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20.março.2011 12:52:48

Lagoa de Obama

Quase todos os dias faço esse percurso da Lagoa, entre casa e piscina do Flamengo, sempre tirando algumas fotos no caminho. Este domingo foi especial. O Presidente Obama e sua comitiva usaram o campo de futebol do Flamengo como campo de pouso.
A única diferença no caminho era uma dupla de soldados a cada quilômetro. Boinas vermelhas, dotados de um pequeno rádio, deixavam-se fotografar com simpatia. Vi dois meninos gêmeos vestidos de camisa amarela que estavam na porta do Flamengo apenas para a passagem do carro e a subida dos helicópteros.

Primeiro helicóptero no céu tropical.(Foto FG)

A piscina não estava fechada. A dúvida era mergulhar ou perder a foto dos helicópteros subindo. Não é sempre que um Presidente dos EUA pode ser visto da piscina. A rota que usaram é muita usada por pássaros que voam para a Lagoa. Aliás alguns deles passaram por ali mais cedo.

Proteção na orla da Lagoa.(foto FG)

Nosso espaço de manobra era pequeno. A partir do posto médico, ninguém podia passar. Resolvi ficar na beira da piscina mesmo, para não perder tempo. Já eram 10h30m e a comitiva ainda não chegara.

Já estava quase desistindo porque é uma rotina diária e aquilo iria me atrasar para o almoço. Os motores foram ligados e fiz as fotos ali da piscina mesmo.

Sobre o relógio e rede do water polo, o Presidente dos EUA

Tenho a impressão de que isto não acontecerá mais. De resto, o domingo seguiu tranquilo. Fui tomar uma laranjada no bar cumprimentei o Sr. Brown, da segurança do Consulado Americano. Quase meia hora depois dos helicópteros subirem, ele tomava um café com leite bem brasileiros.

Meu trabalho daqui a alguns meses será divulgado na internet, com o titulo Dicionário Visual da Lagoa. No verbete helicópteros, o de Obama terá preferência.

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Aos jovens jornalistas, dizíamos no passado: notícia é como baioneta, se você sentar nela, vai ser espetado. Obama escreveu um artigo sobre a importância de sua visita à América Latina, mas estava sendo cobrado para exercer seu papel na crise líbia.

A decisão mais importante de Obama no Brasil foi determinar o bombardeio às forcas de Kadafi. Ele deixou os Estados Unidos sob críticas de que não era esse o momento de viajar. Na entrevista de ontem, em Brasília, a Líbia foi o grande tema de perguntas dos jornalistas americanos e internacionais.

Um dos detalhes da visita é que não houve entrevista coletiva dos dois presidentes. Muitos jornais registraram isso, afirmando que o governo brasileiro vetou essa prática, mais ou menos tradicional em visitas de chefes de estado.

O fato é que algumas instalações de Kadafi foram alvo dos foguetes e o governo decidiu abrir seus paióis ao povo, distribuindo granadas e armas. Será que esta decisão vai motivar uma resistência popular contra as potências ocidentais, ou vai precipitar a queda de Kadafi? O mais provável é que as medidas que Kadafi anuncia sejam apenas guerra psicológica. Jornalistas que entraram no seu bunker garantem que há algumas centenas de pessoas pedindo para ser um escudo humano.

Líbia é, nesse momento, o foco das atenções

O problema na Líbia talvez não seja a vitória militar, nem a queda de Kadafi. O problema é o que fazer depois. A ONU terá de cuidar de mais um pais, organizando eleições, criando forças especiais, enfim fazendo o que chamamos construção de uma nação. Uma vantagem da Líbia sobre o Haiti é que o pais tem como se financiar, através da venda do petróleo. Os elementos de instabilidade política, depois de longo período ditadorial, têm semelhanças.

O Haiti era um dos temas que iria monitorar nesse fim de semana. Os outros são o motim nos canteiros das Usinas de Jirau e Santo Antônio e o desenvolvimento da tragédia no Japão. Este último que continua para mim sendo o tema mais importante e falarei ao longo do dia..

Em Rondônia, onde milhares de trabalhadores continuam ao relento, a explosão de violência no canteiro de Jirau merecia uma análise. O estopim foi o não pagamento de horas extras, pela Camargo Correia. A esta altura, calculadoras na mão, a empresa deve ter se arrependido pois os prejuízos foram maiores com a queima de mais de 300 ônibus e alguns alojamentos.

O interessante nesse caso, pelo menos esta é minha experiência com os motins que cobri em penitenciárias, não é se fixar apenas no estopim mas na bomba inteira. A revolta dos trabalhadores deve ter inúmeros outros fatores. Como nos motins, a violência não se explica apenas pelo estopim mas pelo acúmulo de pequenos desgastes.

O discurso do governo é de que Jirau e Santo Antônio são elementos de projeção do Brasil no Século XXI. Os problemas na construção entretanto parecem anteriores ao século XX que consolidou uma legislação trabalhista no Brasil.

