Numa semana de farsas políticas em Brasília e vazamento de óleo em Campos, não posso apenas divagar. O post sobre a Chevron vai abaixo.
Mas como hoje é sábado posso contar a história de uma garça que conheço. Ela é minha modelo, mas não há nada de pessoal nisso. Está sempre pronta para todas as câmeras, inclusive a dos celulares.
O único homem que interessa a esta garça é o pescador Severino, que fica na entrada do clube Piraquê. Senta-se no mesmo banco, todos os dias, e tece sua rede.
Severino, assim como o consertador de radio, é um dos poucos que têm lugar fixo. Embora se dedique às redes, sempre pesca alguma coisa e dá à garça.
Ela se acostumou ao vê-lo chegar voa para o banco e fica ali até ir embora. Inclusive na saída, caminha com ele alguns metros, para se despedir.
Severino andou tendo problemas em casa e passa a maior parte do tempo na Lagoa. Ele tem um método de pescar siris com um saco de plástico e oferece à garça um menu mais amplo do que as savelhas.
Severino andou repreendendo a garça ao descobrir que ela também come pomba rola, o que lhe pareceu uma barbaridade.
A garça as vezes voa quando sente a presença muito próxima das bicicletas ou dos corredores. Mas sempre volta ao mesmo lugar, ao pés de Severino .
Severino sai todos os dias de casa para encontrar a garça e ela deixou sua espécie para viver ao lado dele, pelo menos durante o dia.
Amigos, em tempos dificeis para amizades permanentes, Severino e a garça conseguem sobreviver juntos numa metrópole hostil a garças e pescadores.
Tags: amiazes, Garças, pesca artesanal
Hoje, a Rocinha será tomada pela policia que montará mais uma UPP, dentro do projeto de garantir segurança em áreas vitais para a Copa do Mundo e Olimpíadas.
Comento mais tarde a ocupação da Rocinha e a prisão de Nem, o traficante mais “procurado” do Rio.
Nessa manhã de domingo, enquanto os tanques sobem a Rocinha e a televisão deve estar em clima de invasão do Iraque, registro apenas que começaram a limpar a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Em postas de fim de semana , mostrei como a Lagoa estava decadente, apesar do dinheiro que o bilionário Eike Batista estaria investindo para preservá-la.
O objeto de meu passeio eram as garças, frangos d’água, pescadores, bem-te-vis e sabiás. Registrei que pintou limpeza. A grama está sendo cortada, o deque está sendo repintado e dois barcos de limpeza percorrem a orla da Lagoa para recolher a sujeira.
Já vi algumas vezes esse movimento. Mas limpeza precisa de continuidade e, dessa vez, parece mais sério porque há muitas obras em toda a área.
Essa é a invasão desarmada. Mais tarde, falarei da outra, usando uma história de Kafka, chamada O Castelo.
Tags: Eike Batista, invasõo, Lagoa, Rocinha
Quando trabalhava até tarde da noite, sempre me lembrava dos versos de Drummond: há uma hora em que todos bares se fecham e todas as virtudes se negam.
Mudei o relógio biológico. Vivo durante a semana a hora em que todas as esperanças renascem e alguma ingenuidade é possível.
Vago pela Lagoa e sinto uma lufada quente de vento terral. A própria luz. que aos poucos, vai endurecendo anuncia a alta primavera e a chegada do verão.
As margens da Lagoa continuam sujas. Fiz uma série de fotos- Choveu, Sujou- e constato agora que, mesmo sem chuvas, as margens continuam imundas.
Pinto no lixo, porque as cores estão ficando mais vibrantes, a luz mais intensa e é possível ver no sorriso das crianças, a chegada do verão, a proximidade das grandes férias escolares.
Crise econômica mundial, queda de ministros no Brasil , as manhãs atenuam os dias terríveis, assim como o sábado é para o poeta, o dia da criação. Hoje é sábado, amanhã é domingo/ não há nada como o tempo para passar.
Começo com Drummond, termino com Vinicius porque alguém já disse que a única prova concreta da existência do homem é a poesia.
Que a poesia dê, pelo menos, uma sobrevida à Lagoa.
Tags: Drummond de Andrade, Poluição, primavera, Vinicius de Moraes
Depois que os macaquinhos sumiram da piscina, ele começou a aparecer. Disputa as mesmas árvores só que usa o rabo para se prender a elas.
O gambá é impopular por muitas razões. A primeira delas: é associado ao mau cheiro, por causa do liquido que produz nas axilas. É sua defesa.
