Espremido entre um casamento real em Londres e a volta de Delúbio Soares ao PT, a divulgação do censo 2010 ainda não foi nem absorvida nem debatida no pais.
São dados que dão argumentos para quem afirma que o Brasil está crescendo, mas também para os que acham que estamos muito longe ainda de uma situação satisfatória.
O caso do saneamento básico é típico. Quase a metade do Brasil não tem saneamento. Há um movimento para a frente mas se comparamos as décadas de 90 com a primeira do século XXI, vemos que o rimo caiu. Hoje, o Brasil tem 55% de domicílios com acesso à rede de esgotos. Em 2000, essa taxa era de 47,3%, em 1991 era de 35,3 %.
Os dados mostram, portanto, que o avanço no acesso às redes de esgoto foi maior no fim do século passado do que no começo deste século, dominado pelo governo do PT. É uma pena porque, nesse ritmo, só teremos uma cobertura universal em 2070.
Outro dado que pode ser visto de duas maneiras é a melhoria de renda da população. Ela é palpável mas ainda muito longe de uma situação satisfatória: 60,7% das famílias vive com uma renda per capita de até um salário mínimo. Uma em cada sete residências no pais ainda vive com ¼ do salário mínimo per capita.
Um dado, ao lado do saneamento, que bloqueia a chegada a um novo patamar de progresso: em 132 mil domicílios o sustento da família depende de crianças entre 10 e 14 anos. Mesmo não sendo uma grande proporção nos 57 milhões de domicílios brasileiros, o dado indica alto índice de trabalho infantil.
O analfabetismo caiu para de 13,6% para 9,6% mas ainda assim está muito longe de meta prevista pela UNESCO até 2015: apenas 6,7%.
Todos esses números indicam rumos para um trabalho sério. A realidade é um pouco desapontadora se a comparamos com os sonhos, ou mesmo com a propaganda oficial. É preciso apertar o passo.
Ao contrário do que o governo Assad pensava, o ciclo de repressão e morte na Síria não impediu que milhares de pessoas saissem às ruas , na sexta feira, num protesto que não vai parar. Sessenta e duas foram mortas pelas forças de segurança.
Havia uma dúvida, depois da centena de mortos da semana passada, sobre a saída das manifestantes na sexta-feira. De fato, muitas rezaram em casa e gritavam Alá é Grande. Ainda assim, milhares foram às ruas não só em Dara como em outras cidades do país.
-Estou impressionado-declarou Wissan Tarif, dirigente do grupo sírio de direitos humanos Insan- as pessoas foram às ruas e o governo terá de reconsiderar sua estrategia.
Em algumas localidades no fronteira com o Líbano, os manifestantes pediram o fim do bloqueio à Dara, cidade onde a resistência ao governo de Assad é mais forte.
Segundo os analistas, este é um dos maiores desafios já enfrentados pela família Assad, nos 40 anos de dominação do país. Os EUA reagiram ampliando as sancões contra a Síria e incluindo nelas algumas figures do regime como o irmão de Assad, Maher, Ali Mamuik, chefe do serviço de inteligência e Ateja Nagib, que controla as operações da polícia política em Dara.
As próximas semanas, infelizmente, podem trazer novos conflitos, embora a pressão internacional sobre o governo sírio vá crescer na proporção do banho de sangue que está promovendo
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Tony Blair decidiu participar de um debate no Rio, no dia em que Kate e William se casaram em Londres. O tema era a organização das Olimpíadas, que Blair considera uma excelente oportunidade para que novas práticas administrativas sejam desenvolvidas.
Houve um momento em que o governador Sérgio Cabral pensou em convidar Blair para um cargo de consultor, pagando uma fortuna em salários. Recuou diante da reação.
Blair veio ao Rio falar da Olímpiadas num debate realizado dentro do Forum Econômico Mundial da América Latina. Ele está trabalhando, como todos os ex-governantes que vivem de palestras.
