Salvo um imprevisto, o pedido de admissão da Palestina à ONU deve ser o tema da semana. O Brasil decidiu votar a favor do pedido que será apresentado no dia 23. E com esta decisão, expressa também o desejo da maioria dos países latino-americanos.
Existe muita preocupação no governo de Israel. O pais atravessa uma fase de isolamento. Atritos com a Turquia e o Egito foram os mais recentes problemas que a diplomacia israelense enfrentou.
No caso do Egito, a situação é complexa. Os populares querem uma política mais dura com Israel. O governo egípicio resiste porque sabe que a ajuda militar vinda dos EUA está condicionada às boas relações com o vizinho.
Muito possivelmente, o pedido da Palestina vai resultar numa admissão como país observador, mas com possível acesso ao Conselho de Direitos Humanos.
A posição que o Brasil apresenta na ONU expressa o desejo de que o processo de paz avance. Algo de positivo existe em tudo isso, pois os atentados cessaram, momentaneamente, e a demanda palestina conduz o debate para o front diplomático.
Decisões da ONU não costumam impressionar o governo de Israel, sobretudo quando a direita o controla. Mas têm uma grande consequência política.Duas variáveis importantes: a retomada das negociações diretas e uma nova chance para os dois grandes grupos palestinos se entenderem.
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“Tenho certeza de que você (Juan Manual dos Santos) e Dilma poderão fazer muito mais do eu e Uribe, que tínhamos uma boa relação mas com muita desconfiança”.
Esta frase de Lula, dita durante o Fórum de Investimestons Brasil-Colômbia, em Bogotá, provocou uma forte reação no ex-presidente Álvaro Uribe que, no seu twitter, afirmou que Lula falava mal de Chavez mas tremia diante do presidente da Venezuela.
Surpreso com a fala de Lula, Uribe afirmou também que o ex-presidente brasileiro, quando estavam juntos, sempre declarava sua amizade por ele.
Em novas mensagens, Uribe afirmou que Lula se recusava a classificar as FARC como um grupo terrorista e que teria vetado a trasnsmissão por TV de um debate em Bariloche sobre as guerrilhas na Colômbia.
Esse é um ponto obscuro pois Lula não teria condições de vetar a transmissão de um debate na Argentina.
Finalmente, Uribe acusou Lula ser um mau perdedor porque Uribe teria conseguido eleger Luiz A. Moreno para o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) derrotando o candidato brasileiro João Sayad.
Como se vê, os dois não se davam bem. Mas a frase final de Lula, a esperança de que Santos e Dilma se entendam melhor , é oportuna.
Além do Fórum de Investimento, foi assinado, em Taguatinga (AM) um acordo para a proteção da fronteira Brasil-Colômbia, na Amazônia.
Lula não precisava dizer em discurso que havia desconfiança entre ele e Uribe. Nem Uribe, precisava sair atirando em Lula.
A construção de uma aliança continental demanda mais discutir relações como participantes de um reality-show
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Nessa manhã de sábado, constatei uma semelhança entre Brasil e Rússia. Dilma se distanciou de Lula na política sobre o Irã; Medvedev se distanciou de Putin na questão da Líbia. A política externa acabou dividindo tanto aqui como lá criadores e criaturas eleitorais.
Vladmir Putin referiu-se aos ataques à Líbia como algo da Idade Media. Medveded afirmou que essas declarações eram inaceitáveis. Lula afirmou que a luta entre oposição e governo no Irã era uma briga de torcidas de futebol; Dilma votou a favor de uma investigação sobre direitos humanos no Irã, algo que o governo anterior negava.
São semelhanças de um sábado de manhã. Durante a semana, posso desenvolver aspectos mais profundos: a relação dos governos russo e brasileiro com a economia. Ambos gostam de influenciar as grandes empresas, combinar projetos de estatais com empresas privadas, enfim ambos experimentam uma forma em que não apenas governam mas se instalam também à frente do poder econômico. O esforço do governo brasileiro para derrubar Roger Agnelli da Vale, baseado também na força dos fundos de pensão, é algo bastante russo. As comparações têm limites: os russos costumam prender a exilar adversários econômicos da política estatal e há no país o péssimo hábito de matar jornalistas dissidentes.
O Itamary protestou contra a violência sofrida por jornalistas no Cairo. Foi importante o pronunciamento do governo brasileiro que considera inadmissível este tipo de prática. No momento, os jornalistas são os olhos do mundo nesta revolta do povo egípcio contra o regime de Mubarak.No Irâ, onde a imprensa não pode entrar, os olhos do mundo eram os próprios manifestantes com sua produção de vídeos e fotografias. A internet estava funcionando o que permitiu pelo menos uma janela para que o mundo acompanhasse a brutalidade do governo Ahmadinejad. A imprensa brasileira está presentes na maioria dos grandes acontecimentos mundiais. A pressão maior no Egito foi concentrada na Al Jazeera, que fala diretamente para mundo árabe. Mas a violência sobrou para todo mundo. Equipamentos confiscados, prisões, ameaças de fuzilamento, tudo isso está acontecendo à margem dos confrontos na praça Tahir, no Cairo, e também na Alexandria. Grupos de policiais e partidários dão plantão perto do Ramses Hilton e alguns estão armados com facas.
