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30.setembro.2011 22:26:25

Um sábado em La Paz

La Paz – Terminado o trabalho no fim da tarde, um curto descanso para almoço e banho. A Bolívia é um pais fascinante, pelas cores, indumentárias, arquitetura.

O primeiro impulso é sair fotografando tudo. Mas com o tempo, você percebe que é uma armadilha. O ideal é olhar um pouco, perspectivar, vencer a atração das cores exuberantes como Ulisses venceu o canto da sereia.

Enquanto a mãe abria o bar, a criança esperava em paz.(foto FG)

Não é preciso se amarrar no barco. O trabalho não permite digressões. Acordei ao amanhecer, pois o relógio deles é uma hora atrasado.

Primeira tarefa foi tentar uma vista da cidade. Na noite da chegada, bem que fiz uma foto das luzes lá embaixo. Não me agradou e não podia ficar retendo o taxi no escuro, numa estrada que sequer conhecia.

Vista matinal de La Paz.(foto FG)

Outra armadilha aqui é o trabalho intenso, logo na chegada. Acompanhei a manifestação pró Evo Morales, subindo  e descendo ladeira com os índios. Esqueci da altitude. Só no meio da tarde, com um calor muito forte, me dei conta de que o ar estava curto.

Forno do hotel Radisson, onde me hospedei.(foto FG)

Já me aconteceu em Bogotá. Passei um dia andando de um lado para outro . No princípio cadê o ar?

Os acontecimento aqui tendem a se acalmar. Os índios que faziam a marcha, reprimida pelo governo, se reagruparam e retomam o caminho. Devem chegar em La Paz no dia 15, véspera das eleições na justiça.

Uma visão da marcha que cobri para o Estadão.(foto FG)

Trabalhei com um motorista que é adepto do governo. Nos demos bem. Mas ele é um pouco devagar. Motorista para trabalhar em reportagem precisa ser quase maluco.

Juan Carlos se perdeu com o rumo da marcha indígena e acabei deixando-o pelo caminho. Grande sensação no hotel: molhar o rosto e tirar o casaco.

Muheres indígenas são uma presença colorida em toda a cdade.(foto FG)

Agora entendo melhor os jogadores brasileiros que reclamam da altura. De fato, é preciso um período de adaptação.

As coisas aqui ficaram complicadas não só pela marcha que foi reprimida na Amazônia boliviana. Em janeiro, queriam aumentar a gasolina no país e houve um movimento de protesto, o gasolinaço.

Parece que a inflação avança e como o governo não anuncia números é difícil fazer o diagnóstico correto da situação econômica.

De todas as formas, a Bolívia cresceu e está crescendo no rítmo de 4% ao ano. Hoje vou procurar mais gente, visitar mais lugares. Sei que voltarei um dia, não quero abarcar tudo numa só viagem. Domingo, de novo no Brasil.  E quem sabe, na semana que vem, a sonhada viagem de estudos na Amazônia, a brasileira, talvez com um pequeno pedaço da colombiana.

Painel foi montado na rua para inaugurar o Teatro Aberto.(foto FG)

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La Paz – Chego à Bolívia ao anoitecer. Parada em Santa Cruz de La Sierra. Os estrangeiros, não habituados à altura de La Paz, precisam de um chá de coca ou de um comprimido chamado Sorojchi.

Optei pelo comprimido. Falei com as pessoas e li os jornais, enquanto não saio para rua na manhã de sexta.

Escrevo uma reportagem para o Estadão. Impressionante o desgaste do governo com a repressão aos índios da Amazônia  boliviana, que protestavam contra a estrada financiada pelo BNDES  e construída pela OAS, empresa brasileira.

Ainda sentimos o impacto das manifestações de ontem. Em algumas cidades houve, alem de marchas, greves e protestos.

O partido do governo MAS (Movimiento al Socialismo) foi muito criticado, junto com Morales, cuja aceitação, antes dos incidentes, já tinha baixado para 30% no pais.

O MAS foi chamado de Movimiento al Suicídio e, em Cochabamba, os manifestantes gritavam: massistas e direitistas são a mesma porcaria.