Líbia,depois da vitória, grandes problemas

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Um sábado seria bom para um estilo carretel. É o estilo usado pelo escritor americano John dos Passos, mais tarde imitado por Satre no sua trilogia intitulada Caminhos da Liberdade. No Brasil, um jornalista fazia isto toda semana. Assinava Van Jafa e tinha uma coluna no Correio da Manhã. Ele juntava todos os acontecimentos da semana e numa mesma frase

Enquanto Obama chegava ao Brasil, no meio das recorrentes discussões sobre segurança presidencial, o Japão anunciava, segundo o New York Times, que detectou um nível de radiação mais alto do que o aconselhável no leite e no espinafre consumido no pais. Isto significa que a produção alimentar no país foi atingida pelo desastre de Fukushima.

Kadafi anunciou um cessar fogo mas suas tropas continuam combatendo e o cessar fogo só parece ter sido realmente obtido em Rondônia, onde milhares de trabalhadores estão dormindo na rua depois de incendiarem seus alojamentos. No Rio, a confusão em torno do discurso da Cinelândia já foi superada. Obama falará no Theatro Municipal, cujo agá no nome, a imprensa insiste em manter.

Manifestações contra a visita de Obama acabaram tendo uma vitima: o vigilante do consulado americano. Se Píer Paolo Pasolini estivesse vivo, iria puxar a orelha dos estudantes de esquerda da classe média que, na sua luta contra os poderosos, burgueses e etc, acabam sempre atingindo os filhos do povo.

Na Califórnia houve um certo susto com a chegada de partículas radioativas do Japão. Elas devem chegar à Europa na semana que vem, pois não respeitam a zona de exclusão aérea. Dizem as autoridades que não fazem mal à saúde humana, depois de uma longa viagem.

Mas quem chegou e, segundo os americanos pode fazer algum mal à saúde democrática do Haiti, é o ex-presidente Jean-Bertrand Arisitide. Titide, como é chamado pelo povo, teve uma recepção extremamente calorosa e embaralhou as eleições. Eleitores dizem que não votam mais, enquanto o partido de Aristide não for incluído. O grupo do ex-presidente não conseguiu se legalizar para disputar o primeiro turno.

Saio para as ruas certo de que hoje não é um dia comum. Há muitos soldados e quem sabe posso usar os tanques como trampolim na piscina. O cotidiano já não era comum com a multiplicação de blocos carnavalescos. Confesso que é um pouco ridículo pensar no cotidiano se levamos em conta o que se passa agora em Benghazi ou em Fukushima, onde canhões de fogo, canhões de água ressaltam o privilégio de conviver com os silenciosos canhões dessa manhã luminosa.

Caminhões na batalha de Fukushima

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O Rio está tendo grandes dicussões no processo de se preparar para receber Obama. O projeto inicial continha, na agenda, um discurso de Obama na Cinelândia. Ele fez um discurso no Cairo, outro em Praga, esse seria um pronunciamento voltado para a América Latina.

A escolha do lugar foi objeto de críticas porque os bares seriam fechados e ninguém poderia usar mochilas. O prefeito Eduardo Paes chegou a afirmar que a mudança para o Teatro Municipal o salvou de ser o primeiro prefeito a fechar o Amarelinho, um bar tradicional do centro da cidade.

Envoltos na discussão, alguns cariocas que eram contrários queriam um Presidente dos EUA fazendo discurso no lugar, e, simultaneamente, prosseguir na sua vida cotidiana. Mas o mundo vive um momento muito especial: o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução para intervir na Líbia, onde a situação é muito grave, apesar dos conflitos mais sérios do dia terem acontecido no Yemen, cujo governo matou 41 vários manifestantes hoje.

O cotidiano de uma sexta-feira já mudou. As portas do Flamengo estavam tomadas por soldados do Exército, porque Obama vai chegar de helicóptero no campo de futebol do clube. Ao sair, vi uma mulher fantasiada de branco que parecia, de longe, uma Estátua da Liberdade. Fazia uma performance que está ficando comum por aqui: pessoas fingindo de estátua. Ela estava acompanhada de um malabarista e pediam dinheiro aos carros parados no sinal. Apenas isso.

Novidades no cotidiano do Rio(Foto FG)

Não era uma estátua da liberdade. Enganava, de longe . Nem toda sexta-feira o Exército guarda o Flamengo, jamais vi performance tão produzida como aquela no sinal. Logo conclui que tudo isso está acontecendo porque não é sempre que nos visita um presidente dos Estados Unidos.

Obama, como lembrou o embaixador Marcos Azambuja, numa entrevista, vai falar num palco onde cantaram grandes tenores e sopranos internacionais. Mas, concluo, ficará mais inacessível porque também não é sempre que o Conselho de Segurança intervém na Líbia.

Por mais importante que seja a visita, não se pode esquecer da gravidade da crise em Rondônia, nas usinas de Jirau e Santo Antônio. Lá trabalhadores queimaram mais de 300 ônibus, queimaram alguns alojamentos e a obra parou. Milhares de pessoas sairam ou foram retiradas e agora se encontram em abrigos em Porto Velho. A Força Nacional os canteiros , a pedido do governador Confúcio Moura. Um fim de semana cheio, com a Líbia, Obama no Rio e motins nas usinas de Rondônia. E acompanhando o desastre em Fukushima e os efeitos do terremoto no Japão

PS: No Estado de São Paulo dessa sexta-feira, publico um artigo analisando alguns aspectos da visita de Obama.

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