São Gabriel da Cachoeira - Cada um encontra seu jeito de ser feliz. Um dos meus é navegar nos rios do Brasil com uma velha cadeira plástica de espaldar para proteger as costas no longo percurso.
Mencionei a Cabeça do Cachorro, forma da região no mapa do Brasil, porque sou fascinado por palavras. O Rio Negro é o centro de tudo na região. Quando apresentei um projeto separando o Pantanal do Mato Grosso, sonhava com um Comitê de Bacia, como forma de governo.
Começo das férias a comunidade da Ilha das Flores.(foto FG)
Desde que legitimado, creio que um Comitê de Bacia talvez fosse o único instrumento capaz de achar um futuro estável para o Rio Negro.
Águas negras, margens verdes, ainda assim não é monótono navegar no rio. Cruzamos com famílias inteiras descendo para São Gabriel. Essas águas dissolveram muito sangue no passado. Os índios foram obrigados a descer o rio pelos colonizadores, produtores de borracha, enfim todos que precisavam de mão de obras.
Não há mosquitos e os poucos peixes se abrigam nos igapós, florestas semi-submersas, onde encontram alimentos. As águas do Negro são ácidas.
Poucos pássaros no trechos em que naveguei. Cruzamos com dois maçaricos, mas eles pareciam descansar numa pedra, prontos para seguir seu voo.
Visitei uma comunidade na Ilha das Flores. Estavam reconstruindo a igreja, à espera do padre. Sentem-se abandonados. Seu centro cultural está em pedaços. Assim mesmo, há cursos fundamental e básico. Cheguei no último dia de aula, daí a concentração no reparo da igreja.
Há 23 etnias no Negro. Falam-se quatro idiomas maiores, mas há mais de 20 variações, segundo os linguistas que trabalham por aqui.
A acidez do rio dificulta a agricultura. Você sente pela relativa pobreza da feira de São Gabriel, onde so os peixes se destacam. E uma fruta negra chamada cucuru, que parece jabuticaba.
Consegui colocar alguma coisa quando a internet estava distraída. De um modo geral, a conexão é muito ruim. Encerro os comentários de aprendiz nesse fim de semana.
Ainda pretendo escrever um artigo sobre a fronteira e estratégia para Estadão. Produzi algumas fotos pensando em jornal. Vou mostrar a viagem tmbém num diário visual no meu site.
Há muito material, anotações: é hora de estudar. Se pudesse, passaria meses vagando pelos rios amazônicos e do Pantanal.
O Rio Negro é um mundo onde tudo se faz de barco. Ao contrário das cidades, movidas por Volks, Fords e Fiats, aqui tudo se move a Yamahas e Johnsons. Vi adolescentes indígenas divertindo-se com as garotas no barco, como os da cidade nos carros.
Finalmente, visitei uma cidade chamada chamada São Joaquim. Totalmente deserta com duas ruas de casas vazias.Dizem que só os índios vêem para uma festa do padroeiro e para enterrar seus mortos.
Quando morre alguém improvisam uma explosão, usando um cano velho e pólvora. O barulho da explosão é como se o dobrar dos sinos nas nossas cidades.
Essa conversa foi longe demais. Quando o Estadão publicar o artigo, no caderno Aliás, deixo um aviso no blog.
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Quando lemos que a Cabeça do Cachorro é uma região com 200 mil km2, duas fronteiras, 23 etnias, onde se falam quatro línguas, pensamos: o Exército cuida.
De fato, com a ajuda da Aeronáutica, o Exército percorre os rios com as Embarcacões Patrulhas de Grupo, conhecidas como voadeiras, e mantém sete postos avançados na fronteira.
Dentro dos seus limites, compartilha a energia dos postos com as comunidades e, no campo da saúde, administra um hospital em São Gabriel que é limpo, eficaz e bem equipado.
No entanto, faltam clínico geral e especialista, o que, numa cidade 40 mil habitantes, traz a necessidade de remoção aérea para Manaus. Quem paga os R$30 mil do avião?
A Prefeitura vive uma inadimplência radical. Dizem na cidade que a própria empresa Tanaka, que faz a linha de barco Manaus, não lhe dá crédito par ir, pessoalmente, à capital.
O Distrito Sanitário Indígena, que hoje é da Funai, não tem dinheiro. Seus funcionários fizeram greve por três meses. O máximo que conseguem é computar mortes e nascimentos.
