Foi um belo dia de sol no Rio. No caminho da Cinelândia, ainda me perguntava se a praia não iria competir com a manifestação na preferência dos cariocas.
Inútil pergunta. Na Glória, vi cerca de 80 ônibus estacionados, indicando que o interior já estava presente em grande número.
Cheguei um pouco mais cedo. Isto é na hora que combinaram começar. Mas a Avenida Rio Branco ainda estava semi deserta.
Uma pequena contra manifestação de estudantes e gente do Ocupe o Rio , movimento acampado na Cinelândia marchava em direção à Candelária, de onde partiria o cortejo maior.
Os estudantes gritavam palavras de ordem contra o governador Cabral mas andaram apenas uns 200 metros e voltaram.
A primeira impressão que tive foi a Corrida São Silvestre que atrai gente fantasiada de tudo. A Avenida Rio Branco viveu um dias bem carnavalesco, enquanto a a grande manifestação não se deslocava no trajeto da Candelária até a Cinelândia.
Nesse trecho, foram realizadas quase todas as manifestações de protesto. Hoje cores predominantes eram o azul e branco. Havia muita bandeira do Rio e milhares de camisetas dos manifestantes de Macaé, com a inscrição: o impacto é nosso, os royalties também.
Se pudesse dividir a passeata nos principais componentes, daria um grande peso aos que vieram em delegações do interior mas também a grupos de funcionários públicos que deixaram o trabalho às duas horas.
Sindicatos, partidos politicos, ONGs, beneficiários de trabalho social do governo, grupos de portadores de deficiência física estavam lá.
Quase todos os politicos expressivos do Rio também compareceram. Os manifestantes sempre perguntavam se aquilo iria impressionar os deputados.
Como a resposta era não, perguntavam então se o movimento não era para convencer Dilma Roussef a vetar o projeto.
Os locutores limitavam-se a denunciar a nova divisão dos royalties e dizer que os aposentados estavam ameaçados assim como os serviços essenciais .
Diante do palanque armado na Cinelândia um grupo selecionado fazia evolucões e seus movimentos eram mostrados no telão.
A frase de Caetano Veloso, mexeu com o Rio, mexeu comigo, era uma das mais ditas no palanque. O ponto central da manifestação foi o show com artistas como Lula Santos e Fernanda Abreu, entre outros.
Os empresários agrupados na Firjan também compareceram em grupo. Quase todos os partidos politicos com cartazes e militantes enrolados na bandeira estiveram presentes.
Resta a dúvida: qual o desdobramento? Com o aparato de hoje, inclusive banheiros químicos na Avenida, novas manifestações não foram anunciadas.
Se o Rio não sensibilizar Dilma Roussef, o único caminho serEa uma luta judicial. O próprio prefeito Eduardo Paes, em entrevista no meio da tarde, disse que essa seria uma saída.
Os manifestantes do Rio ficaram sabendo pelos locutores que, no mesmo momento, havia uma manifestação dos capixabas em Vitória.
Exatamente no dia da manifestação houve um importante vazamento de óleo, nos poços da Chevron, na bacia de Campos.
Não foi possível ouvir todos os discursos. Mas os vazamentos são um dos temas essenciais na defesa dos royalties para o Rio.

Banheiros químicos para evitar o pipi na rua.(foto FG)Fatasiado de Bin Laden, conversa diante do palanque oficial.(foto FG)
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Hoje é dia de manifestação no Rio. Royalties do petróleo. Vai muita gente. Foi convocada pelo governador e tem o apoio de prefeitos que trarão manifestantes de outras cidades.
O governador Cabral foi inábil no período em que o tema foi discutido no Congresso. E foi incapaz de articular uma campanha nacional, mostrando com números e fatos socioambientais o impacto da exploração do petróleo no litoral do estado.
A manifestação de hoje não vai sensibilizar os deputados e senadores. Todos trabalham voltados apenas para os seus eleitores. O que é legítimo. Mas não há um núcleo que pense no pacto federativo, nos vínculos que unem uns aos outros.
Quem pode pensar no conjunto é a presidente Dilma. Mas o governo federal não conseguiu achar a saída que atendesse a todos.
O Rio está sendo jogado numa luta pelos seus interesses regionais. Mas também tem uma vocação nacional. As duas vertentes unidas podem chegar a um resultado melhor.
Daí a necessidade de manifestar, mas também iniciar um diálogo com a opinião pública de outros estados, ter uma proposta que faça justiça ao Rio e também contemple a todos.
O papel do governo federal é importante. Mas não aceitou reduzir uma parte de sua fatia.
Ha ainda uma questão essencial que os governos não tocam, quando se tratam de royalties: o compromisso com a transparência nos gastos.
Isso não só previne a corrupção, mas ajuda a orientar a aplicação do dinheiro. Uma pesquisa sobre o tema indicou que as cidades do Rio gastaram 30 por cento de seus royalties empregando mais gente. Será que esse é o caminho?
O fato de as pessoas não saberem como é gasto o dinheiro do petróleo torna o tema dos royalties muito abstrato para elas.
Estarei lá ouvindo os manifestantes, documentando e tentando compreender o quais são as propostas para depois da manifestação.
A forma como o país gasta o que ganha com o petroleo é decisiva para alguns, como foi para a Noruega e a Venezuela, cada uma com sua trajetória.
O caminho brasileiro foi discutido muito brevemente no Congresso. O que mobiliza o Rio hoje poderia levar a um debate nacional sobre o tema. Os governos daqui, no entanto parecem preocupados em mostrar apenas que estão resistindo. Saídas para o impassse não conseguem colocar na mesa.
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A tragédia que matou 75 pessoas numa favela de Nairobi, no Quênia, revela um dos problemas que da indústria do petróleo que os sucessivos derramentos no mar ofuscaram.
O oleoduto que passa perto da favela, o que já um grande risco, rompeu e o óleo vazou livremente para um córrego vizinho. A multidão,diante do vazamento, recolheu vasos e baldes para armazenar a gasolina ,vendê-la e atenuar suas dificuldades materiais.
Segundo o New York Times, a renda mensal de muitas pessoas ali não passa de US$25. Sem recolhimento de lixo, os moradores, como o fazem em milhares de favela do mundo, queimam os resíduos frequentemente.
Acontece que vento virou. As chamas se voltaram para o oleoduto furado e houve a explosão que lançou uma bola de fogo, envolvendo os moradores em fuga. Os repórteres que visitaram o lugar tiveram uma ideia do desespero dos fugitivos pela posição dos corpos calcinados.
Outros vazamentos já aconteceram ali, segundo as testemunhas. Em alguns lugares da África, os moradores tiram algum proveito material desses vazamentos. Mas vivem sob um perigo permanente.
O petróleo ainda vai durar muitos anos com um papel decisivo na economia. Vive-se no Rio a euforia da indústria em crescimento, a descoberta do pré-sal. De um ponto de vista planetário, o Brasil diz alô ao petróleo quanto muitos querem dizer good-bye..
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2011