Começam hoje no Rio as obras que vão demolir um viaduto, o da Avenida Perimetral, e permitir uma melhor recuperação da área portuária.
A recuperação do porto do Rio é uma velha ideia que pegou carona na proposta de deixar algum legado após a Copa do Mundo e Olimpíadas.
Mas é apenas uma obra. Ontem, a Ministra Miriam Belchior afirmou que as obras que melhoram a mobilidade urbana não são essenciais para a Copa do Mundo.
O foco estará na construção de estádios e hotéis. O chamado legado dos jogos, destinado a melhorar a vida das pessoas, pode não ser concluído.
A saída que a Ministra apontou é decretar feriados nos dias de jogos. Uma Copa do Mundo tem muitos jogos, durante quase um mês. O feriado seria decretado apenas na cidade onde o jogo se realiza, presumo.
Ainda assim, falta calcular o quanto custará essa decisão. Um feriado em São Paulo paralisa atividades no Rio e outras cidades que mantêm relações estreitas entre si.
A Ministra ainda não sabe o quanto custará a Copa. Mas precisará saber o quanto vão custar os feriados. Pessoas que trabalham como autônomas terão suas atividades suspensas e perderão dinheiro. É como se pagassem um tributo não aprovado legalmente mas que ainda assim caiu sobre suas cabeças.
A fórmula apresentada pela Ministra Miriam Belchior é uma solução para que as pessoas possam ver os jogos, em dia de trânsito mais calmo.
Mas altera a lógica que estava por trás da decisão de hospedar a Copa. Iríamos usar os jogos para melhorar a locomoção urbana e deixar um legado permanente para as cidades brasileiras.
Agora o panorama é o seguinte: vamos fazer estádios e hotéis e decretar feriados. Ao invés de legado, ficaremos apenas com o prejuízo dos feriados.
O goveno sabe que os assalariados não vão protestar contra feriados porque se sentem, imediatamente, beneficiados.
Autônomos e empresários vão perder dinheiro. A Copa para eles vai parecer com a morte daqueles nobres arruinados que, ao invés de herança, deixam dívidas para os parentes.
Tags: Copa 2014, geriado, legado, Miíriam Melchior
Semana nada romântica. Muito frio, boeiros explodindo, baixaria dos tabloides ingleses e um escândalo de grande porte o do Ministério dos Transportes ao qual dediquei um artigo no Estadão de sexta.
Como sábado é dia de olhar pelo bairro sai para fotografar bueiros nos dias mais cinzentos. Os chilenos têm o vulcão Puyhue um fenômeno natural com nome nativo. Nos temos muitas explosões feitas em casa, com nome estrangeiro: Light.
Jerson Kelman, o presidente da Light, disse algo muito esclarecedor: o que está acontecendo não é problema da manutenção, é de renovação.
Essas fragilidades estão aparecendo antes da Copa e das Olímpiadas . Vivo um momento de dúvida sobre a capacidade de achar solução para tudo ,na carona dos dois eventos.
Pelo contrário, podem se tornar um problema. Primeiro pela aprovação de um sigilo nas obras, pelo Congresso, mas ainda não foi digerido legalmente.
Uma razão adicional de dúvida são a FIFA e CBD, esta dirigida por Ricardo Teixeira. Muitas denúncias de corrupção.
Outras bombas invisiveis como o saneamento e lixo tendem ao olvido..
Uma coisa é melhorar a cidade a partir da Copa do Mundo e Olímpiadas. Outra coisa é melhorar a partir de suas necessidades.
Barcelona conseguiu a convergência entre os dois projetos, os dos jogos e o da cidade. As obras do Maracanã que estão nas mãos da Delta, empresa de Fernando Cavandish, vão custar em torno de R$1 bilhão.
O orçamento que era de pouco de R$700 milhões deu um salto. Tudo isso é dinheiro que poderia ser empregado em outras coisas e com mais rigor.
Compreendo a importância simbólica da Copa e das Olímpiadas. Ela é um pouco acentuada pelo governo com essa história de que é bom para auto estima nacional.
