Quando parti para Goiás para falar de energia nuclear ainda não tinha ouvido falar desse relatório sobre as usinas nucleares russas. É assustador. Foi parcialmente divulgado ontem pelo Le Monde.
O relatório foi divulgado pela organização norueguesa Bellona e produzido pela agência nuclear russa, Rosatom.
Já está nas mãos do presidente Dimitri Medvedev e afirma que as 11 usinas nucleares na Rússia não estão preparadas para os efeitos de grandes desastres naturais. E além disso, estão decadentes, mesmo sem desastres.
As usinas foram construidas no período da União Soviética e não levaram em conta os riscos sísmicos. Os maiores problemas de segurança estão nas centrais de Leningrado e Kola, fronteiras com Finlândia.
A usina de Kola já foi atingida por um temporal e a Noruega socorreu a Rússia com energia para resfriar os reatores.
O documento entregue a Medvedev é o primeiro resultado do reexame da segurança nuclear, após o desastre de Fukushima. Foram apontadas no conjunto 31 falhas nas 11 usinas.
Quando é que vamos produzir alguma coisa pós Fukushima sobre Angra?
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Pensando melhor, é preciso voltar à notícia de que o desastre de Fukushima foi da mesma gravidade que Chernobyl. Se não foi, a classificação não é inteligente porque acaba banalizando um tipo de desastre que não deveria acontecer mais no mundo.
Cientistas afirmam que a radiação liberada em Fukushima foi, no máximo, 10 por cento da liberada em Chernobyl. O plutônio e estrôncio encontrados na usina não foram mencionados nas referências à radiação. As informacões da Tóquio Eletricidade sempre mencionaram um só elemento: o iodo 131.
Mencionei ontem o zizague dos japoneses. Coemçaram classificando Fukushima como um desastre de nível 4, abaixo de Three Miles Island,que foi de nível 5. As autoridades francesas contestaram as japonesas, afirmando que o desastre de Fukushima foi de nível 6.
Estava tudo de bom tamanho e, unilateralmente, os japoneses classificam agora o desastre como de nível 7, o mais alto da escala. Ma , nas horas que se seguiram a esta bombástica afirmação, não apresentaram as evidências que os levaram a esse passo tão grave.
Os japoneses sabem que um exagero os prejudica. Três equipes europeias de vôlei cancelaram suas partidas no Japão, embora estivessem programadas para áreas não afetadas pelo desastre de Fukushima.
No momento em que a Agência Atômica do Japão classifica o desastre em Fukushima no mesmo nível 7 de Chernobyl talvez valesse a pena voltar atrás, para ver como os japoneses relutaram em chegar a esta conclusão.
Logo após as primeiras explosões, as autoridades japonesas classificaram o desastre de Fukushima como de nível 4. Os franceses protestaram : na opinião deles, o desastre era de nível 6, portanto , um ponto acima de Three Mile Island. Depois de algum tempo, as próprias autoridades asiáticas eleveram o nível do desastre para 5.
Esses critérios de classificações são feitos por um órgão da Agencia Internacional de Energia Atômica. Resultam da cooperação de vários cientistas internacionais e todo país membro da AIEA pode participar dos debates.
Elas dizem respeito também à comunicação e tipo de providencias em áreas atingidas e países potencialmente alcançaveis pela radiação. A melhor descrição do processo foi dada pelo cientista espanhol Eduard Ferré: Fukushima foi um Chernobyl em câmera lenta.
Isso sugere que os japoneses embora tenham demorado a equiparar os dois acidentes tiveram razão para elevar gradativamente o nível de perigo. Nao aconteceu num só instante como na Ucrânia. Piorou com o tempo.
Tags: AIEA, Chernobyl, escala de gravidade, Fukushima
Ao mesmo tempo em que a ONU elogia a conquista da estabilidade nas usinas de Fukushima, uma nuvem de fumaça cinzenta obrigou à Tóquio Eletricidade a retirar de novo os funcionários das instalações ameaçadas.
O reator número 3 é o mais perigoso porque tabalha com plutônio reciclado, cujo potencial de danos à saúde humana é maior. Foi um grande êxito recuperar a eletricidade no processo de resfriamento. Mas falando francamente: Fukushima nunca mais será religada.
O que significa esta conclusão? Ela pode viver um longo processo de desativação ou simplesmente ser sepultada como em Chernobyl. Se a usina não tem chance de voltar a funcionar, o caminho menos prejudicial é transformá-la num sarcófago.
Será uma grande vitória, sem dúvida, tomar esta decisão no futuro, demonstrando um controle da situação até o ultimo momento. Mas as radiações continuam a serem registradas na área de Fukushima e a água, o leite e o espinagre da região, estão contaminados. Os jornais ingleses de hoje dizem que a Inglaterra distribui pastilhas de iodo para os britânicos que vivem no Japão.
O consulado brasileiro em Tóquio está de parabéns. Conseguiu resgatar uma família brasileira em Onegawa, província de Myagi, situada no nordeste do país. A família de Hilton Hanashiro passou uma noite, após o tsunami, desabrigada na neve e conseguiu
um precário abrigo perto de sua cidade destruida.
