No livro de Franz Kafka, O Castelo, um agrimensor contratado busca o lugar onde deve cumprir sua missão. Encontra inúmeras dificuldades, emaranhados burocráticos, e cada vez se sente mais distante.
Durante muito tempo, o desejo de libertação da Rocinha parecia em curso, mas sempre esbarrava em inúmeras obstáculos. E, no entanto, como foi visto hoje, a porta estava aberta.
Alguns artigos de jornal perguntam como foi possível que Nem tenha dominada a Rocinha por tanto tempo. E respondem com dados respeitáveis: a corrupção policial, criada em torno do negócio milionário.
Mas, e a corrupção policial, por que teve um prolongado êxito? Havia também uma teia de relações políticas em torno da Associação de Moradores, aliada de Nem.
A expressão eleitoral desse processo foi Claudinho da Academia, eleito vereador na Rocinha, num processo cheio de compra de votos e ameaças aos eleitores.
O que permitiu longa vida ao esquema montado por Nem foram complexas e delicadas relações. Se a Rocinha era ocupado por quase 200 homens armados, por que foram realizadas lá as obras do PAC? Não seria mais racional pacificar primeiro?
É preciso deixar baixar a poeira, para compreender melhor essa história. No momento, a ocupação é um motivo de celebração, muitas vezes ampliado pelas suas características cinematógraficas.
Como foi exatamente a prisão de Nem? A PF se antecipou para ouvi-lo e, imagino, também para conhecer sua verdadeira base de apoio entre os policiais cariocas.
Havia negociações entre ele a polícia do Rio para se entregar? Houve tentativa de suborno? A versão divulgada pelo governo nos enche de esperança. Um milhão de reais foram recusados por PMs que ganham modestos salários.
Seria interessante também conhecer esse processo de tentativa de suborno? Os implicados estão presos?
É preciso de um certo tempo para compreender o que se passou na prisão e ao longo de todo o reinado de Nem na Rocinha.
Tinha quase certeza de que a invasão de hoje não encontraria nenhuma resistência. Mas o governo procurou um caminho mais espetacular, certamente, visando, além do público interno, a imprensa estrangeira já interessada na Copa do Mundo e Olímpiadas.
Até na Lagoa, onde nada acontecia, exceto as habituais quedas de skate e distensões musculares, acudiram três cavaleiros da PM para nos mostrar que o governo não só estava no comando da cidade, como nos protegia.
Sobre a ação dessa patrulha, que acompanhei, longe dos tanques, posso dizer apenas que não há nada a relatar, exceto alguns acidentes fisiólogicos. Mas o governo, vocês sabem, não pode administrar também a incontinência equina.
A Rocinha é um lugar com grande atividade empresarial e criativa. Ali se formaram grandes fortunas com o trabalho e boas idéias.
Seu potencial econômico, com a valorização imobiliária, vai aumentar. É muito cedo para prever o futuro. Ele tem toda a chance de ser melhor.
Voltaremos, quando o clima de guerra passar.
Tags: Claudinho da Academia, Nem, PAC, Polícia Carioca
- Deixa o da cerveja e está liberado.
Assim falavam os PMs cariocas no passado, quando cuidavam do trânsito e precisavam de um dinheiro extra.
Com o surgimento das milícias, organizações lucrativas foram montadas e hoje a situação é outra: 2600 latas de cerveja foram apreendidas ao darem entrada no Batalhão Especial Prisional, onde 276 policiais militares estão presos.
O interessante é que a Corregodoria disse que vai apurar e punir quem deu o dinheiro e quem comprou as cervejas.
Não caiu a ficha ainda: não há como esconder 2.600 latas de cerveja numa cela. Se os presos encomendaram esta quantidade é porque estavam com total controle da situação.
Não se trata apenas de achar quem deu dinheiro e quem comprou. É todo o sistema prisional dos PMS que está em colapso disciplinar.
Aliás em colapso estão também as autoridades brasileiras que dirigem a Copa do Mundo. Orlando Silva e Ricardo Teixeira, a dupla do ataque, não sairão do noticiário tão cedo.