Neste momento em que visita o Brasil, indico um ensaio sobre ele, no livro Anatomia, de John Gray. O livro é interessante por outros aspectos também, mas no caso de Blair a análise de Gray afirma que a participação na guerra contra o Iraque destruiu sua carreira política.
Mostra também que a presença no Iraque não foi um elemento accidental na gestão de Blair. No período de seis anos, Blair levou a Inglaterra à guerra cinco vezes: começou sancionando ataques aéreos a Sadam Hussein, participou da invasão do Kosovo, da intervenção em Serra Leoa, os ataques ao Afeganistão e, finalmente, a presença no Iraque.
Blair significou um momento em se falava muito na força das instituições globais e no declínio do estado nacional. Uma era que se chamava de pós- westafaliana, referindo-se ao Tratado de Westfalia, de 1648, momento em que o estado moderno foi reconhecido.
Alinhado com a posição dos neo-conservadores americanos, Blair perdeu grande parte de seu prestígio.No Rio, os jornalistas queriam saber por que não foi convidado para o casamento . E pareciam interessados apenas nisso. O que não deixa de ser irIonico para quem tinha o poder de mandar para a guerra jovens da idade de William e Kate.
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Como parte de seu programa de aproximação com a Colômbia, o presidente Hugo Chavez deportou o jornalista Joaquin Perez Becerra, acusado de ser membro das FARC. Bezerra foi preso no aeroporto de Caracas e, sem nenhum rito legal, entregue ao governo de Juan Manuel Santos, dentro do espírito de boa vontade que passou a dominar as relações entre os dois países, tão conturbadas na época do presidente Álvaro Uribe.
Mas a decisão de Chavez causou uma certa comoção no seu partido e na esquerda venezuela. Alguns afirmam que não houve nenhum procedimento legal anterior à deportação. Outros afirmam que Bezerra, que divulga os comunicados das FARC, não é um terrorista mas apenas jornalista.
A reaproximação da Venezuela e Colômbia e agora esta medida de Chavez, contrariando seus aliados, mostram claramente que as FARC começam a ser isoladas. A sobrevivência do movimento armado depende também da boa vontade dos chamados governos bolivarianos.
A Venezuela vive também o início de um momento pré-eleitoral e possivelmente Chavez escolheu um pequeno desgaste com aliados com o objetivo de ampliar a simpatia de setores mais ao centro no espectro político venezuelano.
Um juiz colombiano já decretou a prisão de Becerra mas seus advogados afirmam que é cidadão sueco. Interessante observar que os protestos na Venezuela foram feitos assim que houve a deportação, mas, em seguida, silenciaram. Os chavistas dependem de uma nova vitória de Chavez. Os jornais da oposição na Venezuela registraram o tema mas o casamento em Londres é o que domina hoje suas capas e manchetes.
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O Brasil ocupa o primeiro lugar no em roteiro turístico de belezas naturais. No entanto, nosso país esta abaixo dos 50 outros países em atração de turistas. Beleza é fundamental, mas não basta.
O depoimento do Ministro do Turismo, ontem na Câmara, Pedro Novaes, 80, revelou alguns aspectos do nosso fracasso. A cidade de Barcelona recebe mais turistas que o Brasil inteiro. Havia poucos deputados na exposição do ministro e ele próprio, que não usa telefone celular, parecia perdido no tempo: ao mencionar nossa moeda, falou de cruzeiros , como se ainda estivesse naquele tempo.
Temos dois eventos importantes no calendário: Copa do Mundo e Olimpíadas. O ministro do turismo não é o problema principal, mas a infraestrutura. A decisão de atrair a iniciativa privada para os aeroportos custou a sair porque o governo sempre esteve paralisado por um dilema ideológico e não reconhecia sua incapacidade no setor.
A escolha do ministro como o atraso na modernização dos aeroportos revelam como o Brasil subestima o turismo. É contraditório com o esforço de atrair a Copa e Olimpiadas para o país. Mas as forças do governo não se importam tanto com esta contradição. Os dois eventos esportivos funcionam como um símbolo. Representam uma vitória para o governo atual, um pepino para quem vai, efetivamente, administrar os jogos e um pepino ainda maior para quem vai pagar a conta.