A segunda razão é ser sanguinário. O gambá se embriaga com o sangue das vitimas. A crença popular é de que gosta de cachaça e que para capturá-lo basta deixar a bebida ao seu alcance.
A palavra gambá pode ter vindo do tupi-guarani e ser uma alusão à sua bolsa. Os marsupiais têm uma bolsa com mamilos no ventre e os fihotes ficam protegidos ali, até saírem para o mundo.
Um gambá não devia freqüentar clubes esportivos. Pode ser morto por gente que não gosta dele. Mas a espécie é dura na queda. Suporta veneno mais que um boi suportaria e, além disso, sabe fingir de morta para escapar dos inimigos.
Parece que vive só. Mas dizem que no tempo da reprodução, os gambás andam em grupo. As fêmeas liberam o cheiro para atrair o macho.
Mas nosso gambá está fora do jogo. Na metrópole, é apenas um sobrevivente que come de tudo e ficou para apagar a luz. Lúcido como um gambá.
Tags: Marsupiais, meio ambiente, rio de janeiro
Sou um cronista visual da Lagoa. Já vi lindos movimentos de garças mas passei por terríveis mortandades de peixe.
No feriado, antes do trabalho na marcha contra a corrupção, resolvi dar uma olhada na margem. Na madrugada, houve uma forte tempestade.
Aqui é fatal: choveu, sujou. Parte do lixo, restos de jornal e lata de alumínio devem ter sido arrastados da margem pelo vento.
De um modo geral, as latas de alumínio são catadas para a reciclagem e há quem recolha também papel velho.
No entanto, alguns blocos de lixo urbano indicam que a vulnerabilidade da Lagoa é muito maior. As aves têm de romper alguns blocos para avançar na água. Gostaria de acreditar que são mutantes e vão sobreviver a isto com um estômago de ferro.
Tartarugas examinadas pelo Projeto Tamar mostram que a maioria delas morre com plástico no estômago.
O estômago das aves da Lagoa deve ser atingido também, porque elas estão em busca de comida mesmo nos blocos de lixo.
Há um trabalho de recuperação da Lagoa, voltado para suas águas e margem. Temo ser um trabalho de Sísifo se não houver uma intervenção mais ampla para protegê-la.
Enquanto discutimos isto, pelo menos registro os principais momentos da Lagoa, inclusive antigas tubulações de esgoto que a envenenaram durante tantos anos.
Tags: chuvas, esgoto, lixo urbano, recuperação ambiental
Os leitores que querem seriedade todos os dias, sabem que no sábado descansamos da seriedade.
Quase todos os dias passo pela rampa de skate, na Lagoa, defronte ao Flamengo,mas no fim de semana há mais movimento.
Crianças cada vez mais novas estão se dedicando a esse surfe do asfalto. Nem todas usam a rampa, que é mais perigosa.
Há um espaço cimentado onde treinam pequenas ascensões. Muitos pais estão presentes e imagino que sempre um pouco apreensivos.
O skate é um esporte radical mas com um circuito próprio e alguns atletas profissionais com bons salários.
Mas esses fazem manobras mais arriscadas ainda. O esporte foi inventado na Califórnia. As pranchas com as quatro rodinhas são usadas também no asfalto plano.
Como no surfe, esses meninos estão mergulhando também numa cultura específica, com comunidades na internet skate.com.br), revistas.
As vezes, cruzo com adolescente nas pranchas e andam tão velozes quanto minha bicicleta. O que não é assim tanta vantagem, pois ar ruas folhas avermelhadas das amendoeiras e tenho de contemplar a morte de suas folhas de cores quentes, paradoxalmente anunciando o inverno.
O sakte pode ser também muito sério. Como o foi para dois cineastas da Califórnia que, em plena recessão, percorreram com saktistas alguns predios vazios de São Francisco.
Tags: esportes radicais, prnahcas, Skate
Nesse sábado estou caindo de novo na estrada. Passo por Goiás Velho e depois farei uma visita de três dias a cidades do interior de São Paulo.
Em Goiás Velho, no Festival de Cinema Ecológico falarei da energia nuclear e do novo momento que ela vive, após o desastre de Fukushima.
No interior de São Paulo, visito Alumínio, Piedade, São Roque, Boituva e Arujá. Vou falar um pouco de literatura e jornalismo e o encontro dessas suas vertentes
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Uso os sábados para mostrar os bichos, garças e cachorros ou mesmo árvores, como o abricó de macaca. Esta semana é dedicada aos trabalhadores com que tenho cruzado . Eles não estão posando para fotos, estão em ação. Escolhi apenas alguns dos que já encontrei e, quem sabe um dia, posso apresentar uma visão mais completa. Trabalhadores do bairro uni-vos, pelo menos na minha ausência.