Policiais que investigam Ricardo Teixeira descobriram que comprou um avião Cessna, por apenas US$1.
Espantoso, como o estoque de cervejas no presídio dos PMs. Mas é o momento que vivemos. Evidências não valem. Orlando Silva diz que é indestrutível porque pertence ao PC do B.
Na sua fase romântica, durante a Guerra Civil Espanhola, os comunistas cantavam canções e La Passionária, diante do avanço das forças facistas, gritava: no pasarán.
Os comunistas de hoje fogem dos fiscais do TCU e gritam: não tomarão . Não tomarão nossos empregos nem secarão nossa fonte de grana.
É compreensível que os PMs deixem de pedir uma cervejinha na esquina e comprem logo 2600 latas, para o fim de semana na cadeia. São os novos tempos. Em caso de dificuldade, faz-se uma campanha :Sou Orlando, Sou Brasil; Sou Teixeira sou Brasil; Sou Orlando, Sou Teixeira, Sou otário.
Já não somos mais uma república de bananas. Nesse meio século, trocamos de símbolo e viramos a república dos laranjas.
Tags: Batalhão Especial Prisional, Milícias, Orlando Silva, Rcardo Teixeira
Uma nota oficial da Ordem dos Advogados do Brasil denuncia as ameaças de morte que o deputado Marcelo Freixo,PSOL, vem recebendo por causa de sua luta contra as milícias e a corrupção policial no Rio. Freixo é candidato a prefeito do Rio. Daí o cuidado no texto da Ordem de se dizer disposta a participar de quaisquer campanhas suprapartidárias.
Muitos políticos podem hesitar na solidariedade a Freixo, argumentando que, com isso, estão fortalecendo sua pré campanha. Acontece que o seu trabalho de denúncia interessa à toda sociedade. É hora de dividir com ele a responsabilidade na luta contra as milícias. Uma coisa é campanha, outra é a ampla aliança para melhorar as condições de segurança do Rio.
Eis o texto da nota:
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A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio de Janeiro, manifesta profunda apreensão diante das ameaças de morte que tem sofrido o deputado Marcelo Freixo. Ao mesmo tempo, deixa pública sua disposição de participar de quaisquer campanhas suprapartidárias em defesa de sua vida. Em seu mandato, Marcelo Freixo destacou-se por presidir a CPI que investigou as chamadas milícias – verdadeiras máfias que representam a maior ameaça na área de segurança pública no Rio de Janeiro e um grave risco para a a consolidação do Estado de Direito. Defender a vida de Freixo e a possibilidade de que ele exerça o mandato livre de quaisquer constrangimentos é dever de todos os democratas. Por fim, a Ordem dos Advogados reafirma a necessidade de um combate implacável às milícias, com a instalação de UPPs em regiões dominadas por elas e a asfixia de suas fontes de receita. Só assim esse verdadeiro câncer poderá ser definitivamente extirpado em nosso estado. Wadih Damous Presidente da OAB/RJ |
Quase todos diziam no dia do crime que era precisa desvendar o assassinato da juíza Patrícia Acioli e prender os autores para “tranquilizar a sociedade”.
O crime foi desvendado, aparentemente. Seus autores e o mandante, o que é raro no Brasil, estão presos. Mas a sociedade não se acalmou.
A descoberta de que o 7º Batalhão de São Gonçalo era um o abrigo de uma grande quadrilha assusta. Saber que a quadrilha era dirigida pelo comandante, tenente coronel Cláudio de Oliveira assusta muito mais.
Os policiais eram ligados às milícias, tanto que pensaram em utilizá-la para matar a juíza. Eram ligados ao tráfico de drogas e recolhiam, semanalmente, sua gratificação nas favelas do Salgueiro e da Coruja.
Na verdade, a PM funcionava como uma mediação entre o tráfico e a milícia. Do tráfico recolhia dinheiro e armas, da milícia obtinha cooperação.
