Caiu o prefeito de Nova Friburgo, Dermeval Barbosa Moreira Neto. O processo é semelhante ao de Teresópolis. Primeiro o prefeito é afastado temporariamente, depois em definitivo.
A acusação é a mesma na duas cidades: desvio de verbas, destinadas a atenuar os efeitos da tragédia do princípio do ano.
No caso de Nova Friburgo, a sociedade mobilizada conseguiu que os vereadores instalassem uma CPI independente do prefeito. Ela, certamente, vai concluir pelo seu afastamento.
A saida de Dermeval acontece no momento em que a cidade preparava uma série de manifestações de alerta, entre 11 e 14 de novembro.
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As chuvas começam a cair na serra fluminense e as obras de contenção de encostas e recuperação de pontes não foram concluídas.
Mas ontem, o prefeito de Teresópolis Jorge Mário Sedlacek foi, finalmente, cassado por unanimidade pelos vereadores.
O dinheiro destinado a atenuar o efeito das enchentes foi desviado, a vunerabilidade aumentou e tudo o que se conseguiu foi apenas o afastamento de Sedlacek.
Foi preciso muita luta dos moradores para que essa modesta conquista fosse alcançada.
O problema é que a região se tornou mais vulnerável ainda. A própria população tenta organizar planos de contingência e simular algumas situações de risco para se defender.
Dando o balanço da tragedia, a política foi uma grande adversária dos moradores. Consumiu o dinheiro da reparação, canalizou a energia para a derrubada de um prefeito, e, agora, quando começam as chuvas, a própria população busca uma forma de se defender.
A serra fluminense não foi atingida apenas por um fenômeno natural. O desprezo pela prevenção agravou os efeitos da chuva. O desvio de dinheiro público preparou os resultados perigosos do próximo verão.
Ainda assim, foi uma vitória a saída do prefeito de Teresópolis. As cidades serranas precisam, no entanto, de muito mais. É quase impossível para populações indefesas lutarem, simultaneamente, contra as enchentes e a ladroagem.
Tags: corrupção, encostas, Jorge Mário Sedlack, prevenção
Coisas do jornalismo. Escrevi um artigo sobre o conselho de Lula a Orlando Silva: resistir aos ventos fortes.
Mostrei como era frágil a argumentação do governo e previ que, pelo menos a médio prazo, não daria certo.
Quando terminei o artigo, surgiu a notícia de que Orlando Silva será investigado pelo STF, que atendeu ao pedido do Procurador Roberto Gurgel.
Não sei se Orlando Silva dura até sexta-feira. Se vão enterrar logo sua passagem pelos Esportes ou vão prolongar as cerimônias fúnebres.
No momento em que encerro o texto( na linguagem técnica se chama deadline) sinto a necessidade de trabalhar uma nova formulação.
Bem que hesitei, ao supor que o esquema teria mais algumas semanas de vida. Quando Orlando Silva declarou que se sentia indestrutível, percebi que a coisa tinha atingido também sua mente. Os deuses enlouquecem aqueles que querem destruir.
No caso de Orlando Silva, talvez não tenha sido preciso intervenção divina. O PC do B também perdeu o contato com a realidade.
A decisão autoritária de se defender martelando os fatos é escandalosa numa programação normal de tevê.
Talvez fosse cômodo criticá-los por mais alguns dias. Preciso de um tempo para refazer o trabalho porque se Orlando Silva amanhecer no cargo, no princípio de semana, certamente será uma atração turística
Tags: corrupção, Ministério dos Esportes, Orlando Silva, PC do B, STF
Muita gente ligada ao governo condena a campanha contra a corrupção. Para alguns, ela é secundária, diante das tarefas de conduzir o Brasil a um novo patamar econômico e social. Para outros, ela é antiquada e reproduz os cacoetes da velha UDN, o partido que assombrou o governo Vargas com suas críticas.
No domingo, a Folha de São Paulo publica matéria afirmando que o Brasil, em sete anos, de 2002 a 2008, perdeu R$40 bilhões com a corrupção, o equivalente ao PIB da Bolívia.
São dados na mesa. Você pode achar que não foram R$40 bilhões mas apenas R$35 ou que não perdemos toda a produção de uma Bolívia, mas apenas três quartos dela. De qualquer maneira, perdemos e perdemos muito.
Como explicar então a resistência a aceitar a importância da luta contra a corrupção? Ela não representa apenas um grão de areia na engrenagem, como querem os resistentes. Ela representa o próprio combustível da engrenagem, tocada pelo chamado presidencialismo de coalizão.
A única razão visível para conciliar com a corrupção é o apego ao poder, a vontade de continuar do governo de todas as maneiras.
Recusar a importância ou mesmo a atualidade da luta contra a repressão é algo tão espantoso como ignorar a Bolívia no mapa da América do Sul.
Outra maneira de encarar o problema: se a corrupção fosse tão importante, as pessoas estariam protestando na rua. Mas essa é apenas uma etapa madura do protesto. Nas redes sociais o fermento da insatisfação com o mundo político já está em atividade há muito tempo.