Isso, as vezes, distrai a atenção dos problemas reais e dos aspectos econômicos de toda a aventura.
Os bueiros nos incitam a colocar de novos os pés no chão, e com muito cuidado.
Tags: bueiros, FIFA, Light, Ricardo Teixeira, saneamento
Rubem Braga é um autor de um texto apocalíptico sobre o Rio, intitulado Ai de ti Copacabana. É um texto que fala do fim do famoso bairro, perdido em seus pecados. Portanto, com toda a sua graça, a crônica era uma advertência moral.
Em nenhum momento, a ficção imaginou que a cidade seria vitima desse estranho processo de explosão de bueiros. Já o mencionei aqui duas vezes. A primeira foi quando atingiu um casal de turistas americanos, queimando gravemente a mulher.
Não se trata apenas da sensação de fim de mundo.Nada de ondas arrebatadoras, arranha céu tombando no asfalto. É um fim de mundo sem charme, trombetas ou profetas.
No planeta em que vulcões ativos perturbam os voos, terremotos arrasam países, tsunamis inundam usinas atômicas, nossa singela contribuição é esta: bueiros explodindo como minas terrestres.
O presidente da Light, Jerson Kelman, disse que o problema não é manutenção, mas que é preciso reconstruir a infraestrutura. Alem disso, há suspeitas de que algumas explosões são fruto de sabotagem.
Ou isto é reconstruído com rapidez, ou teremos de inventar uma outra modalidade de esporte para as Olimpíadas. Pode ser o lançamento de bueiros ou o salto sobre bueiros explosivos.
O preço dos imóveis está crescendo, estrangeiros querem comprar espaço no Rio. A onda de explosões talvez sirva para conter aumentos astronômicos e lembrar que esta é uma cidade real até debaixo da terra
Tags: especualação imobiliária, infreastrutura, Light. Jerson Kelman
Tony Blair decidiu participar de um debate no Rio, no dia em que Kate e William se casaram em Londres. O tema era a organização das Olimpíadas, que Blair considera uma excelente oportunidade para que novas práticas administrativas sejam desenvolvidas.
Houve um momento em que o governador Sérgio Cabral pensou em convidar Blair para um cargo de consultor, pagando uma fortuna em salários. Recuou diante da reação.
Blair veio ao Rio falar da Olímpiadas num debate realizado dentro do Forum Econômico Mundial da América Latina. Ele está trabalhando, como todos os ex-governantes que vivem de palestras.
Neste momento em que visita o Brasil, indico um ensaio sobre ele, no livro Anatomia, de John Gray. O livro é interessante por outros aspectos também, mas no caso de Blair a análise de Gray afirma que a participação na guerra contra o Iraque destruiu sua carreira política.
Mostra também que a presença no Iraque não foi um elemento accidental na gestão de Blair. No período de seis anos, Blair levou a Inglaterra à guerra cinco vezes: começou sancionando ataques aéreos a Sadam Hussein, participou da invasão do Kosovo, da intervenção em Serra Leoa, os ataques ao Afeganistão e, finalmente, a presença no Iraque.
Blair significou um momento em se falava muito na força das instituições globais e no declínio do estado nacional. Uma era que se chamava de pós- westafaliana, referindo-se ao Tratado de Westfalia, de 1648, momento em que o estado moderno foi reconhecido.
Alinhado com a posição dos neo-conservadores americanos, Blair perdeu grande parte de seu prestígio.No Rio, os jornalistas queriam saber por que não foi convidado para o casamento . E pareciam interessados apenas nisso. O que não deixa de ser irIonico para quem tinha o poder de mandar para a guerra jovens da idade de William e Kate.
Tags: Casamento real, Forum Mundial, Iraque Afeganistão, Kosovo, Sierra Leoa
Deve estar sendo votada hoje a medida provisória que cria a Autoridade Pública Olímpica. A decisão do governo de reduzir o número de funcionários da APO evitou um escândalo maior. De 484 cargos, o governo evoluiu para 171. A simples redução, considerada friamente, já revela uma grande inconsistência. Se era possível trabalhar com 171 funcionários, por que estavam pedindo 484?
