A oposição está vivendo um momento difícil na Bolívia. O governador de Beni, Ernesto Suarez, foi suspenso do cargo, por irregularidades administrativas. E o governador de Santa Cruz,Ruben Costas teve a prisão decretada, por “rebeldia”.
São dois importantes nomes entre os críticos do governo. Costas, de Santa Cruz, ainda não foi preso porque o judiciário está de recesso. Mas deve ir para o cárcere no dia 2 de janeiro.
Santa Cruz é o último departamento nas mãos da oposição e tudo indica que o MAS, partido do governo, quer controlar todas as administrações regionais.
Em Beni, onde o governador foi suspenso, há inquietação e protestos de rua. Ernesto Suarez foi eleito três vezes pelo voto popular e o Comitê Cívico de Beni está convocando novas manifestações.
Não sei como se desenrolam as crises na Bolívia, em vésperas de Natal. Aqui, no Brasil, costuma haver uma trégua no período. A conferir.
Tags: Beni, Eernesto Suarez, Evo Morales, Ruben Costas, Santa Cruz
De novo, na estrada. Deixo a Bolívia satisfeito com as condições de trabalho aqui. As comunicações funcionam bem nos hotéis e a televisão está cobrindo a marcha, de Beni, pelo skype. O Congresso aqui é bastante aberto e os deputados dão entrevistas até na Praça Murillo, defronte ao prédio.
A Tim me derrubou no Brasil. Telefonei para saber se seus telefones falavam aqui. Deram um interminável número de protocolo, pediram para esperar um instante e responderam que sim: a Tim fala da Bolívia.
Meu telefone já estava mudo desde Santa Cruz de La Sierra, mais próxima do Brasil. Foi assim em Santiago, em Caracas e Lima.
Se fossem sinceros, teria buscado outra empresa ,só para ter um aparelho que falasse na América Latina.
Três vezes já são um pretexto razoável para buscar alternativas e agora, depois dessa quarta, não vou mais perder tempo anotando números quilométricos de protocolo . Para que? Para nada,como dizia o poeta.
Os índios que marcham da Amazônia boliviana já saíram e devem chegar em La Paz no 15, véspera das eleições para magistrados. Os juizes aqui serão escolhidos pelo voto popular.
Evo Morales acusou os índios de estarem querendo sabotar as eleições. Não cola muito o argumento. Evo tem mudado de tática e isso não é bom.
Ao invés da repressão direta contra os índios em marcha, o MAS, partido de Evo, vai organizar contra marchas.
O Brasil, através de seu embaixador Marcelo Biato, afirmou que o pais continuará a financiar a obra. Ele disse também que há uma falsa contradição entre progresso e meio ambiente.
Em tese, está certo. O difícil é defender isto no caso específico da estrada que liga Vila Tunari a San Ignácio de Moxos e convencer aos índios e a todo movimento nacional que inspiraram.
Temos quase duas semanas para ver o que acontece. A repressão policial foi planejada, diz o jornal La Razon. Havia até ônibus para levar os manifestantes detidos.
Antes de vir para a Bolívia, defendi que a repressão foi planejada pois um confronto em que mais de 80 ficaram feridos não foi devidamente documentado. As câmeras dos de fotógrafos e cinegrafistas foram confiscadas de antemão. Isso já circulava nos relatos divulgados em setembro na internet.
Uma notícia marginal: três universidade de Santa Cruz de La Sierra estão fechadas por causa da gripe aviária. O Brasil deveria se interessar por isso, pois a interface entre Santa Cruz e o Brasil é amaior do que a de La Paz. A capital no esquema de Aerosur, a empresa boliviana, é apenas uma extensão mais procurada: São Paulo-Santa Cruz.
Vou chegar na hora do futebol e creio que o pais estará seguindo os clássicos do Brasileiro. É o tema que interessa na noite de domingo. Segunda, de volta ao blog.Não escrevo sobre o clube de coração porque vou lá todos os dias : quero apenas uma água não muito fria que nos deixe tremendo, nem muito quente que amoleça o corpo. Nada de brigas sobre futebol.
Tags: embaixador Marcelo Biato, Evo Morales, La Paz, marcha contra estrada, Santa Cruz
La Paz – Terminado o trabalho no fim da tarde, um curto descanso para almoço e banho. A Bolívia é um pais fascinante, pelas cores, indumentárias, arquitetura.
O primeiro impulso é sair fotografando tudo. Mas com o tempo, você percebe que é uma armadilha. O ideal é olhar um pouco, perspectivar, vencer a atração das cores exuberantes como Ulisses venceu o canto da sereia.