Esta será uma questão decisiva para dividir os campos. Dentro da esquerda, partidos como o PSOL e mesmo o PPS têm se manifestado suas criticas à corrupção. Portanto, não é intrínseca à esquerda a tolerância com a corrupção. É uma reação de quem está no governo e não vê outra maneira de continuar nele.
Uma nota da Associação de Delegados da Policia Federal afirma que a corrupção no Brasil atingiu níveis inimagináveis.
É grave essa constatação feita por observadores privilegiados, que investigam o problema no cotidiano.
Independente de fazer ou não a CPI, a oposição poderia organizar um seminário com delegados da Federal e pedir a eles um quadro mais detalhado da situação. Isso, é claro, sem entrar em detalhes que prejudiquem investigações em curso.
Pedro Simon , Cristovao Buarque e Jarbas Vascancelos, caso a oposição não se interesse, poderiam organizar o encontro.
Se querem dar apoio “à luta de Dilma” nada mais adequado do que conhecer o estado da arte da corrupção no Brasil.
O Ministro da Agricultura caiu. Mas se alguém precisasse investigar as câmeras que monitoram seu Ministério, estaria perdido.
A empresa que faz o trabalho é ligada ao senador Eunício de Oliveira,(PMDB-CE) e deve ter desmanchado todas as imagens comprometedoras.
Esse detalhe é apenas um entre centenas que explicam o adjetivo usado pelos delegados da PF classificar a corrupção no Brasil: inimaginável.
Os acontecimentos na Índia mostram que a luta da corrupção não é que a esquerda oficial pensa. Ela se fixa num passado recente brasileiro e acha que apenas políticos como Carlos Lacerda e um setor da classe media se interessam pelo tema.
Em outras palavras, ela nega a importância da luta contra a corrupção argumentando que o principal é distribuir rendas e manter o pais crescendo.
O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, no dia do aniversário da independência do pais reconheceu: a corrupção impede que a Índia realize seu potencial de se tornar uma grande força no mundo.
A verdade é que lá, o governo foi levado a a admitir a importância da corrupção pela própria sociedade. Aqui as teses oportunistas de esquerda, segundo as quais a corrupção é tema irrelevante, se afirmam pelo relativo silêncio social.
Caíram quatro ministros em oito meses. E continuam achando que a corrupção não é problema. Caíram quatro, dos quais três denunciados pela mídia. Imaginem se houvesse gente na rua como na Índia.
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Zefa, chegou o inverno/formigas de asa e tanajuras/Chegou o inverno/ lama e mais lama
O inverno para o poeta Jorge de Lima, nascido em Alagoas, era o prenúncio do verde, abundância. Era o inferno visto do nordeste do Brasil.
Depois de passar nove invernos na Suécia, não consigo deixar de notar as diferenças entre o Rio e Estocolmo. Aqui tivemos um domingo de sol brando e as folhas de amendoeiras dominavam as ruas com suas cores quentes. O inverno já tem algumas semanas mas foram poucos os dias de tempo fechado.
Mas entramos numa fase nova, bem mais delicada. No mundo, a situação econômica nos EUA e Europa preocupa e parece indicar uma nova fase de turbulência.
No Brasil, com denúncias sobre desvios no Ministério da Agricultura vamos colher nova safra de escândalos. E o presidencialismo de coalizão, com loteamento de cargos, vai passar por um inverno rigoroso.
Na serra fluminense, depois da vitória dos moradores de Teresópolis, que pressionaram para a saída do prefeito, uma tragédia pessoal.
Dois dias depois de assumir a prefeitura, Roberto da Silva, o vice, que tinha 67 anos, morreu do coração.
Mesmo assim vão continuar as investigações sobre desvios de verbas e o novo prefeito deverá ser o presidente da Câmara.
Subo amanhã para a Serra e devo visitar o distrito de Vieira, onde há coisa boa acontecendo. Iniciativas de reconstrução, independentes de governo.
Depois de tomar posse, morreu o novo prefeito de Teresópolis, Roberto Silva,67, conhecido como Robertão.
Ele assumiu o cargo depois que a Câmara de Vereadores afastou por 90 dias o prefeito Jorge Mário, acusado de desviar verbas destinadas à reconstrução da cidade.
Robertão morreu de um infarte às três horas da madrugada e será velado no prédio da Prefeitura. Com a morte dele, que era o vice-prefeito eleito, assume a prefeitura o presidente da Câmara, Arlei.
Mas a luta das cidades serranas contra a corrupção continua e seu exemplo foi reconhecido no Globo, em editorial, como algo promissor para o pais. Foi dificil Robertão assumir. Ele teve que designar secretários e despachar no saguão porque o prefeito afastado não quis entregar a chave do gabinete.
Tags: corrupção, enchentes, Jorge Mário, Roberto Silva, Teresópolis
Com grande plateia, imprensa nacional e 300 manifestantes na porta, a Câmara de Teresópolis afastou o prefeito Jorge Mário por 90 dias.
