De volta ao Rio, vejo nos jornais o que soube pelo telefone, ainda na conexão em Manaus: manchas de óleo chegaram à praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes .
O secretário Carlos Minc afirma que as manchas foram produzidas por Jet-sky. Os surfistas afirmam que não viram Jet-sky na Macumba.
Como saber a verdade? Isto nos remete à notícia mais espantosa relativa ao petróleo: a ANP gastou com fiscalização o equivalente dos gastos da Petrobrás com cafezinho. Os gastos foram de apenas de R$5,03 milhões.
Na sexta feira, publiquei um artigo no Estadão questionando a relação do Brasil com o oceano. Discutimos mais os royalties do que a maneira adequada de tratar o Atlântico, cujas riquezas não se se resumem ao óleo.
Mostrei que mesmo com dinheiro, a fiscalização costuma não ter a mesma base técnica das empresas e, constantemente, é enganada por elas.
Em termos de proteção ao oceano, sobretudo no que diz respeito à exploração de petróleo, estamos à deriva.
As manchas de óleo eram apenas de jet-sky? Como se a vida marinha preferisse manchas de jet-sky ou do vazamento da Chrevon, a verdade é uma só: não há fiscalização adequada.
Vamos devastando o oceano Atlântico com a mesma ferocidade que devastamos a mata atlântico, processo amplamente descrito no livro de Warren Dean.
Minc tem um papel nisso. Foi ministro, é secretário, vive no Rio onde se dá a intensa exploração de petróleo. Vamos contar com ele para pressionar .
Embora aconteça no litoral do Rio, esse processo de descaso é um problema para todo o Brasil. Como os oceanos não se limitam aos limites abstratos das águas territoriais, breve a exploração de petróleo brasileira pode ser estigmatizada no mundo.
Hoje, ninguém se pergunta de onde vem o óleo, se de ditaduras sangrentas ou países que desprezam a proteção ambiental. Mas isso pode mudar, na medida em que carros a álcool, elétricos, movidos solar ou a hidrogêneo, começarem a se impor no mercado. O petróleo não será mais a única opção.
Tags: ANP, Carlos MInc, Chevron, Petrobrás, Praia de Macumba
Confrontando todas as informações que vêm do Japão, podemos concluir que há problemas de resfriamento em todos os seis reatores do complexo de Fukushima. Até aí nada demais, pois concluímos também que os geradores adicionais, submersos pelo tsunami, não estão funcionando.
Trava-se pois uma batalha em toda a linha para resfriar os reatores e evitar um derretimento. Acontece que o derretimento parcial já aconteceu em Fukushima 2 e foi liberada uma grande quantidade de radiação. Se ficar impossível para os trabalhadores , dado ao perigo de contaminação, prosseguir com o trabalho de resfriamento, a batalha pode ser perdida.
As autoridades japonesas estão pensando em utilizar helicópteros mas acredito que mesmo tripulantes de helicópteros estarão sob perigo de contaminação. Se não fosse assim, como explicar o governo ter decretado área de exclusão aérea em torno do complexo de Fukushima?
Essas considerações não são de todo inúteis. No caso de Chernobyl, os trabalhadores que ficaram para evitar o pior e cerrar a usina não sobreviveram para contar a história. Agora, as circuntâncias são outras, os equipamentos melhores, a assistência internacional mais sofisticada. Os EUA, por exemplo, enviaram dois especialistas em resfriamento de reatores.
Mas o Japão foi traumatizado com explosões de Hiroshima e Nagasaki. O aumento do nível de radiação em Tóquio vai demandar muita calma. Avaliar a situação de longe, baseado nos telegramas, pode induzir a muitos erros. Um exemplo disso foi a notícia inicial de que a temperatura no reator de Fukushima 1 era de 100 graus Celsius. Um leitor atento escreveu que temperatura descrita, num reator desse tipo é normal. Mais tarde, novas notícias afirmaram que a temperatura era de 1900 graus Celsius.
Apesar de todos os erros, é fundamental tentar entender, sem arriscar grandes conclusões. O desastre em Fukushima tinha sido classificado como de nível 5, abaixo de Three Miles Island e Chernobyl. Agora, as autoridades franceses já o avaliam como de nível 6.