Com menos dinheiro e mais foco o Brasil poderia encontrar o caminho de aumentar sua renda e postos de trabalho com o turismo. Mas quem vai debater o assunto se os deputados nem conseguem ouvir o ministro, que por sua vez não consegue falar com a presidente? Surreal. O Brasil subestima o turismo aqui, mas os brasileiros são grandes clientes dos centros turísticos mundiais. Já era tempo de perceber como o turismo abre empregos e aumenta a renda dos habitantes, com um nível muito menor de poluição do que a produção industrial.
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Muitos observadores acham que o entendimento pode ser bom para a Palestina. Outros acham que é um obstáculo do processo de paz.
A reação de Israel foi de censura: o Fatah tem de escolher entre o diálogo com Israel ou uma aliança com o Hamas. Esta foi a resposta curta e simples do primeiro ministro de Israel,Benjamin Netanyahu.
Na imprensa internacional, os leitores na maioria consideram que o acordo aumenta as possibilidades da instalação do estado palestino. Mas muitos perguntam: com que recursos, se o país não tem agricultura nem produção industrial e depende tanto da ajuda exterior?
O ideal seria que o Fatah colocasse como uma das cláusulas do acordo o reconhecimento da existência de Israel, que obtivesse do Hamas um recuo no manifesto desejo de varrer o país do mapa do Oriente Médio.
A esperança de que o processo de paz continue passa por isto, embora a presença do Hamas na mesa,mesmo indireta, seja sempre uma garantia de endurecimento nas próprias negociações. Enfim, na região o otimismo dura apenas alguns segundos, ou se trata de uma ilusão de ótica.
Há dois fatores que podem impulsionar o Hamas à moderação: o movimento dos jovens que querem mais liberdade na faixa de Gaza e o declínio do presidente da Síria Bashar Assad, que reprime violentamente a oposição no seu país. Assad é um grande aliado do Hamas.
Tags: estado palestino, Fatah, Hamas, Israel, Lieberman
O Senado continua surpreendendo o Brasil. Integrou Renan Calheiros no seu Conselho de Ética. O Conselho já era uma piada, quando escolheram presidente um senador do Rio chamado Paulo Duque que tinha a missão de desmoralizá-lo. Duque nem precisava falar muito. Sua expressão de desprezo pelos temas éticos já mandava para o espaço qualquer esperança.
O senador do Rio foi escalado para salvar Sarney. Antes disso, houve o escândalo envolvendo Renan Calheiros que sofreu uma grande campanha nacional. Resistiu como senador, perdeu a presidência. Ficou na memória a imagem de rebanhos correndo de um lado para outro nos sertões alagoanos para demonstrar que Renan, realmente, era o seu dono.
Conforme o prometido, tenho acompanhado as invesigações sobre a morte de Jorge Grando e mais quatro pessoas, no Paraná. Eles foram assasinados com tiros na cabeça, depois de amarrados e concentrados na cozinha da casa de Grando, em Piraquara.
Infelizmente, até agora não há nada de novo. Fiz contato com o vereador Paulo Salamuni e com a deputada Rosane Ferreira, que , por sua vez, se encontrou com o Secretário de Segurança do Paraná.
O delegado Marco Aurélio Furtado, de Piraquara, trabalha com algumas hipóteses. Ele prendeu dois suspeitos que viviam na área onde Grando tinha um grande terreno e estava vendendo parte dele para pessoas interessadas em preservar o meio ambiente. Grando queria criar um corredor de proteção para a Serra do Mar e trabalhava também na defesa das nascentes do Rio Iguaçu. Um dos suspeitos era ex-presidiário, mas ambos negaram o crime. Outra hipótese surgida, ontem, indica que Jorge Grando teria um seguro de R$700 mil e que sua ex-mulher seria beneficiada.
