Depois de tomar posse, morreu o novo prefeito de Teresópolis, Roberto Silva,67, conhecido como Robertão.
Ele assumiu o cargo depois que a Câmara de Vereadores afastou por 90 dias o prefeito Jorge Mário, acusado de desviar verbas destinadas à reconstrução da cidade.
Robertão morreu de um infarte às três horas da madrugada e será velado no prédio da Prefeitura. Com a morte dele, que era o vice-prefeito eleito, assume a prefeitura o presidente da Câmara, Arlei.
Mas a luta das cidades serranas contra a corrupção continua e seu exemplo foi reconhecido no Globo, em editorial, como algo promissor para o pais. Foi dificil Robertão assumir. Ele teve que designar secretários e despachar no saguão porque o prefeito afastado não quis entregar a chave do gabinete.
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O Rio de Janeiro vive uma situação delicada. No interior, a PF vasculha os documentos da prefeitura de Nova Friburgo e as denúncias de corrupção em Teresópolis ficaram mais diretas com a aparição de uma testemunha.
Só em Nova Friburgo, foram gastos R$10 milhões mas o Ministério Público ainda não encontrou a comprovação dessas despesas.
Em Teresópolis devem ter chegado R$7 milhões e o prefeito contratou empresas especializadas em locação de vídeo para obras de engenharia.
Como se não bastassem essas denúncias, o gabinete do deputado Luiz Paulo Correa da Rocha, fez uma pesquisa e demonstrou que o governo do Estado utilizou R$147 milhões, sem licitação.
Esses gastos então foram muito estranhos: foram autorizados um dia depois da vigência do estado de calamidade pública, que permitia a dispensa. Para não se chocar com a lei, a autorização foi assinada com data anterior.
No mesmo dia, o Estado de São Paulo anuncia que a publicidade anual do governo do RJ subiu 117%. Agora, o governo vai gastar R$120,7 milhões para retocar sua imagem.
Interessante observar as cifras e sua relação. Para a tragédia na Serra, R$147 milhões, para a publicidade R$120,7 milhões. Quase a mesma coisa. Não há nenhum critério hierárquico nos gastos.
Isso acontece no Rio, depois da crise provocada pela queda de um helicóptero no sul da Bahia. Subitamente, a imprensa carioca descobriu as relações entre governo e empresários. A imagem do atual governador piorou em função das descobertas.
Nada que não se resolva com algumas campanhas milionárias. A fórmula de injetar dinheiro na publicidade não é nova.
Tentei denunciar esse processo no passado. Dizem que não é exclusivo do Rio. E que teria sido também uma realidade em Minas.
O problema de se apoiar em instituições como a imprensa, ou mesmo a igreja católica, é o surgimento de uma grave crise. Nesse momento, as instituições não podem ser fieis, pois sua sobrevivência histórica está acima de tudo.
Por mais que se injete dinheiro, por mais que se omitam notícias vitais, a situação nunca mais será a mesma.
As pessoas descobriram, com um imenso atraso, é verdade, que não vivem num paraíso tropical, apresentado com imagens do crepúsculo, música e depoimentos de cariocas maravilhados com sua própria existência.
Um dia, a realidade pode não prevalecer, mas, pelo menos, dá as caras. Nossa missão é mostrá-la para que não seja escondida e que os inocentes do Leblon, como no poema, passem o óleo suave nas costas, mas não esqueçam de tudo.
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Finalmente chegou a polícia na serra. Foi em Nova Friburgo. O procurador José Ambrósio dos Santos conseguiu um mandato de busca e deverá levar os documentos da prefeitura.
Todos estão ligados ao uso de verbas federais no combate aos efeitos da enchente na serra.
O foco das denúncias é Teresópolis mas foi em a Friburgo que a policia chegou primeiro. Ali a situação é surrealista pois o prefeito fez uma viagem à Suíça, sofreu um acidente e não mais assumiu., nem renunciou.