Morales pediu perdão e garantiu que não determinou que a policia reprimisse a marcha rumo à La Paz. Mas foi uma repressão planejada, pois confiscaram até as câmeras dos repórteres, antes de baixarem o pau.

 

Imigrante boliviana em São Paulo, na conexão em Santa Cruz de La Sierra.(foto FG)

O líder da marcha, Adolfo Chavez, foi preso com as mãos amarradas e o rosto contra o chão. Mulheres indígenas levaram pancadas e foram envolvidas numa onda de gás lacrimôgeno.

Imediatamente apos a repressão, 300 pessoas estavam desaparecidas, segundo o Defensor do Povo (há um cargo com esse nome, na Bolívia) Rollando Villena. Eram, na maioria, crianças que se afastaram das mães e as perderam de vista, com as nuvens de gás.

O Brasil informou que vai congelar os créditos para a estrada. Morales quer fazer um referendo, mas os índios não aceitam. A Constituição permite que decidam entre eles.

A imagem de Morales se quebrou. Era um adversário do neoliberalismo e agiu, precisamente, como afirma que agiam os neoliberais. Era defensor dos índios e sua policia atuou com a fúria dos tempos coloniais. Proclamava-se um grande ecologista e  agora, essa sua conversa de Madre Tierra ficou parecendo papo de botequim, que aqui se chama cantina.

Infelizmente, tenho de escolher entre trabalhar e ficar escrevendo. Espero voltar no fim da tarde para a matéria do Estadão. E dar uma visão bem ampla da crise boliviana.

Hasta luego.

No sábado faço uma pequena síntese  também no blog.

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Na estrada para a Bolívia. Ao deixar o Rio, visitei a exposição sobre Miles Davis, no Centro Cultural do Banco do Brasil: Queremos Miles.

Não resisti, porque o admiro há muitos anos. Morava com músicos, era ainda um jovem jornalista, no fim da década dos 50, quando ouvi Round about Midnight, intepretada por Miles.

Senti que fui  lançado num espaço estranho e subterrâneo. Nunca tinha ouvido nada tão interessante e que me parecesse tão novo.

A figura de Miles Davis em todo o caminho escuro da exposição.(foto FG)

A exposição foi organizada pela Cité de La Musique, de Paris, em sintonia com familiares e curadores da obra de Miles. Tem belos retrtos de Miles,  tirados por Irving Penn e Ane Leibovitz, entre outros. Há trompetes que ele usou, casacos e até algumas imagens em que aparece treinando boxe,  um esporte que o atraia.

Sai agradecido por ver a riqueza de uma vida artística também pela sua capacidade de agregar talentos de outros campos. Artistas plásticos, cineastas, fotógrafos, todos os que se aproximaram dele parecem ter ganho uma nova inspiração por estarem tabalhando com Miles Davis.

Capa do haitiano Jean Michel Basquiat para Birds of Paradise.Ifoto FG)

Miles Davis são rejeitou  do rock roll e o funk. Soube usar e descartar o que ia aparecendo pelo caminho. E isso comunicou uma grande dinâmica à sua carreira.

No material filmado, foi bom rever alguns trechos de Ascensor para o Cadafalso, um filme  de Louis Malle, um dos expoentes da Nouvelle Vague francesa. Miles tocava em Paris, na época, e foi convidado a fazer  a trilha sonora que dá o toque de mistério  ao filme e acompanha  os passos de Jeanne Moreau, a estrela do filme, ainda jovem.

Depressões, mergulhos na droga, houve épocas que o paralisaram. Mas, estimulado por amigos e admiradores de seu talento, seguiu em frente e se recuperou, muitas vezes,  para a música.

A exposição mostra a origem de Miles, filho de um dentista da cidade de East St Louis no Ilinois. Como menino da classe média foi aconselhado a estudar violino mas optou pelo trompete. Não era um humilde artista negro. Pelo contrário, o uso de óculos escuros nas suas apresentações representava uma atitude de desafio.

Sempre elegante, Miles viveu também algumas fases coloridas.(foto FG)

Para quem gosta da história da música americana , a mostra transforma-se  também numa retrospectiva fotográfica do jazz com imagens de Charlie Parker a todos os outros grandes names que surgiram  e, de alguma forma, se associaram a Miles. Sua parceria com Gil Evans, pianista de origem canadense, é enfatizada como uma das mais decisivas e bem sucedidas.

