Não é sociologia, nem pretendo ser científico. Desde o carnaval, constato que as caixas coletoras do bairro estão transbordando.
A lei da física que impede que dois objetos ocupem o mesmo espaço ao mesmo tempo é, suavemente, contornada nesses exemplos que colhi.
Mas como gari visual, observo que novas coisas aparecem no chão e são filhas da informática.
Registro que as coisas deixadas na água, orgânicas ou não, acabam se integrando à paisagem. Não defendo que continuem ali: é apenas uma constatação.
Assim como a cidade precisa ser varrida muitas vezes, só a avenida Rio Branco é limpa 12 vezes por dia, ela precisa ser observada sempre.
Pretendo continuar o trabalho por anos. Quem sabe no final, chegamos à alguma conclusão edificante? No momento, a abundância se expressa de forma discreta, nas caixas transbordando.
Em alguns países mais ricos, móveis e objetos deixados na rua revelam a tendência a renová-los e fazem a alegria de jovens montando seus primeiros apartamentos.
O Rio de Janeiro vive um boom imobiliário ( e um bum dos bueiros), progressivamente os prédios mudam de mão. Reportagem da Veja fluminense apresenta hoje um grupo de corretores que está ganhando mais de R$100 mil mensais, só em comissão.
Entre julho de 2009 e junho de 2010, o preço do metro quadrado subiu 88 por cento na Zona Sul. No ano passado, foram lançadas 19976 unidades. E tudo vende muito rápido.
Tags: explosão imobiliária, Lixo, rio de janeiro
Estou me deslocando para Magé. A cidade tem eleições municipais no fim de julho. Prefeitos foram cassados, presos, candidatos renunciaram sob acusação de compra de votos, Magé é uma espécie de dramatização da política municipal no Brasil.
Fala amendoeira é o titulo de um livro de Carlos Drummond. É também o titulo da crônica de abertura. Ela me inspira nesse momento de curta ausênsia para o trabalho de reportagem.
Drummond se encanta com a amendoeira porque, enquanto as outras permanecem verdes, ela ostenta algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho.
O poeta lembra que algumas folhas são de cor marrom, indicando já o processo de decomposição final.
No momento, as folhas de cor marron estão tomando os passeios. Mas ainda há as árvores folhas verdes, amerelas e vermelhas.
Esse diálogo do poeta com a árvore explica um pouco melhor usando as palavras dela:
- E vais outoneando sozinha? pergunta ele.
- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado e, como deves notar, trago comigo um resto do verão, uma antecipação da primavera e mesmo, se reparares bem nesse ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.
Com as ruas tomadas pelas folhas, a amendoeira está os dizendo que continua com a promessa de todas as estações em suas folhas, mas agora é forte a suspeita de inverno.
Pintores abstratos, figurativos, grafiteiros mais ingênuos, escultores de árvores, eles estão presentes no bairro. Esta pequena amostra é apenas a que colhi no caminho.
Falta tempo para cobrir todo o bairro e depois descer para Copacabana. Alguns grafiteiros do Brasil ja fazem exposição fora do país.
No princípio não era tão atento a eles. Mas é difícil ignorar dois elefantes da Vinicius de Moraes, o grafiteiro Dante da banca de jornais da rua.
Últimamente apareceu um escultor trabalhando com árvores e para completar o passeio trouxe a imagem dos patos na Lagoa que me pareceram uma boa imagem para os muros.
Com o tempo, farei um roteiro mais completo. Mais sábados, mais rua e posso iniciar um projeto amplo de roteiros do Rio.
Tags: escultores, grafiteiros, Lagoa, Rua Vinicius de Moraes
2011