Ele é acusado de desviar o dinheiro destinado às vítimas da enchente de janeiro e à reconstrução da cidade.
A votação foi por unanimidade. Depois de muitas manifestações de protesto, a população de Teresópolis estava mais silenciosa, esperando as eleições para tentar retirar os corruptos.
A votação desta noite revela como num período pré-eleitoral, os politicos são regidos pelo instinto de sobrevivência.
A Comissão que fará a sindicância foi sorteada e os três nomes não têm credibilidade entre os eleitores. Mas serao pressionados pelos outros vereadores, pela opinião pública de Teresópolis e pelo vice-prefeito que assume esta semana. Ele se chama Roberto Pinto e é do PR. O prefeito que sai era do PT mas foi expulso.
Existem evidência suficientes para cassar o prefeito afastado. A principal foi a contratação de uma empresa chamada RW, que não tinha experiência em obras e começou como locadora de videos.
Com a queda, ainda temporária de Jorge Mário, o prefeito que assume vai examinar todos os contratos e a situação dos desabrigados, que se sentem esquecidos pelo poder público.
Foi uma vitória da população de Teresópolis mas o afastamento de um prefeito que desvia verba de vítimas de uma tragédio é um forte indício do grave estado da política brasileira. Foram 382, em números oficiais, os mortos nas chuvas de janeiro.
Tags: corrupção, Jorge Mário, Teresópolis
Numa sessão convocada para amanhã, a Câmara de Vereadores de Teresópolis deve afastar o prefeito Jorge Mário Sedlacek.
Foi uma longa luta da população que, desde março, faz protestos na rua para denunciar a inércia da prefeitura e os desvios de verbas para obras de reconstrução, após as chuvas do princípio do ano.
Num determinado momento, a Câmara de Teresópolis criou uma CPI que foi dominada pelos governistas. Os moradores decidiram esperar um novo momento.
Acontece que alguns partidos, como o PMDB, resolveram retirar o apoio a Jorge Mário. Ele era do PT mas perdeu também o apoio de seu partido e foi desligado da seção local, apelando para outras instâncias.
Não só deverá ficar de fora do PT, definitivamente, como perderá o cargo de prefeito de Teresópolis, se forem confirmadas as previsões para a sessão de hoje.
Se ela acontecer, estarei na plateia, para contar como foi. Desde o dia posterior às chuvas, quando o ouvi declarar,no rádio que já tinha planejado a reconstruçao e que deveria custar mais ou menos R$700 milhões, fiquei desconfiado.
Era apenas instinto. Agora, é certeza.
Tags: corrupção, CPI, Jorge Máriio, Teresópolis
A ideia é falar muito do mundo e do pais e apenas o essencial do lugar onde moro. No entanto, reportagens na revista Veja e no Globo de hoje indicam que há muita suspeitas nas construções das chamadas UPAs (Unidade de Pronto Atendimento) e das sedes das UPPs, as unidades policiais de pacificação.
Veja informa que as estruturas metálicas pré- moldadas são encomendados a uma empresa chamada Metalúrgica Valença mas são fabricadas por outra empresa, em Barra do Pirai. Uma delas, que é apenas uma fábrica de notas frias, recebeu isenção fiscal de R$45 milhões.
Mas a revelação mais estarrecedora é a do Globo: os hospitais de lata custam mais que os hospitais de alvenaria. O metro quadrado de um hospital de lata sai por R$2.385 e o de alvenaria, R$1.900.
Essas coisas sempre foram insinuadas no discurso da oposição mas agora aparecem com toda a clareza. Os gastos com as UPAs, adotadas também como modelo no programa de Dilma Rousseff, são muito altos. Talvez por causa disso, o governo construa tantas UPAs, mesmo sem dispor de funcionários de saúde para fazê-las funcionar. Algumas estão ainda vazias, à espera de gente treinada.
Na mesma semana em que batemos tanto na questão da corrupção na serra fluminense, o governo do Rio afirma que vai pedir à Brasília R$688 milhões para obras de contenção em 700 encostas.
As denúncias se sucedem, mas as verbas continuaram fluindo porque são necessárias. A única esperança é o controle da própria população. Em Teresópolis foi impossível fazer uma CPI independente; em Nova Friburgo a experiência foi melhor sucedida.
Só uma séria investigação sobre o uso das verbas pode garantir um comportamento diferente. As obras de contenção representam a salvação de muitas vidas. As verbas de saúde, usadas na criação de UPAs enlatadas, também significam salvação de vidas, se melhor empregadas.
Foi tanta propaganda em torno das UPAs. Se o Globo anexasse o dinheiro da propaganda ao preço desses containers não seriam apenas mais caro que hospitais de alvenaria. Custam tanto quanto um prédio de luxo.
UPAs e UPPs são os dois pontos centrais na propaganda do governo estadual e consomem também algum dinheiro na propaganda federal. Só no Estado do Rio, são gastos R$150 milhões anuais em propaganda do governo Cabral.
Com o tempo, as coisas ficarão mais claras.
Tags: containers, corrupção, encostas, UPAs, UPPs
2011