O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado fez um longo trabalho sobre migrações humanas. Intitulada Êxodos, a coleção mostra impressionantes e dramáticas imagens em preto e branco.
Mas a foto que a policia do México nos apresenta dos dois caminhões, com 500 trabalhadores tentando entrar nos Estados Unidos, tem um impacto mais doloroso ainda.
Não é uma foto. É uma imagem de scaner. Nela não vemos, como nas radiografias , ossos ou pulmões. Vemos as pessoas inteiras, reduzidas a um feixe de luz, fantasmagóricas.
Nesse momento em que o clássico de Franz Kafka, Na Colônia Penal , é transformado numa novela gráfica, ouso dizer que a imagem dos imigrantes detidos na fronteira com o México é uma peça kafkiana.
Não só o sofrimento das pessoas empilhadas é transformado, de forma neutra, em esquálidos pontos luminosos. A própria linguagem estética, tão explorada no trabalho de Sebastião Salgado, dá lugar a um comunicado tecnológico sobre a viagem dos imigrantes.
Poucos acreditam na existência da alma. Mas a foto da policia mexicana poderia ser legendada assim: algumas almas empilhadas no caminhão na fronteira com os EUA.
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2011