Através de corredores escuros, o som de Miles Davis era ouvido em quase todos os cômodos. Tirei algumas fotos e fui informado que era proibido. Perguntei se mesmo sem flash era proibido. Disseram que sim.

Como já havia disparado a câmera três vezes, não creio ser uma grande transgressão mostrar o que vi, nos primeiros momentos da visita à bela exposição que, na verdade, não é só sobre Miles Davis mas também sobre um  largo período da arte contemporânea ocidental.

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Quase todos diziam no dia do crime que era precisa desvendar o assassinato da juíza Patrícia Acioli e prender os autores para “tranquilizar a sociedade”.

O crime foi desvendado, aparentemente. Seus autores e o mandante, o que é raro no Brasil, estão presos. Mas a sociedade não se acalmou.

A descoberta de que o 7º Batalhão de São Gonçalo era um o abrigo de uma grande quadrilha assusta. Saber que  a quadrilha era dirigida pelo comandante, tenente coronel Cláudio de Oliveira assusta muito mais.

Os policiais eram ligados às milícias, tanto que pensaram em utilizá-la para matar a juíza. Eram ligados ao tráfico de drogas e recolhiam, semanalmente, sua gratificação nas favelas do Salgueiro e da Coruja.

Na verdade, a PM funcionava como uma mediação entre o tráfico e a milícia. Do tráfico recolhia dinheiro e armas, da milícia obtinha cooperação.

PM em manifestação por salários.(foto FG)

Tenho alguns amigos que estudam a segurança pública em São Gonçalo, tão problemática como a de outras cidades da região metropolitana.

Semana que vem, vou tentar entender o que se passa realmente por lá, depois de esclarecido o crime e presos os autores. Quais são as favelas dominadas, que grupos controlam que áreas?

Numa das visitas para verificar estragos da chuvas, constatei que o campo de basquete e a área de lazer estavam vazios porque os traficantes, que nos olhavam do bar, queriam trabalhar em paz.

A PM está entre duas forças informais. Seus soldados são mal treinados e ganham uma ninharia, comparado com os salários dos policiais de Brasília, por exemplo.

A reforma não se limita apenas a retirar os péssimos militares. É preciso investir e adotar a PM como um instrumento real de proteção.

O governador Cabral é um pouco arrogante para empreender uma reforma com êxito, ou  até mesmo admitir que ela é necessária.

Passado o oba-oba das UPPs, o quadro continua sério e sem horizontes.

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O Congresso tem duas comissões de relações exteriores, uma na Câmara outra no Senado. No entanto, não vi nenhuma notícia indicando curiosidade  sobre a estrada que o BNDES está financiando e a  OAS está construindo na Bolívia.

A estrada marcou um momento de virada na história boliviana recente. Ela passa por um parque nacional onde está o Território Indígena Isoboro Sécure.

Ministros e autoridades de alto escalão já cairam depois da repressão ao protesto dos indígenas contra a estrada.

Evo Morales, que se diz o um grande líder indígena, não consultou adequadamente os índios e a crise serviu de estopim para revelar a decadência de seu governo.

Morales começou com 70% de aprovação e, antes de reprimir os índios, estava apenas com 32%. Com quanto estará agora?

As relações do Brasil com a Bolívia são muito cuidadosas, por causa da proximidade ideológica dos governos.

Somos hermanos, mas se esqueceram disso ao expropriar instalações da Petrobrás. Muitos brasileiros estão sendo ameaçados de expulsão, por estarem em situação irregular na Bolívia.

O Brasil, por força de um acordo, regularizou os bolivianos no país, mas o governo de Morales não cumpriu o prometido, ignorando os brasileiros que moram lá.

 

Morales, hermano em queda livre

O BNDES diz que vai suspender o financiamento. Isso é o mínimo, pois a obra foi suspensa. A estrada que leva aos portos do Chile e Peru, passando pela Bolívia, interessa muito aos próprios bolivianos.

O problema é saber se dos R$332 milhões programados algum dinheiro já foi para a estrada. E se foi, quais são as esperanças de voltar ao Brasil.