A Policia Federal recolhe os documentos na Prefeitura porque sem eles é difícil acompanhar a trajetória do dinheiro gasto.
A situação em Teresópolis, como já informei aqui, é um pouco mais complicada, pois o entrosamento entre procurador e juiz federal não é o mesmo.
Um problema central nas investigações é o afastamento dos prefeitos, enquanto se examina a questão. Mas as câmaras municipais não têm essa iniciativa.
De qualquer maneira, a chegada da polícia traz alguma esperança.
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Dentro de alguns minutos, subirei a serra. Quero ver como repercutiram em Teresópolis as notícias de corrupção nas obras de socorro às vitimas das enchentes.
Teresópolis viveu seu drama, nos últimos meses, solitariamente. De vez em quando, alguém noticiava manifestação de moradores pedindo a queda do prefeito.
O prefeito Jorge Mário foi expulso do PT mas o tema não teve a repercussão nacional que merecia.
Afinal , as enchentes e mortes comoveram o Brasil naquele momento mas parecem ter sido esquecidas.
Deixo, ao viajar, um tema da política nacional pendente. A substituição do Ministro dos Transportes. Meu palpite é que ficam com o interino. O PR dificilmente teria um deputado ou senador cuja escolha para o cargo não provocasse escândalo.
Mudar o ministério para PT ou PMDB poderia trazer a oposição do PR e novos e sedentos grupos para perto do generoso orçamento dos transportes.
Mas a decisão de Dilma vai sinalizar o que pretende. Se pretende contemporizar com a atual aliança, se pretende fortalecer o PT ou se pretende seguir adiante, com o mínimo de barulho.
Blairo Maggi, padrinho do diretor demitido do DNIT, Luiz Antônio Pagot, afirmou hoje que seu protegido apenas cumpriu ordens do Ministério do Planejamento.
Em outras palavras, jogaram a responsabilidade dos aditivos nas costas do Ministro Paulo Bernardo.
Será uma semana interessante em Brasília, pois Pagot depõe amanhã no Senado e quarta na Câmara.
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Nova Friburgo- O bairro de Dilma da Silva, Córrego Dantas, o mais atingido pelas enchentes de janeiro irritou-se com a demora do governo e resolveu limpar as casas e as ruas em regime de mutirão. Depois de dois meses e meio de trabalho, Dilma e o restante do bairro conseguiram quebrar a barreira burocrática de trazer as máquinas para cá.
Muita gente ainda vive no dia 12 de janeiro, sem saber o que acontecerá no futuro- afirma Natália Cristina da Silva, vice-presidente da Asssociação de Moradores de Duas Pedras, outro bairro castigado pelas cheias de janeiro. Segundo ela, não há data para nada.
Os dois bairros de Friburgo, com mais ou menos 3 mil pessoas cada, ainda sofrem, em algumas casas, com falta de luz, água e telefone. Dilma da Silva, por exemplo, vive com quatro netos e um filho e seu grande drama é uma escada de madeira encostada no barranco. Sem ela, não sai nem entra em casa e já escorregou e caiu uma vez.
Ela tem 65 anos e trabalhava numa firma de limpeza ligada à Queiroz Galvão, mas a vida se tornou tão difícil que resolveu ficar em casa, onde há muito o que fazer. No dia em que a visitei, acabara de lavar a roupa dos netos e do filho solteiro, Ednaldo
Um problema novo nos bairros onde ainda há entulhos e casas abandonadas é a dengue. No Hospital Raul Sertã, em apenas duas horas, foram pedidos 20 novos exames de sangue para detetar a doença.
Um prédio de dois andares desabou há um mês em Duas Pedras que é próxima a Córrego Dantas. Tornou-se uma atração turística porque os escombros permanecem por lá. Foi pichado com expressões como “esta parte para cima”, “alugo e não precisa fiador”.