Consultado por alguns amigos de Brasília sobre o que fazer aqui, respondi algo que, no momento me parece o mais sensato: não adianta discutir agora a construção dos novos reatores mas focar na segurança dos que já existem. Um ponto vulnerável, por exemplo, é o plano de retirada na Br101. A estrada precisa ser melhorada. Havia até dinheiro para isso, na área do gabinete militar da presidência, que tinha responsabilidades na questão nuclear.
Lembro-me que na simulação que realizamos houve dois problemas assustadores: na estrada precária, o policial rodoviário que daria cobertura à operação, morreu num desastre rodoviário; e a sirene, peça fundamental na retirada, não funcionava bem
Tags: Angra, Áustria, BR101, debate nuclear, Fukushima
Uma terceira explosão e a noticia de que era muito possível que as varetas do reator Fukushima 2 estivessem derretendo marcou o começo da manhã, aqui no Brasil. No princípio da noite, através das autoridades francesas foi divulgado que houve derretimento em Fukushima 2, onde o nível de radiação aumentou quatro vezes nas últimas horas.
Os especialistas mundiais passaram o dia explicando o que é o derretimento num reator nuclear , ressaltando sempre que ele epode ser parcial e causar menos danos do que se imagina. Esse é o desejo de todos, uma vez que o derretimento a esta altura parece ser uma realidade.
O povo japonês, com a dignidade que nos mostram as cenas de seu cotidiano pós-terremoto ,já tem muitos problemas pela frente. Essas usinas dificilmente voltam a funcionar a curto prazo, o que contribui para prolongar o racionamento de energia.
O derretimento parcial num reator pelo que dizem os especialistas libera radiação através da água e do vapor. O total acontece de outra forma: as pepitas de combustivel como larvas de um vulcão destroem a base do prédio que contém o reator. Aí, é liberada mais radiação.
O estranho nesse processo é que tudo começou em Fukushima 1, passou para a usina 3 e, agora, tornou-se mais grave na última em que registrou problemas, a Fukushima 2. Dá a impressão de que o tempo não jogou a favor ou as coisas não foram ainda explicadas ainda no seu preciso encadeamento.
Numa entrevista antes da explosão, funcionários da Tóquio Eletricidade disseram que os trabalhadores tiveram dificuldade de injetar água do mar por causa de uma válvula , que já havia sido reparada. Horas depois,Fukushima 2 sofreu a explosão e tornou-se o caso mais grave dos tres.
As comparações técnicas com Chernobyl, que foi um acidente maior, precisam levar em conta também o fator político. Numa, as autoridades esconderam a notícia: na outra, no Japão, as informações foram antecipadas e as atualizações são permanentes. Quando disseram que era muito provável que algum tipo de derretimento aconteceria foram os mais claros possíveis.
Os programas noturnos de televisão mostraram diferentes reações internacionais. Muitos países querem rever seus projetos nucleares, outros como a França, que usa mais intensamente a energia nuclear, vão esperar os fatos para não tomar decisões precipitadas.
O tom brasileiro foi outro. Inicialmente, uma reportagem mostrando que Angra 1 tinha dispositos de segurança mais avançados, uma redundância no sistema de resfriamento. Em outras palavras: aqui não aconteceria. Finalmente, o presidente da CNEN ( Comissão Nacional de Energia Nuclear ) Odair Gonçalves afirmou que nada mudará nos planos brasileiros de construir usinas nucleares, embora possa aumentar o debate. Coube a um professor da UFRJ colocar a questão num tom sensato, à altura dos acontecimentos: depois de um grande desastre a indústria de energia nuclear faz uma avaliação e corrige os rumos a partir do que aprendeu. Assim fazem também outros atores.
Em outras palavras: por que não esperar o desenrolar dos acontecimentos para afirmar que tudo fica como antes, ou que nada será como antes? Estamos diante de um fato que se desdobra, ainda não concluido.
Tags: derretimento, Fukushima2, posição brasileira, posição europeia
2011