Tenho alguns amigos que estudam a segurança pública em São Gonçalo, tão problemática como a de outras cidades da região metropolitana.
Semana que vem, vou tentar entender o que se passa realmente por lá, depois de esclarecido o crime e presos os autores. Quais são as favelas dominadas, que grupos controlam que áreas?
Numa das visitas para verificar estragos da chuvas, constatei que o campo de basquete e a área de lazer estavam vazios porque os traficantes, que nos olhavam do bar, queriam trabalhar em paz.
A PM está entre duas forças informais. Seus soldados são mal treinados e ganham uma ninharia, comparado com os salários dos policiais de Brasília, por exemplo.
A reforma não se limita apenas a retirar os péssimos militares. É preciso investir e adotar a PM como um instrumento real de proteção.
O governador Cabral é um pouco arrogante para empreender uma reforma com êxito, ou até mesmo admitir que ela é necessária.
Passado o oba-oba das UPPs, o quadro continua sério e sem horizontes.
Tags: 7º Batalhão PM, Milícias, São Gonçalo, Sérgio Cabral, tráfico de drogas
Passei a tarde fazendo uma entrevista, tirando fotos. Manhã de quarta é dedicada ao artigo de sexta no Estadão.
Sobra essa madrugada para comentar alguns fatos. O artigo do Estadão é sobre a Copa. Cada vez mais questiono racionalidade do processo. Preço a pagar: a acusação de estar torcendo contra o Brasil.
Um grande tema aqui no Rio é a prisão do tenente coronel Cláudio Oliveira, acusado de ser o mandante da morte da juíza Patrícia Acioli.
Ele era o Comandante do Batalhão de São Gonçalo, e, ao ser transferido, recentemente, para a Maré, ganhou uma promoção.
A sensação é de vulnerabilidade. Se um crime desses é planejado dentro de um Batalhão da PM e executado por soldados, quem pode se achar seguro no Rio?
Apesar da imagem cosmopolita e liberal do Rio, alguns aspectos da vida parecem um cangaço urbano.
Interessante constatar, em Mossoró , Rio Grande do Norte, que o orgulho histórico da cidade foi ter resistido a Lampião e seus cangaceiros.
A situação do Rio é diferente pois os grupos armados ocupam territórios. As famosas UPPs expulsam os bandidos para outros lugares. As milícias controlam grande parte da Zona Oeste com múltiplas atividades.
A célebre tomada do Complexo do Alemão foi apresentada como uma vitória da civilização contra a bábarie. Mas o comportamento dos ocupantes , em muitos momentos, foi a de saqueadores.
A morte da juiz Patrícia Acioli não é um fato isolado. O blogueiro Ricardo Gama foi baleado e quase morreu. Até hoje, não há pistas.
Pensando em Mossoró, imagino que o Rio ainda vai ter como como orgulho histórico a resistência ao cangaço urbano. Sem subestimar Lampião, as coisas aqui são mais complexas e demoradas. Além do mais, Lampião era de uma clareza cristalina, aqui há muita ambiguidade.
Tags: Milícias, PM, tenent coronel Cláudio Oliveira, ∆uíza Patrícia Acioli
No primeiro contato com a imprensa, durante o enterro da juíza Patrícia Acioli, assassinada com 21 tiros, a família da vitima negou que ela tivesse dispensado segurança e informou que, pelo contrário, ela estava pedindo escolta para protegê-la.
O Tribunal de Justiça do Rio, através de seu presidente, Manoel Rebelo, afirmou que a juíza jamais comunicou que estava correndo perigo.
A Ministra Eliana Calmon, diante dos fatos em Niterói, admitiu que a segurança dos juízes no Brasil ainda é precária e que o assassinato de Patrícia vai provocar mudanças.
O impacto da morte de Patrícia Acioli na justiça pode ser semelhante ao do assassinato do jornalista Tim Lopes numa favela do Rio. Métodos de trabalho e medidas de segurança existentes serão reavaliadas.