A ausência do governo faz com que as tensões comunitários se concentrem no Exército. É um pouco parecido com as favelas do Rio, ocupadas pelas UPPs.
A diferença, nos sete postos avançados, é que os militares levam suas famílias. Mas quando o rio baixa e há dificuldades de energia, eles são apontados como os responsáveis pelo racionamento.
São Gabriel tem apenas dois agentes da Polícia Federal. Possivelmente, o Plano Estratégico das Fronteiras vai ampliar o número. Mas até o momento não saiu do papel.
Comparando fronteiras e favelas, a solução brasileira revela que o dinheiro mal dá para a segurança. O resto? A segurança que se vire.
Tags: Cabeça do Cachorro, exércitos, sao gabriel, UPPs
São Gabriel da Cachoeira – Acabo de voltar de uma curta viagem no Rio Negro. Indescritível. Pelo menos, no momento.
Ontem, tentei passar um mísero email nas duas lan houses da cidade. Não consegui. A conexão é super lenta. `As vezes, parece que vai, mas cai.
Essas lan houses funcionam para os garotos jogarem vídeo-game, nada mais. São escuras e com computadores muito velhos, ancestrais.
São Gabriel é a cidade mais importante da Cabeça do Cachorro, a área de 200 mil km2 na região que faz fronteira com a Colômbia e Venezuela. A cidade é a mais importante do Rio Negro, uma espécie de capital para Barcelos e Santa Isabel.
O ideal aqui era ter uma cidade inteligente, dessas que a IBM faz em lugares com visibilidade. Fica caro para o governo, mas, estrategicamente, compensa.
Há muito interesse pela conexão. Dona Marta, uma cozinheira do restaurante da praia, fecha o lugar às três em ponto para tomar aulas de informática.
Há prioriades maiores aqui. Energia elétrica por exemplo. Nos Pelotões Especiais da Fronteira, quando o rio baixa, é um problema. A comunidade quer energia e ela exige que o Exército resolva o problema.
Bujões de gás por exemplo, não podem subir de avião. Para levá-los de barco, às vezes, é preciso enfrentar nove cachoeiras. Isto quer dizer: retirar o motor do barco e carregar os dois nas costas durante um bom trecho.
Amanhã visitarei o Exército aqui. Infelizmente não encontrarei o comandante, General Jaborandi, de quem tenho excelente impressão da experiência em Brasília.
Mando uma pequena foto e nem o selo da série de blogs posso postar, para não pesar o arquivo.
Vida dura. Mas a subida do Rio Negro compensa todas as dificuldades. Um dia a mostrarei em detalhes.
Tags: Cabeça do Cachorro, exercito, General Jaborandi, informática, rio negro, São Gabriel da Cachoeira
Fiz uma viagem indescritível pelo rio Negro. Pelo menos por enquanto.
A internet, que já não funcionava, ganhou uma aliada mais poderosa ainda: a falta de energia elétrica.
Um lembrete: estamos numa área de segurança nacional.
(enviado por celular)
Manaus – Parto de madrugada para São Gabriel e devo voltar de barco. Dizem que a descida do Negro é mais interessante que a subida.
Estadão publica hoje matéria que interessa ao meu projeto. Sem recursos suficientes, as Forças Armadas passam por um processo de sucateamento.
É preocupante a notícia, quando se pensa no conjunto de pelotões especiais de fronteira. Na floresta, vivendo numa solidão espartana, esses pelotões precisam de apoio.
Normalmente, o governo sabe disso e faz tudo para atenuar a aridez do trabalho. Mas os pelotões dependem dos voos da FAB, cada componente de uma obra chega de avião, do tijolo ao prego.
Num momento desses, a tendência é cortar voos, mas espero que haja exceção na Amazônia. Os aviões de FAB são uma alegria para quem está na floresta e uma esperança de carona para os índios que precisam vir à cidade.
Nas regiões de conflito na Amazônia, onde aconteceram crimes de repercussão(Chico Mendes, Dorothy Stang) o problema é a terra.
No alto Rio Negro o problema, no princípio, era a mão de obra. Os portugueses faziam expedições para capturar os índios.
Hoje, índios e Exército estão unidos numa combinação virtuosa, da técnica militar com o conhecimento do terreno. Mas recursos e equipamentos também são essenciais.
A região da Cabeça do Cachorro no extremo noroeste do pais é uma tríplice fronteira(Brasil, Colômbia, Venezuela) e a partir da amanhã espero estar escrevendo da lan house que fica embaixo do hotel Deus Me Deu, meu endereço em São Gabriel.