Nesses momentos, governos autoritários gostariam de ter a imprensa bem longe. E nós precisamos que ele esteja bem perto, independente até do desenrolar dos acontecimentos Testemunhas da história são indispensáveis.
Estamos numa semana importante. A tendência é um crescimento no ritmo político do pais, com a instalação do novo Congresso. Mas sem muitas ilusões, pois vivo este filme há duas décadas. As coisas só funcionam a pleno vapor depois do carnaval.
Importante a notícia de hoje: Itamaraty vai rever a política externa brasileira. Pelo menos, pediu uma reavaliação a todas as embaixadas e à missão na ONU. Em tese, reavaliações podem ser até uma rotina. Mas as recentes entrevistas da presidente Dilma Rousseff indicam uma nuance, em relação ao governo anterior. E esta nuance, também a julgar pelas suas falas, está no capítulo de direitos humanos.
O Brasil entrou numa fase de crescimento comercial . Não existem modelos perfeitos sobre como se comportar diante do crescimento econômico e aumento da importância política. A China, defendendo-se das críticas externas, sempre desdenhou a luta pelos direitos humanos, afirmando que esse combate desconhecia características locais, e que a universalização do conceito era manobra política e inadequada. Ela fecha os olhos às ditaduras em qualquer parte porque precisa e muito de matéria prima para dinamizar sua economia e alimentar seu 1,3 bilhão de habitantes.
A China também está mudando um pouco. Na mais recente visita de seu presidente aos EUA, o pais reconheceu a universalidade dos direitos humanos. Mas está censurando a palavra Egito nas redes sociais, revelando que no momento decisivo fica com governos fortes. E os governos fortes ficam com a China: todos eles faltaram à cerimônia de entrega do premio Nobel a um dissidente chinês.
No caso brasileiro, os erros mais gritantes foram cometidos em relação ao Irã, com a abstenção do pais na ONU, num tema tão grave como a pena de morte por apedrejamento. E em Cuba, onde Lula comparou os dissidentes político aos bandidos comuns de São Paulo.
O Brasil tem condições de condenar a pena de morte e isto é uma cláusula pétrea em nossa Constituição. A Itália, por exemplo, fez muita campanha internacional contra a pena de morte, sem que isto tenha prejudicado suas relações políticas com outros países.
A nota do Itamaraty sobre o Egito, dizendo que o Brasil acompanha atento, é o tipo de nota desse período de transição. Todos sabemos que a melhor maneira de transmitir a falsa idéia de posicionamento é dizer que acompanha com atenção. Acompanha o que? Restrições às manifestações populares. A alemã Angela Merkel, por exemplo, especifica a necessidade de se respeitar o direito de demonstração pacífica.
Vamos voltar ao tema. Talvez nem exista mudança, talvez seja mais ampla do que espero.
Tags: China, Cuba, Dilma Roussef, direitos humanos, Irã, itamaraty, ONU
O Brasil mostrou-se interessado na África, durante o governo Lula. Tão interessado que o ex-presidente chegou a anunciar que iria se dedicar ao continente africano, ao deixar o Planalto. No entanto, o Brasil está bem discreto diante da crise na Costa do Marfim. O país está virtualmente no caos. O atual presidente Laurent Gbagbo perdeu as eleições mas não reconheceu a derrota. Ao invés disso, prendeu o adversário, cuja vitória foi reconhecida pela ONU, num hotel de Abidjan, a capital da Costa de Marfim.
Para todos os países qe monitoram as eleições na Costa de Marfim, o vencedor foi Alassane Quatara, impedido de assumir. O clima é de guerra civil iminente ou intervenção militar. Já existem tropas da ONU e da França, na Costa de Marfim. Mas Laurent Gbagbo quer que elas saiam. Quem está saindo, na verdade, é o povo do país: 22 mil refugiados já escaparam para outros nações africanas.
A Costa de Marfim enfrentou o Brasil na estreia da seleção nacional e perdeu por 3 a 1. Depois disso, não se falou mais dela.
Tags: áfrica, força de paz, gbago, quatara
Os vazamentos de telegramas americanos sobre a nacionalização de instalações da Petrobrás na Bolívia parecem surpreendentes. Mostram que o governo brasileiro acompanhava o processo e sabia que Hugo Chavez estimulou Morales,com a promessa de assistência técnica à Bolívia, após a nacionalização. Os movimentos de Chavez, o envolvimento da PDVSA em sintonia com a empresa boliviana,YPBF- tudo isso apareceu nos jornais da época. O Brasil, hoje, justifica sua tática, com a frase de Chico Buarque: não fala fino com os EUA e não fala grosso com seus vizinhos. Na época, houve muito questionamento.Lembro-me de ter perguntado ao chanceler Celso Amorim se não era razoável chamar nosso embaixador de volta. Ele argumentou que era preciso alguém lá, para observar e negociar. Na avaliação de Chavez, nacionalizar as instalações de Petrobrás era correto. Por baixo da retórica socialista, a PDVSA queria se implantar melhor na Bolívia. Esta é a questão que um governo de esquerda no Brasil precisa avaliar. Afinal, é eleito para defender os interesses nacionais. A solidariedade internacional não é automática. Sua intensidade depende de consenso, ou, no mínimo, de negociação política. Essa compreensão é que faz da política externa uma política nacional e não a política de um partido.
2011