No caso de Patrícia, as mudanças chegam tarde. Seu nome apareceu em lista de milicianos presos como marcada para morrer.
Os calibres de bala 40 e 45 são usados pela policia, o que não significa que essas balas nao possam ser usadas também por bandidos comuns.
Uma linha de investigação natural é o exame dos processos que juíza Patrícia Acioli tinha na sua mesa, o que não exclui também uma vingança por decisões passadas.
O deputado estadual Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, que tem bom trânsito na PM, informou que vários policiais já tinham reclamado com ele da dureza da juíza Patrícia Acioli.
O fato de ter tratado de vários casos em São Gonçalo indica que a juíza Patrícia Acioli desagradou a muita gente. O que deve ter estimulado a ação dos criminosos, julgando que existência de muitos inimigos levaria a uma multiplicidade de pistas.
A pedido do presidente do Supremo Tribunal Federal, César Peluso, a Policia Federal vai entrar no caso. Não se sabe se atuará sozinha ou haverá cooperação, hipótese ideal, apesar das dificuldades que existe no Brasil para esse tipo de trabalho conjunto.
No enterro, o clima era de desolação e choque. A morte de Patrícia Acioli aumentou a sensação de vulnerabilidade dos precisam cumprir a lei contra esse tipo de crime organizado: milícios e grupos de extermínio.
O corregedor da PM, coronel Ronaldo Menezes estava presente, demonstrando interesse no caso e preocupação sobre sua origem.
Sua presença foi positiva porque a PM começa a compreender que a vulnerabilidade não é só dos juízes mas de todos que têm de cumprir a lei no Rio.
Eu visitei, há um ano meio preso num quartel de Niterói. Ele fazia oposição aos rumos da PM, naquele momento. Sua trajetória da prisão ao cargo de corregedor revela uma clara intenção institucional de melhorar.
Por enquanto, como não se sabe quem matou Patrícia Acioli muitas análises ficam em suspenso. Milícias e grupos de extermínio, paradoxalmente, se fortaleceram à margem dos resultados positivos das UPPs.
Como a juíza tratava de casos dessa categoria, pode ser que sua morte desperte a consciência da natureza do adversário e da gravidade que sua existência representa. Muitos foram assassinados antes da juíza Patríca Acioli. Agora, dada a audácia do crime, nos encontramos frente a frente com o problema.Não dá para ignorar, nem recuar.
Tags: Eliana Calmon, grupos de extermínio, Manoel Rebelo, meilicias, Patricâ Acioli, PMRJ
A morte da juíza Patrícia Acioli, em Niterói, é um marco no debate sobre segurança no Rio. Ela foi assassinada, possivelmente , por membros da milícia que condenou, ou estava por condenar.
O crime aconteceu à noite, na porta da casa dela. Não havia escolta para protegê-la, apesar dos processos que julgou e e iria julgar.
Outro dia, conversando com o deputado Marcelo Freixo convidei-o para fazer uma caminhada e ele hesitou. Vive cercado de seguranças porque conduziu a CPI da Milícias e produziu um relatório preciso e arrasador sobre esta atividade criminosa no Rio.
Como Freixo, existem outras pessoas sob risco. Patrícia julgava casos em São Gonçalo fixou-se em Niterói, em busca de melhor qualidade de vida.
Daqui a pouco, vou ao enterro da juíza Patrícia Acioli, em Niterói, e tentarei dar um quadro situação. Lembro-me que essa região de São Gonçalo é uma das mais perigosas do estado.
Mas lá trabalham também alguns grandes especialistas em segurança pública, como Paulo Storani, que participou do Tropa de Elite, estuda e conhece bem a ação dos bandidos da área.
Agora, só nos resta correr atrás.
Tags: Marcelo Freixo, Milícias, Patricia Acioli, São Gonçalo
As investigações da Polícia Federal sobre a corrupção na polícia do Rio estão avançando. Na medida em que avançam, infelizmente, confirmam algumas das tradicionais mazelas da corporação. Clínicas de aborto, máquinas caça-níquel, termas onde se explora prostituição, jogo do bicho- eis algumas das fontes de renda da banda podre da polícia.