O projeto era do Ministro dos Esportes, Orlando Silva. O relator também é do PC do B, Daniel de Almeida, da Bahia . O escândalo foi atenuado pela redução mas, no meu entender, não resistiria a uma análise mais detalhada. Para que se tenha idéia, com 70 por cento das responsabilidades nas Olimpíadas, a Prefeitura do Rio trabalha com uma equipe de 30 pessoas.
Felizmente o tema está sendo discutido no auge do escândalo sobre o programa Segundo Tempo, patrocinado pelo Ministério dos Esportes. Isso permitiu que a oposição e o próprio governo se dessem conta do exagero contido no projeto da APO formulado pelo ministro do PC do B. A APO seria um grande cabide de empregos e renda para as estruturas partidárias que a dominassem.
A presença de Henrique Meirelles atenua, mas não resolve, da mesma maneira que passar de 484 para 171 funcionários atenua mas não dissipa as grandes dúvidas sobre o processo. As denúncias formuladas contra o PC do B, no programa Segundo Tempo, não me surpreendem.
Em 2008, foram apreendidas os comitês eleitorais do PMDB do Rio, vários kits de merenda que pertenciam ao programa e estavam sendo enviados para o trabalho de boca de urna. Denunciamos, o TRE iniciou apreendeu e iniciou um inquérito que nunca foi adiante.
A Autoridade Olímpica foi um pouco desidratada mas ainda assim 171 novos cargos, comparados com o trabalho existente no Rio, é um número alto. Era preciso articular as duas estruturas. No Rio, por exemplo, as pessoas que trabalham com as Olimpíadas estão fora do esquema normal da Prefeitura. Em outras palavras, foi constituída uma estrutura própria para o evento. Agora, o governo cria uma nova estrutura. Como é que vão interagir, a que ponto são racionais atuando separadamente? Ainda há muita coisa para ser respondida.
Tags: APO, PC do B, Prefeitura, Segundo Tempo
Para um logotipo de Olimpíadas, o do Rio já tem sua história. Lançado na virada do ano, aceito pela população, ganhou as páginas internacionais, sob suspeita de plágio. De fato, tem alguma semelhança com a marca da Telluride Foundation, que atua no Colorado, com temas filantrópicos. Há também uma certa semelhança com a marca do carnaval de Salvador, de 2004.
Todos, no entanto, parecem se inspirar numa das mais conhecidas pinturas do Século XX: A Dança, de Henri Matisse. Um dos donos da agência Tátil, que desenhou a marca, Fred Gelli, afirma que, na verdade, a inspiração foi o Pão de Açúcar, revelando algumas imagens do processo de criação. No meu escritório da rua Alice, posso compreender o impacto visual do Pão de Açúcar. No entanto, a força do quadro pode ter influenciado inconscientemente a todos os autores, do Colorado ao Carnaval de Salvador. Isto é uma característica pós-moderna , a mistura de épocas, abordagens. Os intérpretes do quadro de Matisse falam em integração cósmica, em solidariedade humana, em festa. Alguns afirmam que o quadro é uma referência à Sagração da Primavera, de Stravinsky. Observo, porém a forma circular da composição. Isso deve ter encantado os criadores, porque um círculo encanta desde o começo do mundo. Em sânscrito, chama-se mandala. Jung discorre longamente sobre mandalas, no livro O Homem e seus Símbolos. O mandala é tido como a forma que ,na meditação , facilita, integrar-se com o universo. O Comitê Olímpico vasculhou marcas mas só descobriu a da Telluride Foundation, tarde demais, no primeiro dia de janeiro. A marca já estava lançada. O único conselho que posso dar agora, sob o risco de ser processado por plágio pela Johnnie Walker : keep dancing.
Tags: logotipo, olimpiadas, rio de janeiro
2011