Dois governos de esquerda procederam como qualquer conservador, ao projetarem uma estrada sem consultar, adequadamente, às populações indígenas atingidas.

Ao que tudo indica o encanto de Morales se partiu. O fascínio com suas raizes indigenas dá lugar à sensação de que é apenas um presidente como os outros.

A Bolívia é um país instável. Aprendi isto no exílio, com as idas e vindas dos amigos bolivianos. A crise que se anuncia justifica arrumar as malas e câmeras e partir para lá.

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Passei a tarde fazendo uma entrevista, tirando fotos. Manhã  de quarta é dedicada ao artigo de sexta no Estadão.

Sobra essa madrugada para comentar alguns fatos. O artigo do Estadão é sobre a Copa. Cada vez mais questiono racionalidade do processo. Preço a pagar: a acusação de estar torcendo contra o Brasil.

Um grande tema aqui no Rio é a prisão do tenente coronel Cláudio Oliveira, acusado de ser o mandante da morte da juíza Patrícia Acioli.

Ele era o Comandante do Batalhão de São Gonçalo, e, ao ser transferido, recentemente, para a Maré, ganhou uma promoção.

A sensação é de vulnerabilidade. Se um crime desses é planejado dentro de um Batalhão da PM e executado por soldados, quem pode se achar seguro no Rio?

Apesar da imagem cosmopolita e liberal do Rio, alguns aspectos da vida parecem um cangaço urbano.

Interessante constatar, em Mossoró , Rio Grande do Norte, que o orgulho histórico da cidade foi ter resistido a Lampião e seus cangaceiros.

Familiares e amigos no enterro da juíza em Niterói.(foto FG)

A situação do Rio é diferente pois os grupos armados ocupam territórios. As famosas UPPs expulsam os bandidos para outros lugares. As milícias controlam grande parte da Zona Oeste com múltiplas atividades.

A célebre tomada do Complexo do Alemão foi apresentada como uma vitória da civilização contra a bábarie. Mas o comportamento dos ocupantes , em muitos momentos, foi a de saqueadores.

A morte da juiz Patrícia Acioli não é um fato isolado. O blogueiro Ricardo Gama foi baleado e quase morreu. Até hoje, não há pistas.

Pensando em Mossoró, imagino que o Rio ainda vai ter como como orgulho histórico a resistência ao cangaço urbano.  Sem subestimar Lampião, as coisas aqui são mais complexas e demoradas. Além do mais, Lampião era de uma clareza cristalina, aqui há muita ambiguidade.

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Que metrópole brasileira tem o ar mais poluído? São Paulo ou Rio? Um estudo da OMS(Organização Mundial de Saúde) diz que é o Rio, superando a capital paulista e também Cubatão.

A medida se faz pesquisando partículas menores do que dez micrômetros que causam problemas respiratórios. O limite máximo aconselhado pela OMS é de 20 micrômetros por metro cúbico. No Rio, foram registrados 64.

Houve um protesto do Secretário do Meio Ambiente, Carlos Minc, e de especialistas cariocas Acham que a medição está equivocada.

Minc afirma que em 2010, o índice de particulas caiu de 64 para 32 mas não explica porque. Diz apenas que a medicos manuais tornaram-se automáticas.

A preocupação em comparar Rio e São Paulo acabou deixando de lado o tema mais importante: a situação do Brasil  em relação a outros países.

No cômputo da OMS, que mediu a poluição em 91 países, o Brasil está em 44º lugar, empatado com o Panamá, mas superando a Botsuana e Mongólia, por exemplo.

Minc afirma que o Rio tem o mar para dispersar os poluentes e que a frota de São Paulo conta com o dobro de carros. Mas não compara a capacidade paulista de medir a poluição do ar, anterior à carioca e , possivelmente, mais sofisticada que a do Rio. Isto, no meu entender, é a pista para se avaliar a diferença entre medição e realidade.

Uma das coisas preocoupante : apesar de intensa propaganda, a consciência ambiental no Rio parece retroceder.

O Rock in Rio é um exemplo disso. O primeiro, realizado em 85, tinha problemas com o barro. Lembro-me pois cobri o evento para uma revista chamada Afinal, já desaparecida.