Tags: Amazônia, Cabeça do Cachorro, FAB, Pelotões Especiais
De novo na estrada, desta vez em viagem para a Amazônia. Meu objetivo é a região chamada Cabeça do Cachorro, no extremo noroeste do Amazonas.
A região foi tema de um belo livro de Araquém Alcântara e Dráuzio Varela. Ela se chama Cabeça do Cachorro porque demarca dos limites do Brasil com a Colômbia e Venezuela e a linha da fronteira no mapa parece a cabeça de um cachorro.
Trata-se de uma área de 200 mil quilômetros quadrados, com mais ou menos 40 mil pessoas. Já a visitei com a ajuda do Exército. Mas preciso voltar a ela, porque quero aprender mais sobre as fronteiras do Brasil.
Se tudo certo, com o tempo visitarei novas fronteiras e farei um trabalho mais amplo. Por enquanto, pretendo publicar um texto no Estadão e continuar pesquisando.
Fiz muitas viagens à Amazônia, algumas para enterrar defensores da floresta, como Chico Mendes e Dorothy Stang. Mas cada vez que vou percebo como é preciso conhecer um pouco mais o território e as pessoas.
Viagens ao Xingu e ao Trombetas, onde fui para documentar a reprodução das tartarugas, foram muito interessantes no passado.
Da mesma forma, Xapuri e Anapu, onde morreram Chico e Doroty, foram esclarecedores sobre as violentas reações às mudanças no trato com a floresta.
Desembarco na cidade de São Gabriel da Cachoeira, onde 90 por cento da população é de indígenas. Na região, há 23 etnias e falam-se quatro línguas: português, nheengatu(inspirada no tupi),tucano e baniwa.
Durante este período de viagem, dificilmente poderei comentar os acontecimentos. Há conexão de internet, mas passarei o dia trabalhando em lugares remotos e só voltarei a São Gabriel ao anoitecer.
O blog, nesse período, terá o foco no aprendizado da viagem.
Tags: Amazônia, Cabeça do Cachorro, fronteiras, São Gabriel da Cachoeira
Se aplicamos critérios do século passado, podemos dizer que a mudança do Ministério da Defesa significa uma guinada à esquerda.
Celso Amorim não é o primeiro diplomata a ocupar a pasta. Antes dele, passou por lá José Viegas .
Entre Nelson Jobim e Celso Amorim há diferenças de avaliacão política. Jobim é mais próximo dos norte-americanos e chegou a afirmar que havia um certo antiamericanismo em personagens chaves do Itamaraty, como Samuel Pinheiro Guimarães.
Muito possivelmente, Jobim e Amorim, embora sejam uma rima, discordam da postura brasileira quanto ao tratado de não proliferação nuclear, ao Irã e os líderes bolivarianos nossos vizinhos.
No passado, talvez isso tivesse alguma importância para os militares. Não creio que represente alguma coisa agora. O fator decisivo no momento é a capacidade do ministro de liberar verbas.
Com suas declarações, Jobim se afastava de Dilma e, certamente, a distância repercutia na sua capacidade de liberação de recursos.
Jobim firmou um acordo de cooperação com a Colômbia, com o objetivo de proteger melhor as fronteiras amazônicas, sobretudo na região conhecida como Cabeça do Cachorro, por causa de sua forma no mapa.
Dentro da visao da esquerda, a Colômbia é dirigida pela direita e tem proximidade com os Estados Unidos. Mas seu novo presidente, Juan Manuel Santos, é muito mais hábil que o anterior, Álvaro Uribe.
Talvez as opiniões de Amorim sobre os vizinhos não coincidam totalmente com as dos militares. Em contrapartida, no campo do nuclear as ideias do ex-chanceler podem estar mais próximas da caserna.
É preciso esperar. Amorim é o primeiro quadro do PT( ele se filiou ao partido no ano passado) que assume esta tarefa. E o século XX já ficou para trás.
Hoje, as divergências que pesam estão ligadas às condições materiais, aos recursos para as três pastas.
Amorim será chamado a intervir também na compra dos caças. Franceses, suecos, americanos? Pode ser que esse impasse volte, mas, no momento, são pequenas as chances. Os sinais da crise mundial ainda estão no ar.
Tags: Cabeça do Cachorro, Celso Amorim, colômbia, Nelson Jobim, Nuclear
2011