Não é preciso se amarrar no barco. O trabalho não permite digressões. Acordei ao amanhecer, pois o relógio deles é uma hora atrasado.
Primeira tarefa foi tentar uma vista da cidade. Na noite da chegada, bem que fiz uma foto das luzes lá embaixo. Não me agradou e não podia ficar retendo o taxi no escuro, numa estrada que sequer conhecia.
Outra armadilha aqui é o trabalho intenso, logo na chegada. Acompanhei a manifestação pró Evo Morales, subindo e descendo ladeira com os índios. Esqueci da altitude. Só no meio da tarde, com um calor muito forte, me dei conta de que o ar estava curto.
Já me aconteceu em Bogotá. Passei um dia andando de um lado para outro . No princípio cadê o ar?
Os acontecimento aqui tendem a se acalmar. Os índios que faziam a marcha, reprimida pelo governo, se reagruparam e retomam o caminho. Devem chegar em La Paz no dia 15, véspera das eleições na justiça.
Trabalhei com um motorista que é adepto do governo. Nos demos bem. Mas ele é um pouco devagar. Motorista para trabalhar em reportagem precisa ser quase maluco.
Juan Carlos se perdeu com o rumo da marcha indígena e acabei deixando-o pelo caminho. Grande sensação no hotel: molhar o rosto e tirar o casaco.
Agora entendo melhor os jogadores brasileiros que reclamam da altura. De fato, é preciso um período de adaptação.
As coisas aqui ficaram complicadas não só pela marcha que foi reprimida na Amazônia boliviana. Em janeiro, queriam aumentar a gasolina no país e houve um movimento de protesto, o gasolinaço.
Parece que a inflação avança e como o governo não anuncia números é difícil fazer o diagnóstico correto da situação econômica.
De todas as formas, a Bolívia cresceu e está crescendo no rítmo de 4% ao ano. Hoje vou procurar mais gente, visitar mais lugares. Sei que voltarei um dia, não quero abarcar tudo numa só viagem. Domingo, de novo no Brasil. E quem sabe, na semana que vem, a sonhada viagem de estudos na Amazônia, a brasileira, talvez com um pequeno pedaço da colombiana.
Tags: fotos, La Paz, marcha indígena
La Paz – Chego à Bolívia ao anoitecer. Parada em Santa Cruz de La Sierra. Os estrangeiros, não habituados à altura de La Paz, precisam de um chá de coca ou de um comprimido chamado Sorojchi.
Optei pelo comprimido. Falei com as pessoas e li os jornais, enquanto não saio para rua na manhã de sexta.
Escrevo uma reportagem para o Estadão. Impressionante o desgaste do governo com a repressão aos índios da Amazônia boliviana, que protestavam contra a estrada financiada pelo BNDES e construída pela OAS, empresa brasileira.
Ainda sentimos o impacto das manifestações de ontem. Em algumas cidades houve, alem de marchas, greves e protestos.
O partido do governo MAS (Movimiento al Socialismo) foi muito criticado, junto com Morales, cuja aceitação, antes dos incidentes, já tinha baixado para 30% no pais.
O MAS foi chamado de Movimiento al Suicídio e, em Cochabamba, os manifestantes gritavam: massistas e direitistas são a mesma porcaria.
Morales pediu perdão e garantiu que não determinou que a policia reprimisse a marcha rumo à La Paz. Mas foi uma repressão planejada, pois confiscaram até as câmeras dos repórteres, antes de baixarem o pau.
O líder da marcha, Adolfo Chavez, foi preso com as mãos amarradas e o rosto contra o chão. Mulheres indígenas levaram pancadas e foram envolvidas numa onda de gás lacrimôgeno.
Imediatamente apos a repressão, 300 pessoas estavam desaparecidas, segundo o Defensor do Povo (há um cargo com esse nome, na Bolívia) Rollando Villena. Eram, na maioria, crianças que se afastaram das mães e as perderam de vista, com as nuvens de gás.
O Brasil informou que vai congelar os créditos para a estrada. Morales quer fazer um referendo, mas os índios não aceitam. A Constituição permite que decidam entre eles.
A imagem de Morales se quebrou. Era um adversário do neoliberalismo e agiu, precisamente, como afirma que agiam os neoliberais. Era defensor dos índios e sua policia atuou com a fúria dos tempos coloniais. Proclamava-se um grande ecologista e agora, essa sua conversa de Madre Tierra ficou parecendo papo de botequim, que aqui se chama cantina.
Infelizmente, tenho de escolher entre trabalhar e ficar escrevendo. Espero voltar no fim da tarde para a matéria do Estadão. E dar uma visão bem ampla da crise boliviana.
