Numa viagem a Fernando de Noronha, em visita aos parentes, minha mulher foi mordida pelo mosquito da dengue.
Em 2008, coloquei a questão da dengue no centro da agenda , preocupado com as áreas mais vulneráveis da cidade. Mas não ignorava, naquela época, que a epidemia de dengue é um questão nacional, apesar de alguns estados serem mais atingidos que os outros. Os dados desse ano já mostram a presença da doença no Paraná e a cidade de Ribeirão Preto, uma das mais importantes de São Paulo, registrou metade dos casos do estado.
Estou às voltas com a epidemia de dengue de duas maneiras: a clínica, estudando as melhores e mais cuidadosas maneiras do tratamento; e a política sanitaria, um dos pontos mais neglicenciados na prática e no debate.
Acabo de sair de um encontro com alguns especialistas, aos quais me liguei no passado, e saio com a convicção de que alguma coisa precisa mudar, se queremos ter uma situação mais favorável, de agora para 2016. Coloco 216 como um marco, porque é o ano das olímpiadas e isso pode dar um gás adicional à luta. No projetos da Cetesb, a empresa afirma que em 2018 o saneamento básico estará universilzado em São Paulo. É outro marco possível: o fim da segunda década do século XXI, quando o estado mais avançado país terá um serviço universal de saneamento.
Soube que alguns sanitaristas latino-americanos ironizavam o Brasil quando se dizia aqui que o virus 4 não entraria. Ele não só entrou, como já foi notificado no Rio e São Paulo. É mais um fato que desafia aquela variada categoria do “isso não acontece no Brasil”.
É preciso de um calendário escalonado para saber se estamos avançando ou retrocedendo na luta contra a dengue. É preciso também estimular o governo a fazer um balanço das horas de trabalho que uma epidemia de dengue custa para que se compreenda a importância do investimento. Aliás não faltam estudos para demonstrar, por exemplo, que investir em saneamento representa economia em gastos com saúde.
O Brasil foi razoávelmente alcançado pelas idéias ecológicas. Mas até hoje não realizou um trabalho específico valorizando a medicina ambiental num programa de saúde para o país. Houve uma prejudicial separação entre lutas ambientais e saneamento básico.
Será que envoltos nas querelas políticas, os partidos darão uma resposta para isto? O mais provável é que a própria sociedade encontre o caminho e ele é mais complexo do que apenas evitar água parada no vaso de plantas.
O mosquito da dengue atingiu fortemente o Rio pois já foram 35274 casos registrados e seis cidades do estado sofrem ainda com epidemia. Dos 2208 casos graves da doença, 1064 foram reportados no Rio. São dados do Ministério da Saúde.
Só agora vai começar aqui um novo curso para o diagnóstico da dengue. Importante curso, mas atrasado. Um especialista declarou ontem que a dengue do tipo 4 já é uma realidade e nada é possível fazer para evitar que contamine muita gente.
Como se isso não bastasse, notícias de Fernando de Noronha, que pertence ao estado de Pernambuco, dão conta de que a situação também é complicada por lá: estão crescendo os casos de dengue. Natal no Rio Grande do Norte decretou estado de emergência por 90 dias.
Leio que no Ceará onde houve o maior número de mortes, um plano de prevenção não foi executado. Tudo isso dá a impressão de que a maior gravidade se concentra no norte ou na região litorânea do sudeste.
Mas talvez não seja assim. Em São Paulo, Ribeirão Preto concentra metade dos casos de todo o estado: só numa semana foram registrados 1543. Tudo isso nos traz uma sensação de retrocesso pois passamos de uma fase em que a doença estava extinta no país para outra em que ela volta a crescer com a chegada de novos sorotipos, como é o caso da dengue 4.
O que nos levou a isto foi uma certa degradação ambiental mas também a velha dificuldade em nossa cultura de fazer o trabalho de prevenção. O que o relatório do Ministério da Saúde não calcula ainda, pelo menos a síntese publicada, são os prejuizos sofridos pelo país em termos de gastos com o tratamento mas sobretudo as horas de trabalho perdidas.
Falei com algumas pessoas que tiveram dengue e elas disseram que na primeira semana é difícil até sair da cama; na segunda semana os sintomas são mais fracos mas ainda há cansaço e desânimo.
O interessante é que parece um fenômeno natural quando na verdade o avanço da dengue é um fracasso da política de prevenção no país. O governo federal decidiu centralizar as ações contra a dengue. Foi uma boa decisão mas se considerarmos todos esses anos perdidos realmente é espantoso chegar a esta situação, ainda mais com a tarefa de organizar a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Tags: cursos de diagnóstico, Dengue tipo 4, Ministério da Saúde, prevenção
No auge dos problemas com a epidemia de dengue, nesse fim de verão, as autoridades estão prevendo algo muito pior no Rio de Janeiro, no verão de 2012. Uma das razões é a entrada do dengue tipo 4 para o qual grande parte dos cariocas não está ainda imunizada.
O sanitarista Nílson do Rosário escreveu um artigo interessante para o jornal Valor Ecônomico defendendo a tese de que a municipalização do combate ao mosquito da dengue foi um erro. Nílson contribuiu conosco em vários programas de saúde e considera que só agora o governo federal acertou; chamando para si a responsabilidade.
Durante muito tempo, convivemos com aquela piada sinistra que perguntava se o mosquito era federal, estadual ou municipal. Os municípios devem ter responsabilidades mas nem sempre um prefeito tem influência sobre a cidade vizinha. E de nada adianta uma boa política preventiva municipal , se os vizinhos também não forem envolvidos.
Tags: Nílson do Rosário, Política nacional, treinamento, verão de 2012
2011