
A OTAN desempenhou um grande papel no que parece ser a derrocada do regime. Mas e depois? Já reconhecidos por alguns governos, os rebeldes líbios terão de reconstruir o país e os grandes que os apoiam estão em crise econômica.
A semana que começa deve trazer algumas respostas para o futuro da Líbia.
Como dizia um revolucionário argelino, no filme A Batalha de Argel: lutar contra o governo é difícil, vencê-lo é muito difícil, mas as dificuldades começam mesmo, quando se chega ao poder.
O Conselho Nacional de Transição deve ser o interlocutor da OTAN mas ainda não controla todas as forças rebeldes. Há milícias islamitas que se declaram independentes e em Misrata os rebeldes não aceitaram a direção do CNT.
Ouvi na CNN uma informação de que uma polícia líbia estaria sendo treinada no Qatar, com a missão de impor a ordem em Tripoli e outras cidades, após a queda do governo.
Na mesma emissão, um estudioso da Líbia, Mar Quarterman, achou essa notícia improvável. Para ele, a grande questão sera respndidas nas próximas horas: a dimensão do caos que Kadafi deixará atrás de si.
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O encontro de Barack Obama e David Cameron, em Londres, foi marcado por uma decisão de continuar a pressionar Kadafi para que renuncie.
Embora os dois líderes afirmem que não haverá presença física nos território Líbia, os bombardeios continuam.
A campanha de bombardeios já completa dois meses e os resultados são ainda duvidosos. A Nato não tinha experiência em bombardeios noturnos, buscando alvo em movimentos. Sua comunicação com os rebeldes era precária.
Uma ordem de bombardeio, às vezes, parte de Bruxelas, passa pelos centros de comando na Itália chegando, finalmente, aos controladores instalados a 60 quilômetros da costa líbia.
São ataques baseados na tecnologia, sobretudo nas informações colhidas pelos aviões não tripulados.
Esta semana houve uma intensificação do bombardeio, coincidindo com a viagem de Obama à Europa.
A Nato parece ter superado a primeira fase de inexperiência e comunicações precárias, em que dois ataques mortais atingiram os próprios rebeldes líbios.
Mas ainda não superou a sensação de que o processo na Líbia está estagnado.
Tags: aviões não triputados, bombardeios, Kadafi, Nato
Na sexta feira, escrevi um longo artigo sobre a guerra na Líbia. É um artigo que questiona a intervenção da OTAN, mostrando inúmeros efeitos colaterais indesejados: a massa de refugiados que busca a Europa, o recuo dos próprios europeus num tratado que facilita o trânsito de estrangeiros no continente, a aparição de gente da Al Qaeda liderando os rebeldes.
Ontem, as forças da OTAN deram um novo e perigoso passo na sua cruzada pela democracia. Mataram o filho de Kadad, Said, de 29 anos, e três netos do ditador líbio.Kadafi estava no prédio, um luxuoso bairro de Trípoli, mas escapou com vida. Não é a primeira vez que filhos de Kadafi são mortos dessa maneira. Eu mesmo, no passado, já participei de uma manifestação, protestando contra a morte de uma de suas filhas, embora nesse momento tenha feito um discurso também contra a presença russa no Afeganistão, o que me valeu algumas vaias.
O bombardeio contra a casa do filho de Kadafi revela que o objetivo é matar o ditador. Isto não foi explicitado na resolução da ONU e acaba fortalecendo a posição do ditador, como todos os passos não muito bem pensados. E com Kadafi mais forte, teremos mais mortes na população civil, exatamente o que a resolução da ONU queria evitar.
PS: O artigo A irrespirável atmosfera da política está no Estadão: http://bit.ly/mHE7pP
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Os efeitos colaterais dos ataques da OTAN aos redutos de Kadafi não param de assustar. A última notícia foi a explosão do complexo de edifícios onde Kadafi e sua família vivem. Ele escapou e cerca e algumas pessoas ficaram feridas. A intepretação é a de que as forças da OTAN tentaram matar o ditador líbio que, mais uma vez, escapou. As primeiras notícias revelam imagens do complexo destruído e, certamente, foram divulgados pelo próprio governo líbio.
Um outro efeito colateral: um ex-prisioneiro líbio de Guantanamo é o líder de um dos grupos meio brancaleônicos que fazem o movimento armado contra Kadafi. Abu Sufran Ibrahim bin Qum ,51,é hoje uma espécie de aliado dos EUA como foi no passado quando lutou ao lado de Bin Laden contra a presença russa no Afeganistão. Bin Qum dirigia tanques na época.
Transferido para a Líbia em 2007, ele foi solto um ano depois e hoje é um comandante rebelde, indicando que, pelo menos, alguma presença os radicais muçulmanos têm na oposição à Kadafi.
Mas o efeito colateral mais importante foi mencionado ontem pelo Papa Bento XVI: a massa de refugiados que deixa não só a Líbia mas outros países do norte da África. Esta se tornou a questão urgente para a Europa no momento. Os refugiados se concentram na ilha de Lampedusa mas se espalham pelo continente. A França resolveu barrar os trens que vinham da Itália, sob protestos do governo italiano.
O tratado de Schengen que permitia a circulação livre na Europa, uma vez admitido por um país membro da Comunidade, passa por um questionamento e deverá, segundo a vontade de alguns, ser modificado. A crise no norte da África acaba obrigando a Europa dar um passo atrás no seu projeto de comunidade.
Tudo tem consequência num mundo interligado
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Nesses dias de crise tenho tentado apresentar em conjunto os fatos na Líbia e Costa do Marfim. Já mencionei o tema mostrando a diferença da resposta internacional em relação aos direitos humanos na Líbia e na Costa do Marfim.
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A Líbia entra numa semana decisiva. O comando das operações militares passou para a Otan, liberando os EUA da incômoda inteferência direta em três países muçulmanos. Afeganistão, Iraque e Líbia.
A nova composição pode aumentar a coesão entre os europeus, mas segundo os observadores pode desistimular a participação dos países árabes. A Turquia por seu lado adotou a posição mais próxima do Brasil, pedindo um cessar foto e início de negociações.
Negociar com Kadafi? Não é um absurdo negociar com Kadafi agora que seus aviões foram destruidos, sua defesa antiaérea desmantelada, e os rebeldes avançam contra sua cidade natal, Surt.
Não poderia haver um nome de cidade natal mais adequado para um ditador que muitos insistem em chamar de louco. Mas a verdade é que as negociaçoes talvez possam passar pela Itália, que se dispoê a receber Kadafi no exílio.
Dentro desse espírito, a proposta brasileira de iniciar um diálogo começa a fazer sentido. Foi ouvida pelos países que combatem Kadafi. A proposta brasileira é cessar fogo e iniciar negociações o mais rápido possível. Essa expressão o mais rápido possível pode ser intepretada de diferentes maneiras. No caso de Kadafi o mais rápido possível é o momento em que ele compreender seu dilema entre a morte e o exílio. A única pergunta que deve estar se fazendo é esta: será que o exílio evitaria o tribunal internacional, que julga crimes contra a humanidade?
2011