Creio os amigos do Paraná deveriam procurar o governador Beto Richa e convencê-lo de que é preciso criar um grupo para investigar este crime. Deixá-lo apenas nas mãos do delegado de Piraquara é um problema, por mais competente que seja. Delegacia de cidade pequena não costuma ter grandes recursos.
Uma das razões pelas quais Richa deveria se mover é o fato de que crimes como esse não são comuns no Paraná. Todos as vítima foram amarradas, concentrados e fuziladas com precisão.
Tags: Beto Richa, Marco Aurélio Furtado Aurélio Furtado, Paulo Salamuni, Praquadra, Rosana Ferreira
A filha de Kadafi, Aisha, uma advogado que atuou na equipe que defendeu Sadam Hussein, entrou em campo esta semana para defender o pai e seu regime. Ela mesma convidou o New York Times para uma entrevista, onde manifesta o medo de que seus três filhos sejam mortos num bombardeio.
Aisha promete reformas, denuncia a existência de terroristas entre os que se opõem ao regime do pai e repete alguns dos argumentos do próprio Kadafi e do irmão Saif al Islam.
O depoimento de Aisha, como não poderia deixar de ser, traz algumas contrainformações planejadas, ao afirmar, por exemplo, que os comandantes militares que aderiram aos rebeldes ainda mantêm contatos com o governo e que só estão do outro lado porque temem por suas famílias.
Ela faz uma advertência aos norte-americanos: no Iraque a oposição disse que os invasores seriam recebidos com rosas e até hoje são recebidos à bala.
Redigi um artigo mais longo sobre política, focado na questão da Líbia. Sairá no Estadão. Nele, defendo a tese de que a democracia liberal ao tentar seu regime através das bombas pode estar incorporando os mesmos elementos religiosos que existiam no marxismo ou no fascismo. A ideia de que existe apenas um modo de vida e deve ser imposto para salvar os que estão fora dele é perigosa. A política pode estar produzindo coisas piores do que a religião, nos seus piores momentos. Confiram sexta, no Estadão.
Tags: Aisha Kadafi, Líbia, Sadam Hussein
Impossível ignorar o evento. Passou a ser um fenômeno da natureza, feito terremoto seguido de tsunami. Ao menos, não deixará vítimas. Esta frase do escritor brasileiro Ivan Lessa, que vive em Londres desde o meio da década de 60 e não é um entusiasta da família real, sintetiza a atmosfera que domina o casamento de William e Kate em Londres.Seu artigo está no site da BBC em português.
A precisão dessa análise pode ser conferida no New York Times que mostra hoje, como o casamento está produzindo excelentes negócios na França, um pais orgulhosamente republicano. O imprensa está explorando o evento, desde o conservador Figaro até o semanário Point de Vue, que vende 200 mil exemplares e pretende aumentar sua tiragem para 750 mil, descrevendo a cerimônia. Os três principais canais de tevê da França vão cobrir a cerimônia e, certamente haverá muitas reapresentações para quem perdeu o espetáculo.
A causa republicana na Inglaterra vai sofrer um baque. Uma das questões mais utilizadas contra a família real é o fato de consumir dinheiro público. Mas agora, com a presença de Kate, eles estão produzindo dinheiro. A família real costuma ser severa em termos de direitos com a exploração comercial de sua imagem. Dessa vez, a rainha está muito flexível, talvez percebendo que o casamento de William com uma plebeia vai dar uma sobrevida à monarquia: melhor perder os royalties do que perder os dedos.
O problema da família real agora não é explicar porque deixou de convidar Tony Blair mas sim porque incluiu na lista pelo menos oito líderes árabes acusados de desrespeitar os direitos humanos. Ainda teremos algum ruído, antes de nos dizerem que a festa acabou e que vinham trazendo os doces, mas eles cairam na ponte e se perderam no rio.
Tags: Casamento na tevê, Ivan Lessa, Le Figaro
2011