Segundo algumas pessoas que estiveram no show de sábado, o chão fica coberto de copos e as pessoas andam esmagando plástico .

Vendedores ambulantes venderam capas de chuva na porta. Assim quea chuva passou, os expectadores jogaram as capas no chão, criando uma nova camada de plástico.

Não é a rivalidade entre metrópoles que vai melhorar a situação. Se num evento da envergadura do Rock in Rio não se tomaram as precaucões necessárias, com  indicações ambientais aos participantes, o que sera do cotidiano ou de grandes eventos, como a Copa do Mundo  e Olímpiadas ?

 

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Apesar da crise, ou talvez por causa dela, a Europa  viveu um fim de semana de mudanças, na cultura e na política.

A última tourada na Catalunha foi um também um espetáculo de confronto entre manifestantes que defendem os animais e os que querem preservar a cultura tradicional.

Mas as touradas vivem dificuldade não apenas subjetivas. A economia foi atingida pela multiplicação de fazendas criadoras de touros e falta de financiamento.

Lembrança da última tourada.(AP)

Numa Europa integrada era difícil também buscar o financiamento fora da Espanha. A lei que determinou o fim das touradas na Catalunha apenas encerrou um ciclo apontando para o declínio da atividade.

Na França, a esquerda liderada pelo Partido Socialista conseguiu a maioria no Senado. É um fato importante no Pais. O Senado era um reduto governista. Para Noel Mamere, do Partido Verde francês, o Senado tornou-se um espaço geriátrico, uma espécie de aposentadoria para os privilegiados da política francesa.

Agora, com a presença dominante da oposição, as coisas devem mudar sobretudo porque em maio haverá eleições presidenciais.

Nicolas Sarzoky corre o risco de perder. Há muitas coisas que os franceses rejeitam nele. Num quadro de crise econômica, essas características, sentidas como defeito, tornam-se menos suportáveis.

Tudo indica que a França caminha para a esquerda. O problema é que, em outros lugares, como na Espanha, foi a própria hegemonia da esquerda que a crise devorou.

No Brasil, o fim de semana também foi de revelações. O post ficaria longo se as comentasse, mas destaco apenas algumas: o PDT domina os cargos no Ministério do Trabalho e o transformou num feudo partidário. A estrutura policial brasileira só consegue resolver 10 por cento dos assassinatos. E finalmente, o governo federal reteve até agora, princípio da primavera, as verbas para evitar desastres com as chuvas de verão. Um assassino tem 90 por cento de chances de escapar. E as chuvas de verão têm 90 por cento de chance de matar, como o fazem todos os anos.

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25.setembro.2011 10:05:09

A Copa no telhado

Algumas notícias sobre a Copa do Mundo são inquietantes. Para começar, há muitas dúvidas sobre o famoso legado, sobretudo depois que a ministra Miriam Belchior anunciou o feriado como alternativa para a mobilidade urbana, nos dias de jogo.

A aprovação da Lei da Copa não satisfez à FIFA. Jornalistas que trabalham nos bastidores informam que há uma grande tensão entre o governo brasileiro e a entidade esportiva.

A FIFA quer dinheiro. Um dos problemas para ela é o fato de o Brasil não revogar, durante os jogos, o direito a meio ingresso de estudantes e idosos. O pais não pode revogar suas leis por causa de uma Copa, sobretudo quando representam direitos adquiridos, concorde-se ou não com eles.

A FIFA deveria considerar algumas coisas. A lei das licitações foi mudada por causa da Copa. O Código Florestal ganhou , no Senado,um dispositivo que permite desmatar com mais facilidade, para facilitar obras da Copa.

A legislação brasileira já mudou por causa da Copa e a FIFA ainda não está satisfeita. Ela tem até outubro para desistir de fazer a Copa no Brasil. Esta decisão parece improvável. Mesmo porque o Brasil já gastou muito com as primeiras obras de estádios, obras que, de certa forma, mesmo com a Copa do Mundo, são excessivas.

No Rio Grande do Norte, o estádio Machadao, que será reconstruído para se chamar Arena das Dunas, foi objeto de uma pesquisa sobre frequência. O estádio nunca encheu, exceto quando o Papa visitou Natal.