Numa audiência pública na Câmara de Vereadores foi possível ver como autoridades e moradores não se entendem quanto ao ritmo da reconstrução. Muitos reclamam de que casas foram condenadas sem uma explicação; outros, como na Rua Benjamin Constant, em Duas Pedras, reclamam de que casas que deveriam ser condenadas ainda estão de pé.
A coordenação geral do processo foi dada pelo governador Cabral a Affonso Monnerat, um ex-prefeito de Bom Jardim. Mas os resultados ainda são pequenos, exceto pela limpeza que ainda não foi concluida. Na tarde de segunda-feira, ainda presenciei a retirada de movéis e o trabalho de limpeza mais elementar. Há casas em que a sujeira estufa portas e janelas e nem foi tocada depois de janeiro
Um dos poucos lugares onde a reconstrução avança é o Hospital São Lucas, uma das referências para doenças cardíacas no interior.A outra está em Itaperuna, no noroeste do estado, que vive uma grande crise.
O que torna o cenário mais parecido com os romances de Garcia Marquez é o prefeito de Friburgo que não aparece mais em público.Ele tem 85 anos, sofreu um acidente em Lausanne, na Suiça, e nunca mais deu as caras, aceitou entrevista ou se deixou fotografar.
No momento, o grande problema é a definição do que vai ficar de pé, o que será demolido nos dois bairros. Muitas casas permanecem fechadas, com caixas d’água sem tampa. Um grande número das 2080 famílias cadastradas está vivendo do aluguel social em Friburgo, cujo valor mensal é de R$500 . Mas a maioria não está safisfeita pois afirma que nos bairros destruidos havia empresas e elas vão abandonar seus lugares se não houver um forte trabalho de reconstrução. O programa Minha Casa Minha Vida tinha 5 mil inscritos, mas depois das chuvas, o número deve crescer para 8.200
Meu objetivo era alcançar Teresópolis mas as visitas em Friburgo levaram tempo. Caiu a noite e ainda não tinha conseguido visitar toda área antes enlameada, agora coberta de uma poeira assustadora.
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Petrópolis- Começo minha reportagem num dia de sol. Meu primeiro contato foi o prefeito Paulo Mustrangi com quem conversei sobre os planos de reconstrução. Na verdade ainda não existem, porque a maior tensão no momento está voltada para desobstruir estradas,limpar casas, recolher entulhos.
O noticiário fala de R$480 milhões que o BNDES vai injetar na economia serrana. Até o momento, o governo liberou R$7 milhões para Petrópolis, R$7 milhões para Teresópolis e para Friburgo R$10 milhões. Tudo voltada para a emergência.
Ouvi ainda histórias da noite das chuvas. Uma delas relata o desespero dos donos de haras no Vale do Cuiabá. Muitos perderam cavalos avaliados em R$500 mil. Alguns animais estavam no seguro. E os proprietários ofereciam até r$15 mil pelo corpo do cavalo, pois sem ele não receberiam o seguro.
Visitei o hospital de campanha da Aeronáutica, em Itaipava, e segui direto para o Vale do Cuiabá. Quando sai do vale domingo,.estava chovendo muito e as pessoas tinham dificuldades em limpar suas casas. Agora o problema é pó. Quase todos estão usando máscaras.
Em alguns lugares na estrada senti o cheiro de animais mortos e do barro apodrecido. Visitei uma oficina em que os garis de Petrópolis estavam limpando. Todos com máscaras , sob os escombros havia comida.
Cabral falou pelo rádio em ajuda aos 17 mil agricultores. Isto é essencial. Mas os pequenos empresários atingidos na área urbana vão precisar de novos lugares para tocar seu negócio.
No Vale do Cuibá encontrei muita gente trabalhando ativamente para transportar seus objetos ou mesmo recuperando sua casa. Na visita de domingo, falamos sobre o problema do aluguel social. O governo destinou CR30 milhões para aluguel social: R$500 mensais por família.