Tags: carregadores, eletricistas, garis, pescadores
A decisão do Supremo de garantir os direitos de mais de 60 mil casais gays no Brasil é algo de se comemorar porque removeu alguns obstáculos para a felicidade de muita gente. Mas o fato de ter sido uma decisão do Supremo e não do Congresso me entristece, depois de alguns anos de trabalho parlamentar. Não só pela superposição de poderes mas pelo fato de saber que a maioria dos deputados têm uma posição parecida com a dos ministros mas falta coragem para expressá-la. Falarei disso no Estadão, no artigo deste próxima sexta.
Esta manhã, queria apenas apresentar alguns cachorros que frequentam a Lagoa. Tenho trabalhado com pessoas nesta área , mas para apresentá-las tenho de pedir autorização. Algumas , como certos moradores de rua, nem sabem exatamente o que é autorização pois já transitam na fronteira da loucura.
Os cachorros fotografados estavam com os donos. São cachorros individuais. Ultimamente, criou-se a profissão de passeador de cachorros e eles caminham conduzindo seis ou sete pela coleira; temos tempo apenas de perguntar: como vão vocês?
Os cachorros que passeam sozinhos podem ser observados com mais calma. Desde Thor, o akita que encontro no gramado da pista, passando por Luna, uma husk siberiana que tem um olho azul, outro castanho, é possível saudá-los individualmente, chamando-os pelo nome.
Alguns ainda estão perdidos na conversa de seus donos, outros despenteados e meio de ressaca, como um maltês que está sempre diante do kioske defronte à Vinicius de Moraes. São meus vizinhos e têm uma vantagem : não dão trabalho, exceto a de buscar um ângulo melhor para registrar seu passeio cotidiano.
PS: Voltaremos à tarde, com a edição de rotina
Um leitor reclama que falo muito do Rio e lembra que o mundo é muito grande.Acontece que a visita aos lugares atingidos pela tragédia na serra faz parte do projeto deste blog. Ele funciona também falando das reportagens que produzo na semana.A tragédia que matou 906 pessoas e conta ainda com 400 desaparecidas foi um fato nacional. Era previsto o movimento para levantar os cem dias no campo da limpeza, da reconstrução física e econômica.
O que não justifica mesmo é falar das garças, que são da família das cegonhas e fazem parte de minha paisagem cotidiana. Este nome garça vem provavelmente do espanhol garza. Muitos blogueiros fogem numa sexta-feira santa. Ao invés de viajar para o interior, ficarei aqui atento ao que se passa. Mas em homenagem aos que não estão trabalhando e podem nos ver nos hotéis e pousadas, casas de campo e repouso doméstico, vamos mostrar em algumas fotos como vivem nossas garças.
Tags: ciconiformes, pescadores, plumas
O que move as sociedades de rede na Lagoa Rodrigo de Freitas não são fibras óticas mas bubinas de nylon. Cada rede pede três bubinas e pode durar até dez anos.
Não precisam de ar condicionado, apenas sombra. Embora exista uma pequena colônia de profissionais na Lagoa, são os amadores e suas redes que ilumnam as manhãs. O objeto de desejo é o robalo mas na rede caem apenas peixes pequenos, savelhas na maioria.
Um estudo de 2005 mostrou que os peixes da lagoa estão contaminados com metais, sobretudo zinco e cobre. Outro trabalho sobre os peixes mostrou que sua presença depende da salinidade.
Documentei grandes mortandades de peixe. Hoje, a Lagoa é monitorada para determinar diariamente o nível de oxigenação de suas águas. Além disso, um barco faz a limpeza diária, ampliando as vezes sua ação com alguma canoas adicionais.
O ponto em que os pescadores se concentram, embaixo de uma ponte sobre a lagoa é um lugar estranho. Alguns ficam escondidos atrás da ponte com linhas e anzol.
Só os que têm rede aparecem para lançá-las. Há pescadores isolados que navegam usando pneus. Todos são acompanhados pelas garças que esperam a sua cota diária de peixe. Um dia é do pescador, outro da garça. Um sábado mais tranqüilo e vou revelar o que elas fazem por ali.
Tags: contaminação, oxigenação, pescadores, sevilhas
2011