As obras para ampliar o numero de lugares talvez não tenha utilidade plena nem durante a Copa. Todo o dinheiro só terá sentido se o Papa nos visitar de novo. E apenas no momento de sua visita.

O futebol é uma paixão, todos compreendemos. Mas alguma racionalidade é essencial: estamos entrando numa crise econômica com dimensões planetárias e, precisamente nesse período, corremos o risco de jogar dinheiro fora, aumentando  as dívidas.

Tenho escrito sobre o tema e recebido algumas criticas. Os entusiastas da ideia e os que esperam tirar proveito político dela, afirmam que os críticos são negativistas e torcem contra.

É outra face do problema.Para os adeptos de alguns governos democráticos e da ditadura militar, quem faz criticas é porque não acredita no Brasil e está querendo o fracasso nacional.

A Copa não vai bem. E os instrumentos de controle do rumo parecem desligados. Por que não reagir enquanto há tempo? A decisão de não ceder à FIFA direitos adquiridos foi correta. É preciso avançar com as idéias que protejam o país, evitar o “depois da Copa, o dilúvio”.

A Copa do Mundo no Brasil trouxe benefícios políticos para os dirigentes, nas eleições de 2010. É uma ilusão pensar que a vitória está apenas na escolha do país sede. Há muito caminho pela frente.

 

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24.setembro.2011 09:20:17

Caindo no real

Sábado é dia de coisas leves. O preço do dólar, por exemplo. Essas subidas e descidas da moeda americana parecem apenas movimentos abstratos.

Mas em algumas profissões repercutem. O aumento do dólar é muito bom para os exportadores. Mas não é bom para trabalhadores intelectuais que compram no exterior, nem para as atividades que precisam importar equipamentos.

Quem usa  instrumentos fabricados no exterior, depende de livros,  revistas estrangeiros e de software produzido fora do pais, vai sofrer um certo abalo com a subida do dólar.

Talvez esse grupo seja uma minoria diante dos turistas que também serão obrigados a gastar menos. Em alguns casos, é a própria viagem que fica ameaçada com súbitos aumentos da moeda americana.

O dólar é um tipo de moeda onipresente na experiência de quem viaja. Morei em países em que alguns míseros dólares bastavam para um bom tempo de sobrevivência. Em outros, ter dólares no bolso não significava nenhuma vantagem adicional.

Em Breton Woods, o famoso encontro no pós guerra onde se discutiu a economia mundial, caiu o padrão ouro que era a referência principal. A partir daí, o dólar passou cumprir um papel de destaque.

Não imaginava, nos anos de exílio, que veria a relativa decadência do dólar. Ela está associada ao também relativo declínio dos Estados Unidos.

No campo político, a multipolaridade é apontada como a nova fase em que atores importantes entram em cena, como é o caso da China. No campo econômico, alguns vêem numa cesta de moedas fortes a alternativa para o papel cumprido pelo dólar.

Alguma moedas, como o peso cubano, foram, artificialmente, equiparadas ao dólar. Em casos de países capitalistas abertos à globalização, o processo é mais ambíguo. Qual o valor real do real?

Em outras palavras, o que está mais próximo da realidade: o quadro anterior ou o de agora?

A resposta mais rápida sempre é esta: o quadro muda e com ele muda também o valor de nossa moeda. O que era realidade no mês passado, deixou de ser agora.

Vivemos internamente, no fim do século passado, grandes períodos inflacionários. As mudanças eram tão vertiginosas que criaram uma tendência se desfazer rápido do dinheiro, pois era uma batata quente em nossas mãos.

A moeda ganhou novos nomes: cruzado, cruzado novo. A escolha do nome real foi uma tentativa de fixá-la também nesse nível simbólico.

Agora nossa moeda é o real. Mas o que é o real num mundo em que o real é uma contínua mudança? É apenas uma síntese de muitas variáveis que, como seu próprio nome indica, variam sem cessar.

Não reclamo de nada. Se encontrar exportadores, perguntarei apenas: foi bom para vocês?

Para mim representa a consequência  de sempre: mais trabalho para cobrir as despesas com softers, livros, revistas e equipamento.

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