Hasta luego.
No sábado faço uma pequena síntese também no blog.
Tags: BNDES, Estrada, Evo Morales, MAS, OAS
O Congresso tem duas comissões de relações exteriores, uma na Câmara outra no Senado. No entanto, não vi nenhuma notícia indicando curiosidade sobre a estrada que o BNDES está financiando e a OAS está construindo na Bolívia.
A estrada marcou um momento de virada na história boliviana recente. Ela passa por um parque nacional onde está o Território Indígena Isoboro Sécure.
Ministros e autoridades de alto escalão já cairam depois da repressão ao protesto dos indígenas contra a estrada.
Evo Morales, que se diz o um grande líder indígena, não consultou adequadamente os índios e a crise serviu de estopim para revelar a decadência de seu governo.
Morales começou com 70% de aprovação e, antes de reprimir os índios, estava apenas com 32%. Com quanto estará agora?
As relações do Brasil com a Bolívia são muito cuidadosas, por causa da proximidade ideológica dos governos.
Somos hermanos, mas se esqueceram disso ao expropriar instalações da Petrobrás. Muitos brasileiros estão sendo ameaçados de expulsão, por estarem em situação irregular na Bolívia.
O Brasil, por força de um acordo, regularizou os bolivianos no país, mas o governo de Morales não cumpriu o prometido, ignorando os brasileiros que moram lá.
O BNDES diz que vai suspender o financiamento. Isso é o mínimo, pois a obra foi suspensa. A estrada que leva aos portos do Chile e Peru, passando pela Bolívia, interessa muito aos próprios bolivianos.
O problema é saber se dos R$332 milhões programados algum dinheiro já foi para a estrada. E se foi, quais são as esperanças de voltar ao Brasil.
Dois governos de esquerda procederam como qualquer conservador, ao projetarem uma estrada sem consultar, adequadamente, às populações indígenas atingidas.
Ao que tudo indica o encanto de Morales se partiu. O fascínio com suas raizes indigenas dá lugar à sensação de que é apenas um presidente como os outros.
A Bolívia é um país instável. Aprendi isto no exílio, com as idas e vindas dos amigos bolivianos. A crise que se anuncia justifica arrumar as malas e câmeras e partir para lá.
Tags: BNDES, Evo Morales, Território Indígena Isidoro Sécuree
Conclui minha reportagem aqui em Brasileia, na fronteira do Acre com a Bolívia. O tema são os haitianos que colocaram a Amazônia no mapa de sua diáspora, com a entrada de 250 imigrantes clandestinos aqui.
Passei muitas horas com os haitianos, creio que sairá uma boa história . Usei o tempo vago, na verdade meia hora, para fazer uma visita a Cobija, capital do departamento de Pando. Por aqui vieram também 800 refugiados políticos da Bolívia, em 2008. Já voltaram ao seu pais e deram um diploma de agradecimento ao dono da lanchonete do ginásio, onde hoje estão os haitianos.
Sinceramente não sabia que Cobija desempenha para o Acre o papel que o Paraguai representa para o sul do Brasil, vendendo produtos eletrônicos livres de impostos. Há uma grande procura e as pessoas visitam Brasiléia apenas para cruzar a ponte e fazer compras.
Não fiz compras mas cruzei a ponte. Aliás a pousada que me hospedou aqui é especializada em receber turistas que vêm fazer compras. Na porta do meu quarto havia um pé de carambola, com algumas e o chão estava coalhada de frutas que caíram de maduras. Parece que não são muito amadas.
O lado boliviano é diferente e você percebe imediatamente que é outro pais, apesar da proximidade. Os motociclistas são proibidos de usar capacetes. As ruas estão cheias de brasileiros com imensos sacos pretos, usados aqui para embalar as mercadorias. Fiquei um pouco confuso porque na minha atividade a gente sempre associa o saco preto a outros conteudos.
Vejo pelas obras que Cobija está crescendo. É uma capital, bem mais sofisticada do que Brasileia. Aliás em Brasileia vi uma coisa fantástica: uma funerária que exibe seus caixões na vitrine.
Trabalhei muito com imagem no caso dos haitianos, de forma que durante a folga fiquei um pouco preguiçoso nesse campo .Ainda assim vi coisas interessantes para mostrar e contar. Mas a batida na Amazônia é dura.Longas viagens e o que é pior, sem um lugar para o cafezinho . Creio que na terça feira a reportagem estará pronta para circular, caso o jornal entenda que este é o dia. Até vou voltando devagar ao blog.
Tags: Brasileia, Cobija, Eletrônicos, Fronteira
2011