Acontece que não ha casas de aluguel no Vale. A saída é construir novas no próprio lugar, porque muitos trabalham aqui e não querem sair.
O prefeito de Petrópolis informou que um grupo de empresários liderados pelo Presidente da Federação das Indústrias, Eduardo Eugênio Gouveia Vieira, está buscando este terreno e talvez possa fazer uma doação: boa saída.
Como Blumenau, a Serra terá de se reinventar. Os prefeitos das três maiores cidades fizeram um consórcio com o objetivo de ganhar mais eficácia. Mas para fazer o que, alem de recuperar uma certa normalidade? O fato de Petrópolis ter recebido uma estação meteorológica, com pontos avançados no Vale do Cuibá, e não ter feito funcionar o equipamento, é preocupante. Houve um jogo de empurra entre estado e prefeitura porque a estação demandava R$900 mil anuais, para sua manutenção. Espero que ,no momento em que se conta o prejuizo, os governantes reconheçam a importância dos gastos com prevenção.
PS: Estadão publica amanhã minha reportagem na Venezuela. Os que leram os posts de Caracas vão poder ter números e uma visão mais extensa do tema.
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Começo amanhã a trabalhar uma nova reportagem; a reconstrução da Região Serrana.Até o momento com os dados que tenho, não é possível prever como a serra ficará. A prefeitura de Teresópolis fez um orçamento de R$580 milhões para recuperar a cidade. Outros farão orçamento do mesmo tipo.
O primeiro problema a resolver é definir o tipo de reconstrução. As coisas não podem simplesmente ficar como antes. No post de ontem mencionei equipamentos como o cais de Magé e estradas de ferro que podem ser reconstruidas.
Tentei examinar o reflexo da Copa do Mundo no projeto de reconstrução. Alguém me lembrou que a Copa do Mundo acontece no meio do ano, num momento menos perigoso. Se acontecesse no verão, creio que seria um problema pois até 2014 não teremos um sistema de defesa civil totalmente montado.
Vou começar pela infraestrutura. Não vi ainda nenhuma imagem das pontes que o Exército vai construir. No meio da semana, os oficiais disseram que era preciso um plano, para não perder eficácia no trabalho. Este é apenas o passo inicial, para romper com o isolamento de algumas comunidades.
Na minha experiência com o desastre em Santa Catarina, o turismo tem um peso na reconstrução. O que foi feito lá? Assim que se avaliou que a situação estava de novo segura, foi articulado um esforço para atrair turistas.
Se houver um enlace entre Copa do Mundo e reconstrução, se as cidades serranas podem se beneficiar. Mas no momento, qualquer conclusão é precipitada. Meu roteiro é avaliar a infraestrutura, comercio, indústria, turismo e agricultura.
A agricultura tem uma grande possibilidade. A capital é o segundo mercado do país. E a agricultura atinge apenas 1 por cento do produto. O tipo de agricultura que pode ser desenvolvida aqui é exploração de alguns nichos, como o dos orgânicos,cujo consumo cresce aqui e no mundo.
Há muitas experiências bem sucedidas na agricultura familiar e duas escolas, uma em Pinheiral, outra que está se instalando em Engenheiro Paulo de Frontin.
Tanto no campo da infra como no da agricultura, a necessidade não é só de recompor,mas ampliar e diversificar. E o turismo poderia ser revisto, com base na solidariedade. Sempre vou as festivais de inverno em Friburgo, onde alguns artistas se apresentam. O próximo precisa ser pensado com este objetivo: dar a volta por cima e transformá-lo num grande evento cultural.
São apenas especulações. Sei que mergulhando na realidade, muitas idéias se corrigem e surgem outras no seu lugar.
PS: Sai sexta no Estadão artigo meu sobre defesa civil, ou falta dela.
Tags: agricultura orgânica, enchentes, turismo
2011