Mas a investigação avança agora sobre a exploração dos camelôs e a tolerância com a venda de produtos piratas. E toca diretamente num setor da prefeitura chamado Secretaria Especial de Ordem Pública.
Além do delegado Carlos Antônio Oliveira ,nove policiais ligados às milícias foram contratados pela Seop. Blindado pelo entusiasmo da imprensa, o choque de ordem fez e aconteceu no Ro de Janeiro, punindo pobres e assustando ricos, que devem ter comparecido com sua providencial ajuda.
Tanto o dinheiro que tiravam dos camelôs como os inúmeros achaques que podem ter sido feitos no caminho do Choque da Ordem indicam uma causa política importante. Não estou aqui para fazer acusações levianas. Mas apenas sugiro o elementar : as mílicias representam um domínio territorial e seu apoio a um candidato é rastreável.
Além dos policiais trabalhando no dia a dia do levantamento de verbas, pode ter havido acordos eleitorais envolvendo faixas precisas da cidade.
A PF não chegará mais longe do que determinar a corrupção policial. Os vínculos politicos dependem de um trabalho dos próprios politicos. Já existe uma CPI na Assembléia e creio que só ela pode esclarecer. Na Câmara Municipal, alertados a tempo, os vereadores já explodiram a proposta de CPI da vereadora Andrea Gouvea Vieira.
Zeca Borges enviou esta nota do Disque-Denúncia esclarecendo um ponto do depoimento do delegado Cláudio Ferraz. Publico com satisfação pois meu interesse é que o Disque-Denúncia pela sua importância mantenha o máximo de credibilidade. Creio que o próprio coordenador Zeca Borges é o maior interessado nisto pois a própria segurança de todos os participantes do trabalho está em jogo.
Pelas minhas informações, havia uma relação oficial através da qual antes de cada operação contra o crime organizado, numa determina área da cidade, examinavam-se as denúncias para efeito de um bom planejamento da ação. Portanto ,havia uma cooperação oficial entre a Draco, dirigida por Ferraz, e o Dsque-Denúncia. Importante é que tudo seja esclarecido porque uma polícia renovada dependerá enormemente do Disque Denúncia, quer dizer dos informants anônimos que muitas vezes são as próprias viítimas.
Eis o teor da nota:
O Disque-Denúncia, diante das declarações do delegado Cláudio Ferraz, de que haveria “tentáculos operacionais” do grupo investigado pela Operação Guilhotina dentro de nossas instalações, esclarece que qualquer pesquisa em nossa base de dados só é permitida quando solicitada oficialmente.
Como responsável direto pela segurança e seriedade de nosso serviço, asseguro que não há a menor possibilidade de nossos colaboradores terem repassado informações que não tenham sido previamente autorizadas.
Reiteramos: não existe nenhum informante aqui dentro.
O Disque-Denúncia, diante das declarações do delegado Cláudio Ferraz, de que haveria “tentáculos operacionais” do grupo investigado pela Operação Guilhotina dentro de nossas instalações, esclarece que qualquer pesquisa em nossa base de dados só é permitida quando solicitada oficialmente.
Como responsável direto pela segurança e seriedade de nosso serviço, asseguro que não há a menor possibilidade de nossos colaboradores terem repassado informações que não tenham sido previamente autorizadas.
Reiteramos: não existe nenhum informante aqui dentro.
Demorei algumas horas para comentar a queda do chefe de polícia Allan Turnowski Precisava dados, estabelecer conexões e confesso que ainda faltam alguns pontos para esclarecer. O importante, entretanto, é que ele caiu e abre-se uma chance da polícia do Rio combater sua banda podre.
A delegada Marta Rocha assumiu o comando. Não se sabe ainda quem a cercará, se serao pessoas comprometidas com o esquema anterior. Ela foi candidata à deputada pelo PSB e, certamente, terá de conter qualquer ambição política para realizar bem seu trabalho.