Através da internet, o consulado brasileiro foi mobilizado e contou com a ajuda do empresário Walter Saito, uma figura interessante. Ele entrou no abrigo provisório procurando a família brasileira, Hilton e mais cinco parentes, enrolado numa bandeira do Brasil para que o identificassem. E diz que se sentiu o homem mais importante do mundo quando o grupo veio abracá-lo comovido.
A agência Brasil divulgou uma nota curta, sem fotos.
Tags: Chernobyl, Fukushima, plutônio reciclado, reator 3
Hoje seria dia de falar das dificuldades da reconstrução japonesa. Mas as notícias sobre Fukushima não são boas. O reator 3 está com a pressão alterada o que causa preocupação em todos. O Japão terá que desativar Fukushima, isto é certo. Mas provavalmente terá de sepultá-la, como aconteceu em Chernobyl. As próximas horas vão indicar o caminho.
No meio de tanto sofrimento, algo luminoso: uma mulher de 80 anos foi resgatada com vida, depois de passar nove dias sob os escombros de sua casa, em Ishonamaki. Seu neto de 16 anos também escapou.
O processo de reconstrução não sera fácil, nem pode ser explicado com psicologia popular, do tipo vontade de superação. Cientistas que trabalharam em muitos desastres dizem que as pessoas ficam muito abaladas e constataram que o abalo é mais facilmente absorvido quando o desastre é natural.
Quando há implicações industriais, processos, o ressentimento aumenta. Eles prevêm até crise de identidade em quem perdeu tudo e terá de deixar seu espaço com a roupa do corpo. E a velha geração japonesa constitui um caso à parte, porque não se queixa de problemas psicológicos. Só começará a ser atendida, como aconteceu no terremoto de Kobe, quando sentir sintomas físicos.
O caminho para atender às vítimas de desastres é muito delicado de traçar. Se houve descaso, o abandono agrava a situação, excesso de cuidado transforma as pessoas em vítimas profissionais, afirmam alguns especialistas.
Certamente, os japoneses encontrarão o tom.
Tags: Chernobyl, Fukushima, Ishonamaki, resgate
Informações são vitais num desastre nuclear. Em Chernobyl foram negadas pelas autoridades. Na França, o governo da época mentiu, afirmando que a nuvem radioativa iria parar na fronteira do pais.
O Japão mantém um fluxo de informações mas ainda assim a opinião pública não está satisfeita com elas. Já havia reclamado aqui, inúmeras vezes das informações da Tóquio Eletricidade e do porta-voz do governo, Yukio Edano.
Leio agora que há uma campanha contra Edano no twitter japonês. Os japoneses querem informações mais precisas, sobretudo em Tóquio, onde uma eventual retirada da população seria muito mais complexa do que na área ao redor de Fukushima.
Por outro lado, o que se quer saber, isto é qual o nível de derretimento nos reatores não é muito fácil de checar. Os únicos índices que orientam o processo, nesse momento, são os que medem o nível de radiação.
O grupo de 50 funcionários foi retirado da usina e depois recolocado porque a radiação subiu e depois desceu a níveis suportáveis. Quando escrevo níveis suportáveis lembro-me dos inúmeros debates sobre dose mínima que travamos no passado. Qual é mesmo a dose mínima? Ela é mínima para todas as pessoas indistintamente? Ela é mínima para todos os ambientes?
Deixando de lado os debates do passado, avaliando apenas o que chega do Japão, a impressão que tenho é de que a batalha contra o resfriamento está sendo perdida. Espero que seja apenas impressão. Aquela história de usar helicópteros para jogar água era um indício de desespero. A retirada permanente dos trabalhadores seria um pouco como jogar a toalha. Mas é uma grande responsabilidade deixá-los lá, a partir de certos níveis de radiação.
O problema com a Tóquio Eletricidade e com Yukio Edano é que não precisam informações vitais. Falam-se em buracos de oito metros de diâmetro no prédio do reator 4. Os buracos teriam sido provocados pela explosão de hidrogênio. Era preciso explicar o que significam em termos de segurança. Na transmissão da Globo, falava-se que iam usar bombeiros para injetar água nesses buracos. Incompreensível. Ontem à noite uma grande fumaça branca saia do reator 2, possívelmente o vapor liberado para evitar explosões.
Não há se estabelecem os nexos entre as liberações constantes de vapor e as alterações no nível de radiação. Pode ser por causa disso que o nível de radiação sobe desce em torno de Fukushima. Nesse caso, as elevações seriam previsíveis pois a liberação do vapor é voluntária.
Algumas autoridades francesas já classificam o desastre como de nível 6, próximo de Chernobyl.Mas a usina ucraniana produzia menos que Fukushima. Se houver mesmo derretimento total, a usina japonesa tem um fator agravante pois será liberado mais material radioativo por mais tempo. Um outro fator agravante em Fukushima é a densidade populacional maior que Chernobyl. Na Ucrânia, as pessoas foram retiradas num raio de 30 quilômetros e os efeitos da radiação se fizeram sentir a 140 quilômetros.
Tags: Chernobyl, Fukushima, Informação nuclear, Tóquio Eletricidade, Yukio Edano
2011