Uma peça importante para se entender o que aconteceu é o depoimento do delegado Cláudio Ferraz, explicando as razões pelas quais Turnowski fechou sua delegacia e o acusou de corrupção. Cláudio Ferraz participou do livro Tropa de Elite 2. O livro apresenta, em forma de ficção elementos da realidade da polícia do Rio. Um deles, em 2009, a contribuição da policia carioca para que o traficante Ropinal escapasse de uma blitz da PF. O episódio deixa mal Allan Turnowski e seu braço direito, no momento na cadeia, Carlos Antônio de Oliveira. Eram os que sabiam antecipadamente da operação.
Outro problema que levou Turnowski a perseguir Cláudio Ferraz foi sua tentative de investigar a milícia da favela Roquete Pinto. Oliveira estava comprometido com ela.
O depoimento de Ferraz mostra também como a organização criminosa invadia os morros já combinando com a milícia que ela seria a herdeira do lugar. Um exemplo desses planos completos de expulsão dos traficantes e ocupação pela quadrilha de policiais seria realizado na favela da Coreia.
Além desse interface com traficantes, a polícia do Rio tem problemas em pelo menos mais quatro setores: as termas, onde há prostituição, as clínicas de aborto, o jogo do bicho e bocas de ouro, onde vendem joias roubadas.
Esse esquema no conjunto é que o torna as delegacias atraentes para muitos policiais. O dinheiro é recolhido e da soma total R$200 mil seguem direto para o chefe de polícia. Segundo os conhecedores do setor não é um problema específico do atual chefe de polícia: seria assim há pelo menos 20 anos.
O mais diábolico de tudo é o fato da quadrilha de policiais ter infiltrado um informante no serviço Disque Denúncia, um importante trabalho auxiliar que conta com o apoio da população. Foi esse informante que passou para Carlos Antonio Oliveira a notícia de que estava sendo investigado por Cláudio Ferraz. Antes de qualquer investigação numa comunidade, o delegado pedia ao Disque Denúncia as principais ocorrências registradas no lugar.
Colaborador do Tropa de Elite, em choque com as mílicias e com as quadrilhas desarticuladas agora, Ferraz passou a ser perseguido por Turnowski que designou um delegado chamado Maurício Demétrio para espalhar notícias contra ele. A sorte é que Ferraz anotava os boatos em sua agenda e entrevistava as fontes. Com isto tem um apanhado completo do processo de perseguição.
Turnowski mentiu quando disse que recebeu uma carta anônima contra Ferraz. A história já era conhecida e os documentos que ele mencionou para incriminar Ferraz têm uma das assinaturas que não é a Ferraz e foi forjada, possivelmente, por dois policiais que ele afastou de sua delegacia e foram acolhidos por Turnowski.
A Polícia Federal vai ouvir Turnowski de novo, não mais como testemunha. Parte da estrutura criminosa foi desarticulada, mas outra parte continua de pé. Era um grupo que matou muita gente pois resolvia suas questões internas de forma radical.
Quando todas essas histórias vierem à tona talvez seja preciso fazer um Tropa de Elite 3. O interessante é que o delegado Carlos Antônio de Oliveira foi deslocado para o setor de ordem pública da Prefeitura, o famoso Choque de Ordem. Outra mina de ouro pois em tese é possível apertar os pobres com muito estardalhaço na mídia e assustar os ricos para que paguem boas propinas.
A vereadora Andreia Gouveia Vieira (PSDB) está tentando uma CPI municipal para apurar a passagem de Carlos de Oliveira pelo Choque de Ordem. Toda a história do Choque de Ordem só seria levantada se as pessoas que deram dinheiro denunciassem. A historia da repressão pura e simples deve existir até em CDs pois foi amplamente divulgada pela imprensa.
De vez em quando, voltaremos ao tema.
Tags: Allan Turnowski, Carlos Antonio Oliveira, Cláudio Ferraz, Milícias
2011